segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

Maioria paga a casa própria à vista

Jornal da Tarde
18/02/2008

De acordo com o Creci, cerca de 62% dos compradores optou por quitar imóvel à vista em dezembro

RODRIGO GALLO, rodrigo.gallo@grupoestado.com.br


A maioria dos consumidores que comprou imóvel usado em dezembro optou pelo pagamento à vista, em vez de recorrer ao financiamento bancário. Segundo o Conselho Regional de Corretores de Imóveis de São Paulo (Creci-SP), 62,12% das casas e apartamentos adquiridos no último mês de 2007 no Estado foram pagos no ato. Para isso, vale sacar todas as economias da poupança, 'limpar' a conta corrente e até mesmo vender o carro para juntar o dinheiro e escapar dos juros cobrados nos financiamentos.

A pesquisa mostra ainda que apenas 21,98% dos compradores do Estado recorreram ao financiamento da casa própria pela Caixa Econômica Federal, o banco com maior volume de empréstimos para o setor. Outros 6,97% optaram por pedir os recursos em outras instituições financeiras, enquanto 8,24% dos mutuários fizeram um financiamento direto com o proprietário (veja detalhes no quadro).

De qualquer forma, a principal constatação é de que a maioria dos consumidores preferiu, em dezembro, juntar o dinheiro e quitar o valor do imóvel à vista, para fugir das dívidas longas. Esse, segundo especialistas, é o melhor caminho a ser seguido para evitar problemas. Afinal, as taxas de juros para financiamentos de 30 anos podem chegar a 12% ao ano, o que encarece demais o custo final do bem.

Uma boa parte desses compradores que pagaram à vista já tinha um imóvel próprio e aproveitou o valor da venda para adquirir uma casa ou apartamento novos. Normalmente, isso se deve ao aumento da família, o que torna a residência anterior pequena.

'Claro que nem todos têm dinheiro para comprar o primeiro imóvel à vista', disse o presidente do Creci-SP, José Augusto Viana Neto. 'Mas há uma quantidade razoável de pessoas que compra um apartamento à vista, por exemplo, como forma de aplicação e, logo após a compra, coloca o imóvel para alugar.'

O economista Luís Carlos Ewald, da Fundação Getúlio Vargas (FGV), argumenta que não apenas a compra da casa própria, mas qualquer tipo de aquisição de bem deve ser feita à vista, quando possível. Mesmo que, para isso, a pessoa seja obrigada a esperar mais tempo até reunir os recursos necessários.

Vale, por exemplo, esvaziar a poupança e 'raspar' todas as economias da conta corrente. Se for preciso, também compensa se desfazer do automóvel e usar o dinheiro na aquisição da casa própria.

O vice-presidente da Associação Nacional dos Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade (Anefac), Miguel de Oliveira, lembra de um outro detalhe importante: os trabalhadores devem aproveitar o dinheiro do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) para comprar o imóvel. Caso não seja suficiente para pagar o valor total à vista, pelo menos servirá para garantir uma boa entrada.

domingo, 17 de fevereiro de 2008

Assinatura do fixo sobe 180%

Jornal da Tarde
17/02/2008


Alta, registrada na Capital nos últimos dez anos, supera de longe os 83% de inflação no mesmo período

RODRIGO GALLO, rodrigo.gallo@grupoestado.com.br

O valor da assinatura básica da telefonia fixa na Capital aumentou 180% nos últimos dez anos, pouco abaixo da média nacional, que fechou o período com uma alta superior a 200%, segundo relatório divulgado recentemente pela Ouvidoria da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel).

O problema dessa alta da assinatura é que, entre 1998 e 2007, a inflação medida pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) foi de 83%. A tarifa da telefonia ficou bem acima disso - tanto no Estado quanto no País, de forma geral. O IPCA, calculado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), é usado pelo governo como referência para as metas de inflação.

Em 1998, de acordo com a Telefônica, a assinatura básica custava R$ 13,82. Hoje, está R$ 38,80: exatamente 180,75% mais. A média nacional subiu de R$ 13 para R$ 40, o que representa uma alta de 207,69%.

Isso, de acordo com o advogado Josué Rios, especialista em direito do consumidor, prova o quanto a assinatura pesa no bolso dos brasileiros. 'A cobrança da assinatura é cara para os consumidores e castiga principalmente os mais humildes', disse. 'Quem tem telefone em casa só para uso essencial está pagando mais que o dobro da inflação', completou.

