Valor Econômico
Por Catherine Vieira e Angelo Pavini,, do Rio e de São Paulo
19/03/2009
Ricardo Benichio / Valor
Carlos Kawall, diretor financeiro da BM&FBovespa: Tesouro Direto não é oferecido ativamente para o varejo
O Tesouro Direto, que permite aos investidores individuais comprar títulos do governo pela internet, pode ficar mais próximo dos investidores que aplicam em ações por meio do home broker, sistema eletrônico de negociação da BM&FBovespa. A ideia, diz André Proite, gerente de relações institucionais do Tesouro, é oferecer para as corretoras a possibilidade de ter, no próprio home broker, o sistema de negociação do Tesouro Direto.
Uma outra iniciativa, que pode aproximar investidores dos dois sistemas, é incluir nas apresentações educativas do "Bovespa vai até você" as informações sobre a compra de títulos públicos pelo Tesouro Direto.
De acordo com Proite, a possibilidade de ter a negociação de títulos públicos no home broker ainda deverá passar pela decisão das corretoras associadas, até porque haveria uma necessidade de investimento, para poder fazer a integração das plataformas de negócios. "Estamos com uma agenda bem positiva com a BM&FBovespa e muito animados com as possibilidades de parcerias produtivas para os dois lados", disse Proite.
Apesar de ser muito bom para o investidor de varejo, o sistema do Tesouro Direto não é oferecido ativamente para esse aplicador, afirmou Carlos Kawall, diretor financeiro da BM&FBovespa durante a apresentação dos resultados da bolsa ontem. A parceria com o Tesouro é um dos projetos para ampliar a atuação da bolsa junto ao varejo. "O investidor que compra ações via home broker não consegue acessar o Tesouro Direto no mesmo ambiente, tem de sair do site da corretora e entrar no do Tesouro Nacional com outro cadastro e senha", afirma. Kawall, que foi secretário do Tesouro Nacional e um entusiasta do Tesouro Direto, diz que esse processo complicado acaba levando o investidor a diversificar suas aplicações em fundos, cuja aplicação é facilitada pelos bancos.
Segundo Kawall, as corretoras sempre demonstraram interesse em dar acesso mais fácil ao Tesouro Direto via home broker, o que será possível com essa parceria entre a bolsa e o Tesouro.
Na avaliação de Proite, do Tesouro, a possibilidade de ter na mesma tela os dois sistemas de negociação - de ações e títulos públicos - seria interessante para todos. "Em épocas que um mercado fica menos interessante, o investidor pode aplicar em outro tipo de coisa sem ter que passar por outra instituição ou tela", diz ele.
A inclusão das informações sobre o Tesouro Direto nas apresentações da bolsa também é uma aposta para aumentar a popularização do sistema, na visão de Proite. A instituição vem buscando sempre novas maneiras de acessar novos investidores.
Recentemente, a partir de pesquisas com os clientes, optou-se por reduzir o número de vencimentos disponíveis de 24 para 15. A iniciativa, diz o gerente, é para facilitar o entendimento, já que alguns investidores ficavam confusos com a grande quantidade de papéis. Proite também diz que a ideia agora é ter sempre uma LTN (título de juro prefixado) com prazo de três anos disponível. Outra iniciativa é a redução dos custos para atrair mais investidores.
O Tesouro Direto atingiu em janeiro um estoque total de R$ 2,5 bilhões. O mês recorde foi em outubro do ano passado. Os dados do mês de fevereiro estão previstos para sair hoje
quinta-feira, 19 de março de 2009
quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009
Maré baixa na bolsa
Valor Econômico
Por Daniele Camba, da Praia do Embaré, em Santos
04/02/2009
No dia 25 de janeiro de 2008, o comerciante português aposentado Luiz de Jesus Fernandes estava feliz da vida. Ele tinha R$ 5,2 milhões aplicados em grandes papéis da Bovespa, como Petrobras, Vale e Banco do Brasil. Exatamente um ano depois, no dia 25 da janeiro deste ano, Seu Luiz, como é conhecido na Praia do Embaré, em Santos, onde mora há muitos anos, tinha R$ 2,3 milhões. Em apenas um ano, ele perdeu quase R$ 3 milhões. Seu Luiz é o exemplo de como a crise internacional, que passou pelo mercado como um tsunami em 2008, deixou muitos investidores - boa parte deles de primeira viagem - bastante machucados.
