sábado, 23 de abril de 2011
O mundo vendeu, eles compraram
16/04/2011
Os investidores que fizeram pequenas fortunas durante a crise de 2008 ao aplicar quase tudo o que tinham em ações
Thiago Bronzatto
O assessor financeiro André Machado, de 43 anos, ficou milionário durante a crise de 2008. Enquanto a maioria dos investidores - de fundos de hedge e de pensão internacionais a pequenos poupadores - corria para aplicações ultraconservadoras, ele colocou 100000 reais, um terço do que tinha no banco na época, no arriscadíssimo mercado futuro de opções. Seu objetivo era apostar na queda das ações da Vale. Se errasse, poderia perder ainda mais do que havia aplicado. Como acertou - o valor de mercado da mineradora caiu pela metade em poucos meses -, ganhou 150000 reais. Quando achou que as ações da Vale haviam chegado ao fundo do poço, no" fim de 2008, investiu 150000 reais na empresa, e embolsou mais 350000 reais. "Comprei um carro de luxo e reformei toda a minha casa com o que ganhei", diz Machado, que passou quase um ano acordando às 4 horas da manhã para acompanhar as ações das principais concorrentes da Vale, a BHP Billiton e a Rio Tinto, listadas na bolsa de Londres, e decidir o que faria com seu investimento aqui. "Nunca sabia com que surpresa eu acordaria, porque o mercado estava muito volátil. Mas achava que tinha uma chance única de ganhar bastante dinheiro", diz.
Olhando pelo retrovisor, parece óbvio que os últimos meses de 2008 eram o momento ideal para aplicar mais em ações. O Índice Bovespa caiu para 29435 pontos, o menor patamar em três anos, e dezenas de empresas passaram a ter valor de mercado inferior à soma de seus ativos - o que, na matemática que rege o mercado acionário, significa que estavam extremamente baratas. Investir quando o pessimismo está no auge é um dos conselhos mais repetidos pelos consultores financeiros -no século 19, quando a Europa estava mergulhada em guerras, o barão Nathan Rothschild, um dos maiores banqueiros da história, disse que "a hora de comprar é quando o sangue corre pelas ruas". O problema é que, em meio ao caos que tomou conta do mercado no final de 2008, boa parte dos especialistas fechou os livros de finanças e não recomendou a seus clientes que aplicassem mais na bolsa. Primeiro, porque havia o risco real de ver as ações desvalorizar ainda mais. Segundo, por um aguçado instinto de autoproteção. "Estávamos sendo processados por investidores que diziam que os havíamos induzido a arriscar demais antes da crise. Tínhamos de ser conservadores", afirma Peter Weiss, dono da corretora SLW. A maioria dos investidores abandonou o mercado de ações naquela época: os estrangeiros sacaram 25 bilhões de reais da Bovespa, o volume de negócios da bolsa caiu 40% e quase 30000 pessoas físicas venderam todos os papéis que tinham.
O sangue, portanto, estava nas ruas.
"Meus amigos diziam que eu estava louco, mas, para mim, ninguém é mais habilidoso que banqueiro para ganhar dinheiro. Por isso, apostei na retomada desse setor", diz Júlio Sergio Cardozo, ex-presidente da consultoria Ernst & Young Terco no Brasil. No fim de 2008, ele aplicou 1 milhão de reais em ações de bancos estrangeiros, como Citi e Deutsche Bank, que haviam caído mais de 40%. Também investiu em papéis de instituições brasileiras, como Banco do Brasil e BicBanco, que estavam em baixa em razão do temor generalizado em relação aos bancos. Ganhou 1,1 milhão de reais, e mantém boa parte do lucro aplicada nos mesmos papéis. "Minha carteira ainda tem potencial, principalmente com a retomada da economia americana", diz. O dono de uma consultoria de investimentos de São Paulo conta que vendeu seu carro e o da mulher para investir em papéis de grandes companhias, como Gerdau, vale e Itaú, em outubro de 2008. "No escritório, organizávamos espécies de grupos de investimento toda semana: cada funcionário dava uma quantia para fazermos grandes,aplicações na bolsa. Depois dividíamos o lucro de acordo com o que cada um havia colocado. Até a faxineira ganhou dinheiro", diz ele.