Apesar do índice estar acima da inflação, a coordenadora institucional da Associação Brasileira de Defesa do Consumidor (Pro Teste), Maria Inês Dolci, afirma que o reajuste foi bem superior em outros períodos. De acordo com ela, a assinatura média custava R$ 0,61, em 1995, e subiu para R$ 35,50, em 2005. 'Foi um aumento real de 2.300%', disse.

Na época, as concessionárias podiam acrescentar 9% ao índice estipulado pela Anatel, o que encarecia consideravelmente a conta de um ano para o outro.

De acordo com a Anatel, os cálculos utilizados para chegar ao índice de aumento anual são realizados pelo próprio governo e repassados para todas as concessionárias. A data-base dos reajustes é julho.

A cobrança da assinatura básica da telefonia fixa é um tema que gera muita discussão e já foi parar na Justiça, que considerou legal a sua cobrança. Essa sentença foi dada em outubro do ano passado pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ), que criou uma jurisprudência, ou seja, todos os processos deste tipo deverão ser julgados com a mesma orientação.

Os ministros do tribunal consideraram que a cobrança da assinatura é amparada pela lei e, além disso, necessária para a manutenção dos serviços.

Cancelamento da linha

A alfaiate Iraci Maura de Jesus Cândido, 48 anos, tomou uma decisão radical para reduzir os gastos com telefonia fixa. Irritada por ter de pagar contas de R$ 180 ou R$ 200, há seis meses ela simplesmente cancelou a linha e resolveu contratar um plano econômico, que possibilitaria mais controle nos valores gastos. Essa opção, no entanto, a impede de realizar ligações para celular ou interurbanos. 'A assinatura é muito alta e é um absurdo que seja cobrada.'

Iraci também pretende suspender em breve a nova conta. 'Pretendo abandonar o telefone fixo, pois não fica ninguém em casa. Talvez usar só o celular seja mais econômico', afirmou.

Bons ventos para abrir um negócio

Jornal da Tarde
17/02/2008


Ano é favorável para tirar as idéias da gaveta

FABIO LEITE, f.leite@grupoestado.com.br


Ótima notícia para quem sempre sonhou em abrir o próprio negócio mas tinha receio de se dar mal. Os ventos devem soprar a favor dos micro e pequenos empresários este ano, no mínimo, com intensidade semelhante à de 2007, quando o faturamento do segmento no Estado teve aumento real - descontada a inflação - de 4% ante o ano anterior, o maior registrado nos últimos cinco anos. Os dados são do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas de São Paulo (Sebrae-SP).

O cenário promissor foi traçado por especialistas na área, que levaram em consideração na análise o crescimento da economia no ano passado e a perspectiva para os próximos meses. E mesmo para quem desconfia que a crise financeira externa possa afetar o rumo do País, o diretor-superintendente do Sebrae-SP, Ricardo Tortorella, afirma: 'Ainda que ocorra alguma desaceleração no cenário externo, nossa expectativa é de manter o ritmo de crescimento (do faturamento) em, pelo menos, 4%'.

Para Claudemir Galvani, diretor da consultoria Metha, especializada em micro e pequenas empresas, 2008 desponta como uma boa oportunidade para tirar as idéias da gaveta. 'O momento agora é muito oportuno. Como a economia voltou a crescer, a tendência é que as oportunidades de negócios apareçam com mais freqüência', afirma. Em 2007, segundo o Sebrae, o ganho médio das 1,3 milhão de micro e pequenas empresas do Estado foi de R$ 197 mil. No total, elas faturaram R$ 261,7 bilhões, cerca de R$ 10 bilhões a mais que em 2006.

Comércio em alta

Motivadas com o fechamento positivo de 2007, as empresas estão muito otimistas para, no mínimo, repetir os resultados este ano. Pesquisa feita pelo Sebrae com 2,7 mil micro e pequenos empresários paulistas mostra que 43% acreditam no aumento da receita nos próximos meses, enquanto 47% esperam que o faturamento se mantenha estável. E a crença num caixa mais cheio está em todos os setores.

