quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Proteção que vale ouro

Metal acumula a maior valorização entre as opções de investimento do mercado nos últimos 10 anos.


Valor Econômico

Por Assis Moreira, de Genebra
03/09/2009

O melhor ativo para investimento dos últimos dez anos foi o ouro. Quem investiu no metal ganhou 245% de rendimento em dólar entre julho de 1999 e julho deste ano, comparado a 3% de retorno obtido em média com aplicações em ações nas bolsas de países industrializados. O ouro bateu, inclusive, o ganho das ações das melhores companhias e dos emergentes.

O cálculo é do Instituto de Finanças Internacionais (IIF), associação que agrupa os maiores bancos do mundo. O instituto alerta num relatório confidencial que alguns ativos podem estar sobrevalorizados no contexto atual e com o risco de sofrer correções.

A crise global, com o desmoronamento dos mercados financeiros ao redor do mundo e a consequente busca por proteção dos investidores, alterou a classificação dos ativos que mais deram retorno. O ouro, visto como porto seguro em crises mais sérias, certamente foi beneficiado nos últimos dois anos pelo receio de que a crise americana afetasse o dólar. No longo prazo, depois do ouro, o segundo maior rendimento veio dos bônus soberanos de países emergentes, seguido do obtido pelas ações também dos emergentes. As commodities ganharam igualmente de títulos do tesouro americano e de títulos de dívida de empresas.

Já quem aplicou em ações nos mercados industrializados só ganhou 3% na média, em dólar, em dez anos, ainda mais depois do baque das bolsas americanas e europeias desde 2007. O mercado de ações nos Estados Unidos no período de 2007 a 2009 foi o que sofreu o declínio mais profundo e rápido. O resultado é que quem aplicou em ações no mercado americano registrou perda de 17% na média no periodo de dez anos.

No curto prazo, a situação está mudando, com sinais de melhora dos mercados acionários desde março. A analista Suki Cooper, do Barclays Capital, em Londres, nota que o ouro continua a ser atrativo, mas os indicadores de que a economia chegou ao fundo do poço - e que, portanto, as ações estavam novamente atrativas - aguçaram o apetite por risco. O metal amarelo se valorizou em 9% em dólar de março para cá, mais do que os 7% das commodities em geral.

Já no mercado de ações, as bolsas nos países emergentes tiveram alta de 76% em média e, nos países ricos, de 59%. Nos EUA, a queda foi mais rápida, mas a recuperação também tem sido mais veloz.

Vários ativos se recuperaram desde o segundo trimestre, sobretudo ativos que haviam caído mais, mas a maioria ainda não recuperou tudo o que perdeu na crise global. As ações dos emergentes, por exemplo, só voltaram ao nível de fins de 2006 e, no caso dos mercados dos países mais ricos, ao nível do começo de 2004.

O IIF aponta uma interação de três tendências que podem trazer mais flutuações nos mercados financeiros após um periodo de menor volatilidade. Primeiro, a recuperação econômica ocorre em mais países, elevando as expectativas de alta de juros. O Banco Central de Israel foi o primeiro a aumentar as taxas.

Segundo, bancos, principalmente nos EUA e na Europa, continuam o processo de desalavancagem e redução de ativos, com vários deles ainda sob pressão, sobretudo por causa de sua gigantesca exposição aos mercados imobiliários. Isso alimenta questões sobre o vigor e a sustentabilidade da recuperação econômica.

E terceiro, depois da substancial alta nos mercados desde março, a sobrevalorização pode não durar. O risco de "ganhos desapontadores" das empresas abertas neste terceiro trimestre pode deflagrar o gatilho para uma correção nos mercados de ações globalmente.

Um sinal dessa maior cautela com ativos de risco aparece no fluxo líquido de recursos para fundos de ações de mercados emergentes, que começou a desacelerar. Ao mesmo tempo, aumentou para fundos de ações dos Estados Unidos e de títulos de emergentes.

Segundo o IIF, o fluxo líquido para fundos de ações de emergentes passou de US$ 7,5 bilhões em junho para US$ 4,7 bilhões em julho. Em agosto, ficou em apenas US$ 1,4 bilhão. Os mercados asiáticos receberam a parte do leão durante o ano, com mais de US$ 13,5 bilhões, comparados a US$ 5,5 bilhões para fundos de ações da América Latina.