A reportagem do Valor foi à Santos acompanhar a campanha da bolsa para conquistar novos investidores, batizada de "BM&FBovespa vai à praia". E, assim como em 2008, lá estava Seu Luiz, visitando o furgão da Bovespa. Apesar das perdas milionárias - no caso dele, sem nenhum exagero -, ele mantém o sangue frio. "No começo fiquei viciado, acompanhava a bolsa todos os dias", lembrou. "Agora nem olho, sei que no longo prazo terei muito mais do que apliquei", completou, sorridente.
Grande parte das pessoas, porém, não parece ter o mesmo estômago para o risco que tem Seu Luiz. A reação foi bem diferente da que se viu em janeiro de 2008. Não é para menos. Naquele começo de ano, os investidores ainda comemoravam a alta de 43,65% do Índice Bovespa em 2007. Era o quinto ano de alta consecutiva da bolsa, algo que jamais havia ocorrido. Nesta temporada, porém, a lembrança é da queda de 41,22% do indicador em 2008.
Havia uma quantidade muito menor de banhistas disposta a trocar alguns minutos de sol e areia para ouvir as explicações sobre o mercado dadas pelos representantes da Bovespa e de uma corretora convidada para o evento. Alguns paravam no furgão azul, conhecido como "Bovmóvel", estacionado na avenida da praia, atraídos muito mais pela massagem gratuita oferecida pela bolsa. "Não entendo direito sobre bolsa, mas sei que isso é coisa para gente rica, que pode perder dinheiro porque tem muito, estou aqui esperando a minha vez para fazer a massagem e dar uma relaxada", disse a dona-de-casa Laura, que preferiu não dar seu sobrenome.
O aparato montado pela bolsa também sofreu com a concorrência de uma van, parada logo ao lado, distribuindo gratuitamente revistas encalhadas de edições passadas. Em vários momentos durante o domingo ensolarado, havia fila para pegar as revistas, enquanto os representantes da bolsa conversavam entre eles, à espera de consultas.
De forma geral, quem parava no furgão nunca investiu em ações e estava bastante assustado com a crise financeira internacional. Muitos procuravam entender como os problemas no setor imobiliário americano se alastraram pelo mundo, atingindo tanto as economias quanto os mercados de todos os países.
"Essa crise é totalmente importada, fala inglês, mesmo assim nós aqui no Brasil pagamos o pato", analisou o autônomo Wesley Vasni. Ele mostrava preocupação com o fato de os R$ 900 do FGTS que aplicou nas ações da Vale, e que chegaram a ser R$ 12 mil, se resumirem agora a menos de R$ 5 mil. "Se eu soubesse que o Bush (ex-presidente dos Estados Unidos, George W. Bush) ia dar tanto trabalho pra gente, tinha tirado o dinheiro antes."
O dentista Angelo Alessi estava indignado com a "irresponsabilidade" do gerente da agência onde tem conta. Por várias vezes no início desta crise, Alessi o questionou se não era melhor tirar parte do dinheiro que está aplicado em ações para colocar num fundo de renda fixa. "Ele insistiu que eu não deveria fazer isso, que aquelas quedas eram passageiras", disse Alessi. "Agora eu perdi um dinheirão e ainda por cima fiz a minha mulher tirar o que ela tinha na poupança para aplicar na bolsa", contou o dentista, bastante bravo.
Não bastasse a crise, alguns se mostram assustados e confusos com outros problemas que apareceram no mercado recentemente. Ao ser abordado por um dos representantes da BM&FBovespa, o engenheiro Fábio, que preferiu não dar seu sobrenome, disse que bolsa é uma especulação perigosa, "prova disso são os enormes prejuízos que o Madoff causou para muitos investidores". Ele estava se referindo ao americano Bernard Madoff, ex-presidente da bolsa americana Nasdaq, que causou perdas avaliadas em cerca de US$ 50 bilhões para milhares de investidores que aplicavam em seu fundo de investimento. "Por isso que é muito mais seguro investir em imóveis, que a gente vê e sabe que estão ali, do que em coisas que não se enxerga e que podem desaparecer da noite para o dia", definiu Fábio.
