quinta-feira, 29 de maio de 2008

Enfim, a concorrência

Valor Econômico
Por Danilo Fariello e Adriana Cotias, de São Paulo
29/05/2008

Demorou. Mas o movimento de redução de juros ao longo do tempo - apesar da recente retomada do aperto monetário - finalmente mobiliza investidores e gestores a encontrar soluções mais baratas em fundos conservadores. A opção dos investidores de varejo e alta renda insatisfeitos, do ano passado para cá, era a caderneta de poupança e os Certificados de Depósitos Bancários (CDBs). Mais recentemente, o que se nota é que os cotistas passaram a preferir fundos com taxas menores. Mas a grande novidade é que, ao bater à porta das agências em busca de alternativas mais em conta, eles agora encontram algumas respostas entre os grandes bancos.


Com os custos das carteiras de renda fixa mais visíveis por conta do juro menor, o aplicador deixou de ser indiferente ao tamanho das taxas de administração. Por essa razão, a Associação Nacional dos Bancos de Investimentos (Anbid) lança hoje o site "Escolha o seu Fundo", para facilitar comparações de preço entre as diversas alternativas no mercado.


A iniciativa atende a uma demanda dos investidores. Estudo do site Fortuna com fundos de bancos de varejo mostra que foram as carteiras DI com taxas de administração mais altas (acima de 2% ao ano) que perderam recursos no ano, R$ 31 milhões até o dia 23, enquanto os fundos com taxas menores (até 1,5%) captaram R$ 303 milhões.


Até aqui, são os portfólios com aplicação mínima mais alta, a partir de R$ 150 mil, que têm atraído novos aportes. Mas já indica que a barreira do acesso começa a ser quebrada. "Finalmente", comemora Marcelo D'Agosto, do Fortuna. "Depois de ficar tanto tempo sem se mexer, agora começamos a ver alguma mobilidade." Do investidor e também dos bancos.


O Itaú, por exemplo, reduziu a aplicação mínima do Itaú Max Referenciado DI, com taxa de 1,8% ao ano, de R$ 150 mil para R$ 50 mil; o Santander criou um novo fundo DI aceitando aplicações a partir de R$ 50 mil, enquanto o Banco do Brasil deixou de exigir ingresso mínimo no BB Referenciado DI Estilo. No Bradesco, o acesso ao fundo DI Special, com taxa de 1% ao ano, é permitido a clientes do segmento Prime abaixo da aplicação mínima inicial de R$ 100 mil. A condição, pelo prospecto, é o aplicador ter a quantia em produtos do banco, uma tolerância antes oculta nos bancos de varejo. O Itaú também prevê a condição no Max DI.


Além de facilitar o acesso a fundos com administração menor, carteiras com taxa de saída têm sido um dos caminhos encontrados pelos administradores para premiar o aplicador de longo prazo com custos mais baixos, caso do Banco Real, BB e Santander.


"O investidor está mais sensível a preço, começa a olhar a rentabilidade e a indústria, por seu lado, está se adequando", diz o superintendente da Santander Asset Management, Alexandre Silvério. Ele conta que, para fixar a taxa de um novo fundo, a instituição leva em conta não só o assédio de outros gestores, como também a concorrência com produtos que estão na prateleira do banco, como a caderneta e o CDB. "Para reter o cliente, é preciso ser competitivo."


Na família de fundos do banco espanhol batizada de Recompensa, há taxas de saída regressivas, zeradas após dois anos. E o valor pago por quem sai antes do prazo fica com o fundo, o que amplia o retorno de quem fica. A primeira carteira, já fechada para captação, tinha aplicação de R$ 25 mil, administração de 2,5% e saída de 3,5%. Na nova versão, Max, ainda captando, o custo baixou para 1,90% de taxa de administração e 2% de saída e o acesso facilitado, com aplicações a partir de R$ 10 mil. Há ainda o Master - aplicação de R$ 50 mil, 0,8% de administração e 1,2% de saída - e a Premium - ingresso de R$ 100 mil e taxas de 0,3% e 1,2%, respectivamente.