O diretor administrativo e financeiro do Sebrae-SP, Milton Dallari, explica que o otimismo generalizado deve-se ao bom resultado conquistado em todas as áreas de atuação, com destaque para o comércio, cujo faturamento cresceu 8,6% em 2007. 'O crescimento, de uma forma geral, foi bem distribuído. Os segmentos de alimentação, material de construção e transporte obtiveram bons resultados', comenta.

O crescimento destacado do comércio, explica Dallari, foi reflexo da melhoria da renda média das famílias das classes C, D e E. 'Isso ocasionou a expansão do consumo, que ajudou muito o varejo', afirma. Este cenário, aliás, motivou também muitos trabalhadores autônomos que atuavam na informalidade a abrirem sua própria empresa. 'Encanadores, eletricistas e mestres de obra também aproveitaram o momento para se regularizar', diz Dallari.

Para este ano, Galvani acredita que o setor de alimentação continuará sendo promissor. 'É sempre a última área a ser afetada em caso de recessão.' Outras boas investidas, aconselha, são negócios relacionados a perfumaria e higiene pessoal, ou prestação de serviços, como tratamento de idosos ou animais, que representam nicho novo de mercado. 'É uma opção interessante porque o custo inicial é bem menor', diz. Todo otimismo, porém, não deve minimizar cuidados na hora de criar o próprio negócio. 'O momento é bom, mas é preciso seguir recomendações', diz Dallari

EM NÚMEROS

R$ 10 bilhões a mais foi o que as micro e pequenas empresas de São Paulo faturaram em 2007em relação a 2006, média de R$ 197 mil por negócio

43% dos microempresários acreditam que ganharão mais em 2008 do que no ano anterior, enquanto para 47% os ganhos devem se manter estáveis

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Bancos começam a financiar antes do início da obra

O Estado de São Paulo
17/02/2008



Alternativa ao financiamento direto com a construtora tende a se difundir no mercado imobiliário de SP

Renata Gama

Um modelo novo de financiamento do imóvel na planta começa a se difundir no mercado de São Paulo. Construtoras e incorporadoras estão firmando parcerias com bancos para que eles ofereçam o crédito a partir da primeira parcela. Antes, havia apenas a opção de financiamento direto com a construtora, para quem os clientes pagavam parcelas sem juros até a o fim da obra. Somente após o imóvel ficar pronto, optavam pelo financiamento bancário.

“É um mecanismo que o mercado acaba de desenvolver. Uma forma de simplificar o processo para o tomador do crédito”, afirma o superintendente geral da Associação Brasileira das Entidades de Crédito Imobiliário e Poupança (Abecip), José Pereira Gonçalves.

Não há uma receita pronta para esta nova forma de financiamento. “Cada situação é diferente”, diz Gonçalves. Isso explica a grande variedade de tabelas já encontradas no mercado. Uma mesma construtora pode oferecer opções diversas, conforme o empreendimento e o banco parceiro.

Há casos em que não há cobrança de juros durante as obras, como os empreendimentos financiados pela Caixa. Há ainda tabelas com taxas reduzidas durante a construção, mas que aumentam depois da entrega das chaves. Também há tabelas que aplicam os mesmos juros antes e depois da construção da obra.

De acordo com Gonçalves, esta modalidade de financiamento surgiu para atender àqueles compradores que querem evitar transtornos futuros. “No passado, sempre existia a dúvida se ele teria acesso ao financiamento bancário na entrega das chaves. Este processo poderia ocorrer num momento crítico de mercado, em que estivesse fechado ao crédito. Se a pessoa amarra com o banco desde o início, não tem preocupação futura”, explica. Quando a pessoa tem dificuldade de aprovar o crédito no banco e perde o prazo de pagamento à construtora, há incidência de multa sobre o saldo devedor.

O produto é indicado para as pessoas que preferem pagar prestações uniformes e evitar as parcelas intermediárias altas e as taxas na entrega das chaves. E promete desburocratizar a análise de crédito, já que as exigências para a aprovação do empréstimo, neste caso, são menores do que as feitas nas agências.

É que os compradores serão submetidos à análise de crédito quando o imóvel ficar pronto apenas se tiverem deixado de pagar alguma parcela. Se forem bons pagadores, a aprovação é automática. “Quando você conhece o cliente pode flexibilizar, diferente de um cliente desconhecido”, explica Gonçalves.