Por sua vez, o fluxo líquido para fundos de renda fixa (títulos soberanos e em moeda local) de emergentes aumentou nas últimas semanas, totalizando US$ 6,6 bilhões, depois de retirada líquida de US$ 119 bilhões durante 2008. Com pouca expectativa de juros mais altos no curto prazo, fundos de títulos dos EUA receberam fluxo líquido de US$ 30 bilhões desde o começo de julho, totalizando US$ 120 bilhões no ano.


 

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Bolsa com proteção

Com o Ibovespa subindo 50% no ano, bancos criam fundos de capital garantido para atrair investidor mais conservador


Valor Econômico

Angelo Pavini, de São Paulo
31/08/2009

Com o Índice Bovespa subindo 53,66% no ano, depois de cair 41,22% no ano passado, ficou difícil encontrar investidores com coragem para comprar ações. Para ajudar, todos os analistas, apesar do otimismo, alertam que o mercado subiu rápido demais e pode cair a qualquer momento. Mas a bolsa continua subindo e os investidores sentem que perderam o bonde. Esse ambiente de insegurança e, ao mesmo tempo, de tentação, é o ideal para os fundos de capital garantido ou protegido, oferecidos pelos bancos, e que dão ao investidor uma parte do ganho do Índice Bovespa em troca da proteção do valor aplicado.

Nesta semana, Itaú Unibanco, Citibank e Santander estão colocando na praça carteiras que devem reunir patrimônio total de R$ 550 milhões. Na semana passada, o Real, controlado pelo Santander, encerrou a captação de um capital garantido de R$ 450 milhões. Somando todos, a captação deve atingir R$ 1 bilhão, ou 23,6% do patrimônio total da categoria, que terminou julho em R$ 4,2 bilhões.

Cada fundo tem características diferentes e deve ser bem estudado pelo investidor. Todo, porém, têm em comum a estrutura, de aceitar aplicações por um período e depois ficarem fechados até o vencimento - apenas o do Real vem agora com uma versão com saques trimestrais. Além disso, têm gatilhos atrelados ao Ibovespa que, se atingidos em qualquer momento da vigência do fundo, mesmo por um segundo, transformam totalmente a aplicação.

A oferta desses fundos depende do mercado de opções - onde os investidores assumem o compromisso de comprar ou vender um ativo a determinado preço em troca de um prêmio -, que serve de base para as estruturas protegidas.

O Itau Unibanco está encerrando hoje a captação de dois fundos oferecidos para os clientes do varejo seletivo Uniclass e Personnalité. A expectativa é captar R$ 250 milhões, diz Osvaldo do Nascimento, diretor executivo responsável por operações de investimento e previdência. "Já operamos com esse tipo de fundo desde 2006, temos 14 carteiras e um patrimônio de mais de R$ 1,250 bilhão, com 15 mil cotistas", afirma.

Apesar de ligados à bolsa, os dois fundos oferecem ganhos de renda fixa, equivalentes a 130% do CDI (cerca de 11,5%). Mas caso o Ibovespa supere em qualquer momento dos 228 dias de prazo dos fundos 21% de alta ou baixa, o investidor leva apenas o principal aplicado. Isso significaria o Ibovespa cair abaixo de 45.583 pontos ou subir além dos 69.817 pontos, tendo como referência o fechamento de sexta-feira, a 57.700 pontos. Os fundos tem aplicação de R$ 5 mil e a taxa de administração é de 1,5%.

Para Nascimento, os fundos protegidos pegam o investidor que quer ingressar no mercado acionário, mas não tem muito apetite pelo risco. "É o investidor que não quer saber do risco de perder", diz. São ainda investidores mais idosos, que querem ganhar mais que o CDI sem arriscar o principal.

No Citibank, o prazo para captação do Citifirst Ibovespa Capital Protegido termina sexta-feira, 4 de setembro. A aplicação mínima é de R$ 25 mil e o prazo é de 18 meses, explica Jan Karsten, diretor de investimentos do Citibank Brasil. O fundo tem uma barreira de alta para o Ibovespa de 40% e de baixa de 25% em relação à data de criação do fundo, 8 de setembro. Em relação a sexta-feira, significaria cair abaixo de 43.275 ou ficar acima de 80.780. Se o índice não bater esses limites em nenhum momento, o investidor levará a variação do Ibovespa, para cima ou para baixo. Ou seja, se o índice cair 20% ou subir 20%, o investidor ganhará 20%.