Criados há quase um ano, esses portfólios, porém, ainda reúnem apenas R$ 250 milhões, em um total de R$ 63 bilhões administrados pelo Santander. Para Ricardo Leal, professor do Instituto Coppead de Administração, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), apesar de ser um "bicho novo" que deve demorar a ganhar popularidade, a taxa de saída é uma alternativa para baratear os fundos. Vale lembrar que, ficando no fundo por mais tempo, o investidor também tem o benefício das menores alíquotas de imposto de renda.


No Banco do Brasil, que concentra o maior patrimônio do setor, de R$ 232,5 bilhões, ainda há fundos com administração de 5,5% ao ano, para aplicações a partir de R$ 100, mas já há opções bem mais atrativas. O banco reduziu a exigência de aplicação mínima no BB Referenciado DI Estilo, que cobra 1% ao ano, para clientes do segmento diferenciado Estilo (com renda mensal a partir de R$ 6 mil). Complementam as novidades três fundos com taxa de saída e investimento mínimo de R$ 30 mil, R$ 5 mil e R$ 400. Na menor aplicação, a taxa de administração fica em 2%, com saída de 1,5%. "Hoje, o investidor tem mais acesso à informação, o que permite que ele conheça melhor as diversas classes de investimento e escolha aquela mais adequada ao seu perfil de risco", diz o gerente da Diretoria de Varejo Carlos Antônio Decezaro.


A Caixa Econômica Federal também pretende lançar seu fundo com taxa de saída em junho, mas os critérios ainda estão sendo desenhados. Além de estimular a fidelidade do cotista, que tende a ficar no fundo por mais de dois anos, a intenção é aproveitar oportunidades em papéis de longo prazo, diz o vice-presidente de Ativos de Terceiros, Bolivar Tarragó.

quarta-feira, 21 de maio de 2008

Dinheiro traz a felicidade?

Valor Econômico - 20/5/2008

O senso comum nos informa que a felicidade pode ser considerada como o objetivo último na vida de cada pessoa. O estudo da satisfação com a vida tem interesse intrínseco, bem como outras motivações, como a avaliação de políticas públicas alternativas e a solução de quebra-cabeças empíricos da economia. Em relação a este último aspecto, provavelmente o paradoxo mais intrigante a ser explicado é a correlação extremamente fraca que diversos estudos apresentam entre renda, a variável mais venerada em economia, e felicidade. Inúmeros países que experimentaram um aumento drástico na renda real desde a Segunda Guerra não observaram um aumento no bem-estar auto-avaliado pela população, pelo contrário, a mesma diminuiu. Em um dado ponto no tempo, a renda mais alta está positivamente associada à felicidade das pessoas, mas ao longo do ciclo de vida e ao longo do tempo esta correlação é fraca, como no chamado Paradoxo de Easterlin. As pessoas adaptam suas aspirações aos maiores ingressos e se tornam mais exigentes à medida que a renda sobe. Como veremos mais adiante, esta visão foi recentemente desafiada por resultados empíricos apresentados por Angus Deaton (2007). É muito cedo para escolher o lado da discussão, mas o lançamento dos novos dados do Gallup World Poll que cobrem mais de 132 países ampliou o horizonte geográfico da discussão, e o trabalho pioneiro de Deaton baseados neles embaralhou novamente as cartas de felicidade com as notas de dinheiro. Sem ainda fazer apostas em dinheiro como causa principal da felicidade, discutimos a partir dos microdados deste mesmo conjunto de informações, cujo acesso foi propiciado pelo projeto sobre Qualidade de Vida do Banco Interamericano (BID), as relações entre renda e felicidade.



A fraca e volúvel relação entre renda e felicidade nos estudos empíricos motivou pesquisadores a irem um passo adiante da posição "objetivista" da teoria econômica, baseada somente nas escolhas feitas pelos indivíduos e que podem ser observadas. Na abordagem tradicional, a utilidade individual depende apenas de bens tangíveis, serviços e lazer, e é inferida quase que exclusivamente do comportamento (ou preferência revelada). A abordagem axiomática da preferência revelada explica que as escolhas feitas fornecem toda a informação necessária a partir da utilidade dos indivíduos. De acordo com Sen (1986), "a popularidade desta visão pode ser atribuída à crença peculiar de que escolha (...) é o único aspecto humano que pode ser observado". A partir do trabalho de Easterlin (1974), cuja relevância aumenta a partir da última parte da década de 90 - quando um conjunto de economistas começou a realizar análises empíricas de larga escala sobre os determinantes da felicidade em diferentes países e períodos -, o interesse econômico na mensuração do bem-estar individual subjetivo cresceu consideravelmente.