INTUIÇÃO
A melhor explicação para o comportamento dos investidores durante a crise
de 2008 vem de estudos de uma área relativamente nova da economia, a psicologia financeira. No livro O Espírito Animal, o americano Robert Shiller, professor da Universidade Yale e um dos maiores estudiosos do tema, diz que
é a intuição, e não o pensamento racional, que influencia as decisões econômicas da maioria das pessoas. "Ainda que achassem que a queda das ações era exagerada, muitos investidores decidiram simplesmente seguir seus instintos e vender, como a maioria estava fazendo", diz Vera Rita de Mello Ferreira, principal especialista brasileira em psicologia econômica. "É uma reação comum durante as crises." Para tentar evitar esse tipo de armadilha, investidores experientes costumam criar uma rotina de aplicações para ser seguida qualquer que seja a situação do mercado. É o que faz o microempresário mineiro Antonio Marcos. Sua regra é colocar 80% do patrimônio em ações quando a bolsa está em queda, e reduzir o valor para apenas 20% se houver valorização. A grande tacada de Marcos na crise foi aplicar 500000 reais em ações ordinárias da fabricante de papel e celulose AraCnIZ em outubro de 2008, quando os papéis custavam 5 reais e a empresa tinha acabado de naufragar devido a operações desastradas com derivativos exóticos. Vendeu tudo três meses depois, com lucro de 130%.
Hoje, esses três investidores que fizeram pequenas fortunas após a quebra do banco americano Lehman Brothers têm aplicado de forma mais conservadora. André Machado, que já voltou a dormir a noite toda, passou a diversificar sua carteira de ações e a fazer investimentos de curto prazo: em meados de abril, comprou papéis da BM&F Bovespa e da Usiminas. Para ele, essas ações estão baratas em relação à média de seus setores. Antonio Marcos está com quase todo o patrimônio aplicado em CDBs de grandes bancos e títulos públicos para se proteger da inflação. Na opinião dele, quase todas as ações de empresas brasileiras estão caras. Além de manter os papéis de bancos comprados durante a crise, Júlio Cardozo divide seu patrimônio em fundos de ações e de renda fixa. "Está mais difícil ganhar dinheiro na bolsa agora", diz.
Entre os grandes investidores institucionais, os que mais ganharam dinheiro nos últimos três anos foram os que fizeram apostas dealtíssimo risco. O maior exemplo é o gestor americano John Paulson. Desconhecido antes da crise de 2008, ele embolsou 4 bilhões de dólares - o maior bônus já pago em Wall Street até então - ao apostar na falência das hipotecas subprime nos Estados Unidos quando esse segn1ento estava em ascensão. No ano passado, bateu seu próprio recorde e ganhou mais 5 bilhões de dólares, obtidos com investimentos pesados feitos no mercado de ouro. "São números que impressionam, mas é importante lembrar que foi esse tipo de investidor, que toma riscos muito acima da média, que ajudou a provocar a crise de 2008", diz David Laibson, professor de economia e psicologia na Universidade Harvard. "Existem pesquisas que mostram que 70% dos investidores extremamente agressivos, aqueles que compram ações de empresas em dificuldades esperando que elas se recuperem, perdem tudo ou quase tudo o que aplicaram alguns meses depois." Em 2005, André Machado teve um prejuízo de 200000 reais ao apostar na valorização das ações da empresa de telefonia Telemar no mercado futuro. Ele achou que ficaria milionário naquela época, mas acabou mergulhado em dívidas. Sua estratégia deu certo em 2008. O desempate fica para a próxima crise.
segunda-feira, 11 de abril de 2011
Saiba como investir seu dinheiro na compra de títulos públicos
11/04/2011
FINANÇAS PESSOAIS
MÁRCIA DESSEN
Você venceu a primeira etapa do planejamento financeiro pessoal e como mantém o orçamento sob controle, consegue poupar parte de sua receita criando uma saudável reserva financeira, além de acumular recursos para atingir objetivos futuros.
Provavelmente a caderneta de poupança foi, acertadamente, o seu primeiro investimento. Mas, à medida que tomou gosto pelo hábito de poupar e observa o crescimento do capital, fruto da disciplina e dos juros que recebe, é natural seu interesse por outras alternativas de investimento.
Além da diversificação, o investidor busca rentabilidade competitiva com baixo risco. O Tesouro Direto é uma opção que deve ser analisada com carinho.
RISCO
O governo gasta mais do que arrecada e precisa captar recursos para zerar seu fluxo de caixa. Faz isso com a venda de títulos que representam uma dívida do governo perante o investidor, que aceita emprestar dinheiro para o governo em troca do recebimento de juros pelo prazo definido da operação.
