Valor Econômico
Luciana Monteiro e Angelo Pavini, de São Paulo
14/01/2009
A grande expectativa de que o Comitê de Política Monetária do Banco Central (Copom) irá cortar a taxa Selic na sua próxima reunião nos dias 20 e 21 de janeiro vem favorecendo a rentabilidade dos fundos de renda fixa e multimercados.
Segundo dados do site financeiro Fortuna, os renda fixa, que podem aplicar em papéis prefixados, apresentam retorno médio de 0,33% no ano até dia 9. Os multimercados têm ganho médio de 0,55%. Esse percentual está acima da variação de 0,30% do Certificado de Depósito Interfinanceiro (CDI, o juro interbancário que serve de referência para as aplicações mais conservadoras) no mesmo período.
A queda das projeções de juros ajudou o setor de fundos, especialmente os multimercados, diz George Wachsmann, sócio da Bawm Investments. "A bolsa também subiu e o dólar caiu, mas isso mais atrapalhou do que ajudou", conta. Segundo ele, a recuperação dos multimercados foi muito concentrada na alta dos preços das Notas do Tesouro Nacional sério B (NTN-B, título com rentabilidade vinculada à variação do IPCA acrescido de juros) e dos papéis prefixados por conta da queda dos juros.
A disparada dos juros futuros em outubro e novembro, quando a instabilidade aumentou, deu oportunidade para os gestores comprarem papéis prefixados com ótimas taxas. Uma Letra do Tesouro Nacional (LTN) com vencimento em julho de 2010 chegou pagar 17,30% ao ano em 27 de outubro. Ontem, esse mesmo papel pagava 11%. Para Wachsmann, no entanto, é difícil imaginar que esse ganho vai ser estável daqui por diante. Com a instabilidade dos mercados ainda forte neste primeiro trimestre, em meio às incertezas com a economia mundial, o jogo será de espera. "O gestor vai querer cumprir tabela apenas, para quando o mercado voltar a melhorar, ele fazer bonito", diz.
O ano também começou bem em termos de captação para o setor de fundos, com ingresso de R$ 3,826 bilhões até o dia 9. Os fundos DI foram os que mais atraíram recursos, com R$ 2,579 bilhões, seguidos pelos renda fixa, com R$ 2,128 bilhões no período. Os fundos curto prazo - que aplicam em papéis com vencimento de no máximo 365 dias - também apresentam captação, de R$ 1,388 bilhão. Em contrapartida, os multimercados continuam sofrendo resgates, de R$ 5,071 bilhões até o dia 9.
Apesar da alta do Índice Bovespa, de 10,74% até o dia 9, os fundos de ações apresentam resgate de R$ 110 milhões. As carteiras formadas só por Petrobras registraram ganho médio de 11,77% no período, mas saques de R$ 84 milhões. Os fundos de Vale renderam 15,20% e resgates de R$ 12 milhões.
Veja as tabelas de fundos em http://www.valoronline.com.br/fundodeinvestimentos.aspx
quarta-feira, 14 de janeiro de 2009
terça-feira, 13 de janeiro de 2009
CDB, o favorito
Valor Econômico
Por Angelo Pavini, de São Paulo
13/01/2009
Entre uma maldade e outra da vilã da novela das oito, um dos personagens faz o seu "merchandising". Mas, em lugar de falar das maravilhas de aparelhos de som ou bebidas, ele alardeia as vantagens do CDB de um grande banco. Um bom exemplo de como a crise de liquidez fez uma aplicação veterana passar de coadjuvante à estrela do mercado. No ano passado, os CDBs lideraram as captações, com R$ 234 bilhões, para R$ 28 bilhões no ano anterior. A poupança captou R$ 17,7 bilhões e os fundos de investimento tiveram resgates de R$ 77,8 bilhões.
Os CDBs continuam pagando taxas bastante atrativas para o investidor. Clientes mais endinheirados, de private banks, conseguem taxas equivalentes a 102%, 104% do Certificado de Depósito Interfinanceiro (CDI) em papéis de grandes bancos de primeira linha sem liquidez diária e de 101% a 102% com liquidez em prazos de um a dois anos. Bancos estrangeiros chegam a pagar 105% do CDI para volumes acima de R$ 3 milhões. Um sinal de que, apesar de todas as medidas do governo para aumentar a liquidez do sistema, liberando compulsórios e injetando recursos, ainda falta dinheiro, diz Marcelo Xandó Baptista, sócio da Verax Serviços Financeiros. Por isso, as taxas seguem atraentes. "Vemos taxas de até 106% do CDI em bancos de primeira linha para valores acima de R$ 3 milhões."
Nas agências, o investidor de varejo consegue taxas menores, mas interessantes. O Unibanco pagava 91% em um CDB de dois anos para uma aplicação de R$ 10 mil. Melhor que um fundo de investimento com taxa de administração de 1% ao ano. E, com a expectativa de queda dos juros, a vantagem do CDB aumenta, pois o impacto da taxa de administração no fundo cresce. A queda nos juros deve reduzir a rentabilidade dos CDBs pós-fixados, uma vez que o CDI também vai cair. Mas seu ganho comparativamente deverá seguir melhor que outras opções semelhantes, como fundos DI.
Uma alternativa para o pequeno investidor são os CDBs com taxa crescente de acordo com o prazo, que chegam a pagar 100% do CDI para valores a partir de R$ 5 mil e que fiquem aplicados por dois anos. Em alguns casos, com quantias maiores, pode-se conseguir taxas acima de 100% após dois ou três anos. E há liquidez diária após seis meses, apesar de o cliente que sacar antes levar um percentual bem menor do CDI.
Os juros dos CDBs recuaram em relação ao pico da crise de liquidez, entre agosto e novembro do ano passado, mas se estabilizaram em um nível bastante alto, afirma George Wachsmann, da consultoria Bawm Investments. Além disso, a negociação das taxas ficou mais dura. Os bancos aceitam aumentar a remuneração, mas somente para prazos mais longos de investimento e sem resgates.
Mesmo assim, o ganho para o investidor é bastante atrativo. Na semana passada, bancos estrangeiros pagavam 107% para um ano e 108% para dois anos, sem liquidez diária. Já um grande banco privado nacional pagava 103% para clientes private para dois anos, sem liquidez. "Quanto mais tempo, maior a taxa", diz Wachsmann.
A pressão sobre as taxas dos CDBs deve continuar até que o mercado internacional volte a se abrir para os bancos brasileiros, afirma Paulo Saba, diretor de tesouraria do BES Investimento. Por isso, o aumento das taxas de CDB foi rápido, mas sua redução será lenta, alerta ele. Para Saba, a liberação dos compulsórios resolveu os problemas emergenciais do sistema, de socorro às instituições menores, mas não chegou a afetar as taxas.
Enquanto isso, as instituições locais vão pagar o que for preciso para arrumar dinheiro para emprestar ou mesmo para reforçar o caixa, afirma um gestor de recursos que pediu para não ser citado. Parte dos recursos captados está ficando no overnight, como mostram os dados do Banco Central, que saltaram de R$ 60 bilhões no ano passado para R$ 133 bilhões este ano. Os fundos de investimento, por sua vez, têm procurado comprar CDBs apenas de curto prazo, de um ano no máximo, pelos problemas para marcar esses papéis a mercado todo dia.
No varejo, os CDBs com ganho crescente tornaram-se um sucesso, explica Marcus Matos, gerente executivo de captação do Santander. Em dezembro, 20% da captação do banco veio do CDB Recompensa, que paga 100% do CDI para valores a partir de R$ 5 mil que ficarem mais de três anos. Para valores acima de R$ 50 mil, o ganho chega a 102% do CDI em mais de dois anos. Mas, se sacar antes, o investidor leva taxas menores, 70% do CDI em seis meses, por exemplo, no caso do valor mais baixo. Como comparação, a poupança paga em média 60% do CDI líquidos, o que equivaleria a 77% do CDI antes do imposto de 22,5% em seis meses.
O Bradesco, que também fez campanha para seu CDB Fidelidade, fechou o ano com um aumento expressivo de captação nessa modalidade, diz Marcos Villanova, diretor de investimentos do banco, sem dar números. Segundo ele, a tendência das taxas dos CDBs é de queda, acompanhando a menor procura por crédito neste início de ano. "Todo mundo, empresas, pessoas, bancos, estão em compasso de espera", diz.
O Bradesco paga para valores, entre R$ 10 mil e R$ 50 mil, 100% do CDI após dois anos. O papel tem liquidez diária, mas se o investidor resgatar antes leva menos, 85% do CDI até um ano e 90% de um ano a dois. Valores acima de R$ 50 mil conseguem 100,5% do CDI após dois anos. Villanova observa, porém, que o banco paga a taxa máxima para o período todo do cliente. Em alguns bancos, alerta, o cálculo da rentabilidade é pela média das taxas de cada período, o que dá menos de 100% do CDI mesmo após dois anos.
O que pode aumentar a pressão sobre os CDBs e melhorar ainda mais a situação para o investidor são as ofertas de papéis de empresas. Na semana passada, a Bradespar concluiu a emissão de uma debênture com juros equivalentes a 125% do CDI e prazo de três anos. "Muitas empresas de capital aberto devem fazer o mesmo e vão pagar taxas atrativas, inclusive para pessoas físicas, competindo com os CDBs", diz Wachsmann, da Bawm.
Assim, além de elevar o referencial de ganho dos CDBs e fundos de investimento, a debênture ainda afasta o investidor desses dois mercados por três anos.
Por Angelo Pavini, de São Paulo
13/01/2009
Entre uma maldade e outra da vilã da novela das oito, um dos personagens faz o seu "merchandising". Mas, em lugar de falar das maravilhas de aparelhos de som ou bebidas, ele alardeia as vantagens do CDB de um grande banco. Um bom exemplo de como a crise de liquidez fez uma aplicação veterana passar de coadjuvante à estrela do mercado. No ano passado, os CDBs lideraram as captações, com R$ 234 bilhões, para R$ 28 bilhões no ano anterior. A poupança captou R$ 17,7 bilhões e os fundos de investimento tiveram resgates de R$ 77,8 bilhões.