Uma visão subjetiva de utilidade reconhece que cada pessoa tem suas próprias idéias sobre felicidade e sobre o que é uma vida boa. Nesta perspectiva, o comportamento observado seria um indicador incompleto para o bem-estar individual. A felicidade dos indivíduos poderia ser captada perguntando diretamente às pessoas o quão satisfeitas estão com suas vidas. As variáveis de interesse estão baseadas no julgamento das pessoas por elas mesmas, de acordo com a premissa de que elas são os melhores juízes sobre a qualidade geral de suas vidas e, portanto, nenhuma estratégia poderia ser mais direta do que perguntar a elas sobre seu nível de bem-estar. A principal idéia é que o conceito de felicidade subjetiva nos possibilitaria captar diretamente o bem-estar humano em vez de mensurar renda ou outras coisas que não são exatamente o que, ao fim e ao cabo, as pessoas querem, mas são os meios através dos quais se pode conseguir - ou não - usufruir da felicidade.




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A elasticidade-renda de longo prazo da felicidade geral das nações é constante: para cada 10% de incremento de renda, a felicidade sobe 1,5%
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Como as pessoas medem seu nível de bem-estar subjetivo em relação às circunstâncias pessoais e às outras pessoas, incluindo experiências passadas e expectativas futuras, alguns sugerem que medidas de bem-estar subjetivo sirvam como medidas de utilidade. Além disso, de acordo com Diener (1984) - baseado em estudos como Fernandez-Dols e Ruiz-Belda (1995), que apontam a alta correlação entre felicidade reportada e sorriso, e Honkanen Koivumaa et alli (2001), que encontram a mesma relação entre infelicidade, cérebro e atividade cardíaca - "estas mensurações subjetivas parecem conter quantidades substanciais de variação válida".



Angus Deaton (2007) desafia as interpretações mais ou menos estabelecidas da literatura empírica prévia, em particular que "dinheiro não traz felicidade" (ou seja, satisfação com a vida no longo prazo), através dos dados do Gallup World Poll, algo mais rico em número de países em relação às pesquisas anteriores. O artigo de Deaton (2007) é a referência-chave dissonante da literatura empírica.



Iniciamos pelos mesmos dados do Gallup World Poll de 2006 que está disponível para 132 países, explorando exercícios simples bivariados de satisfação com a vida em níveis e diferenças, através de diferentes horizontes, em comparação com o PIB per capita ajustado por paridade de poder de compra, a fim de compararmos laranjas com laranjas entre países. O mergulho inicial do impacto da renda mundial sobre a satisfação com a vida nos informa que Togo ocupa a lanterninha, com 3,2, numa escala de 0 a 10, e a Dinamarca o ápice, com 8,02. O Brasil está numa posição mais chegada à nação européia do que à africana, atingindo 6,64, situando-se acima da norma internacional de felicidade dado o seu PIB per capita.



Deaton trabalha basicamente com regressões de médias entre países (cross-country regressions) e sugere que uma especificação log-linear se ajusta melhor aos dados do que uma especificação em nível implicando numa relação côncava. A dupla relação em logaritmos aqui proposta parece adequar-se melhor aos dados - é inclusive mais condizente com o modelo teórico usado pelo próprio Deaton. Neste último caso, o coeficiente estimado nos informa diretamente a elasticidade-renda de longo prazo da felicidade, que seria constante: para cada 10% de incremento de renda, a felicidade subiria algo como 1,5% no longo prazo.