Portanto, o risco do investidor é o risco de crédito, ou seja, o risco de o governo federal não devolver seu capital na data do vencimento do empréstimo. Qual é a probabilidade de ocorrer o risco? Baixíssima. É que os títulos públicos são considerados os mais seguros do mercado.
RENTABILIDADE
Você escolhe a rentabilidade de acordo com seu objetivo de investimento, seu horizonte de tempo e sua expectativa em relação aos rumos da economia.
Se seu horizonte de tempo for relativamente curto, procure uma das Letras do Tesouro. A LTN (Letra do Tesouro Nacional) paga taxa de juros prefixada e é adequada para quem quer saber exatamente quanto vai ganhar e tem a expectativa de queda das taxas de juros.
A LFT (Letra Financeira do Tesouro) é mais adequada para quem tem expectativa menos otimista e acha que pode ocorrer a alta da taxa de juros praticada no mercado. A rentabilidade da LFT é a variação da taxa Selic. Se a média da taxa Selic durante o prazo da operação for 11%, o investidor receberá 11%; se for 13%, receberá 13%.
Se seu horizonte de tempo for mais longo, procure pelas Notas do Tesouro, que se caracterizam por pagar cupom de juros semestralmente.
A NTN-B paga a variação do IPCA mais cupom de juros. É ideal para quem deseja proteger o capital investido contra a possível alta da inflação.
Se você não quer receber os juros semestrais e prefere capitalizar esses juros, compre a NTN-B Principal, que paga a variação do IPCA e a taxa de juros somente na data de vencimento. A NTN-F é um título de taxa prefixada que credita semestralmente a taxa de juros do cupom do título.
Ambas, NTN-B e NTN-F, são indicadas para quem precisa reforçar o fluxo de caixa semestralmente, com o recebimento de juros.
LIQUIDEZ
O Tesouro realiza compras semanais, às quartas-feiras, permitindo que o investidor venda todo ou parte de seu investimento, recuperando o capital desejado antes do vencimento. As taxas são divulgadas no mesmo portal.
COMO INVESTIR
Para operar nesse mercado, abra uma conta em uma corretora, que fará a intermediação entre você e o Tesouro Direto. Consulte no site do Tesouro quais são e quanto cobram as corretoras credenciadas.
CUSTOS E TRIBUTOS
Corretora: livre negociação, de zero a 1% ao ano. CBLC: taxa de custódia de 0,3% ao ano. q Imposto de Renda: alíquota entre 22,5% e 15%, definida em função do prazo da operação. No site da Receita Federal (www.tesouro.fazenda.gov.br/tesouro-direto) há mais informações.
MARCIA DESSEN, Certified Financial Planner, é sócia e diretora-executiva do BMI Brazilian Management Institute, professora convidada da Fundação Dom Cabral e cofundadora do Instituto Brasileiro de Certificação de Profissionais Financeiros.
domingo, 27 de março de 2011
Rendimento do CDB pode ser inferior ao da caderneta de poupança
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Bancos diferenciam os valores aplicados e pagam menos aos pequenos investidores
Fábio Monteiro
Várias instituições financeiras definem o Certificado de Depósito Bancário (CDB) — título emitido pelos bancos que tem o objetivo de captar recursos para serem empregados na concessão de empréstimos e financiamentos — como uma das aplicações mais seguras entre as opções existentes no mercado. Mas a operação requer atenção do cliente a detalhes que, se não observados, podem acabar com a atratividade do investimento, resultando em rendimentos inferiores aos de outras modalidades, como a caderneta de poupança.
O cliente que optar pela contratação de CDB deve, antes de mais nada, analisar se a modalidade é a mais compatível com o atual momento econômico. O volume a ser investido é fundamental para determinar o sucesso da aplicação. Segundo especialistas, valores inferiores a R$ 100 mil têm rendimento menor do que as alternativas de renda fixa.
O educador financeiro Álvaro Modernell lembra que o CDB, como toda aplicação muito segura, possui baixa rentabilidade. Apesar disso, ele pode ser interessante para quem tiver capital e disposição para negociar. “É bom que o cliente nunca aceite a primeira oferta, principalmente se estiver investindo uma grande quantia”, avalia.