Os CDBs continuam pagando taxas bastante atrativas para o investidor. Clientes mais endinheirados, de private banks, conseguem taxas equivalentes a 102%, 104% do Certificado de Depósito Interfinanceiro (CDI) em papéis de grandes bancos de primeira linha sem liquidez diária e de 101% a 102% com liquidez em prazos de um a dois anos. Bancos estrangeiros chegam a pagar 105% do CDI para volumes acima de R$ 3 milhões. Um sinal de que, apesar de todas as medidas do governo para aumentar a liquidez do sistema, liberando compulsórios e injetando recursos, ainda falta dinheiro, diz Marcelo Xandó Baptista, sócio da Verax Serviços Financeiros. Por isso, as taxas seguem atraentes. "Vemos taxas de até 106% do CDI em bancos de primeira linha para valores acima de R$ 3 milhões."
Nas agências, o investidor de varejo consegue taxas menores, mas interessantes. O Unibanco pagava 91% em um CDB de dois anos para uma aplicação de R$ 10 mil. Melhor que um fundo de investimento com taxa de administração de 1% ao ano. E, com a expectativa de queda dos juros, a vantagem do CDB aumenta, pois o impacto da taxa de administração no fundo cresce. A queda nos juros deve reduzir a rentabilidade dos CDBs pós-fixados, uma vez que o CDI também vai cair. Mas seu ganho comparativamente deverá seguir melhor que outras opções semelhantes, como fundos DI.
Uma alternativa para o pequeno investidor são os CDBs com taxa crescente de acordo com o prazo, que chegam a pagar 100% do CDI para valores a partir de R$ 5 mil e que fiquem aplicados por dois anos. Em alguns casos, com quantias maiores, pode-se conseguir taxas acima de 100% após dois ou três anos. E há liquidez diária após seis meses, apesar de o cliente que sacar antes levar um percentual bem menor do CDI.
Os juros dos CDBs recuaram em relação ao pico da crise de liquidez, entre agosto e novembro do ano passado, mas se estabilizaram em um nível bastante alto, afirma George Wachsmann, da consultoria Bawm Investments. Além disso, a negociação das taxas ficou mais dura. Os bancos aceitam aumentar a remuneração, mas somente para prazos mais longos de investimento e sem resgates.
Mesmo assim, o ganho para o investidor é bastante atrativo. Na semana passada, bancos estrangeiros pagavam 107% para um ano e 108% para dois anos, sem liquidez diária. Já um grande banco privado nacional pagava 103% para clientes private para dois anos, sem liquidez. "Quanto mais tempo, maior a taxa", diz Wachsmann.
A pressão sobre as taxas dos CDBs deve continuar até que o mercado internacional volte a se abrir para os bancos brasileiros, afirma Paulo Saba, diretor de tesouraria do BES Investimento. Por isso, o aumento das taxas de CDB foi rápido, mas sua redução será lenta, alerta ele. Para Saba, a liberação dos compulsórios resolveu os problemas emergenciais do sistema, de socorro às instituições menores, mas não chegou a afetar as taxas.
Enquanto isso, as instituições locais vão pagar o que for preciso para arrumar dinheiro para emprestar ou mesmo para reforçar o caixa, afirma um gestor de recursos que pediu para não ser citado. Parte dos recursos captados está ficando no overnight, como mostram os dados do Banco Central, que saltaram de R$ 60 bilhões no ano passado para R$ 133 bilhões este ano. Os fundos de investimento, por sua vez, têm procurado comprar CDBs apenas de curto prazo, de um ano no máximo, pelos problemas para marcar esses papéis a mercado todo dia.
No varejo, os CDBs com ganho crescente tornaram-se um sucesso, explica Marcus Matos, gerente executivo de captação do Santander. Em dezembro, 20% da captação do banco veio do CDB Recompensa, que paga 100% do CDI para valores a partir de R$ 5 mil que ficarem mais de três anos. Para valores acima de R$ 50 mil, o ganho chega a 102% do CDI em mais de dois anos. Mas, se sacar antes, o investidor leva taxas menores, 70% do CDI em seis meses, por exemplo, no caso do valor mais baixo. Como comparação, a poupança paga em média 60% do CDI líquidos, o que equivaleria a 77% do CDI antes do imposto de 22,5% em seis meses.
O Bradesco, que também fez campanha para seu CDB Fidelidade, fechou o ano com um aumento expressivo de captação nessa modalidade, diz Marcos Villanova, diretor de investimentos do banco, sem dar números. Segundo ele, a tendência das taxas dos CDBs é de queda, acompanhando a menor procura por crédito neste início de ano. "Todo mundo, empresas, pessoas, bancos, estão em compasso de espera", diz.
O Bradesco paga para valores, entre R$ 10 mil e R$ 50 mil, 100% do CDI após dois anos. O papel tem liquidez diária, mas se o investidor resgatar antes leva menos, 85% do CDI até um ano e 90% de um ano a dois. Valores acima de R$ 50 mil conseguem 100,5% do CDI após dois anos. Villanova observa, porém, que o banco paga a taxa máxima para o período todo do cliente. Em alguns bancos, alerta, o cálculo da rentabilidade é pela média das taxas de cada período, o que dá menos de 100% do CDI mesmo após dois anos.
O que pode aumentar a pressão sobre os CDBs e melhorar ainda mais a situação para o investidor são as ofertas de papéis de empresas. Na semana passada, a Bradespar concluiu a emissão de uma debênture com juros equivalentes a 125% do CDI e prazo de três anos. "Muitas empresas de capital aberto devem fazer o mesmo e vão pagar taxas atrativas, inclusive para pessoas físicas, competindo com os CDBs", diz Wachsmann, da Bawm.
Assim, além de elevar o referencial de ganho dos CDBs e fundos de investimento, a debênture ainda afasta o investidor desses dois mercados por três anos.
segunda-feira, 12 de janeiro de 2009
Na dúvida, fique com o real
Valor Econômico
Por Adriana Cotias, de São Paulo
12/01/2009
O balanço de pagamentos brasileiro deve repetir em 2009 mais um ano de déficit em conta corrente. A queda nas exportações, o menor fluxo de investimentos estrangeiros diretos (IED) e o retorno incerto de recursos para a bolsa ou renda fixa sugeririam que o real pode apanhar do dólar e do euro de novo. Mas não é com tal cenário que os analistas trabalham e comprar divisas como forma de diversificar a poupança pessoal é uma escolha que pode naufragar ou, na melhor das hipóteses, levando-se em conta as previsões daqueles que esperam um câmbio mais depreciado ao longo do ano, proporcionar retornos menores do que a renda fixa.
Entre casas de análise que estão entre as "top 5" do Banco Central (BC) pelo acerto em previsões, seja de curto ou médio prazo, no boletim semanal Focus - Santander/Banco Real Western Asset Management (Legg Mason) Tendências Consultoria e Idéias Consultoria - as projeções para o dólar em dezembro variam de R$ 2,00 a R$ 2,40. Considerando-se a média da pesquisa divulgada na semana passada (todo o mercado), a expectativa é de que a moeda encerre o ano a R$ 2,25.
Pelo fechamento de sexta-feira, a R$ 2,272, tais estimativas significariam, no máximo, um retorno de 5,6% para quem adquirisse a moeda americana ao preço atual. Comparando-se à Selic em vigor, de 13,75% ao ano, na renda fixa o investidor fará melhor negócio mesmo que o pior cenário para a taxa de câmbio brasileira se concretize. Para o euro, a história não é muito diferente, pois espera-se que a divisa européia perca valor em relação ao dólar. Fazendo-se a conversão para o real, a Tendências, por exemplo, estima uma cotação de R$ 2,36 para a moeda européia no fim deste ano.
É mais ou menos consenso que 2009 será um ano difícil do ponto de vista de fluxo de capitais para o Brasil. A fartura de liquidez que se viu no passado, e que fez o dólar chegar à mínima de R$ 1,562 em julho passado, está fora de cogitação, especialmente num ambiente de retração da atividade global, afirma o economista do Banco Real Cristiano Souza.
Para ele, embora o país ainda possa contar com superávit comercial, o líquido entre ingressos por exportações e saídas por importações será sensivelmente menor do que em 2008. Pelas suas contas, considerando o déficit nas transações correntes e o total de amortizações a pagar, o governo terá de usar US$ 15 bilhões das reservas para fechar a conta do setor externo. "O crédito está muito restrito, as linhas de 'trade finance' estão mais caras e isso atrapalha inclusive as exportações." Tal dinâmica, diz, é condizente com um dólar na casa dos R$ 2,40 em dezembro - podendo rondar os R$ 2,50 ou R$ 2,60 ao longo do primeiro trimestre -, calcula Souza.
Estimativa semelhante tem Samuel Kinoshita, da Idéias Consultoria. "Em 2008, mudaram as regras do jogo e, para 2009, todos os vetores apontam na direção de um real desvalorizado." A história para este ano, argumenta, estará mais efetivamente atrelada às transações do país com o exterior. A capacidade de atrair investimentos diretos será menor, enquanto o interesse por ativos brasileiros deve cair pela aversão ainda elevada a riscos na renda variável e pela queda dos juros, no caso da renda fixa.
Kinoshita prevê que o saldo da balança comercial se limite a US$ 10 bilhões, que o investimento direto fique em US$ 20 bilhões e o déficit em conta corrente na casa dos US$ 28 bilhões, ante os US$ 25 bilhões da média do mercado. Apesar de mais pessimista, ele não espera movimentos abruptos no câmbio, como aqueles que levaram a divisa americana de R$ 1,8120 para R$ 2,50 num intervalo de menos de dois meses.