Marcelo Côrtes Neri, chefe do Centro de Políticas Sociais do IBRE/FGV e professor da EPGE/FGV, é autor de "Retratos da Deficiência". E-mail: mcneri@fgv.br

Mesmo com a regra nova, consignado é o melhor crédito

Jornal da Tarde
21/05/2008


Para dificultar a ação de golpistas contra os aposentados, governo criou uma série de restrições ao uso desse tipo de crédito, mas, mesmo assim, ele continua a ser o mais barato do mercado. Saiba qual a melhor forma de utilizá-lo

CAROLINA DALL’OLIO,
carolina.dallolio@grupoestado.com.br

O consignado continua a ser o crédito mais barato do mercado, mesmo com a nova regulamentação para empréstimos voltados a aposentados e pensionistas. Na segunda-feira, o Ministério da Previdência Social anunciou mudanças na concessão e uso do crédito - entre elas, o valor limite de 20% da renda para empréstimos pessoais e 10% para cartão de crédito. Mas não alterou os juros baixos: que permanecem em 2,5% para empréstimo e 3,5% para cartão de crédito.

“As restrições no crédito consignado só servem para o aposentado organizar suas finanças e começar a pensar melhor no uso que vai fazer do dinheiro”, afirma Fabio Gallo Garcia, professor de Finanças da Fundação Getúlio Vargas e da PUC-SP. De acordo com Garcia, a melhor utilização para esse dinheiro é quitar as dívidas já contraídas. “Quem fez outro tipo de empréstimo, certamente está pagando juros mais altos que os do consignado. Então, é um bom negócio recorrer a esse crédito e liquidar as outras pendências de uma vez”, recomenda o professor.

Uma pesquisa da Associação Comercial de São Paulo (ACSP), referente ao mês de março, revela que 17% dos cidadãos utilizam o crédito consignado. Entre eles, 55% usam esse dinheiro para pagar dívidas. “Os aposentados devem sempre se livrar das prestações, pois eles precisam guardar dinheiro para custear produtos de extrema necessidade - como alimentos e remédios - que podem sofrer aumentos a qualquer hora”, aconselha Marcel Domingos Solimeo, superintendente de Economia da ACSP.

Para quem pretende adquirir algum produto mas não tem dinheiro para comprar à vista, também é recomendável pedir empréstimo pessoal consignado em vez de recorrer aos carnês das lojas. Na ponta do lápis, as vantagens são imensas.

Cálculos realizados por Miguel de Oliveira, vice-presidente da Associação Nacional dos Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade (Anefac), mostram que o aposentado que comprar uma geladeira no valor de R$850 em 12 vezes com cartão de crédito convencional vai pagar, no final das contas, R$1.551,12. Mas se ele pedir um empréstimo pessoal consignado para quitar a dívida à vista na loja, poderá pagar o valor em até 60 meses para o banco e gastar R$1.650 - só R$98, 88 a mais por um prazo muito mais longo. Mas é preciso lembrar que o empréstimo é abatido direto do pagamento. Portanto, representa uma receita a menos todo mês.

COMO FICAM AS REGRAS

ANTES

Não estava claro se o consignado poderia ou não ser usado como financiamento

As parcelas do empréstimo poderiam comprometer, no máximo, 30% da renda

Desde que não ultrapassasse esse valor, o número de empréstimos era ilimitado

Os bancos podiam retardar a cobrança das parcelas e cobrar juros pelo período de carência

O crédito poderia ser tomado em qualquer região do país

O limite do cartão de crédito era de três vezes a renda mensal e podia ser sacado em dinheiro

AGORA

Agora, ficou proibido vincular o empréstimo ao pagamento de qualquer produto

A regra ainda vale. Mas o destino está especificado: 20% para
empréstimo e 10% para cartão

Cada aposentado pode adquirir, no máximo, seis empréstimos e um cartão de crédito

Para evitar que os aposentados se afundem nos juros, o governo proibiu a concessão de carência

O empréstimo só pode ser feito no Estado onde mora o aposentado

O valor baixou para equivalente a dois meses de benefício e o
saque em espécie está proibido

sexta-feira, 16 de maio de 2008

Futuro intocável

Valor Econômico
Por Danilo Fariello, de São Paulo
16/05/2008


O investidor de previdência privada brasileiro tem provado o seu alto grau de tolerância a crises. Diferentemente dos fundos de investimento destinados ao varejo, em geral de prazo mais curto, que viram resgates de R$ 8,5 bilhões em seu patrimônio nos últimos três meses, a captação de PGBLs e VGBLs segue em gradual crescimento e soma R$ 2,9 bilhões no ano, R$ 1,108 bilhão apenas neste mês, segundo dados do site Fortuna. Para Marcelo D'Agosto, diretor do site, o comportamento faz sentido, uam vez que a aplicação em previdência privada é de longo prazo e não deve ser mudada por questões conjunturais.