Na análise de Modernell, o resgate antes do tempo contratado junto ao banco também não é interessante e, por isso, é bom que o cliente não crie expectativas a curto prazo com relação ao dinheiro. “Quanto maior o prazo estabelecido para receber os dividendos, melhor. Algumas pessoas contratam um CDB de curto prazo para receber logo o dinheiro e, em seguida, firmam novo contrato. Mas fazer isso é perder dinheiro, pois cada renovação gera juros menos vantajosos”, afirma. Para o educador financeiro, o ideal é que, caso o dinheiro seja destinado exclusivamente a investimentos, o poupador feche um contrato com prazo mais longo, que terá rendimentos melhores que aqueles com renovação constante.
Custo
Para as instituições bancárias, o custo operacional de quem está investindo R$ 3 mil ou R$ 300 mil é o mesmo. Por isso, a disposição com as pessoas que aplicam mais recursos tende a ser maior. “É importante que o consumidor entenda que o banco precisa do dinheiro e vai ter gastos na operação. Com isso em mente, o cliente pode focar suas energias em barganhar opções interessantes durante a negociação”, explica Modernell.
O consultor em finanças Alexandre Lignos explica que estudar as diversas opções e as expectativas pessoais é um ótimo passo antes de decidir qual caminho deve ser seguido. “O investidor precisa fazer uma autoavaliação para saber o que espera da aplicação. Quem tem muito dinheiro e uma postura mais agressiva nos negócios com certeza vai ficar insatisfeito”, destaca. Lignos afirma que até o horário da negociação pode ser relevante. “Pela manhã, os bancos procuram captar recursos para repassarem ao longo do dia. Então, a chance de conseguir melhores taxas são maiores”, explica.
Lignos ainda destaca que estudar a saúde financeira da instituição na qual o CDB é contratado pode ser uma medida de segurança bastante válida. “É muito bom para o cliente quando ele consegue negociar boas taxas. Mas se o banco pagar um valor alto demais, muito fora do padrão de mercado, isso pode significar que a instituição está precisando de recursos, tornando a operação um pouco arriscada. Isso pode acontecer principalmente com bancos menores”, revela. Para o consultor, apesar de o risco ser baixo, a aplicação precisa ser acompanhada com seriedade. “Investimento não é para tentar a sorte, é para crescer financeiramente”, comenta.
Escolha
Basicamente, existem duas opções de contratação do título: com rendimentos pré-fixados ou pós-fixados. A escolha deve levar em conta a conjuntura econômica do momento. Se a taxa básica de juros (Selic) está estagnada ou com tendência de queda, a opção mais adequada é fechar o valor do rendimento no ato da contratação. Já em um cenário com alta de juros, fica mais interessante contratar a modalidade no pós-fixado, quando o pagamento é feito de acordo com a taxa Selic referente ao dia do vencimento do título. Atualmente, a tendência da taxa básica de juros é de alta.
segunda-feira, 21 de março de 2011
Dívida "saudável" inspira cuidados
21/03/2011
A estabilidade monetária e o desemprego em baixa estimulam os trabalhadores a fazer empréstimos ou a parcelar compras de bens duráveis, em especial carros e imóveis, para construir um patrimônio. Mas é preciso estar atento às armadilhas, como os juros altos
Luciano Pires
A estabilidade econômica fez o brasileiro perder o medo de se endividar. Há quase duas décadas convivendo com taxas de inflação relativamente civilizadas e, nos últimos anos, com níveis de desemprego controlados, famílias e jovens espremem o orçamento doméstico com carnês e financiamentos a perder de vista. As prestações fazem parte da rotina de quem sonha em morar no que é seu, daqueles que trocaram o ônibus pelo carro ou dos que apenas investem hoje para colher amanhã.
Essa última classe de pessoas tem se destacado. São assalariados que, apesar dos juros altos e de alguma incerteza futura, preferem sacrificar parte da renda em troca do conforto que a ideia de ser dono de algo caro traz. É o chamado “endividamento saudável”, fenômeno típico de economias que ficaram marcadas no passado por longos períodos de estagnação, que ainda não amadureceram, mas que caminham a passos ligeiros rumo ao seleto clube das nações ricas.
Preocupado com o futuro, o servidor público Marcos Vieira Baeta Neves, 29 anos, financiou seu primeiro imóvel em 360 vezes, o equivalente a 30 anos. “Há um tempo, isso era uma ideia distante de mim, mas venho juntando dinheiro e consegui dar entrada e dividir o restante”, comemora. O apartamento, em Águas Claras, deve ser ocupado depois que a dívida for quitada. “Moro em uma república e alugo o meu imóvel, por enquanto. Só que eu penso em me casar e ir para lá.” Ele paga uma prestação de R$ 2 mil e recebe R$ 1,3 mil do locatário. “É um prejuízo de R$ 700 por mês. Espero que valha a pena.”