Com salto dessa magnitude, o dólar acabou figurando em 2008 como a melhor opção entre os ativos negociados no mercado brasileiro, com valorização de 31,3%. O Brasil pagou não só o preço de estar com a moeda sobrevalorizada como também de dispor de mercados à vista e futuro líquidos o bastante para ser o porto de operações de "hedge" (proteção) de gestores internacionais, diz o diretor de investimentos de Renda Fixa da Legg Mason, Guilherme Abbud. "Eram casas que mantinham posições em moedas de países emergentes com câmbio fixo ou mercado mais restrito do que o brasileiro." Ele lembra que o "efeito estilingue" no câmbio também resultou da demanda extra por divisas das exportadoras locais que se alavancaram no mercado futuro.
Tal combinação de infortúnios fez com que o Brasil tivesse a pior performance cambial do mundo em 2008, apesar de não ter o balanço de pagamentos mais fraco comparativamente, acrescenta Abbud. Embora concorde que será mais difícil atrair capitais para os emergentes neste ano, ele vê exageros na desvalorização do real, que levou a moeda a valer R$ 2,50, e considera factível que as cotações voltem para a casa dos R$ 2,00 nos próximos meses. "Nos últimos anos houve um crescimento grande na corrente de comércio e a soma de exportações e importações deve ser maior do que no ano passado, a desvalorização cambial menor já faz o serviço de ajuste no balanço." Ele trabalha com um superávit comercial de US$ 20 bilhões, bem acima da média do mercado, de US$ 14,5 bilhões.
A Tendências Consultoria também tem números mais destoantes do consenso e estima um saldo comercial de US$ 22 bilhões, além de esperar um fluxo razoável de investimento direto (US$ 25 bilhões) e de investimentos em portfólios (US$ 15 bilhões). Isso resultaria num déficit em conta corrente da ordem de US$ 15 bilhões, menor do que os US$ 29 bilhões previstos na consolidação das estatísticas de 2008. "O que vai entrar pela conta de capitais é mais do que suficiente para bancar o déficit", diz a economista Alessandra Ribeiro. Pelas suas contas, 2009 deve fechar com sobra de US$ 20 bilhões no balanço. Para ela, a incursão do Brasil no mercado internacional, com uma captação de US$ 1 bilhão por 10 anos há uma semana, dá indícios de que as portas do crédito externo também podem ser reabertas para as empresas locais.
Lucros menores das empresas e taxa de câmbio mais alta também devem resultar em remessas menos expressivas de lucros e dividendos, acrescenta o economista-chefe do Banco Schahin, Silvio Campos Neto, contribuindo para uma conta corrente mais comportada. "Os eventos que provocaram a mudança de faixa do dólar, de R$ 1,70 para R$ 2,30/R$ 2,40, já ajustaram a moeda a um fluxo cambial mais negativo, é um movimento que não prossegue em 2009."
Levantamento do Itaú mostra que, no último trimestre de 2008, o real teve desvalorização de 21,52%, a maior entre uma cesta que inclui as moedas da África do Sul, Hungria, Austrália e Nova Zelândia, e que tiveram variações em sua maioria entre 10% e 15%. A moeda da Turquia, em segundo lugar, perdeu 21,35%.
Por Adriana Cotias, de São Paulo
12/01/2009
O balanço de pagamentos brasileiro deve repetir em 2009 mais um ano de déficit em conta corrente. A queda nas exportações, o menor fluxo de investimentos estrangeiros diretos (IED) e o retorno incerto de recursos para a bolsa ou renda fixa sugeririam que o real pode apanhar do dólar e do euro de novo. Mas não é com tal cenário que os analistas trabalham e comprar divisas como forma de diversificar a poupança pessoal é uma escolha que pode naufragar ou, na melhor das hipóteses, levando-se em conta as previsões daqueles que esperam um câmbio mais depreciado ao longo do ano, proporcionar retornos menores do que a renda fixa.
Entre casas de análise que estão entre as "top 5" do Banco Central (BC) pelo acerto em previsões, seja de curto ou médio prazo, no boletim semanal Focus - Santander/Banco Real Western Asset Management (Legg Mason) Tendências Consultoria e Idéias Consultoria - as projeções para o dólar em dezembro variam de R$ 2,00 a R$ 2,40. Considerando-se a média da pesquisa divulgada na semana passada (todo o mercado), a expectativa é de que a moeda encerre o ano a R$ 2,25.
Pelo fechamento de sexta-feira, a R$ 2,272, tais estimativas significariam, no máximo, um retorno de 5,6% para quem adquirisse a moeda americana ao preço atual. Comparando-se à Selic em vigor, de 13,75% ao ano, na renda fixa o investidor fará melhor negócio mesmo que o pior cenário para a taxa de câmbio brasileira se concretize. Para o euro, a história não é muito diferente, pois espera-se que a divisa européia perca valor em relação ao dólar. Fazendo-se a conversão para o real, a Tendências, por exemplo, estima uma cotação de R$ 2,36 para a moeda européia no fim deste ano.
É mais ou menos consenso que 2009 será um ano difícil do ponto de vista de fluxo de capitais para o Brasil. A fartura de liquidez que se viu no passado, e que fez o dólar chegar à mínima de R$ 1,562 em julho passado, está fora de cogitação, especialmente num ambiente de retração da atividade global, afirma o economista do Banco Real Cristiano Souza.
Para ele, embora o país ainda possa contar com superávit comercial, o líquido entre ingressos por exportações e saídas por importações será sensivelmente menor do que em 2008. Pelas suas contas, considerando o déficit nas transações correntes e o total de amortizações a pagar, o governo terá de usar US$ 15 bilhões das reservas para fechar a conta do setor externo. "O crédito está muito restrito, as linhas de 'trade finance' estão mais caras e isso atrapalha inclusive as exportações." Tal dinâmica, diz, é condizente com um dólar na casa dos R$ 2,40 em dezembro - podendo rondar os R$ 2,50 ou R$ 2,60 ao longo do primeiro trimestre -, calcula Souza.
Estimativa semelhante tem Samuel Kinoshita, da Idéias Consultoria. "Em 2008, mudaram as regras do jogo e, para 2009, todos os vetores apontam na direção de um real desvalorizado." A história para este ano, argumenta, estará mais efetivamente atrelada às transações do país com o exterior. A capacidade de atrair investimentos diretos será menor, enquanto o interesse por ativos brasileiros deve cair pela aversão ainda elevada a riscos na renda variável e pela queda dos juros, no caso da renda fixa.
Kinoshita prevê que o saldo da balança comercial se limite a US$ 10 bilhões, que o investimento direto fique em US$ 20 bilhões e o déficit em conta corrente na casa dos US$ 28 bilhões, ante os US$ 25 bilhões da média do mercado. Apesar de mais pessimista, ele não espera movimentos abruptos no câmbio, como aqueles que levaram a divisa americana de R$ 1,8120 para R$ 2,50 num intervalo de menos de dois meses.
Com salto dessa magnitude, o dólar acabou figurando em 2008 como a melhor opção entre os ativos negociados no mercado brasileiro, com valorização de 31,3%. O Brasil pagou não só o preço de estar com a moeda sobrevalorizada como também de dispor de mercados à vista e futuro líquidos o bastante para ser o porto de operações de "hedge" (proteção) de gestores internacionais, diz o diretor de investimentos de Renda Fixa da Legg Mason, Guilherme Abbud. "Eram casas que mantinham posições em moedas de países emergentes com câmbio fixo ou mercado mais restrito do que o brasileiro." Ele lembra que o "efeito estilingue" no câmbio também resultou da demanda extra por divisas das exportadoras locais que se alavancaram no mercado futuro.
Tal combinação de infortúnios fez com que o Brasil tivesse a pior performance cambial do mundo em 2008, apesar de não ter o balanço de pagamentos mais fraco comparativamente, acrescenta Abbud. Embora concorde que será mais difícil atrair capitais para os emergentes neste ano, ele vê exageros na desvalorização do real, que levou a moeda a valer R$ 2,50, e considera factível que as cotações voltem para a casa dos R$ 2,00 nos próximos meses. "Nos últimos anos houve um crescimento grande na corrente de comércio e a soma de exportações e importações deve ser maior do que no ano passado, a desvalorização cambial menor já faz o serviço de ajuste no balanço." Ele trabalha com um superávit comercial de US$ 20 bilhões, bem acima da média do mercado, de US$ 14,5 bilhões.
A Tendências Consultoria também tem números mais destoantes do consenso e estima um saldo comercial de US$ 22 bilhões, além de esperar um fluxo razoável de investimento direto (US$ 25 bilhões) e de investimentos em portfólios (US$ 15 bilhões). Isso resultaria num déficit em conta corrente da ordem de US$ 15 bilhões, menor do que os US$ 29 bilhões previstos na consolidação das estatísticas de 2008. "O que vai entrar pela conta de capitais é mais do que suficiente para bancar o déficit", diz a economista Alessandra Ribeiro. Pelas suas contas, 2009 deve fechar com sobra de US$ 20 bilhões no balanço. Para ela, a incursão do Brasil no mercado internacional, com uma captação de US$ 1 bilhão por 10 anos há uma semana, dá indícios de que as portas do crédito externo também podem ser reabertas para as empresas locais.
Lucros menores das empresas e taxa de câmbio mais alta também devem resultar em remessas menos expressivas de lucros e dividendos, acrescenta o economista-chefe do Banco Schahin, Silvio Campos Neto, contribuindo para uma conta corrente mais comportada. "Os eventos que provocaram a mudança de faixa do dólar, de R$ 1,70 para R$ 2,30/R$ 2,40, já ajustaram a moeda a um fluxo cambial mais negativo, é um movimento que não prossegue em 2009."