Nos fundos de investimento, os aplicadores estão deixando as carteiras, entre outros motivos, atraídos pela melhor remuneração oferecida pelos bancos em CDBs. Na previdência privada, pelas questões tributárias, isso faz menos sentido, explica Renato Russo, diretor da Federação Nacional de Previdência Privada e Vida (Fenaprevi). "O investidor só sai quando realmente precisa do dinheiro para alguma necessidade urgente", comenta. De todos os produtos de poupança que a pessoa tem, a previdência privada costuma ser a mais intocável, diz Russo. Mais ainda quando se trata de aplicação para os menores de idade.


A captação da previdência em abril cresceu 35% em relação a março e 28% em relação a abril de 2007, segundo o Fortuna. Nos 12 meses com fim em abril, a captação cresceu 11% em relação aos 12 meses compreendidos entre maio de 2006 e abril de 2007.


Desde a crise do mercado em 2003, com o lançamento da nova tabela de imposto de renda regressiva (cuja alíquota cai de 35% a 10% gradualmente em dez anos), o setor não registra mais saques do que depósitos no período encerrado a cada mês.


A impressão de que os investidores são totalmente insensíveis à rentabilidade de curto prazo dos planos, porém, não é verdadeira, segundo sugerem os dados do Fortuna. Em abril, quando a bolsa de valores brasileira ainda caminhava vacilante - o anúncio do grau de investimento pela Standard & Poor's saiu apenas no dia 30 -, os investidores preferiram destinar parte maior de seus recursos aos planos de renda fixa, em rumo inverso ao verificado até o mês passado. Segundo o Fortuna, a captação dos planos de renda fixa subiu de R$ 56 milhões em março para R$ 182 milhões em abril. Enquanto isso, os planos com renda variável (balanceados e multimercados) viram a captação cair de R$ 820 milhões em março para R$ 728 em abril.


No entanto, D'Agosto lembra que não é possível afirmar que se tratam de planos multimercados ou balanceados no limite máximo da agressividade (com até 49% de ações) ou planos mais conservadores, limitados a 10% ou 20% de ações em carteira.


Esse limite de 49% em ações, segundo Russo, da Fenaprevi, acaba restringindo também a volatilidade dos planos de previdência. Não se viu nos últimos meses, por exemplo, planos de previdência perderem tanto em rentabilidade quanto os fundos de ações ou multimercados. Isso faz com que o participante sinta menos impulso de sair também, completa Russo, que também é vice-presidente de Previdência e Vida da SulAmérica.


Segundo Russo, essa captação se deve também às carteiras empresariais, em que funcionário e empregador costumam aplicar valores fixos mensalmente. "Dessa fonte, há um crescimento de captação quase vegetativo, que se amplia pela adoção da previdência privada por mais empresas."


Outro fator a favor dos planos de previdência é a interpretação por parte de muitos de que a aplicação seria uma fatura a ser paga por mês. As seguradoras costumam mandar boletos aos clientes, para facilitar o recolhimento, diz Luciano Snel, diretor de produtos da Icatu Hartford. "Porém, se a crise fosse suficiente para criar uma fuga de investimentos (como ocorreu na ocasião da mudança do imposto de renda), nada os seguraria", diz Snel, crente da maior consciência do aplicador de PGBLs e VGBLs. A própria criação da tabela regressiva, que oferece benefício tributário a quem ficar mais tempo, mas pune aquele que deixa a previdência rapidamente, é outro fator a reter o aplicador, lembra Russo. "As pessoas ficam mais porque passaram a entender a vantagem do benefício fiscal."


Apesar de arrefecer a procura por planos com ações, o ritmo de novas aplicações ainda flui em ritmo acelerado para essas carteiras mais agressivas. Os planos balanceados e multimercados já somam patrimônio de R$ 20 bilhões, segundo o Fortuna. Os planos de renda fixa crescem com menos velocidade, acumulando patrimônio de R$ 62 bilhões no fim de abril. Segundo o site financeiro, o patrimônio total dos fundos onde investem os PGBLs e VGBLs está em R$ 98,4 bilhões.