Neves diz que, por causa da valorização imobiliária, viu-se obrigado a fechar o negócio antes do previsto. “Os preços estão subindo muito rapidamente. Fiquei com medo de deixar para depois e pagar um absurdo”, explica, ressaltando que o mercado no Distrito Federal é um dos mais dinâmicos do país. Empolgado com o projeto pessoal, ele não esconde a satisfação.
O economista Luiz Carlos Ewald, autor do livro Sobrou dinheiro: lições de economia doméstica, alerta para os perigos do endividamento sem controle. “Muitos dizem que alugar é jogar dinheiro fora. Mas, na verdade, os juros também não têm retorno. A pessoa paga R$ 300 mil em um apartamento que vale R$ 200 mil, no máximo. Com carro, é a mesma coisa. Na ponta do lápis, andar de táxi é mais barato do que ter um automóvel. Não tem seguro nem despesas com manutenção. Essas pequenas despesas o comprador não leva em conta na hora de somar”, adverte.
Inadimplência
Ewald afirma que o comprador deve ter consciência de que o bem só passa a ser dele após a amortização do financiamento. “O número de imóveis que voltam para o banco por inadimplência é muito grande, principalmente na classe C. Se a pessoa comprou uma casa em 20 anos e só pagou cinco, ainda não é dona dela”, indica. Para ele, o endividamento é válido no ponto de vista comportamental. “Se o comprador contrai uma dívida, mas se programa para pagar em um prazo, ele é precavido, embora tenha que pagar juros exorbitantes. Pode ser a realização de um sonho”, contrapõe. “É preciso avaliar a compra.”
A corrida para formar patrimônio, no entanto, tem consequências. Seis em cada 10 brasileiros têm contas vencendo todo mês. Especialistas culpam a farta oferta de crédito como a principal alavanca para o endividamento, que não para de crescer. Dados do Banco Central apontam para um volume de R$ 208 bilhões em dívidas só com o cheque especial. Outros R$ 188 bilhões irrigam linhas de crédito para automóveis. O cartão de crédito responde por R$ 30 bilhões, enquanto o cheque especial deixa em apuros pessoas que devem R$ 18 bilhões.
É o caso do servidor Arcelino Alves da Costa, 56 anos, que se enrolou na hora de comprar a casa própria. “Peguei três empréstimos e financiei o restante na Caixa Econômica Federal. Vou morrer sem terminar de pagar as prestações”, lamenta. “Nunca pensei que seria possível. Tenho medo de que a economia volte a oscilar. Antes não havia prestação fixa.” Costa trata o investimento como herança. “Fiz malabarismo para conseguir comprar o apartamento, mas meus filhos não ficarão desamparados.”
O educador financeiro Mauro Calil explica que a maior parte da população extrapola os limites recomendáveis de endividamento contando que a compra de bens de alto valor agregado são investimentos que, mais cedo ou mais tarde, terão retorno. Na avaliação do analista, cada caso é um caso. “O mundo das finanças tem dois lados: aquele de quem paga e aquele de quem recebe juros. E os juros retardam a formação de patrimônio”, ensina.
Distorções
Autor do livro A receita do bolo, que ensina a enriquecer com disciplina, o educador financeiro Mauro Calil lembra que o desejo de consumo reprimido nas pessoas que conviveram com a hiperinflação distorceu conceitos econômicos básicos. “Patrimônio ativo é aquilo que gera renda. Um imóvel nem sempre é um ativo. Depende se está alugado, se valorizou”,diz. O especialista adverte que casas e apartamentos financiados só passam a ser da pessoa após paga a última prestação.
Para aliviar o orçamento
» Pagar à vista é sempre a melhor opção
» Se for financiar a compra de algum bem, o ideal é negociar juros menores
» Imóveis na planta são mais baratos, mas é importante negociar, já que eles carregam maior risco
» Uma regra básica é não comprometer mais que 30% da renda familiar com dívidas de cartão, cheque especial e prestações
» Na hora de refinanciar a dívida, livre-se dos juros antes de tudo
» Coloque todas as despesas na ponta do lápis e não perca o controle
» Faça uma análise e veja se estará preparado para cobrir as prestações no prazo prometido
» Quando possível, poupe
Fonte: especialistas ouvidos pelo Correio
domingo, 20 de março de 2011
Taxa de administração superior a 1,5% torna fundos péssimo negócio
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SEU BOLSO
Bancos cobram de 0,5% a 4% sobre o valor aplicado para gerir o investimento. Tarifa elevada faz rendimento perder da poupança
Vera Batista
Fábio Monteiro
Fundos de investimento se tornaram as aplicações preferidas de quem entende pouco de mercado financeiro e não tem muito dinheiro disponível. Com sua ascensão, as classes C, D e E se tornaram alvo da cobiça de gestores, administradores e distribuidores do produto ao mesmo tempo em que bancos e corretoras abriram uma guerra pela melhor oferta. O que faz a diferença ao escolher onde aplicar os recursos é a taxa de administração. Às vezes, ela está disfarçada sob o pomposo nome de taxa de performance (penduricalho cobrado, caso o gestor do fundo ultrapasse os objetivos de rentabilidade).