Já se o índice cair mais de 25%, o fundo passará a seguir o Ibovespa até o vencimento, pagando no mínimo o capital aplicado. Se o indice subir mais de 40%, e no vencimento do fundo estiver positivo, o investidor leva uma taxa acima do CDI. Se o índice estiver abaixo, levará a taxa do CDI menos a perda do Ibovespa. E se o índice bater as duas barreiras, o investidor leva a taxa de juros.

"Vemos muitos investidores que não participaram do salto da Bovespa e agora ficam preocupado em entrar depois de toda alta", afirma Karsten. O Citibank tem hoje R$ 400 milhões em fundos de capital protegido, e espera captar mais R$ 100 milhões com a nova carteira.

Já no Santander, que encerrou o Real Capital Protegido 4 na sexta-feira e estará captando no Santander Capital Protegido 5 até 9 de outubro, a barreira de baixa do Ibovespa é de 20% e a de alta, de 40% (46.160 a 80.780 pontos), explica Alexandre Paixão Silvério, superintendente de gestão da Santander Asset Management.

O fundo do Real tem prazo de um ano e meio e começará no dia 14 de setembro, enquanto o do Santander terá dois anos. "Tivemos de alongar os prazos pois a menor volatilidade reduziu os prêmios de curto prazo", explica Silvério. A aplicação mínima é de R$ 5 mil e a taxa de administração é de 2,5% nos dois fundos.

Segundo Silvério, o fundo de capital garantido tem um pouco da atratividade da bolsa com a tranquilidade da proteção de principal. "E há o benefício de ganhar mesmo em cenário de queda da bolsa", diz ele, lembrando que as carteira do Santander e do Real também pagam a variação do índice, para cima ou para baixo, desde que ele não ultrapasse as barreiras.

Se bater o limite de baixa e o Ibovespa fechar o período em alta, o investidor receberá o a variação do índice. Mas se o Ibovespa cair, receberá o valor aplicado apenas. Já se o Ibovespa superar o limite de alta e depois fechar o período positivo, o investidor sai com a taxa de juros. Se o índice fechar em baixa, recebe a variação percentual do índice. Se bater as duas barreiras, de alta e baixa, o fundo paga a taxa prefixada. O Santander já acumula R$ 1,8 bilhão em capital garantido, já incluindo o novo do Real.

Para William Eid Júnior, coordenador do Centro de Estudos em Finanças da FGV, os fundos de capital protegido são bons para investidores mais acomodados ou que morrem de medo de bolsa. "O melhor é selecionar bons gestores de ações e renda fixa e aplicar direto", afirma ele. Eid recomenda que o investidor trace cenários e pense. "Ele tem de ver que, se a bolsa subir 50%, ele ficará satisfeito com 150% do CDI, ou 14%", diz.

Foi o que aconteceu com alguns investidores que aplicaram em fundos desse tipo no fim do ano passado e, pela volatilidade, saíram com um ganho de 180% do CDI. "Se o investidor acha que a bolsa vai superar os 66 mil pontos, é melhor entrar direto em ações", resume Nascimento, do Itaú Unibanco. Dos 13 lançamentos do Itaú, cinco ficaram limitados ao principal, especialmente os lançados em 2007 e meados de 2008. Já no Citibank, o fundo criado em janeiro de 2008 vence hoje e deve pagar o principal aos investidores, que teriam perdido cerca de 9% se estivessem no Ibovespa.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Cotista suporta taxa de 5% ou mais

Autor(es): Mariana Segala

O Estado de S. Paulo - 24/08/2009

  

 
 

 
 

Apesar da queda de cinco pontos na Selic em 2009, os fundos conservadores com taxa de administração a partir de 5% ao ano perderam no período um número limitado de investidores - ou até receberam novos. As dez carteiras com maior custo de administração, selecionadas a partir de pesquisa na Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e no site Fortuna, somam patrimônio de R$ 5,1 bilhões e 585.361 cotistas.

Oito dos dez fundos tiveram resgates líquidos em 2009, mas em proporção limitada ante o patrimônio. A captação dos dez fundos está positiva em R$ 116 milhões neste ano (até dia 19). O maior deles - o Santander Classic Referenciado DI, com taxa de 5% - perdeu 10% dos cotistas, mas mantém R$ 3 bilhões em carteira.