DESVANTAGENS

No entanto, pagar juros desde o início das obras tem um custo bastante alto. “Do ponto de vista do consumidor, a melhor opção não é essa”, afirma o vice-presidente da Associação Nacional dos Executivos de Finanças (Anefac), Miguel de Oliveira. “São dois ou três anos de juros a mais. É muito preferível que se façam pagamentos diretamente com a construtora”, recomenda.

É que na modalidade tradicional de financiamento na planta, a construtora não cobra juros durante a obra, apenas a correção anual pelo Índice Nacional da Construção Civil (INCC). O juro é cobrado apenas após à entrega das chaves.

Segundo uma simulação feita pelo economista, na compra de um apartamento de R$ 100 mil financiado pelo banco desde a primeira parcela, a uma taxa de juros de 12% em 20 anos, as prestações seriam de R$ 1.101,09. O valor total pago pelo imóvel seria de R$ 264.261,60.

Já na opção de financiamento direto com a construtora, o comprador do mesmo apartamento teria um prazo de dois anos para pagar 40% do valor do imóvel (R$ 40 mil) sem juros, o que poderia custar em torno de R$ 1.666 mensais, caso as parcelas fossem iguais, portanto, sem cobrança de intermediárias. O restante, se parcelado num banco a um juros de 12% em 20 anos, seria pago em parcelas de R$ 660,65, o que resultaria num total pago pelo apartamento de R$ 198.556,00.

Cabe ao comprador escolher entre pagar prestações mais apertadas no início para a construtora, ou parcelas menores ao banco porém com um custo maior no final por causa dos juros durante a obra. Na simulação, a diferença seria de R$ 65.705,60.

Na dúvida, o economista recomenda conter a ansiedade. “De um modo geral no crédito, as pessoas devem esperar. A competição está iniciando e quem esperar um pouco, vai encontrar condições melhores que as de hoje”, aconselha.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

Dinheiro do Leão na boca do caixa

Jornal da Tarde
14/02/2008


Crédito para quem deve receber restituição estará disponível em março nos bancos. Mas só pegue em último caso

Fabrício de Castro,
fabricio.castro@grupoestado.com.br

As linhas de crédito para quem deseja antecipar a restituição do Imposto de Renda de Pessoa Física (IRPF) já começaram a ser divulgadas pelos bancos. A partir de março, com o início do período de declaração, o contribuinte poderá antecipar até 100% do valor a ser recebido no segundo semestre. Especialistas em finanças afirmam, no entanto, que o empréstimo deve ser feito apenas em último caso, já que os juros chegam a 3,5% ao mês.

Por enquanto, quatro bancos divulgaram as condições oferecidas. No Santander, os clientes poderão receber até 100% da restituição. Os juros mensais são de 2,9% ao mês, mas variam de acordo com o nível de relacionamento do cliente com o banco. A tarifa de abertura de crédito (TAC), cobrada na liberação do empréstimo, é de 6%.

A Caixa Econômica Federal vai antecipar até 85% da restituição, com juros de 2,65% e TAC de 4%. Já o Unibanco trabalha com um limite de 80% e juros de 3,3% a 3,5%. A TAC cobrada é de 6%.

No HSBC, o valor antecipado corresponde a 75%. Os juros mensais são de 2,99%, e a TAC, de 5%. Até o fim de fevereiro, outras instituições, como o Banco do Brasil, o Bradesco e o Real, devem lançar suas linhas.

O consultor Reinaldo Domingos, autor do livro Terapia Financeira, diz que o consumidor não deve se iludir com o crédito fácil. “É uma loucura antecipar a restituição”, defende. “Você pode cair na malha fina. E quanto mais o dinheiro demorar a cair em sua conta, mais juros você vai pagar.”

Domingos lembra que opções de crédito direto ao consumidor (CDC) chegam a cobrar juros menores do que algumas linhas vinculadas ao IRPF. “É importante comparar as condições oferecidas.”

O consultor financeiro Tom Coelho afirma que a antecipação é vantajosa apenas se o cliente trocar uma dívida cara por outra mais barata. “A pessoa não deve pegar o empréstimo sem necessidade. Mas se estiver pagando juros altos no cheque especial, por exemplo, poderá usar o dinheiro da antecipação para quitar a dívida mais cara.”

Para Domingos, nem mesmo a troca de dívidas justifica a antecipação. “Se você está com problemas no cheque especial e paga juros de 10% ao mês, sente-se com o gerente e negocie um CDC com juros menores”, defende. “Não mexa no dinheiro que você nem recebeu.”