A taxa de administração varia de 0,5% a 4% sobre o valor aplicado — não sobre o rendimento. Se R$ 10 mil forem investidos à taxa de 2%, serão descontados R$ 200 ao ano (ou cerca de R$ 17 ao mês). Os investidores devem ficar atentos: qualquer cobrança superior a 1,5% pode tornar a aplicação nos fundos um péssimo negócio porque come excessivamente o rendimento. Como ainda é preciso recolher o Imposto de Renda, os ganhos ficam muito pequenos, frequentemente menores do que os da caderneta de poupança, que é isenta tanto da taxa como do tributo.
Segundo estudo da Associação Brasileira de Entidades Financeiras e de Capitais (Anbima), as taxas das principais categorias de fundos caíram de dezembro de 2010 para janeiro, mas as cobradas dos investidores de varejo ficaram acima do nível médio. A categoria Referenciado DI subiu 0,46 ponto percentual, para 1,35%; e a de Renda Fixa teve alta de 0,28 ponto percentual, ficando em 1,12%.
O professor César Frade, 39 anos, começou a investir em 1996. À época, por não dominar o assunto, optou pelos fundos dos bancos. Após 10 anos, entendeu que as taxas são abusivas. “Dependendo do quanto você investe, a taxa de administração pode ficar muito alta”, analisa. Hoje, paga mensalidade de R$ 10 para uma corretora e faz movimentações por conta própria. “Resolvi cuidar sozinho porque aprendi como funciona e sei o que quero investir. Estava pagando caro por uma coisa que posso fazer.” Mas o professor alerta: ganhar autonomia requer estudo e experiência. “Cuidar das próprias aplicações é um caminho arriscado e perigoso para quem não entende.”
Os bancos se defendem afirmando que os custos das operações levam em conta a experiência dos profissionais envolvidos. “Temos uma equipe especializada, que acompanha as movimentações do mercado. Isso, evidentemente, gera custos, mas garante tranquilidade ao cotista que não tem tempo ou conhecimento”, argumenta Clayton Calixto, gerente de Relacionamento do grupo Santander. Saulo Sappir Sabbá, diretor de Gestão da Máxima Asset, ressalta que as “casas menores” oferecem melhor atendimento, maior rentabilidade e cobram menos.
Para Francisco José Santos, superintendente de Relações com Investidores Institucionais da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), pelo porte do setor, que envolve patrimônio de R$ 1,5 trilhão, 10 mil fundos e 10 milhões de cotistas, a incidência de problemas e reclamações é bem pequena, até mesmo se comparada a estatísticas internacionais. Assim mesmo, para os investidores, todo cuidado é pouco. “Façam análise do seu perfil de risco, verifiquem se os gestores e os administradores são registrados na CVM e procurem estudar o histórico desses profissionais”, aconselha.
Lucro gordo
Não é à toa que os fundos de investimento estão em alta. Nos cálculos de Saulo Sappir Sabbá, diretor de Gestão da Máxima Asset, quem comprou cota de um fundo de renda fixa, no valor de R$ 1 mil, em 2001, e “esqueceu o dinheiro lá por 10 anos”, acordou em 2011 com um lucro de 323,81% e pôde resgatar R$ 4.238. Se investiu em bolsa de valores, ganhou 329,32% (R$ 4.293). “Só perdeu 13,89% se optou pelo fundo cambial (acompanha a variação do dólar). Acabou ficando com R$ 861”, garantiu Sabbá.
quarta-feira, 9 de março de 2011
Poucos com tanto...