O engenheiro fez, porém, uma confusão, uma vez que os prejuízos de Madoff são resultado de uma fraude, num esquema de pirâmide financeira, e que nada têm a ver com bolsa. Em suas abordagens, Claudemir Cunha da Lerosa Corretora, tentava acalmar os banhistas, dizendo que a crise está no meio do caminho, que o pior já pode ter passado e agora que as ações estão superdepreciadas é a hora certa de entrar na bolsa. "Para se certificar que você vai comprar as ações a um preço bom, aplica um terço agora, um terço daqui dois meses e o um terço restante daqui quatro meses", aconselhou Cunha a diversas pessoas.
Para convencer que bolsa é o melhor negócio no longo prazo, Cunha também tinha uma história na ponta da língua, segundo ele, verídica. Em 1981, dois irmãos tinham o equivalente a R$ 5 mil cada um. Um deles comprou um carro último tipo que hoje, se ainda existe, não vale mais nada. O outro investiu o dinheiro todo em ações de um grande banco e os R$ 5 mil hoje são R$ 254 mil, contava Cunha aos banhistas.
Pelas estimativas do executivo, apenas 20% das pessoas que paravam no "Bovmóvel" queriam se queixar da crise e da queda da bolsa. Outros 30% estavam em busca de algum tipo de aconselhamento financeiro e os 50% restantes queriam mais informações de como investir em ações.
Esse era o exemplo do casal Marcelo Vieira Severino, supervisor de navegação, e a administradora Ariane Guarnier Liboni. Depois de ver vários amigos investindo na bolsa, eles estavam interessados em fazer o mesmo. "Alguns perdem, outros ganham, mas de forma geral, no longo prazo, eles conseguiram ter mais dinheiro com ações do que se tivessem aplicado em outro investimento", disse Severino, que estava bastante interessado em resgatar o dinheiro que tem na poupança para colocar na Bovespa.
Verdi Rosa Monteiro, diretor de Fomento de Negócios da BM&FBovespa, reconhece que a crise reduziu o interesse das pessoas pela bolsa. Na versão deste ano do "BM&FBovespa vai à praia" há uma média de 300 pessoas por fim de semana, enquanto na campanha dos anos anteriores o número chegava a 2 mil. "É evidente que a crise mudou a percepção das pessoas sobre o mercado", reconhece Monteiro. "No entanto, quem entrou na bolsa sabendo dos riscos, e não porque o amigo estava ganhando dinheiro, sabe que o mercado é assim e uma hora vai se recuperar."
Ele também atribui essa queda de frequentadores a uma mudança no programa "BM&FBovespa vai à praia". Antes, as pessoas eram atraídas por vários sorteios, como viagens. Agora há somente a massagem gratuita. Quem se aproxima é para saber sobre bolsa e fazer um cadastro com o objetivo de receber informações adicionais sobre o mercado. "Como não existe mais promoção, os 300 banhistas são muito mais investidores potenciais do que os 2 mil de antes", disse Monteiro.
Ele lembra que, das 2 mil pessoas por fim de semana dos anos anteriores, entre 15% e 20% faziam cadastro com a corretora, mas apenas 8% dentro desse intervalo (entre 24 e 32 pessoas) de fato se transformavam em investidores de bolsa. Já neste novo formato do programa, a meta, segundo Monteiro, é conseguir que cerca de 25% dos 300 banhistas por fim de semana passem a aplicar em ações, ou seja, 75 pessoas.
Por Daniele Camba, da Praia do Embaré, em Santos
04/02/2009
No dia 25 de janeiro de 2008, o comerciante português aposentado Luiz de Jesus Fernandes estava feliz da vida. Ele tinha R$ 5,2 milhões aplicados em grandes papéis da Bovespa, como Petrobras, Vale e Banco do Brasil. Exatamente um ano depois, no dia 25 da janeiro deste ano, Seu Luiz, como é conhecido na Praia do Embaré, em Santos, onde mora há muitos anos, tinha R$ 2,3 milhões. Em apenas um ano, ele perdeu quase R$ 3 milhões. Seu Luiz é o exemplo de como a crise internacional, que passou pelo mercado como um tsunami em 2008, deixou muitos investidores - boa parte deles de primeira viagem - bastante machucados.