Cadastros no Tesouro Direto crescem quase 40% no ano

Por Luciana Monteiro, de São Paulo
Valor Econômico
16/05/2008


De grão em grão, o sistema de venda de títulos públicos via internet, o Tesouro Direto, cresce. Em abril, o número de investidores cadastrados no serviço chegou a 115.663, um aumento de 39,1% em 12 meses. No mês passado, 2.435 novos participantes ingressaram no sistema, elevando para 12.670 os novatos no Tesouro Direto somente neste ano.


O volume vendido em abril foi de R$ 108,4 milhões, valor 30,6% superior ao registrado no mesmo período do ano passado. Os pequenos investidores, com tíquetes de até R$ 5 mil, concentraram as compras e 55,3% dos negócios do mês. Desses, os que investiram até R$ 1 mil no sistema representaram 20,72%. O maior volume financeiro em abril, no entanto, ficou na faixa de R$ 10 mil a R$ 50 mil. O Tesouro Direto é uma excelente alternativa para o pequeno investidor acessar o mercado de títulos públicos sem pagar as altas taxas de administração cobradas pelos bancos em fundos DI e de renda fixa para aplicações mínimas baixas, avalia Rodrigo Menon, sócio do escritório de aconselhamento financeiro Beta Advisors.


Apesar disso, ele alerta que também é preciso avaliar as taxas cobradas pelas corretoras que oferecem a operação. Há instituições, por exemplo, que não cobram pelo serviço, caso de Banif, Socopa e Spinelli, que usam o sistema para atrair novos clientes e que, eventualmente, poderão começar a comprar ações. Mas existem bancos onde o custo pesa bastante no retorno final. É o caso de Itaú, que cobra 4% ao ano, e do Bradesco, com taxa mínima de 3%, segundo o ranking do Tesouro Direto sobre as taxas dos agentes de custódia.


É preciso colocar tudo na ponta do lápis porque as taxas de custódia acabam influenciando bastante no retorno final obtido pelo investidor, diz Menon. Ele dá o exemplo de uma Letra do Tesouro Nacional (LTN, papel com juro prefixado). Ontem, os papéis com vencimento em julho de 2009 pagavam taxa de 14%. No caso de uma corretora com custo de 1%, o retorno passa a ser de 13%, sem considerar o imposto de renda. Para uma taxa de 3%, o ganho passa a ser de 11%. "Neste caso, o investidor estaria pagando taxas equivalente às de um fundo de investimento de varejo, o que não vale a pena", avalia o executivo, lembrando que, no fundo, o aplicador tem liquidez diária, enquanto no Tesouro Direto as recompras ocorrem somente às quartas-feiras.


Destacou-se no mês passado a demanda pelas LTNs, cuja participação no volume financeiro vendido somou 43,43%. Neste momento, entretanto, comprar papéis prefixados representa uma aposta arriscada, pois não dá para saber como o Banco Central vai agir para segurar o aumento do tomate ou do feijão, ou seja, qual será a intensidade da alta de juros, diz Menon.


Em seguida, ficaram as Notas do Tesouro Nacional série B - NTN-B, papéis com retorno vinculado à variação do IPCA e com juros prefixados pagos semestralmente -, com 19,92% do valor vendido. "Os papéis indexados à inflação são uma boa alternativa de diversificação, principalmente num momento de pressão inflacionária", afirma. Vale lembrar que o governo não vem emitindo títulos atrelados ao IGP-M. "É uma pena, pois avalio que esse indicador capta mais a alta de preços nas áreas de alimentação e combustíveis, mas os papéis em IPCA também são bastante atrativos neste momento", diz Menon.


Já as Letras Financeiras do Tesouro (LFTs, com juros pós-fixados) registraram participação nas vendas de abril de 15,95%. "São apostas mais conservadoras, mas também bastante interessantes diante dos juros ainda altos", avalia. Em terceiro lugar ficaram as Notas do Tesouro Nacional série F (NTN-F, títulos de renda fixa que pagam juros semestrais), com 12,10%. Já as NTN-B Principal - títulos com rentabilidade vinculada à variação do IPCA, com juros prefixados pagos no vencimento - representaram 8,60% do volume vendido.