Levantamento do Itaú mostra que, no último trimestre de 2008, o real teve desvalorização de 21,52%, a maior entre uma cesta que inclui as moedas da África do Sul, Hungria, Austrália e Nova Zelândia, e que tiveram variações em sua maioria entre 10% e 15%. A moeda da Turquia, em segundo lugar, perdeu 21,35%.
quarta-feira, 3 de dezembro de 2008
Para onde vai o dinheiro?
Valor Econômico
Por Luciana Monteiro, de São Paulo
03/12/2008
O mês de novembro termina com mais de R$ 4 bilhões deixando os fundos de investimento, o que eleva os resgates no ano para R$ 46,943 bilhões. Este é o segundo pior desempenho da história do setor no país. As saídas só são menores do que as registradas no episódio da marcação a mercado, em 2002. Na ocasião, os investidores saíram de fundos após se assustarem com perdas em carteiras conservadoras como os DIs. Naquele ano até novembro, R$ 66 bilhões tinham deixado os fundos, volume que subiu para R$ 68 bilhões no fim de dezembro.
Com o desempenho de novembro, o setor de fundos completou o oitavo mês consecutivo de resgates, acumulando saques totais de R$ 85 bilhões no período de abril a novembro de 2008, mostra o relatório semanal do site financeiro Fortuna. Observando-se somente o comportamento do setor entre abril e novembro, os resgates apresentados agora são maiores do que os R$ 69,966 bilhões que deixaram o setor no mesmo período em 2002.
Mas para onde está indo esse dinheiro? Grande parte desses recursos está migrando dos fundos para os Certificados de Depósito Bancários (CDBs), que vêm pagando taxas para lá de atraentes mesmo para aplicações menores. Levantamento do Valor Data com base nos números do Banco Central mostra que os CDBs já captaram R$ 228,330 bilhões no ano até o dia 26. Somente em novembro, R$ 4,634 bilhões ingressaram nessas aplicações até 26.
A onda mais recente de saques, no entanto, vem sendo capitaneada por pequenos e médios empresários, que estão resgatando os recursos de suas aplicações pessoais para capitalizar a empresa. "E não são apenas companhias de pequeno porte, mas grandes empresas também, uma vez que as linhas de financiamento secaram", diz um gestor. Ele conta o exemplo de uma empresa com faturamento anual da ordem de R$ 300 milhões que antes captava recursos pagando cerca de 104% do CDI e hoje esse custo aumentou para 130% do CDI. "Aí, o empresário preferiu tirar o dinheiro da sua conta de pessoa física e colocar na empresa, já que os recursos no fundo não estavam rendendo tanto e a companhia estava com um custo de captação muito caro."
Um outro gestor confirma esse movimento. Ele conta o caso de um investidor dono de uma empresa que abriu o capital durante a onda de lançamento de ações dos últimos dois anos. "A empresa precisa de caixa, o custo de captação estava muito alto e esse investidor resolveu resgatar R$ 450 milhões que estavam aplicados num fundo conservador."
No caso dos resgates apresentados em novembro, é preciso ponderar que boa parte deles pode ser explicada pelo "come-cotas", imposto de renda recolhido semestralmente por fundos das categorias curto prazo, renda fixa, DI e multimercados. Pelas regras, a alíquota de IR é de 15% sobre o rendimento das aplicações.
Os resgates no ano só não são maiores por conta dos fundos de poder público, outros (onde estão os fundos de investimento em direitos creditórios, FIDC), previdência e ações. As carteiras classificadas como poder público, que recebem aplicações só de estados e municípios, registram captação de R$ 23,042 bilhões. Já os FIDCs acumulam ingressos de R$ 10,038 bilhões, mas apenas investidores qualificados (com aplicações acima de R$ 300 mil) podem investir. Os fundos de previdência e de ações, que são abertos para o investidor de varejo, têm captação líquida de R$ 8,207 bilhões e R$ 3,820 bilhões, respectivamente.
O setor de fundos terá a partir de agora de se reinventar, diz Aquiles Mosca, estrategista de investimentos pessoais e superintendente de vendas da Asset Management do Banco Real. "A indústria de fundos terá de criar alternativas para concorrer com os CDBs, pois a bolsa e os multimercados dificilmente vão ganhar a briga com o CDI (o juro interbancário)", avalia.
Mesmo o investidor de varejo tem hoje acesso a CDBs com taxas que antes eram impensáveis. Para se ter idéia, no Unibanco, com R$ 1 mil, o investidor consegue uma taxa de de 100% do CDI após dois anos de aplicação. Para os clientes que têm valores expressivos, alguns bancos de primeira linha chegam a oferecer CDBs com taxas de 103%, 104% do CDI com liquidez diária. Se topar abrir mão da liquidez, o retorno é até maior.
As taxas dos CDBs subiram porque, com o aperto no crédito externo, os bancos tiveram que se voltar para o mercado local para captar recursos. Com a concorrência, as taxas oferecidas aos investidores tiveram de subir. "Fica difícil concorrer com CDB, já que em casos de bancos de primeira linha o risco é baixo, o investidor não vê volatilidade e ainda tem liquidez diária", diz Gustavo Coelho, responsável pela área de alocação da Arsenal Investimentos.
Os fundos multimercados são os que mais tiveram saques no ano, de R$ 44,280 bilhões até novembro. Em seguida, aparecem os renda fixa que podem aplicar em papéis prefixados, com resgates de R$ 38,278 bilhões. "Desde agosto do ano passado, os multimercados não têm apresentado bom desempenho e o investidor vem migrando tanto de fundos mais agressivos quanto de conservadores para os CDBs", diz Rogerio Betti, sócio da Beta Advisors.
As regras tributárias incidentes sobre os rendimentos dos fundos contribuem para os resgates, avalia Marcelo D'Agosto. Isso porque, além do come-cotas, a alíquota de IR varia conforme o prazo de permanência na aplicação, o tipo de fundo e a natureza do investidor (pessoa física, jurídica, fundo de aplicação em cotas ou institucional). "A tendência é de que quem saiu demore para voltar, já que terá de esperar dois anos para ter direito à menor alíquota de imposto (nas outras aplicações)."
Por Luciana Monteiro, de São Paulo
03/12/2008
O mês de novembro termina com mais de R$ 4 bilhões deixando os fundos de investimento, o que eleva os resgates no ano para R$ 46,943 bilhões. Este é o segundo pior desempenho da história do setor no país. As saídas só são menores do que as registradas no episódio da marcação a mercado, em 2002. Na ocasião, os investidores saíram de fundos após se assustarem com perdas em carteiras conservadoras como os DIs. Naquele ano até novembro, R$ 66 bilhões tinham deixado os fundos, volume que subiu para R$ 68 bilhões no fim de dezembro.
Com o desempenho de novembro, o setor de fundos completou o oitavo mês consecutivo de resgates, acumulando saques totais de R$ 85 bilhões no período de abril a novembro de 2008, mostra o relatório semanal do site financeiro Fortuna. Observando-se somente o comportamento do setor entre abril e novembro, os resgates apresentados agora são maiores do que os R$ 69,966 bilhões que deixaram o setor no mesmo período em 2002.
Mas para onde está indo esse dinheiro? Grande parte desses recursos está migrando dos fundos para os Certificados de Depósito Bancários (CDBs), que vêm pagando taxas para lá de atraentes mesmo para aplicações menores. Levantamento do Valor Data com base nos números do Banco Central mostra que os CDBs já captaram R$ 228,330 bilhões no ano até o dia 26. Somente em novembro, R$ 4,634 bilhões ingressaram nessas aplicações até 26.
A onda mais recente de saques, no entanto, vem sendo capitaneada por pequenos e médios empresários, que estão resgatando os recursos de suas aplicações pessoais para capitalizar a empresa. "E não são apenas companhias de pequeno porte, mas grandes empresas também, uma vez que as linhas de financiamento secaram", diz um gestor. Ele conta o exemplo de uma empresa com faturamento anual da ordem de R$ 300 milhões que antes captava recursos pagando cerca de 104% do CDI e hoje esse custo aumentou para 130% do CDI. "Aí, o empresário preferiu tirar o dinheiro da sua conta de pessoa física e colocar na empresa, já que os recursos no fundo não estavam rendendo tanto e a companhia estava com um custo de captação muito caro."
Um outro gestor confirma esse movimento. Ele conta o caso de um investidor dono de uma empresa que abriu o capital durante a onda de lançamento de ações dos últimos dois anos. "A empresa precisa de caixa, o custo de captação estava muito alto e esse investidor resolveu resgatar R$ 450 milhões que estavam aplicados num fundo conservador."
No caso dos resgates apresentados em novembro, é preciso ponderar que boa parte deles pode ser explicada pelo "come-cotas", imposto de renda recolhido semestralmente por fundos das categorias curto prazo, renda fixa, DI e multimercados. Pelas regras, a alíquota de IR é de 15% sobre o rendimento das aplicações.
Os resgates no ano só não são maiores por conta dos fundos de poder público, outros (onde estão os fundos de investimento em direitos creditórios, FIDC), previdência e ações. As carteiras classificadas como poder público, que recebem aplicações só de estados e municípios, registram captação de R$ 23,042 bilhões. Já os FIDCs acumulam ingressos de R$ 10,038 bilhões, mas apenas investidores qualificados (com aplicações acima de R$ 300 mil) podem investir. Os fundos de previdência e de ações, que são abertos para o investidor de varejo, têm captação líquida de R$ 8,207 bilhões e R$ 3,820 bilhões, respectivamente.
O setor de fundos terá a partir de agora de se reinventar, diz Aquiles Mosca, estrategista de investimentos pessoais e superintendente de vendas da Asset Management do Banco Real. "A indústria de fundos terá de criar alternativas para concorrer com os CDBs, pois a bolsa e os multimercados dificilmente vão ganhar a briga com o CDI (o juro interbancário)", avalia.