A reportagem do Valor foi à Santos acompanhar a campanha da bolsa para conquistar novos investidores, batizada de "BM&FBovespa vai à praia". E, assim como em 2008, lá estava Seu Luiz, visitando o furgão da Bovespa. Apesar das perdas milionárias - no caso dele, sem nenhum exagero -, ele mantém o sangue frio. "No começo fiquei viciado, acompanhava a bolsa todos os dias", lembrou. "Agora nem olho, sei que no longo prazo terei muito mais do que apliquei", completou, sorridente.
Grande parte das pessoas, porém, não parece ter o mesmo estômago para o risco que tem Seu Luiz. A reação foi bem diferente da que se viu em janeiro de 2008. Não é para menos. Naquele começo de ano, os investidores ainda comemoravam a alta de 43,65% do Índice Bovespa em 2007. Era o quinto ano de alta consecutiva da bolsa, algo que jamais havia ocorrido. Nesta temporada, porém, a lembrança é da queda de 41,22% do indicador em 2008.
Havia uma quantidade muito menor de banhistas disposta a trocar alguns minutos de sol e areia para ouvir as explicações sobre o mercado dadas pelos representantes da Bovespa e de uma corretora convidada para o evento. Alguns paravam no furgão azul, conhecido como "Bovmóvel", estacionado na avenida da praia, atraídos muito mais pela massagem gratuita oferecida pela bolsa. "Não entendo direito sobre bolsa, mas sei que isso é coisa para gente rica, que pode perder dinheiro porque tem muito, estou aqui esperando a minha vez para fazer a massagem e dar uma relaxada", disse a dona-de-casa Laura, que preferiu não dar seu sobrenome.
O aparato montado pela bolsa também sofreu com a concorrência de uma van, parada logo ao lado, distribuindo gratuitamente revistas encalhadas de edições passadas. Em vários momentos durante o domingo ensolarado, havia fila para pegar as revistas, enquanto os representantes da bolsa conversavam entre eles, à espera de consultas.
De forma geral, quem parava no furgão nunca investiu em ações e estava bastante assustado com a crise financeira internacional. Muitos procuravam entender como os problemas no setor imobiliário americano se alastraram pelo mundo, atingindo tanto as economias quanto os mercados de todos os países.
"Essa crise é totalmente importada, fala inglês, mesmo assim nós aqui no Brasil pagamos o pato", analisou o autônomo Wesley Vasni. Ele mostrava preocupação com o fato de os R$ 900 do FGTS que aplicou nas ações da Vale, e que chegaram a ser R$ 12 mil, se resumirem agora a menos de R$ 5 mil. "Se eu soubesse que o Bush (ex-presidente dos Estados Unidos, George W. Bush) ia dar tanto trabalho pra gente, tinha tirado o dinheiro antes."
O dentista Angelo Alessi estava indignado com a "irresponsabilidade" do gerente da agência onde tem conta. Por várias vezes no início desta crise, Alessi o questionou se não era melhor tirar parte do dinheiro que está aplicado em ações para colocar num fundo de renda fixa. "Ele insistiu que eu não deveria fazer isso, que aquelas quedas eram passageiras", disse Alessi. "Agora eu perdi um dinheirão e ainda por cima fiz a minha mulher tirar o que ela tinha na poupança para aplicar na bolsa", contou o dentista, bastante bravo.
Não bastasse a crise, alguns se mostram assustados e confusos com outros problemas que apareceram no mercado recentemente. Ao ser abordado por um dos representantes da BM&FBovespa, o engenheiro Fábio, que preferiu não dar seu sobrenome, disse que bolsa é uma especulação perigosa, "prova disso são os enormes prejuízos que o Madoff causou para muitos investidores". Ele estava se referindo ao americano Bernard Madoff, ex-presidente da bolsa americana Nasdaq, que causou perdas avaliadas em cerca de US$ 50 bilhões para milhares de investidores que aplicavam em seu fundo de investimento. "Por isso que é muito mais seguro investir em imóveis, que a gente vê e sabe que estão ali, do que em coisas que não se enxerga e que podem desaparecer da noite para o dia", definiu Fábio.