Para antecipar a restituição, o cliente deve informar, na declaração, os dados da conta bancária que receberá o dinheiro. O pagamento da dívida ocorrerá quando a restituição cair na conta.

A quitação antecipada - antes mesmo que a restituição caia na conta - também é possível. Basta entrar em contato com o banco e comunicar o pagamento. Santander, Caixa Econômica Federal e Unibanco, por exemplo, fazem a quitação antecipada sem a cobrança de taxas adicionais.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

Vítimas do custo

Valor Econômico
Por Angelo Pavini, de São Paulo
12/02/2008


Que os fundos DI e renda fixa oferecidos para o varejo perdem para a caderneta de poupança depois do desconto do imposto de renda, já se sabia. A novidade é que mesmo fundos que exigem aplicações maiores, de R$ 10 mil, R$ 30 mil, também estão rendendo menos que a aplicação mais conservadora do mercado. Trata-se de um alerta importante para o investidor que, assustado com o comportamento oscilante da bolsa e dos multimercados, procura agora a proteção nessas carteiras -até dia 7 de fevereiro, os DIs captaram R$ 8,251 bilhões no ano.


Um levantamento feito pelo Valor com base nos dados do site Fortuna mostra que, entre 30 fundos oferecidos nas agências, apenas 10 ganharam dos 7,70% pagos pela poupança no ano passado. Isso considerando que a aplicação no fundo tenha mais de dois anos e a alíquota de imposto seja a mais baixa, de 15%. Se considerarmos a alíquota mais alta, de 22,5%, para aplicações até seis meses, nenhum dos 30 fundos ultrapassa a poupança.


O resultado mostra o efeito das taxas de administração cobradas pelos bancos nas carteiras mais populares, com valor de aplicação entre R$ 500 e R$ 1 mil. Há fundos que cobram 5% ao ano, o equivalente a 44,44% da taxa básica de juros, de 11,25%. Isso significa que, do ganho obtido com a aplicação do dinheiro do cliente no mercado, quase metade fica com o banco. E há diversos fundos com taxas de 3,5% a 4% ao ano, o que equivale a um terço da taxa de juros. O Valor procurou todos os bancos citados - Banco do Brasil, Bradesco, Itaú, ABN Amro Real, Santander, Caixa Econômica Federal, Unibanco - e a Associação Nacional dos Bancos de Investimento (Anbid), mas apenas a Caixa, justamente a que tem as taxas mais baixas, se dispôs a comentar o desempenho.


No caso dos fundos de renda fixa, vale a ressalva que essas carteiras foram prejudicadas também pela alta dos juros no mercado futuro no segundo semestre de 2007 - algumas chegaram a registrar perdas nas cotas. Mas com certeza as taxas de administração também ajudaram a derrubar os ganhos.


O impacto das taxas de administração aumentou com a queda dos juros. E a caderneta de poupança tem a vantagem de não pagar imposto de renda e ter um ganho real de 0,5% ao mês, ou 6,17% ao ano acima da Taxa Referencial (TR). Com a decisão do governo de evitar que a TR fique negativa - o que teria ocorrido já em dois dias deste mês -, esse ganho seguirá intacto.


Os renda fixa são muito similares aos DIs e seu desempenho depende fundamentalmente da taxa de administração, que é elevada para o varejo, afirma o professor William Eid Junior, coordenador do Centro de Estudos em Finanças da Fundação Getulio Vargas de São Paulo. Segundo Eid, para empatar com a caderneta neste ano - imaginando-se um rendimento de 7,5% -, um fundo sujeito ao imposto de renda de 22,5% até seis meses teria de cobrar no máximo 1,5% de taxa de administração. Para a alíquota mais baixa, de 15%, a taxa de administração máxima seria de 2,25%. "E isso tendo de esperar dois anos para resgatar o dinheiro", afirma Eid.


O economista observa que, apesar de a taxa de administração ser crucial, o investidor de varejo não olha para esse custo. "Não é falta de opção, é falta de informação e atenção, e não é só problema de pequenos aplicadores", diz. "Tenho um amigo com R$ 3 milhões em um fundo de um grande banco e ele não sabe quanto paga pela administração." Para Eid, esses fundos mais caros sobrevivem "porque o gerente da agência vende bem" e porque o investidor não tem o hábito de comparar aplicações. Essa clientela cativa permite aos bancos manter as taxas.