Com os juros básicos em 8,75% ao ano, alguns economistas calculam que fundos com custo anual entre 0,5% e 1% já empatam com o retorno da poupança. A caderneta, neste ano (até dia 19), rende 4,55% e os fundos com taxas de administração a partir de 5% ao ano, apenas 2,74%. No mesmo período, o CDI tem retorno de 6,61%. O empresário Henrique Carbonell deixou uma carteira com taxa de administração de 2% e foi para outra, com custo de 0,4% ao ano. "É assustador um banco cobrar taxa de 4% quando o trabalho de gestão é praticamente nulo."

Com taxa de 5,5%, o Itauvest Plus Curto Prazo tem 142 mil cotistas, patrimônio de R$ 1,9 bilhão e retorno de 2,94% no ano. Trata-se de um fundo com resgate automático, o que encareceria a gestão. "É mais uma conveniência do que um fundo", diz o diretor de produtos de investimentos do Itaú Unibanco, Cláudio Sanches, acrescentando que o banco pretende reduzir as taxas em até dois pontos neste e em outros fundos semelhantes nos próximos dois meses.

No topo da lista, o Renda Fixa BRB Liquidez, que cobra 6,5%, tem apenas 750 cotistas e patrimônio de R$ 16,5 milhões - o Banco de Brasília estuda reduzir a taxa. No Bradesco, dois fundos com taxa de 6% mantêm R$ 87 milhões, mesmo fechados para captação.

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Poucos e bons

Na média, só 5% dos fundos mistos no Brasil têm retornos que compensam o risco e justificam o custo cobrado na gestão, revela estudo do Insper


Valor Econômico

Por Adriana Cotias, de São Paulo
21/08/2009

Na média, só 5% dos fundos hedge brasileiros conseguem obter retornos que recompensam o investidor pelo risco e por não estar na renda fixa, e valem o custo da gestão diferenciada. E, no geral, são poucos os profissionais à frente desses portfólios com habilidade para identificar mudanças de tendência a ponto de mexer na carteira rapidamente para ganhar com o chamado "market timing". Em contrapartida, boa parte dos multimercados locais cumpre o papel de ter correlação nula com o mercado, o que quer dizer que a performance independe do vaivém dos ativos de referência. Tais conclusões estão no estudo "Análise e Desempenho dos Multimercados Brasileiros", recém-concluído por Gustavo Jordão e Marcelo Moura, do Insper - Instituto de Ensino e Pesquisa.

No trabalho, os pesquisadores mapearam 2.347 fundos mistos, com os dados mensais da Associação Nacional dos Bancos de Investimentos (Anbid). Para tanto, consideraram três períodos distintos: a vida dos fundos a partir de 2000 até seu término ou até fevereiro último (para os fundos ainda ativos); em 12 meses encerrados em fevereiro de 2009; e, de junho a novembro de 2008, intervalo que compreendeu as piores perdas do Ibovespa, quando os mercados globais se defrontaram com os desdobramentos da crise do "subprime", as hipotecas americanas de alto risco.

 

 

Para medir o desempenho das carteiras, Jordão e Moura se valeram do tradicional Capital Asset Pricing Model (CAPM, modelo que relaciona o retorno esperado de um determinado ativo de risco pela taxa livre de risco, o CDI, por exemplo, e o prêmio de risco do mercado, no caso o Ibovespa) e de Sharpe. Foram usadas também suas extensões: o CAPM com "market timing", de Treynor e Mazuy, além de modelos que levam em conta outros fatores além do prêmio de risco de mercado, como o Fama e French - que considera o efeito do tamanho das empresas, o valor de mercado e patrimônio líquido sobre o valor de mercado - e o de Carhart - que avalia o "momentun effect", que é o impacto de portfólios de ações com alto retorno sobre ações com baixo retorno.