09/03/2011
Daniele Camba e Luciana Monteiro | De São Paulo
Concentração é a marca do mercado de gestão de recursos no Brasil. As dez maiores assets respondem hoje por nada menos do que 77,6% do patrimônio do setor de fundos de investimentos. Um percentual ainda bastante elevado, apesar de ligeiramente abaixo dos 79,8% do fim de 2009. O levantamento foi feito pelo Valor com base nos dados da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima).
Essa concentração traz um efeito perverso para o investidor, que fica à mercê de taxas de administração altas, mesmo para carteiras conservadoras, e poucas opções de aplicação, especialmente no varejo. Para aplicações de R$ 100,00 em fundos renda fixa e DI, por exemplo, os grandes bancos de varejo cobram, em média, de 3,5% a 5% ao ano. Como resultado, após a tributação, eles chegam a render menos que a poupança.
As seis primeiras colocações ainda são ocupadas pelos grandes bancos de varejo, que detêm 67,6% do mercado de gestão de fundos, número que chegava a 70,2% no fim de 2009. Mas, enquanto os grandes perdem um pouco, as assets independentes ganham espaço, ainda que também lentamente. Os números levam em conta o patrimônio total do setor em fundos de investimento, sem seguradoras.
Algumas instituições, em especial, vêm sofrendo mais nesse processo de perda gradual de participação. É o caso do Itaú, que se fundiu com o Unibanco em novembro de 2008. Em dezembro daquele ano, juntando-se os recursos geridos pelos dois bancos, a participação no setor de fundos era de 16,87%. Dois anos depois, já com o processo de integração concluído, a fatia caiu para 14,83%.
A perda de fatia de mercado chama ainda mais a atenção no caso do Itaú Unibanco por conta do bom resultado do setor de fundos no ano passado, que registrou captação recorde de R$ 108,7 bilhões. O segmento cresceu 18% ante 2009, atingindo patrimônio líquido de R$ 1,618 trilhão. Mas, apesar do ano tão positivo, o maior banco privado brasileiro encerrou 2010 com resgates de R$ 4,257 bilhões.
Num processo de fusão, é natural que ocorram perdas, já que grande parte dos investidores institucionais mantém limites de concentração nas instituições, explica o consultor Marcelo D"Agosto, autor do livro "Como escolher o melhor fundo de investimento". Nesses casos, há um corte nas aplicações, não uma soma, diz.
Um executivo que pediu para não ser citado observa, no entanto, que o ranking de gestão da Anbima leva em conta também os fundos de direitos creditórios (FIDCs), cujo patrimônio oscila muito. E os números revelam que o Itaú Unibanco teve resgates concentrados justamente nesse seguimento em 2010. Os fundos de recebíveis da instituição registraram saques de R$ 3,898 bilhões dos R$ 4,257 bilhões perdidos no período.
Os números do banco também teriam sido afetados pela estratégia de um fundo de pensão administrado pelo banco que, por uma questão de custos, preferiu migrar R$ 3 bilhões de fundos para carteiras administradas, cujos dados não aparecem no ranking.
Mas, no mercado, comenta-se que a perda de participação no ranking e os resgates têm a ver com o processo de fusão. Segundo uma fonte que acompanhou o processo de perto, houve um choque entre as culturas de gestão do Itaú e do Unibanco, resultando na saída de vários profissionais experientes.
Outro executivo que também acompanhou a fusão lembra que o processo decisório ficou muito mais concentrado nas mãos de poucos, que estão na cúpula, tirando agilidade da gestão. Ele afirma que esse perfil de alta concentração é muito mais resquício da herança da gestora do Unibanco, que acabou predominando. Vários cargos-chave ficaram com profissionais que vieram do Unibanco. Já no Itaú, antes da fusão, as decisões eram descentralizadas, com cada gestor tendo muito mais autonomia para responder por sua estratégia. Procurado, o Itaú Unibanco preferiu não se manifestar.
Enquanto o Itaú Unibanco perde espaço, a gestora do BTG Pactual foi a que mais recebeu recursos no ano passado, depois do gigante Banco do Brasil. A asset do banco de André Esteves captou R$ 9,632 bilhões em 2010, e ocupa o sétimo lugar no ranking dos maiores gestores, com patrimônio de R$ 65,355 bilhões. Com isso, a instituição passou a deter 4,08% do setor de fundos, ante 3,75% em 2009. A gestora do BTG cresceu principalmente em fundos de participações e multimercados.
O Banco do Brasil (BB) ainda ocupa a colocação de maior gestora, com patrimônio de R$ 363,211 bilhões até janeiro deste ano. Os números da BB DTVM já levam em conta os fundos da Nossa Caixa, adquirida em novembro de 2008.