Mesmo o investidor de varejo tem hoje acesso a CDBs com taxas que antes eram impensáveis. Para se ter idéia, no Unibanco, com R$ 1 mil, o investidor consegue uma taxa de de 100% do CDI após dois anos de aplicação. Para os clientes que têm valores expressivos, alguns bancos de primeira linha chegam a oferecer CDBs com taxas de 103%, 104% do CDI com liquidez diária. Se topar abrir mão da liquidez, o retorno é até maior.
As taxas dos CDBs subiram porque, com o aperto no crédito externo, os bancos tiveram que se voltar para o mercado local para captar recursos. Com a concorrência, as taxas oferecidas aos investidores tiveram de subir. "Fica difícil concorrer com CDB, já que em casos de bancos de primeira linha o risco é baixo, o investidor não vê volatilidade e ainda tem liquidez diária", diz Gustavo Coelho, responsável pela área de alocação da Arsenal Investimentos.
Os fundos multimercados são os que mais tiveram saques no ano, de R$ 44,280 bilhões até novembro. Em seguida, aparecem os renda fixa que podem aplicar em papéis prefixados, com resgates de R$ 38,278 bilhões. "Desde agosto do ano passado, os multimercados não têm apresentado bom desempenho e o investidor vem migrando tanto de fundos mais agressivos quanto de conservadores para os CDBs", diz Rogerio Betti, sócio da Beta Advisors.
As regras tributárias incidentes sobre os rendimentos dos fundos contribuem para os resgates, avalia Marcelo D'Agosto. Isso porque, além do come-cotas, a alíquota de IR varia conforme o prazo de permanência na aplicação, o tipo de fundo e a natureza do investidor (pessoa física, jurídica, fundo de aplicação em cotas ou institucional). "A tendência é de que quem saiu demore para voltar, já que terá de esperar dois anos para ter direito à menor alíquota de imposto (nas outras aplicações)."
segunda-feira, 1 de dezembro de 2008
Descubra seu perfil e comece a investir
Definir qual modalidade de aplicação é a melhor para você é o primeiro passo para fazer seu dinheiro render
FABRÍCIO DE CASTRO, fabricio.castro@grupoestado.com.br
Quando o assunto é o futuro, o educador financeiro Mauro Calil costuma comparar a postura de um investidor com a de um piloto de Fórmula 1. Ambos estão numa corrida, mas nem sempre o primeiro sabe o que está fazendo. “E investir sem conhecimento não é agressividade. É loucura”, adverte o especialista. “É como se um motorista comum pilotasse uma Ferrari.”
No Centro de Estudos e Formação do Patrimônio Calil & Calil, o educador lida com investidores de todos os tipos, de conservadores que adoram a caderneta de poupança a arrojados que preferem a bolsa de valores. “Não tem problema você ser agressivo. Desde que saiba o que está fazendo”, alerta o professor.
Na prática, a postura do investidor depende de seu apetite ao risco, de seu conhecimento sobre o mercado e de sua história de vida. Ao avaliar esses fatores, é possível descobrir seu perfil e aplicar os recursos com mais segurança.
No teste ao lado, feito a pedido do Jornal da Tarde pelo consultor financeiro Paulo Adriano Freitas Borges, é possível pesar os fatores. Ao descobrir seu perfil de investidor, o leitor pode consultar uma carteira sugerida. “Na formulação da carteira, levei em conta a crise econômica”, explica Borges. “Ela é apenas uma sugestão, e suas porcentagens podem até mudar.”
Em períodos de bonança, diz Borges, o arrojado pode aumentar a porcentagem do dinheiro investido em ações para até 50%. “Mas a pessoa precisa saber o que faz. Senão o ato de investir vira um jogo.”
Idade e família
Os jovens podem - e devem - ser mais agressivos, porque têm um longo caminho pela frente. Se perderem dinheiro, ainda há tempo para recuperá-lo.
Pessoas casadas, com filhos e mais velhas, no entanto, precisam de uma dose maior de conservadorismo. Se o dinheiro sumir, pode ser para sempre. “Muitos clientes chegam até mim machucados. Eles sofreram perdas porque não souberam investir”, diz Borges.
Esse desconhecimento provoca o que a consultora Glória Maria Garcia Pereira, autora do livro As Personalidades do Dinheiro, classifica como “efeito de manada”. “Quando a imprensa noticia que a bolsa de valores subiu demais, durante um período seguido, a pessoa embarca. Mas ela entra na bolsa com o mesmo comportamento que tinha ao investir na caderneta de poupança ou em CDBs.”
Na hora da crise, o investidor cai em desespero e acumula prejuízos. O que faltou? Conhecimento.
“Entre os meus clientes, a maioria é moderada. E esse é o perfil mais perigoso”, garante Borges. “A pessoa quer ousar, mas não sabe como. Quer ganhar um pouco mais que a poupança, mas não tem informações.”
De acordo com os consultores, é importante investir com segurança, principalmente quando a meta é arriscar mais. Novamente, isso passa pela educação financeira. “E isso não é a leitura de livros de auto-ajuda”, ressalta Glória. “A pessoa tem que fazer cursos, aprender a lidar com gráficos. Ela tem que buscar informações.”
A INTERNET A SEU FAVOR
O site da AE Investimentos (www.aeinvestimentos.com.br) é uma boa opção para quem busca informações financeiras. O conteúdo inclui notícias sobre o mercado financeiro, matérias especiais sobre investimentos e
simuladores. Com as calculadoras disponíveis, o internauta pode
planejar investimentos e acompanhar o desempenho de vários ativos
As páginas de bancos são outra fonte de informações para os investidores. No site do Itaú (www.itau.com.br), o link de “investimentos” traz vídeos com gestores do banco e chats (bate-papos online) com especialistas. O destaque são os gibis virtuais que ensinam a poupar
No site de investimentos do Bradesco (www.shopinvest.com.br), há um glossário financeiro com dezenas de termos, além de simuladores. Para os clientes, há chats com operadores para esclarecer dúvidas
O site do Banco do Brasil (www.bb.com.br) também oferece glossário e simuladores, além de um curso online de planejamento financeiro pessoal
SAIBA MAIS
CDBs
Os Certificados de Depósitos Bancários são títulos negociados pelos principais bancos. Sua rentabilidade está atrelada ao Certificado de
Depósito Interbancário (CDI) que, por sua vez, acompanha a Selic (a taxa básica de juros)
CADERNETA DE POUPANÇA
Uma das aplicações mais tradicionais no Brasil. Ela é reajustada pela taxa referencial (TR) mais 0,5%. Pelas regras em vigor, quando a TR for negativa, ela passa a ser considerada igual a zero, o que garante um
rendimento mensal de 0,5%
FUNDOS DE RENDA VARIÁVEL
São fundos que investem parte dos ativos em ações (renda variável). Existem vários fundos no mercado, alguns indexados ao Ibovespa - principal índice da Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa). São uma opção para investimentos em ações
FUNDOS DE RENDA FIXA
Jornal da Tarde
01/12/2008
Neste caso, os recursos são investidos em títulos públicos federais (Letras do Tesouro) e ativos de baixo risco de crédito. O investimento do dinheiro em ações (renda variável) e em moedas estrangeiras não é permitido
AÇÕES
Negociadas na Bovespa, correspondem a parcelas de uma empresa. Assim, o investidor que possui ações da Petrobrás, por exemplo, é um sócio da estatal. Os lucros do investidor vêm da variação do preço dos papéis e do pagamento de dividendos
CARTEIRA
O conceito está ligado ao conjunto de títulos, ações e participações em fundos. Ao montar uma carteira, o investidor deve diversificar sua composição. Dessa forma, ele diminui sua exposição ao risco durante as crises
FABRÍCIO DE CASTRO, fabricio.castro@grupoestado.com.br
Quando o assunto é o futuro, o educador financeiro Mauro Calil costuma comparar a postura de um investidor com a de um piloto de Fórmula 1. Ambos estão numa corrida, mas nem sempre o primeiro sabe o que está fazendo. “E investir sem conhecimento não é agressividade. É loucura”, adverte o especialista. “É como se um motorista comum pilotasse uma Ferrari.”
No Centro de Estudos e Formação do Patrimônio Calil & Calil, o educador lida com investidores de todos os tipos, de conservadores que adoram a caderneta de poupança a arrojados que preferem a bolsa de valores. “Não tem problema você ser agressivo. Desde que saiba o que está fazendo”, alerta o professor.
Na prática, a postura do investidor depende de seu apetite ao risco, de seu conhecimento sobre o mercado e de sua história de vida. Ao avaliar esses fatores, é possível descobrir seu perfil e aplicar os recursos com mais segurança.
No teste ao lado, feito a pedido do Jornal da Tarde pelo consultor financeiro Paulo Adriano Freitas Borges, é possível pesar os fatores. Ao descobrir seu perfil de investidor, o leitor pode consultar uma carteira sugerida. “Na formulação da carteira, levei em conta a crise econômica”, explica Borges. “Ela é apenas uma sugestão, e suas porcentagens podem até mudar.”
Em períodos de bonança, diz Borges, o arrojado pode aumentar a porcentagem do dinheiro investido em ações para até 50%. “Mas a pessoa precisa saber o que faz. Senão o ato de investir vira um jogo.”
Idade e família
Os jovens podem - e devem - ser mais agressivos, porque têm um longo caminho pela frente. Se perderem dinheiro, ainda há tempo para recuperá-lo.
Pessoas casadas, com filhos e mais velhas, no entanto, precisam de uma dose maior de conservadorismo. Se o dinheiro sumir, pode ser para sempre. “Muitos clientes chegam até mim machucados. Eles sofreram perdas porque não souberam investir”, diz Borges.
Esse desconhecimento provoca o que a consultora Glória Maria Garcia Pereira, autora do livro As Personalidades do Dinheiro, classifica como “efeito de manada”. “Quando a imprensa noticia que a bolsa de valores subiu demais, durante um período seguido, a pessoa embarca. Mas ela entra na bolsa com o mesmo comportamento que tinha ao investir na caderneta de poupança ou em CDBs.”