Avaliando-se, primeiro, os diferentes períodos, os pesquisadores constataram que, quando considerada a vida dos fundos entre janeiro de 2000 e fevereiro de 2009, 82,36% deles conseguem ter rentabilidade média superior ao Ibovespa, mas apenas 42,56% ficam acima do CDI. Quando se restringe a análise para 12 meses (entre fevereiro de 2008 e fevereiro de 2009), 64,38% batem o índice e somente 9,54% ultrapassam o CDI. O mesmo ocorre na fase que corresponde aos meses mais adversos da crise, entre junho e novembro de 2008, quando 61,40% dos portfólios ficaram acima do Ibovespa e só 7,37% superaram o CDI. Vale lembrar que, nesses dois últimos intervalos, o índice de referência da bolsa brasileira apresentou perdas de 2,88% e 49,59%, respectivamente.

O que se conclui dessas amostras é que os resultados obtidos não foram dos mais favoráveis para os multimercados brasileiros, quando analisada a capacidade dos gestores de obterem ganhos que não sejam simplesmente explicados pela elevada taxa de juros e o próprio risco Ibovespa. Dependendo do modelo utilizado, somente de 3,58% a 6,35% dos 2.347 fundos analisados conseguiram criar aquilo que os financistas chamam de alfa, uma medida de geração de valor adicional ao prêmio de risco.

"A promessa que o fundo faz é conseguir um retorno que mais do que compense o que o investidor obteria se aplicasse diretamente em ativos arriscados, é um retorno que tem de justificar o custo da taxa de administração, caso contrário ele poderia comprar as ações do índice e não precisaria pagar o preço da gestão", diz Moura. Mas o pior do levantamento é que entre 8,44% e 12,61% dos fundos tiveram retorno negativo.

Tal dinâmica, explica Moura, não é particularidade do mercado local. Outros estudos internacionais comprovam que são poucos os gestores que acertam a mão também nas economias desenvolvidas. No caso brasileiro, os juros historicamente elevados explicam a dificuldade dos gestores de baterem o CDI.

Nas janelas de tempo mais recentes, ele suspeita que são as altas taxas de administração cobradas pelos fundos que corroem o desempenho. Mesmo as carteiras que conseguem bater o "benchmark" acabam tendo parte do resultado comido pelas taxas de performance, aquelas que incidem quando o gestor cumpre determinado objetivo de rentabilidade, acrescenta Jordão. Ele explica que todos os modelos foram calculados pelos retornos líquidos, excluindo-se os efeitos dos custos, sem considerar, entretanto, a tributação, que depende do prazo do investimento.

A habilidade dos gestores para prever as oscilações do mercado também foi testada e só 6,56% dos fundos, ou 154 carteiras, evidenciaram a capacidade desses profissionais para se aproveitar das mudanças de tendência pelo modelo CAPM. Nesse item, a evidência mais desalentadora é que gestores de 378 fundos (ou 16,10% deles) foram completamente inábeis: não só não agregaram ganhos para as carteiras como destruíram valor.

Tais resultados são tão mais relevantes num ambiente em que os juros brasileiros atingiram um nível historicamente baixo, com a Selic em 8,75% ao ano, pontua Moura. "Quando estava em 13%, até um ano atrás, os fundos tinham que, pelo menos, bater essa taxa e o investidor tinha a ilusão de que recebia um bom retorno, embora não tivesse a percepção exata do risco que corria." A crise, a seu ver, foi educativa no sentido de mostrar esse risco que o aplicador não enxergava nos multimercados enquanto a bolsa era para cima e os ativos só se valorizavam.

Em contrapartida, boa parte das carteiras avaliadas, 37% delas, conseguiram neutralizar o risco de mercado. No ano passado, por exemplo, quando o Ibovespa mergulhou de mais de 70 mil para 29 mil pontos, os gestores evitaram uma queda de tal proporção e, no geral, preservaram o capital do investidor.

Bancos 'escondem' conta corrente gratuita

Jornal da Tarde

21/08/2009

Pesquisa do Idec mostra que funcionários das instituições financeiras nem sempre informam ao cliente sobre a opção que tem os serviços essenciais

ELENI TRINDADE, eleni.trindade@grupoestado.com.br


 

O cliente que faz apenas operações simples nos bancos pode economizar se optar por uma conta corrente somente com serviços essenciais, sobre a qual não há tarifa. O problema é que nem todos os bancos fornecem informações claras sobre esse tipo de produto. O Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec) avaliou dez bancos que atuam no País (Banco do Brasil, Bradesco, Banrisul, Caixa Econômica Federal, HSBC, Itaú, Nossa Caixa, Real, Santander e Unibanco) e concluiu que eles demoram para fazer a alteração de uma conta de outro tipo para a sem taxação, quando solicitada, e ainda fazem cobranças indevidas.