Tanto as taxas de administração quanto o imposto de renda dos fundos são altos para as atuais condições do mercado, o que faz com que a caderneta, isenta, leve vantagem, explica Marcelo D'Agosto, diretor do site Fortuna. A diferença entre o ganho da poupança e o CDI também caiu muito no último ano, o que reduziu a competitividade dos fundos. "De 1998 a 2006, o CDI ficou em média 6 pontos percentuais acima do retorno da caderneta, mas essa diferença caiu para 4 pontos no ano passado", afirma D'Agosto. Os bancos, lembra ele, argumentam que não podem reduzir taxa porque o custo de atender muita gente é elevado, porque oferecem várias comodidades para o investidor, e o governo diz que precisa do imposto. Nesse impasse, uma alternativa seria reduzir o ganho da poupança - o que não parece estar nos planos do governo por enquanto pelo desgaste político.


D'Agosto lembra que a taxa de administração média do mercado está caindo nos últimos anos, mas que isso reflete mais a entrada de novos fundos destinados à alta renda do que reduções de taxas no varejo - alguns bancos chegaram a aumentar o custo nos últimos anos para carteiras de menor valor, caso do BB. "Os fundos estão se elitizando, essa pode ser a opção dos bancos", diz D'Agosto, que lembra que há também pouca transparência nos custos das carteiras. "Talvez com mais transparência, poderia-se discutir formas de reduzir esses custos, como diminuir a periodicidade de envio de extratos para fundos de menor risco".


O fundo Caixa Prefixado Renda Fixa sofreu no ano passado por conta da alta dos juros, como os demais fundos da categoria, explica o gerente nacional de fundos de renda fixa da Caixa, Marcelo de Jesus. "Mas os outros dois, DI e Prêmio, superam a poupança se considerada a alíquota mais baixa, para dois anos", diz ele, observando que esses fundos são de longo prazo e indicados para quem quer esperar esse prazo. Segundo Jesus, a situação para os fundos DI em relação à caderneta pode melhorar este ano, uma vez que os juros pararam de cair e alguns falam até em alta das taxas por conta da inflação mais alta.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

A bolsa na palma da mão

Valor Econômico
Por Adriana Cotias e Danilo Fariello, de São Paulo
11/02/2008



Nestes tempos de forte oscilação das bolsas, fica mais evidente que cada segundo ou minuto pode fazer diferença nas aplicações de curto prazo. É exatamente neste momento que as corretoras começam a oferecer a seus clientes serviços de negociação de ações por meio do telefone celular, quebrando qualquer barreira geográfica. Se a primeira onda de popularização do mercado acionário se deu pela criação do home broker (o sistema de compra e venda da Bovespa pela internet), é factível que uma segunda fase seja agora inaugurada com a mobilidade dada pela telefonia celular, até em aparelhos menos sofisticados.


Os números do home broker da Bovespa, preferencialmente usado por jovens entre 19 e 30 anos, com plena afinidade com as novas tecnologias, dão pistas do mercado potencial. Em janeiro, as pessoas físicas negociaram o recorde de R$ 24,7 bilhões, em 2,52 milhões de transações. Mais de 200 mil aplicadores colocaram ordens de compra ou venda pelo sistema. Se um terço deles aderir às operações via celular, serão 65 mil investidores.


De olho nesse quinhão, algumas corretoras já se movimentam. Na semana passada, o Itaú lançou o seu "mobile broker" para os chamados "smart phones", celulares inteligentes que também têm a função de computador de mão, tais como Blackberry, MotoQ, HTC e iPhone. E, a partir de hoje, a Ativa será a primeira corretora independente a oferecer o serviço, que estará disponível até em aparelhos mais populares como o V3 da Motorola, que custa cerca de R$ 250,00. O sistema foi testado em um aparelho desses pela reportagem do Valor, com uma ordem de compra de Petrobras, executada em tempo real. No momento seguinte, a operação apareceu na carteira do cliente.