Líder de captação no ano passado, com ingresso de R$ 18,552 bilhões, a BB DTVM atraiu R$ 44,470 bilhões para a previdência. Mas a gestora teve pesados resgates em fundos de renda fixa e curto prazo, de R$ 3,931 bilhões e R$ 2,041 bilhões, respectivamente. A asset fechou 2010 respondendo por 21,55% dos ativos sob gestão em fundos - fatia praticamente igual à de 2009, que somava 21,57%.
Essa concentração do setor de fundos é ruim especialmente para os investidores de varejo, que possuem pouco poder de barganha e condições de se movimentar rumo a outros gestores, diz o professor de finanças do Insper Ricardo José de Almeida. "Essa falta de poder se reflete em taxas de administração que ainda são altas para o varejo."
O professor lembra que a Instrução 409 da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) sobre fundos dá ao investidor o direito de pedir a abertura dos custos que estão embutidos dentro da taxa de administração. Essa medida deveria, em tese, acabar com as cobranças abusivas. O detalhe é que o pequeno investidor nem sabe desse direito e, portanto, essa fiscalização adicional não acontece na prática.
Para o professor do Insper, o fato de os bancos de varejo não oferecerem na rede de agências produtos de outros gestores contribui para que as taxas de administração continuem salgadas. "Nenhum banco tem interesse em levar a concorrência para dentro da sua própria casa", completa Almeida.
O setor de fundos no Brasil também é concentrado por conta do tipo de ativo demandado pelos investidores, que focam na renda fixa. "Os grandes bancos são justamente os maiores na gestão de fundos de renda fixa", lembra Francisco Costa, sócio da Capital Investimentos. "Mas à medida que os segmentos de multimercados e de ações cresçam, esse processo de concentração deve ficar menor."
Contribui para esse panorama o fato de as corretoras de valores não atuarem fortemente no mercado de distribuição de fundos, avalia o consultor. "As corretoras ainda são muito voltadas para estimular a negociação de ações e não a aplicação em fundos, em que o investidor tende a permanecer por mais tempo", diz o consultor D"Agosto.
Para os gestores independentes, é difícil fugir da "máquina de venda" dos bancos de varejo, já que as áreas "private" dos grandes bancos são os maiores distribuidores de fundos do país.
segunda-feira, 7 de março de 2011
Clubes de investimento terão mais controle
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SEU BOLSO
Para evitar que clubes de investimentos virem fundos “disfarçados’’, a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) prepara uma nova regulamentação, que deve entrar em vigor em cerca de 30 dias. Segundo o diretor do órgão, Otávio Yazbek, as versões finais da regulamentação estão em fase de discussão interna.
No Brasil, há 3.054 clubes, com um patrimônio líquido total de R$ 11,4 bilhões e 131.521 participantes, segundo a Bovespa.
Por meio dos clubes, é possível entrar na Bolsa com R$ 200. Para aplicações individuais, o valor é baixo. Mas, com esse montante e um grupo de pessoas com um objetivo em comum, é possível organizar um clube.
– Aquelas pessoas que conhecem pouco e têm medo do risco investem coletivamente, colocando um pouquinho de dinheiro na aplicação. Conforme aprendem, alteram a quantia – explica Tércia Rocha, consultora da Bovespa.
Em geral, um clube pode ter entre três e 150 pessoas e deve ter um representante. Os integrantes podem ser, por exemplo, de uma mesma empresa ou família. No caso de funcionários de uma mesma empresa ou entidade, pode ser um grupo até maior.
As principais mudanças, explicou Yazbek, devem ser justamente em relação à restrição no limite do número de cotistas e à exigência de assembleias, que poderão ser realizadas por meio de ferramentas eletrônicas, pois envolvem menos custos para as corretoras de valores.
O objetivo é valorizar o caráter pedagógico e fortalecer o controle sem aumentar demais os custos. Conforme Yazbek, um dos motivos que levaram a criar a nova regulamentação foi um mal-estar em relação a clubes que viravam fundos:
– É o que se chama de arbitragem regulatória. Usar um meio mais barato para atingir aquilo que é mais caro. Se quiser desconto regulatório, terá de ser uma estrutura diferente. Não pode ser um fundo disfarçado.
Recuo na criação
- A criação de clubes teve desaceleração no último ano:
- Em 2009, houve avanço de 6,4% na quantidade de clubes em relação ao ano anterior.
- No ano passado, a alta foi de só 3,3% em relação a 2009.