"Os bancos não divulgam a conta com serviços essenciais porque isso contraria o interesse deles de obter receita com tarifas bancárias", afirma Ione Amorim, economista do Idec e coordenadora da pesquisa. Segundo ela, a única maneira de o consumidor ter acesso a esse tipo de serviço é tomar a iniciativa de pedi-lo na agência. A Federação Brasileira de Bancos (Febraban) informou que sempre divulga as normas do setor para os bancos.

Os serviços essenciais foram regulamentados pelo Banco Central em 2007 em resolução que determina que as instituições financeiras ofereçam serviços gratuitamente, exceto a taxa de renovação cadastral, que pode ser exigida a cada seis meses. "Queremos mudança nesse quesito porque são custos que as instituições estão transferindo ao consumidor", destaca Ione.

O estudo mostrou que na maioria dos bancos as informações sobre a conta com serviços essenciais é conhecida pelos funcionários, mas ainda assim houve problemas. De acordo com o Idec, na Caixa Econômica Federal, a gerente alegou que o produto não existia e só depois de muita insistência a alteração foi feita, tendo como comprovante da operação uma apenas um telefonema do banco. No HSBC e no Real, o cliente foi orientado a enviar uma carta pedindo a alteração e foram aplicadas taxas sem fornecimento de comprovantes. O Real exigiu ainda o pagamento de três tarifas que não mais cabiam com a alteração: sobre envio de talão de cheque, sobre extrato e sobre renovação cadastral. O Bradesco também cobrou tarifa indevidamente.

Segundo Ione, apesar de importante por servir como prova para o cliente contestar taxas irregulares, a maioria dos bancos não fornece comprovante sobre a conversão da conta porque não há norma que os obrigue a fazer isso.

Entre os que forneceram o documento, Bradesco, Banco do Brasil, Caixa, HSBC, Nossa Caixa, Real e Unibanco tiveram seus comprovantes considerados insatisfatórios pelo Idec. A Nossa Caixa informou que está desenvolvendo "um novo modelo de comprovante em que as informações que demonstram as alterações fiquem ainda mais claras". O HSBC, Santander e Real não quiseram fazer comentários. O Bradesco alegou que "adota os procedimentos regulamentados pela lei." O Banco do Brasil informou que "tem uma política de divulgar os serviços essenciais para o cliente e atende o previsto no Código de Defesa do Consumidor". Os demais não responderam ao JT.

O estudante Eduardo Macini é um dos que poderiam se beneficiar com a mudança para uma conta de serviços essenciais. "Escolhi um pacote para ficar tranquilo, mas me surpreendi com tarifas que não esperava", diz. "Os serviços essenciais podem ser uma boa opção para evitar essas situações."

DICAS

Ao solicitar a mudança da sua conta para uma de serviços essenciais, exija o comprovante

Caso alguma taxa venha a ser cobrada, exija seu cancelamento ou estorno caso já tenha feito o pagamento

Confira sempre as tarifas no extrato (prefira as formas gratuitas: internet e telefone)

Caso o banco não providencie a mudança da conta ou não cancele cobranças indevidas, reclame com a ouvidoria da instituição bancária ou procure o setor de atendimento do Banco Central 0800-979-2345

SERVIÇOS ESSENCIAIS

Cartão de débito (exceto em caso de reposição para ocorrência de perda ou roubo)

Dois extratos mensais nos terminais de autoatendimento

Quatro saques por mês (em caixa eletrônico ou no guichê da agência bancária, inclusive por meio de cheque)

Duas transferências de dinheiro na mesma instituição por mês

Compensação de cheques

Consulta pela internet

Extrato consolidado discriminando as tarifas cobradas no ano anterior (até o dia 28 de fevereiro de cada ano)

Estão proibidas cobranças para depósitos ou emissão de cheques de qualquer valor

domingo, 16 de agosto de 2009

Pechincha vale até para produto em promoção

Jornal da Tarde
16/08/2009


Na hora da compra, nada de vergonha:especialistas mostram que é possível conseguir bons descontos na aquisição de móveis, eletrônicos e até roupas

SAULO LUZ, saulo.luz@grupoestado.com.br

Nunca aceitar a primeira oferta. Essa é a recomendação de especialistas para o consumidor na hora da compra. Mesmo quando o preço já está interessante, é possível pechinchar e obter um bom desconto.