Na hora da crise, o investidor cai em desespero e acumula prejuízos. O que faltou? Conhecimento.
“Entre os meus clientes, a maioria é moderada. E esse é o perfil mais perigoso”, garante Borges. “A pessoa quer ousar, mas não sabe como. Quer ganhar um pouco mais que a poupança, mas não tem informações.”
De acordo com os consultores, é importante investir com segurança, principalmente quando a meta é arriscar mais. Novamente, isso passa pela educação financeira. “E isso não é a leitura de livros de auto-ajuda”, ressalta Glória. “A pessoa tem que fazer cursos, aprender a lidar com gráficos. Ela tem que buscar informações.”
A INTERNET A SEU FAVOR
O site da AE Investimentos (www.aeinvestimentos.com.br) é uma boa opção para quem busca informações financeiras. O conteúdo inclui notícias sobre o mercado financeiro, matérias especiais sobre investimentos e
simuladores. Com as calculadoras disponíveis, o internauta pode
planejar investimentos e acompanhar o desempenho de vários ativos
As páginas de bancos são outra fonte de informações para os investidores. No site do Itaú (www.itau.com.br), o link de “investimentos” traz vídeos com gestores do banco e chats (bate-papos online) com especialistas. O destaque são os gibis virtuais que ensinam a poupar
No site de investimentos do Bradesco (www.shopinvest.com.br), há um glossário financeiro com dezenas de termos, além de simuladores. Para os clientes, há chats com operadores para esclarecer dúvidas
O site do Banco do Brasil (www.bb.com.br) também oferece glossário e simuladores, além de um curso online de planejamento financeiro pessoal
SAIBA MAIS
CDBs
Os Certificados de Depósitos Bancários são títulos negociados pelos principais bancos. Sua rentabilidade está atrelada ao Certificado de
Depósito Interbancário (CDI) que, por sua vez, acompanha a Selic (a taxa básica de juros)
CADERNETA DE POUPANÇA
Uma das aplicações mais tradicionais no Brasil. Ela é reajustada pela taxa referencial (TR) mais 0,5%. Pelas regras em vigor, quando a TR for negativa, ela passa a ser considerada igual a zero, o que garante um
rendimento mensal de 0,5%
FUNDOS DE RENDA VARIÁVEL
São fundos que investem parte dos ativos em ações (renda variável). Existem vários fundos no mercado, alguns indexados ao Ibovespa - principal índice da Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa). São uma opção para investimentos em ações
FUNDOS DE RENDA FIXA
Jornal da Tarde
01/12/2008
Neste caso, os recursos são investidos em títulos públicos federais (Letras do Tesouro) e ativos de baixo risco de crédito. O investimento do dinheiro em ações (renda variável) e em moedas estrangeiras não é permitido
AÇÕES
Negociadas na Bovespa, correspondem a parcelas de uma empresa. Assim, o investidor que possui ações da Petrobrás, por exemplo, é um sócio da estatal. Os lucros do investidor vêm da variação do preço dos papéis e do pagamento de dividendos
CARTEIRA
O conceito está ligado ao conjunto de títulos, ações e participações em fundos. Ao montar uma carteira, o investidor deve diversificar sua composição. Dessa forma, ele diminui sua exposição ao risco durante as crises
segunda-feira, 24 de novembro de 2008
Renda fixa com emoção
Valor Econômico
Por Adriana Cotias, de São Paulo
24/11/2008
O mais recente capítulo da crise financeira global originada no "subprime" americano expôs aos investidores um risco bem específico nas aplicações de renda fixa: o de oscilação de preços. Nos fundos, alguns dias com cota negativa. No Tesouro Direto, perdas relevantes, comparáveis aos prejuízos na bolsa. Papéis longos como as Notas do Tesouro Nacional - série F (NTN-F, prefixadas) e as Notas do Tesouro Nacional - série B (NTN-B, indexadas ao IPCA) chegaram a exibir, respectivamente, desvalorizações de 10,62% e 15,60% só em outubro. No ano, as perdas chegam a 7,5% nos títulos vinculados a preços e esbarram nos 6% nos prefixados. Mas o que o aplicador deve fazer ao se deparar com variações de tal proporção? Nada.
Assim como na bolsa, se vender os ativos agora, abaixo do valor adquirido, o investidor transformará o seu prejuízo, que por enquanto é contábil, em perda real. O melhor a fazer é levar os papéis até o vencimento, diz Fernando Marques, da Ativa Corretora. Conforme exemplifica, um aplicador que tenha comprado um lote de Letras do Tesouro Nacional (LTN, prefixadas) com resgate em janeiro de 2010 há seis meses, contratando um retorno na casa dos 13% ao ano, se quiser sair com a taxa atual, de 15%, pode levar para casa menos do que investiu. "Se ficar com os títulos até o final, o pior que pode acontecer é ter realizado um mau negócio", afirma, referindo-se ao chamado custo de oportunidade, de perder a chance de ver o seu dinheiro investido numa alternativa mais promissora.
A troca entre ativos da mesma natureza, continua Marques, só seria justificável se houvesse no horizonte um cenário extremo, como uma maxidesvalorização do real que induzisse o Banco Central (BC) a um choque de juros, tal como em 1999, quando a Selic foi elevada para os 45% ao ano. "Fora isso, o aplicador tem de ter como meta a taxa que aplicou e não as variações no meio do caminho." Substituir um título que está desvalorizado no mercado por outro que passou a pagar mais, apesar de parecer vantajoso, só efetivaria o prejuízo no papel mais antigo, acrescenta o superintendente de Tesouraria do Banco Banif, Rodrigo Trotta. Já trocar um curto que não oscilou tanto por um longo que ficou mais atraente é uma questão de oportunidade que talvez mereça ser avaliada de acordo com o apetite por risco do aplicador.
Nesses tempos de esticada da rentabilidade e recuo de preços, vale até comprar um pouco mais, acredita Marques, da Ativa, para aproveitar a valorização dos papéis ao longo do tempo. Isso porque, se as projeções do mercado se confirmarem, a taxa básica da economia estará em 13,75% ao ano na virada de 2009 para 2010 (boletim Focus, de segunda-feira), abaixo do retorno atual garantido pelos prefixados (15%). Só que o grande risco de "casar" com um título longo e de rentabilidade predefinida é o de liquidez, adverte o superintendente de Investimentos do Banco Real, Eduardo Jurcevic. "Quando um investidor compra um prefixado, é de se esperar que tenha disponibilidade para carregar o papel até o final, caso contrário, se houver um imprevisto, ele fica sujeito aos ajustes do mercado como aqueles que temos observado."
Por essa razão, Jurcevic recomenda os prefixados apenas como alternativa de diversificação. Aquele dinheiro que eventualmente pode ser usado para uma emergência deve estar em Letras Financeiras do Tesouro (LFT, pós-fixadas) ou em Certificados de Depósitos Bancários (CDB) atrelados ao Certificado de Depósito Interfinanceiro (CDI), o juro interbancário. Ele sugere ainda que o investidor pessoa física evite os títulos vinculados ao IPCA, que, por mais interessantes que pareçam em momentos de inflação pressionada, variam em função do indicador e também dos juros implícitos. É uma conta difícil para o aplicador compreender quando recebe o seu extrato mensal.
Deflações por períodos curtos podem gerar desvalorizações em papéis atrelados a preços, mas se o investidor mantiver a aplicação até o resgate não há por que se preocupar com as oscilações diárias em títulos que vencem em 2011, 2015 ou 2024, diz Clodoir Vieira, analista da Souza Barros.. Para ele, garantir agora um juro real (descontada a inflação) em torno de 10% não pode ser encarado como um mau negócio, especialmente porque o investidor do Tesouro Direto terá o governo como credor - em tese com risco zero de não honrar as suas obrigações. Para quem não tem muito coração para ver o seu dinheiro surfar no vaivém do mercado todo mês, as LTN acabam sendo uma opção mais palatável. Isso ocorre porque por mais que as cotações oscilem durante a maturidade do papel, no vencimento, o preço unitário sempre será R$ 1 mil e o retorno do investidor vai depender do preço que ele pagou, explica Vieira.
Um aplicador que tivesse, por exemplo, comprado R$ 10 mil em LTN com resgate em janeiro de 2010 no início de outubro, teria R$ 9,8 mil no dia 27 daquele mesmo mês, um prejuízo teórico que já foi, entretanto, recuperado em novembro. No dia 21, ele somaria ao seu portfólio global R$ 10,02 mil, sem considerar impostos e taxas. Já as NTN-B e NTN-F, que têm um componente de indexação ou pagam juros semestralmente (o chamado cupom), podem ter distorções mais relevantes. Mesmo com a inflação em alta no ano, quem começou 2008 com R$ 10 mil numa NTN-B Principal de 2024 (sem cupom) tem hoje R$ 9,2 mil.
O tombo nos papéis longos foi reflexo da maciça saída de capital externo do Brasil no mês passado. No calor da sucessão de prejuízos financeiros globais desde a quebra do Lehman Brothers e uma iminente recessão global, os estrangeiros venderam ações e renda fixa com igual intensidade. Pelos últimos dados da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), em outubro US$ 7,943 bilhões deixaram o país, um fluxo recorde.
Num momento de crise é melhor privilegiar liquidez e curto prazo, recomenda Trotta, do Banif. Como é difícil para qualquer expert acertar o binômio juros-inflação, em intervalos mais longos de tempo, os pós-fixados são a alternativa segura e que não vão tirar o sono do aplicador qualquer que seja o cenário que desponte para 2009.
Da mesma forma que um fundo de renda fixa tem cota negativa quando os juros futuros sobem e o gestor é obrigado a atualizar os papéis a preços de mercado, os títulos públicos exibem prejuízos momentâneos, explica o executivo responsável por fundos de renda fixa da BB DTVM, Aroldo Medeiros. Tanto num como no outro, a partir dessa marcação, os papéis passam então a render mais. No final, todas as emoções no meio do caminho perdem importância e o aplicador vai embolsar exatamente a taxa que contratou.