A tecnologia foi desenvolvida pela Cellbroker, especialmente para a Ativa, que terá três meses de exclusividade. De cara, 40 tipos diferentes de aparelhos poderão ser habilitados. O objetivo, segundo a diretora comercial, Silvia Werther, é aprofundar as relações com o varejo. Fundada em 1983, só há dois anos a corretora passou a ter produtos e serviços específicos para o pequeno investidor, lançando seu home broker. "Temos atingido um público que desconhecia o mercado de capitais e agora queremos levar vantagem pelo pioneirismo." Além de cativar quem já está dentro de casa, Sílvia espera atrair 400 novos clientes para a corretora.


Hoje, a base de pessoas físicas da Ativa chega a 30 mil investidores e a expectativa é de que algo entre 20% a 30% deles incorporem as transações pelo celular no seu dia-a-dia, estima o gerente de operações Jansen da Costa. O sistema estará disponível por R$ 30,00 ao mês, com isenção para clientes que acumulem R$ 495,00 de gastos com corretagem no período. O custo por ordem de compra e venda será de R$ 16,50, R$ 1,50 acima do cobrado nas transações pelo home broker tradicional.


A Cellbroker já contava com um serviço de difusão de informações pelo celular, com cotações em tempo real, livros de ofertas e gráficos, mas era um sistema passivo, conta o diretor executivo Paulo Baratta. "Agora, a interatividade chega de fato às mãos do investidor." Tanto as cotações quanto a execução de ordens são em tempo real e entram automaticamente nas posições do investidor. Tais tecnologias começaram a ser desenvolvidas há dois anos e demandaram investimentos de R$ 2 milhões. A Cellbroker espera distribuir seu sistema de negociação pelos celulares em parceria com outras 20 corretoras ainda este ano. "Grande parte dos consumidores de celular no Brasil prefere os aparelhos simplificados e não está disposto a investir R$ 2 mil num celular."


A CMA, outra fornecedora de serviços de tecnologia para instituições financeiras, também já possui todos os sistemas engatilhados para lançar o serviço de operações pelo celular. A empresa gastou US$ 700 mil - em estrutura dentro e fora do Brasil - no sistema de informações remotas, já disponível a 365 clientes de algumas corretoras e outras empresas, mas ainda se prepara para lançar a plataforma de negociações eletrônicas. Segundo a CMA, as 57 corretoras clientes da empresa estão em negociações e têm interesse no modelo de negociação por telefone. Elas perfazem cerca de 90% do mercado do home broker.


Para César Spadaccia, diretor de sistemas informativos da CMA, o volume de procura por informações no celular pelos clientes já é intenso. Spadaccia diz que, pela plataforma da CMA, há investidores que já consultam informações sobre o mercado de diversos locais e até de outros países, como EUA, Chile e Uruguai. Mas as operações ainda tendem a demorar mais um pouco.


Para o investidor ter acesso a um sistema de informações sobre ações no celular, ele precisa baixar um programa, tanto no Cellbroker quanto pela CMA. Na CMA, o download é gratuito, mas o cliente paga pela senha que lhe dá direito a acessar os dados. Esse custo poderá variar ao redor de R$ 100, se o aplicador for cliente de uma das 57 corretoras que adotam os serviços da CMA, ou até de R$ 500 - variando conforme o conteúdo contratado -, se ele ainda não tiver conexão com outros produtos da empresa de serviços de tecnologia.


Pela CMA, apenas aparelhos celulares com tecnologias mais de ponta podem ter acesso, os chamados computadores de mão. No http://mobile.cma.com.br é possível descobrir quais são os aparelhos compatíveis. Além de um aparelho bom, é recomendável que o cliente tenha um pacote sem limites para transferências de dados com a operadora.


No Itaú, que começou a oferecer a negociação por celular na sexta-feira, o investidor precisa ter um aparelho com a tecnologia HTML, diz o diretor-geral da corretora, Roberto Nishikawa. "Hoje, 10% a 15% dos celulares no Brasil já são HTML", diz. Segundo Nishikawa, a corretora espera que até o fim do ano, 15% dos clientes ativos da instituição usem a negociação via celular. "Hoje temos 50 mil clientes ativos, mas pretendemos chegar a 100 mil no fim do ano, com 15 mil negociando pelo telefone", diz. No sistema do Itaú, o investidor acessa o site da corretora e a área de negociação de ações. Depois, faz a ordem e dá a senha do cartão do banco. "O sistema é seguro, porque o dinheiro só sai da conta para as ações e vice-versa, e tudo com a senha do banco." (Colaborou Angelo Pavini)
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