“Em certas culturas orientais, o vendedor se sente ofendido se o cliente não negociar. Para eles, aceitar o preço inicial é chamar o vendedor de bobo, já que poderia ter pedido mais e o consumidor compraria do mesmo jeito”, diz Rafael Paschoarelli, Professor de Finanças da Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo (FEA-USP) e autor do livro A nova regra do jogo, que trata sobre a negociação envolvendo dinheiro. Para ele, é obrigação do consumidor negociar e evitar lojas em que o vendedor não tem autonomia para dar descontos. “A clássica resposta de que o ‘sistema’ não permite o desconto é equivalente a dizer que o sistema é mais importante que o consumidor.”

O JT foi às ruas e descobriu que é possível pechinchar na maioria das lojas, principalmente nas grandes redes de varejo de móveis e eletrodomésticos, onde sempre se pode obter algum desconto. Na Marabraz, por exemplo, foi possível reduzir de R$ 799 (parcelado em 10 vezes) para R$ 600 (à vista) o preço de um guarda-roupas. E o preço de um sofá de canto (5 lugares) no Magazine Luiza caiu de R$1.349 (em 6 vezes) para R$ 1.100.

Na Casas Bahia, conseguimos desconto em uma TV LCD 29 polegadas da LG que já estava em promoção - de R$ 2.499, saía por R$ 1.699. Após pechinchar bastante, a reportagem conseguiu que o preço baixasse para R$ 1.709.

Nas lojas de roupas e artigos esportivos, os descontos não foram grandes. Na Sandry Fashion, o tênis de futebol society da Adidas caiu de R$ 129,99 (em 4 vezes) para R$ 126. Paschoarelli explica porque há diferença no desconto conforme o produto. “Os fabricantes de móveis variam de loja para loja. Já as marcas de roupas e eletrodomésticos são sempre as mesmas e o preço é quase tabelado.”

A pechincha é um jogo

Na negociação é preciso perder a vergonha, ser ousado e sinalizar que a compra é uma possibilidade, não uma necessidade. “O cliente deve escolher o momento certo de jogar. Já o vendedor é prisioneiro desse jogo e tem que jogar o tempo inteiro”, diz Nacir Sales, consultor empresarial formado em Negociação pela Fundação Getúlio Vargas (FGV-SP), autor do livro Dr. Negociação.

“Uma dica é ir com cônjuge e uma das partes demonstrar que não quer comprar, dizer que viu uma promoção melhor ou querer ir embora. Isso fará que o vendedor sinta necessidade de oferecer algo adicional”, recomenda Paschoarelli. Para compras de bens de valores altos, o negócio só deve ser fechado com o gerente da loja. “Se não chegou no gerente da loja, não foi boa o suficiente”, garante.

A analista de recursos humanos Evelyn Mellissa Baptista Martins, 23 anos, se considera uma pechincheira nata. Na semana passada, ela foi a uma loja da rede O Boticário comprar presente para o Dia dos Pais e, após pechinchar bastante, obteve desconto de R$ 5 e levou de brinde um batom no valor de R$ 12. Ela conta que é importante apresentar alter nativas ao vendedor. “Não pode só reclamar. Se conseguir um desconto ou brinde, levo algo mais da loja. Se não derem o desconto, eu parto para outra.”

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Líquidos, bancos brigam por taxa

Captação: Instituições reduzem a emissão de depósitos com garantia especial


Valor Econômico

Maria Christina Carvalho e Fernando Travaglini, de São Paulo
13/08/2009

Os bancos de médio porte já estão em posição confortável em relação à liquidez. Tão confortável que começaram a travar uma queda de braço com os investidores. A disputa gira em torno das taxas pagas pelo chamado depósito a prazo com garantia especial (DPGE), novo instrumento de captação criado durante a crise e que conta com a cobertura de até R$ 20 milhões do Fundo Garantidor de Crédito (FGC).

É justamente essa cobertura, na visão dos bancos médios, que deveria trazer os juros mais próximos do CDI. Ao contrário da expectativa dessas instituições, no entanto, o custo tem ficado bem acima, na casa dos 115% do CDI, em média. Somado a isso, há ainda uma taxa de seguro, cobrada pelo FGC, de 1% ao ano, que com a Selic de hoje, em 8,75%, eleva o custo em mais 12% do CDI.