Por Adriana Cotias, de São Paulo
24/11/2008
O mais recente capítulo da crise financeira global originada no "subprime" americano expôs aos investidores um risco bem específico nas aplicações de renda fixa: o de oscilação de preços. Nos fundos, alguns dias com cota negativa. No Tesouro Direto, perdas relevantes, comparáveis aos prejuízos na bolsa. Papéis longos como as Notas do Tesouro Nacional - série F (NTN-F, prefixadas) e as Notas do Tesouro Nacional - série B (NTN-B, indexadas ao IPCA) chegaram a exibir, respectivamente, desvalorizações de 10,62% e 15,60% só em outubro. No ano, as perdas chegam a 7,5% nos títulos vinculados a preços e esbarram nos 6% nos prefixados. Mas o que o aplicador deve fazer ao se deparar com variações de tal proporção? Nada.
Assim como na bolsa, se vender os ativos agora, abaixo do valor adquirido, o investidor transformará o seu prejuízo, que por enquanto é contábil, em perda real. O melhor a fazer é levar os papéis até o vencimento, diz Fernando Marques, da Ativa Corretora. Conforme exemplifica, um aplicador que tenha comprado um lote de Letras do Tesouro Nacional (LTN, prefixadas) com resgate em janeiro de 2010 há seis meses, contratando um retorno na casa dos 13% ao ano, se quiser sair com a taxa atual, de 15%, pode levar para casa menos do que investiu. "Se ficar com os títulos até o final, o pior que pode acontecer é ter realizado um mau negócio", afirma, referindo-se ao chamado custo de oportunidade, de perder a chance de ver o seu dinheiro investido numa alternativa mais promissora.
A troca entre ativos da mesma natureza, continua Marques, só seria justificável se houvesse no horizonte um cenário extremo, como uma maxidesvalorização do real que induzisse o Banco Central (BC) a um choque de juros, tal como em 1999, quando a Selic foi elevada para os 45% ao ano. "Fora isso, o aplicador tem de ter como meta a taxa que aplicou e não as variações no meio do caminho." Substituir um título que está desvalorizado no mercado por outro que passou a pagar mais, apesar de parecer vantajoso, só efetivaria o prejuízo no papel mais antigo, acrescenta o superintendente de Tesouraria do Banco Banif, Rodrigo Trotta. Já trocar um curto que não oscilou tanto por um longo que ficou mais atraente é uma questão de oportunidade que talvez mereça ser avaliada de acordo com o apetite por risco do aplicador.
Nesses tempos de esticada da rentabilidade e recuo de preços, vale até comprar um pouco mais, acredita Marques, da Ativa, para aproveitar a valorização dos papéis ao longo do tempo. Isso porque, se as projeções do mercado se confirmarem, a taxa básica da economia estará em 13,75% ao ano na virada de 2009 para 2010 (boletim Focus, de segunda-feira), abaixo do retorno atual garantido pelos prefixados (15%). Só que o grande risco de "casar" com um título longo e de rentabilidade predefinida é o de liquidez, adverte o superintendente de Investimentos do Banco Real, Eduardo Jurcevic. "Quando um investidor compra um prefixado, é de se esperar que tenha disponibilidade para carregar o papel até o final, caso contrário, se houver um imprevisto, ele fica sujeito aos ajustes do mercado como aqueles que temos observado."
Por essa razão, Jurcevic recomenda os prefixados apenas como alternativa de diversificação. Aquele dinheiro que eventualmente pode ser usado para uma emergência deve estar em Letras Financeiras do Tesouro (LFT, pós-fixadas) ou em Certificados de Depósitos Bancários (CDB) atrelados ao Certificado de Depósito Interfinanceiro (CDI), o juro interbancário. Ele sugere ainda que o investidor pessoa física evite os títulos vinculados ao IPCA, que, por mais interessantes que pareçam em momentos de inflação pressionada, variam em função do indicador e também dos juros implícitos. É uma conta difícil para o aplicador compreender quando recebe o seu extrato mensal.
Deflações por períodos curtos podem gerar desvalorizações em papéis atrelados a preços, mas se o investidor mantiver a aplicação até o resgate não há por que se preocupar com as oscilações diárias em títulos que vencem em 2011, 2015 ou 2024, diz Clodoir Vieira, analista da Souza Barros.. Para ele, garantir agora um juro real (descontada a inflação) em torno de 10% não pode ser encarado como um mau negócio, especialmente porque o investidor do Tesouro Direto terá o governo como credor - em tese com risco zero de não honrar as suas obrigações. Para quem não tem muito coração para ver o seu dinheiro surfar no vaivém do mercado todo mês, as LTN acabam sendo uma opção mais palatável. Isso ocorre porque por mais que as cotações oscilem durante a maturidade do papel, no vencimento, o preço unitário sempre será R$ 1 mil e o retorno do investidor vai depender do preço que ele pagou, explica Vieira.
Um aplicador que tivesse, por exemplo, comprado R$ 10 mil em LTN com resgate em janeiro de 2010 no início de outubro, teria R$ 9,8 mil no dia 27 daquele mesmo mês, um prejuízo teórico que já foi, entretanto, recuperado em novembro. No dia 21, ele somaria ao seu portfólio global R$ 10,02 mil, sem considerar impostos e taxas. Já as NTN-B e NTN-F, que têm um componente de indexação ou pagam juros semestralmente (o chamado cupom), podem ter distorções mais relevantes. Mesmo com a inflação em alta no ano, quem começou 2008 com R$ 10 mil numa NTN-B Principal de 2024 (sem cupom) tem hoje R$ 9,2 mil.
O tombo nos papéis longos foi reflexo da maciça saída de capital externo do Brasil no mês passado. No calor da sucessão de prejuízos financeiros globais desde a quebra do Lehman Brothers e uma iminente recessão global, os estrangeiros venderam ações e renda fixa com igual intensidade. Pelos últimos dados da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), em outubro US$ 7,943 bilhões deixaram o país, um fluxo recorde.
Num momento de crise é melhor privilegiar liquidez e curto prazo, recomenda Trotta, do Banif. Como é difícil para qualquer expert acertar o binômio juros-inflação, em intervalos mais longos de tempo, os pós-fixados são a alternativa segura e que não vão tirar o sono do aplicador qualquer que seja o cenário que desponte para 2009.
Da mesma forma que um fundo de renda fixa tem cota negativa quando os juros futuros sobem e o gestor é obrigado a atualizar os papéis a preços de mercado, os títulos públicos exibem prejuízos momentâneos, explica o executivo responsável por fundos de renda fixa da BB DTVM, Aroldo Medeiros. Tanto num como no outro, a partir dessa marcação, os papéis passam então a render mais. No final, todas as emoções no meio do caminho perdem importância e o aplicador vai embolsar exatamente a taxa que contratou.
quarta-feira, 19 de novembro de 2008
A multiplicação do risco
Valor Econômico
Por Angelo Pavini, de São Paulo
19/11/2008
"Dêem-me uma alavanca e um ponto de apoio e moverei o mundo", dizia o cientista e matemático grego Arquimedes. No Brasil, os gestores alavancados conseguem fazer isso e muito mais. A alavancagem na gestão de recursos é como veneno, dependendo da dose, pode ser remédio ou matar. A observação de Dorio Ferman, da Opportunity Asset Management, é uma boa forma de olhar para a estratégia de assumir riscos acima dos valores que se tem e que pode, no limite, levar o investidor a perder tudo e ainda ter de colocar mais dinheiro no fundo para cobrir eventuais dívidas. Mas a maneira sábia de usar essa estratégia - ou não usá-la no momento certo - pode trazer lucros imensos.
O problema é que, em momentos como o atual, em que a maioria dos gestores perde, os alavancados sofrem mais e acabam no centro das atenções. Poucos reparam, no entanto, que essa mesma estratégia deu ganhos também enormes no passado, atraindo vários investidores. Mesmo hoje alguns gestores conseguem usar a estratégia a seu favor em meio à crise.
A alavancagem nada mais é que a capacidade de assumir posições grandes com valores pequenos. É o caso, por exemplo, quando o gestor compra ou vende um contrato futuro de dólar, juros ou Ibovespa e se compromete a pagar ou receber a variação de centenas de milhões de reais desse ativo diariamente, dando apenas alguns milhões de reais como garantia. Com isso, a alavancagem amplifica a variação dos ativos em várias vezes.
Em geral, a alavancagem é mais comum em fundos multimercados. Mas, neste ano, o assunto entrou no radar por conta do fundo de ações GWI FIA, que teve fortes perdas com a queda da bolsa, a ponto de a gestora fechar a carteira para resgates e verificar se os investidores queriam seguir a viagem com ele ou trocar o condutor. Até dia 13, o fundo perdia 95,61% no ano. Em 2007, esse mesmo fundo rendeu 90,30%. Os cotistas decidiram manter o gestor e reabrir a carteira para resgates dia 16 de dezembro. Procurada, a GWI não quiser falar sobre suas carteiras.
Mas, antes do GWI, outros casos de fundos alavancados tiveram resultados mais graves, lembra Marcia Dessen, da consultoria Bank-risk. "Tivemos o caso dos fundos do antigo Banco Boavista que, quando o real passou a flutuar, em 1999, perderam mais que o patrimônio". No fim, o banco acabou assumindo a dívida dos cotistas - o que levou, inclusive, o Banco Central a criar uma regra proibindo esse tipo de socorro. "Hoje, o patrimônio do fundo é totalmente separado do do banco e o investidor é responsável pelas perdas."