No estoque dos papéis vendido pelo Tesouro Direto, a maior parte dos títulos tem prazo entre um e cinco anos, com representação de 44,68%. Já aqueles com vencimento superior a cinco anos têm uma parcela de 28,82%, enquanto os ativos com até um ano representam 26,51%.

quinta-feira, 15 de maio de 2008

Maior impacto do grau de investimento será no crédito

Luciana Monteiro
Valor Econômico
15/5/2008

O maior impacto da obtenção da nota de grau de investimento conferida ao Brasil pela agência de risco Standard & Poor"s será nos ativos de renda fixa. A avaliação é de Massimo Tosato, vice-presidente mundial da gestora britânica Schroders, instituição com US$ 270 bilhões sob gestão, dos quais US$ 10 bilhões aplicados em ativos brasileiros por investidores internacionais. Em entrevista ao Valor, o executivo diz que o "investment grade" certamente é uma boa notícia para o país, mas seu efeito só deverá ser sentido totalmente quando outra agência de risco elevar a nota do Brasil.

No mercado acionário, Tosato avalia que boa parte do impacto do selo já foi precificado, pois os agentes já estavam vendo o progresso do país nos últimos anos. "O maior impacto será visto na renda fixa, já que quando compra ações, o investidor olha muito mais para a empresa do que para o país, diferentemente do que acontece com a renda fixa." No time dos mercados emergentes, a gestora tem cerca de US$ 30 bilhões em ações , dos quais, boa parte estão nos BRICs (abreviação de Brasil, Rússia, Índia e China). Ele ressalta que a classificação de risco de investimentos no Brasil está agora igual à da Índia, mas ainda abaixo das de México, Rússia e China. "Então, ainda há muito trabalho para ser feito."

Na avaliação de Tosato, o Brasil se mostra como uma das maiores oportunidades mundiais por conta de seu tamanho e potencial de crescimento. Para ele, o país tende a se tornar um dos maiores mercados de gestão de recursos no mundo. Pelos dados do Investment Company Institute (ICI), o Brasil já era o décimo país em volume de recursos aplicados em fundos, com US$ 615,365 bilhões, em dezembro do ano passado.

No Brasil, a Schroders ainda tem um percentual pequeno diante do total da gestora, com R$ 3,2 bilhões sob administração. "Mas é preciso considerar a maturidade do mercado", diz Tosato, lembrando que o setor de gestão de recursos dos Estados Unidos, Reino Unidos e mesmo do Japão já tem pelo menos 40 ou 50 anos. "É preciso tempo para refletir a diferença." Os EUA hoje, sozinhos, têm 48% do total de ativos no mundo.

Ele lembra que, da primeira vez que esteve no Brasil, em 2004, a taxa de juros era de 19% ao ano e agora está 11,75%. "Há, claramente, um progresso, passo a passo, e, apesar de o Banco Central ter aumento o juro (em abril), isso pode ser visto como um sinal de disciplina e independência financeira, o que para o investidor é positivo", diz. Os juros continuam altos, mas, quando observados historicamente, é possível ver que a taxa já caiu bastante. "Hoje, por conta dos altos preços das commodities, há uma pressão inflacionária, mas se mantidas as políticas de melhorias econômicas, o país poderás ver visto como uma experiência onde a taxa ficou bastante competitiva e isso é o que as pessoas levam em consideração ao olhar o risco."

Tosato cita o exemplo da Itália, seu país de origem. Em 1981, a taxa de juros no país era de 22% ao ano e, com com um melhor gerenciamento, gradualmente caiu para 4,5%, levando o investidor a olhar mais para ações. "Naquela época, havia muito dinheiro em títulos públicos e, mesmo com as taxas de juros caindo, a migração para ações leva tempo, mas, à medida que a taxa vai caindo, as pessoas começam a aceitar mais o risco e o investimento em renda variável torna-se mais competitivo", avalia.

Embora o percentual dos investimentos em ações seja ainda pequeno, com participação de 6,72%, segundo dados do site financeiro Fortuna, a fatia deve crescer, avalia Beto Scretas, diretor-geral da Schroders Brasil. "Já vimos as aplicações em ações crescerem no ano passado; elas diminuíram agora por conta da turbulência e do aumento dos juros, mas a migração é uma tendência", diz. "As taxas brasileiras irão convergir para níveis mais decentes e, quando isso acontecer, o investidor buscará de forma mais forte a renda variável."