Essa combinação de liquidez restabelecida e custo alto fez com que as emissões de DPGE desacelerassem nas últimas semanas, chegando a R$ 10 bilhões, bastante longe da expectativa inicial que girava entre R$ 30 bilhões e R$ 40 bilhões. "A queda de braço continua. Os investidores ainda estão querendo levar vantagem em tudo. Querem segurança com preço de rentabilidade. A rentabilidade está no CDB", disse Renato Oliva, presidente da Associação Brasileira de Bancos (ABBC).

Segundo Aniz Chacur Neto, vice-presidente do ABC Brasil, a criação do DPGE foi uma medida muito saudável do BC porque trouxe de volta a confiança do investidor. Mas o custo está salgado. O ABC tem limite para emitir R$ 2 bilhões em DPGE, mas não fez nenhuma operação.

De fato, segundo dados do FGC, cerca de 60 instituições já utilizaram o novo instrumento, mas as captações representam menos de 20% do limite que poderia ser atingido por elas.

O ABC está emitindo CDB pagando de 103% a 104% do CDI, conta o executivo. "Se fosse emitir um DPGE, o custo passaria a 110% do CDI. Hoje o CDI está em 8,6%, com o seguro de 1% vai a 11,6% Para ficar competitivo com o CDB, teria que pagar apenas 91,5% do CDI. Mas é bom que exista porque tranquiliza o mercado".

O presidente do Bonsucesso, Paulo Henrique Pentagna Guimarães, não esperava esse desempenho com cenário com o qual fechou o balanço de 2008. Na realidade, o primeiro trimestre deste ano ainda não foi bom. O cenário só começou a mudar a partir daí, quando foi criado o DPGE, em abril, que normalizou as condições de liquidez para os médios - o aumento da margem consignável de 20% para 30% nas operações com beneficiários do INSS também contribuiu positivamente.

Somente em DPGE o Bonsucesso emitiu R$ 430 milhões até a semana passada. "Mas o custo é muito caro, dado que é supergarantido, quase um risco soberano. Estimava-se inicialmente que poderiam ser emitidos até R$ 50 bilhões. Não vai crescer tanto assim por causa do custo. Ao pagar o seguro de 1% o custo sobe a 112% 115% do CDI".

Os bancos estão tentando sensibilizar o BC e o próprio FGC, disse Pentagna Guimarães. "O custo foi fixado em 1% quando a Selic era mais alta do que hoje. Hoje está em 8,75%. Não faz sentido. Qualquer seguradora cobraria menos. O custo do DPGE deveria ser a metade, 0,5% a 0,3% a 0,4% a partir de agora. Isso também baratearia custo do dinheiro para pequena e média empresa".

O diretor-executivo do FGC, Antonio Carlos Bueno de Camargo Silva, diz que o custo é adequado para a atual realidade. "Sempre haverá reivindicação de quem paga uma taxa, mas o patamar hoje é adequado". Segundo ele, a redução das emissões de DPGE se deve à normalização da liquidez nos bancos médios. "Ninguém está precisando fazer captação". A tendência, segundo ele, é que o estoque feche o ano próximo de R$ 15 bilhões, com o crescimento das operações de crédito no segundo semestre.

Milto Bardini, vice-presidente do BicBanco, afirma que a menor pressão de liquidez contribuiu para reduzir os custos de captação. O banco está pagando o equivalente a 104% do CDI. Mas não descarta a emissão do depósito a prazo com garantia especial (DPGE), que tem cobertura do Fundo Garantidor de Crédito (FGC), quando a demanda por crédito aumentar. Apesar do custo salgado, o DPGE pode ser competitivo em comparação com as captações internacionais, disse.

Mesmo com a normalidade, Oliva, da ABBC, diz que a entidade discute com o Banco Central e com outras entidades a criação de novas estruturas de captação para os bancos. As principais propostas seriam a criação de um recibo de depósito bancário (RDB) que pudesse ser negociado em mercado secundário e de um certificado de depósito bancário (CDB) que tivesse uma garantia vinculada em títulos de crédito concedidos pelos bancos (CCB). A ABBC estuda ainda uma espécie de debêntures financeira, semelhante aos bônus emitidos pelos bancos no exterior.

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