Apesar de os fundos que correm mais riscos que o patrimônio trazerem no nome a palavra "alavancado", muitos investidores não reparam nisso. E não é obrigatório que um fundo que pode fazer alavancagem esteja sempre alavancado, lembra Luiz Carlos Simão, da Brascan Gestão de Ativos. "Desde que a crise piorou, em junho, paramos de alavancar as carteiras e passamos a aproveitar a volatilidade dos mercados para ganhar". Segundo ele, com a forte oscilação dos mercados, uma pequena aplicação do fundo já pode trazer um grande ganho - ou uma grande perda -, sem a necessidade de alavancagem. A abstinência deu resultado: o Brascan Superior Hedge II e Brascan Superior Diferencial 30, que têm ganhos de 23,45% e 15,38% no ano até dia 13, respectivamente, para um CDI de 10,55% no período.
Outra gestora com histórico de trabalhar alavancada é a Sparta, especializada em commodities, diz o sócio Ulisses Nehmi. "Trabalhamos em 14 mercados diferentes, com 10% do patrimônio em um, 20% em outro, e acabamos ficando com posições acima do nosso patrimônio." O fundo chegou a ficar com até 100% do patrimônio alavancado em um único mercado. "Mas agora estamos trabalhando com uma alavancagem reduzida, para procurar resultados aproveitando a oscilação maior", diz.
Nehmi lembra que o impacto da alavancagem varia de acordo com o mercado. "Em euros, por exemplo, a oscilação é de 1%, 2% e dá para alavancar mais, mas na bolsa, oscilando quase 10% em um só dia, ter 100% de alavancagem do patrimônio é criminoso", diz. Ele admite que os fundos da Sparta têm oscilação alta, em torno de 50% ao ano. "Mesmo reduzindo a alavancagem, continuamos oscilando bastante por conta da volatilidade do mercado." As carteiras da Sparta perderam um pouco com o recuo das commodities na crise, mas ganharam protegendo a carteira de ações. A carteira Sparta Cíclico acumula no ano 145,44%.
Outro fundo agressivo é o Fator Hedge Absoluto. Apesar de poder alavancar em qualquer mercado, o gestor controla o risco com um limite de oscilação, o Value at Risk, ou VaR. "O fundo pode perder no máximo 5% em um dia, se passar disso, reduz as posições", explica Roseli Machado, da Fator Administração de Recursos. Dessa forma, se o mercado está muito instável, o controle de risco automaticamente reduz ou até zera a alavancagem.
Entre os multimercados alavancados, merece destaque a família Midi, do Opportunity. Os fundos Midi e Midi 90 são, de longe, os de maior risco da categoria, com possibilidade de variar mais de 100% para cima ou para baixo em relação à média histórica, segundo dados do site Fortuna. Mas, ainda assim, eles não correm risco de perder mais do que possuem, diz Dorio Ferman. Os fundos têm 70% da carteira em ações e usam os 30% restantes para operar com derivativos em câmbio, juros e opções. "Mas nós só arriscamos a parcela que sobra das ações", diz Ferman. Isso significa que, no pior cenário, o fundo perderia 30%. "E sobraria ainda a parcela em ações, que sempre vale alguma coisa."
A maioria dos multimercados diz que pode usar alavancagem, mas normalmente o gestor usa só uma parcela do limite que possui. Há ainda a possibilidade de um gestor que não usa alavancagem resolver usar. "No caso de uma mudança do gestor, o histórico do fundo pode não valer mais nada", diz Marcia, da Bankrisk.
Como o cotista pode saber antes de entrar? Ele deve ler o prospecto e o regulamento com muita atenção, par ver se usa alavancagem ou não, e em que mercados, se tem política de "stop loss" (limite de perda) e testes de estresse. "É preciso ver isso porque o risco está sempre de plantão", diz Marcia.
Por Angelo Pavini, de São Paulo
19/11/2008
"Dêem-me uma alavanca e um ponto de apoio e moverei o mundo", dizia o cientista e matemático grego Arquimedes. No Brasil, os gestores alavancados conseguem fazer isso e muito mais. A alavancagem na gestão de recursos é como veneno, dependendo da dose, pode ser remédio ou matar. A observação de Dorio Ferman, da Opportunity Asset Management, é uma boa forma de olhar para a estratégia de assumir riscos acima dos valores que se tem e que pode, no limite, levar o investidor a perder tudo e ainda ter de colocar mais dinheiro no fundo para cobrir eventuais dívidas. Mas a maneira sábia de usar essa estratégia - ou não usá-la no momento certo - pode trazer lucros imensos.
O problema é que, em momentos como o atual, em que a maioria dos gestores perde, os alavancados sofrem mais e acabam no centro das atenções. Poucos reparam, no entanto, que essa mesma estratégia deu ganhos também enormes no passado, atraindo vários investidores. Mesmo hoje alguns gestores conseguem usar a estratégia a seu favor em meio à crise.
A alavancagem nada mais é que a capacidade de assumir posições grandes com valores pequenos. É o caso, por exemplo, quando o gestor compra ou vende um contrato futuro de dólar, juros ou Ibovespa e se compromete a pagar ou receber a variação de centenas de milhões de reais desse ativo diariamente, dando apenas alguns milhões de reais como garantia. Com isso, a alavancagem amplifica a variação dos ativos em várias vezes.
Em geral, a alavancagem é mais comum em fundos multimercados. Mas, neste ano, o assunto entrou no radar por conta do fundo de ações GWI FIA, que teve fortes perdas com a queda da bolsa, a ponto de a gestora fechar a carteira para resgates e verificar se os investidores queriam seguir a viagem com ele ou trocar o condutor. Até dia 13, o fundo perdia 95,61% no ano. Em 2007, esse mesmo fundo rendeu 90,30%. Os cotistas decidiram manter o gestor e reabrir a carteira para resgates dia 16 de dezembro. Procurada, a GWI não quiser falar sobre suas carteiras.
Mas, antes do GWI, outros casos de fundos alavancados tiveram resultados mais graves, lembra Marcia Dessen, da consultoria Bank-risk. "Tivemos o caso dos fundos do antigo Banco Boavista que, quando o real passou a flutuar, em 1999, perderam mais que o patrimônio". No fim, o banco acabou assumindo a dívida dos cotistas - o que levou, inclusive, o Banco Central a criar uma regra proibindo esse tipo de socorro. "Hoje, o patrimônio do fundo é totalmente separado do do banco e o investidor é responsável pelas perdas."
Apesar de os fundos que correm mais riscos que o patrimônio trazerem no nome a palavra "alavancado", muitos investidores não reparam nisso. E não é obrigatório que um fundo que pode fazer alavancagem esteja sempre alavancado, lembra Luiz Carlos Simão, da Brascan Gestão de Ativos. "Desde que a crise piorou, em junho, paramos de alavancar as carteiras e passamos a aproveitar a volatilidade dos mercados para ganhar". Segundo ele, com a forte oscilação dos mercados, uma pequena aplicação do fundo já pode trazer um grande ganho - ou uma grande perda -, sem a necessidade de alavancagem. A abstinência deu resultado: o Brascan Superior Hedge II e Brascan Superior Diferencial 30, que têm ganhos de 23,45% e 15,38% no ano até dia 13, respectivamente, para um CDI de 10,55% no período.
Outra gestora com histórico de trabalhar alavancada é a Sparta, especializada em commodities, diz o sócio Ulisses Nehmi. "Trabalhamos em 14 mercados diferentes, com 10% do patrimônio em um, 20% em outro, e acabamos ficando com posições acima do nosso patrimônio." O fundo chegou a ficar com até 100% do patrimônio alavancado em um único mercado. "Mas agora estamos trabalhando com uma alavancagem reduzida, para procurar resultados aproveitando a oscilação maior", diz.
Nehmi lembra que o impacto da alavancagem varia de acordo com o mercado. "Em euros, por exemplo, a oscilação é de 1%, 2% e dá para alavancar mais, mas na bolsa, oscilando quase 10% em um só dia, ter 100% de alavancagem do patrimônio é criminoso", diz. Ele admite que os fundos da Sparta têm oscilação alta, em torno de 50% ao ano. "Mesmo reduzindo a alavancagem, continuamos oscilando bastante por conta da volatilidade do mercado." As carteiras da Sparta perderam um pouco com o recuo das commodities na crise, mas ganharam protegendo a carteira de ações. A carteira Sparta Cíclico acumula no ano 145,44%.
Outro fundo agressivo é o Fator Hedge Absoluto. Apesar de poder alavancar em qualquer mercado, o gestor controla o risco com um limite de oscilação, o Value at Risk, ou VaR. "O fundo pode perder no máximo 5% em um dia, se passar disso, reduz as posições", explica Roseli Machado, da Fator Administração de Recursos. Dessa forma, se o mercado está muito instável, o controle de risco automaticamente reduz ou até zera a alavancagem.
Entre os multimercados alavancados, merece destaque a família Midi, do Opportunity. Os fundos Midi e Midi 90 são, de longe, os de maior risco da categoria, com possibilidade de variar mais de 100% para cima ou para baixo em relação à média histórica, segundo dados do site Fortuna. Mas, ainda assim, eles não correm risco de perder mais do que possuem, diz Dorio Ferman. Os fundos têm 70% da carteira em ações e usam os 30% restantes para operar com derivativos em câmbio, juros e opções. "Mas nós só arriscamos a parcela que sobra das ações", diz Ferman. Isso significa que, no pior cenário, o fundo perderia 30%. "E sobraria ainda a parcela em ações, que sempre vale alguma coisa."
A maioria dos multimercados diz que pode usar alavancagem, mas normalmente o gestor usa só uma parcela do limite que possui. Há ainda a possibilidade de um gestor que não usa alavancagem resolver usar. "No caso de uma mudança do gestor, o histórico do fundo pode não valer mais nada", diz Marcia, da Bankrisk.
Como o cotista pode saber antes de entrar? Ele deve ler o prospecto e o regulamento com muita atenção, par ver se usa alavancagem ou não, e em que mercados, se tem política de "stop loss" (limite de perda) e testes de estresse. "É preciso ver isso porque o risco está sempre de plantão", diz Marcia.
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