Diante da expectativa de maior diversificação das aplicações de brasileiros, a gestora estuda um fundo que possa investir 100% dos recursos no exterior para os chamados clientes superqualificados - com pelo menos R$ 1 milhão para aplicar. "Claro que é difícil competir com a taxa de juros do Brasil e, para os clientes brasileiros, pode não fazer muito sentido, mas nós não estamos preocupados somente em trazer produtos para o Brasil, mas trabalhar com serviços", diz Eduardo Mendes, que está assumindo a direção geral da área de distribuição da Schroders substituindo Adriano Koelle, que deixou a empresa. "É preciso também um processo de entendimento dos riscos de se investir no mercado internacional", diz Mendes, que era responsável pela área de distribuição de produtos para os segmentos de varejo e private.

Com relação à crise americana, Tosato avalia que há dois componentes. O primeiro diz respeito ao segmento imobiliário e de papéis hipotecários. "Nesse caso, os riscos foram claramente mal gerenciados e a crise ainda vai levar mais um tempo para passar, dois ou três anos", diz.

Outro problema será com a liquidez por conta da menor credibilidade. "Nós estivemos muito próximos de um colapso do sistema financeiro por duas vezes: em agosto do ano passado e março deste ano", diz. "Uma crise eclode não quando se perde dinheiro, mas quando não há mais dinheiro, e o sistema estava com falta de liquidez por ausência de confiança." Na visão de Tosato, essa segunda parte da crise, de risco de quebra, ficou para trás, já que os principais bancos centrais garantiram liquidez, mostrando que não deixarão nenhum banco quebrar.

segunda-feira, 12 de maio de 2008

Opção para os conservadores

Jornal da Tarde
12/05/2008


Com alta da Selic, cresce o interesse por fundos DI para quem vai aplicar por mais de seis meses

Rodrigo Gallo

Às vezes falta coragem aos investidores para aplicar seu dinheiro na Bolsa de Valores, por conta do risco de prejuízo. Para essas pessoas, há uma série de opções mais recomendáveis, como a tradicional poupança ou os fundos de renda fixa e DI - essa última alternativa pode não apresentar rentabilidade tão alta, mas passa por um bom momento na economia brasileira.

A questão, segundo o administrador de investimentos Fábio Colombo, é a composição desses fundos. O DI é um tipo de aplicação que acompanha a política de juros do Banco Central. Como a inflação tem pressionado a economia, o Comitê de Política Monetária (Copom) decidiu reajustar a taxa Selic (o índice básico da economia) para 11,75%. A intenção é manter a estabilidade do real.

Sendo assim, quem busca alguma alternativa com poucos riscos de prejuízo pode optar por este fundo. Contudo, vale ressaltar: esse tipo de aplicação só é recomendado para as pessoas que não pretendem resgatar os valores em menos de seis meses.

Além disso, deve-se observar com atenção a taxa de administração cobrada pelo banco. Caso o porcentual ultrapasse 2%, vale mais a pena investir o dinheiro nas cadernetas de poupança.

Projeção

Seguindo a lógica do aumento da Selic pelo Copom, especialistas acreditam que há perspectivas de novos aumentos da taxa nas próximas reuniões do Comitê, ainda com o objetivo de manter o real estável.

Caso isso realmente ocorra, os mais conservadores poderão ampliar o volume de investimentos no DI, afinal, quanto maior a Selic, maior será a rentabilidade desta aplicação.

Contudo, o economista Luís Carlos Ewald, da Fundação Getúlio Vargas (FGV), sempre orienta os investidores a diversificar a carteira de aplicações. 'Essa dica vale para todos, seja investidor da Bolsa de Valores ou de qualquer outro tipo de aplicação financeira. Não se deve colocar todos os ovos numa mesma cesta', diz.

Por conta disso, pode-se aproveitar o momento para colocar parte dos recursos nos fundos DI, reservando um pouco do dinheiro disponível para aplicações em renda fixa e até mesmo na poupança. De qualquer forma, vale lembrar que a maior fonte de lucro, apesar dos riscos, é o mercado de ações.
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