O engenheiro fez, porém, uma confusão, uma vez que os prejuízos de Madoff são resultado de uma fraude, num esquema de pirâmide financeira, e que nada têm a ver com bolsa. Em suas abordagens, Claudemir Cunha da Lerosa Corretora, tentava acalmar os banhistas, dizendo que a crise está no meio do caminho, que o pior já pode ter passado e agora que as ações estão superdepreciadas é a hora certa de entrar na bolsa. "Para se certificar que você vai comprar as ações a um preço bom, aplica um terço agora, um terço daqui dois meses e o um terço restante daqui quatro meses", aconselhou Cunha a diversas pessoas.
Para convencer que bolsa é o melhor negócio no longo prazo, Cunha também tinha uma história na ponta da língua, segundo ele, verídica. Em 1981, dois irmãos tinham o equivalente a R$ 5 mil cada um. Um deles comprou um carro último tipo que hoje, se ainda existe, não vale mais nada. O outro investiu o dinheiro todo em ações de um grande banco e os R$ 5 mil hoje são R$ 254 mil, contava Cunha aos banhistas.
Pelas estimativas do executivo, apenas 20% das pessoas que paravam no "Bovmóvel" queriam se queixar da crise e da queda da bolsa. Outros 30% estavam em busca de algum tipo de aconselhamento financeiro e os 50% restantes queriam mais informações de como investir em ações.
Esse era o exemplo do casal Marcelo Vieira Severino, supervisor de navegação, e a administradora Ariane Guarnier Liboni. Depois de ver vários amigos investindo na bolsa, eles estavam interessados em fazer o mesmo. "Alguns perdem, outros ganham, mas de forma geral, no longo prazo, eles conseguiram ter mais dinheiro com ações do que se tivessem aplicado em outro investimento", disse Severino, que estava bastante interessado em resgatar o dinheiro que tem na poupança para colocar na Bovespa.
Verdi Rosa Monteiro, diretor de Fomento de Negócios da BM&FBovespa, reconhece que a crise reduziu o interesse das pessoas pela bolsa. Na versão deste ano do "BM&FBovespa vai à praia" há uma média de 300 pessoas por fim de semana, enquanto na campanha dos anos anteriores o número chegava a 2 mil. "É evidente que a crise mudou a percepção das pessoas sobre o mercado", reconhece Monteiro. "No entanto, quem entrou na bolsa sabendo dos riscos, e não porque o amigo estava ganhando dinheiro, sabe que o mercado é assim e uma hora vai se recuperar."
Ele também atribui essa queda de frequentadores a uma mudança no programa "BM&FBovespa vai à praia". Antes, as pessoas eram atraídas por vários sorteios, como viagens. Agora há somente a massagem gratuita. Quem se aproxima é para saber sobre bolsa e fazer um cadastro com o objetivo de receber informações adicionais sobre o mercado. "Como não existe mais promoção, os 300 banhistas são muito mais investidores potenciais do que os 2 mil de antes", disse Monteiro.
Ele lembra que, das 2 mil pessoas por fim de semana dos anos anteriores, entre 15% e 20% faziam cadastro com a corretora, mas apenas 8% dentro desse intervalo (entre 24 e 32 pessoas) de fato se transformavam em investidores de bolsa. Já neste novo formato do programa, a meta, segundo Monteiro, é conseguir que cerca de 25% dos 300 banhistas por fim de semana passem a aplicar em ações, ou seja, 75 pessoas.
sexta-feira, 30 de janeiro de 2009
Debênture do BNDES rende mais que nota do Tesouro
Valor Econômico
Por Angelo Pavini, de São Paulo
30/01/2009
O investidor em renda fixa tem inúmeras oportunidades neste momento de aperto de liquidez, que valoriza quem tem recursos livres. Uma destas chances está nas debêntures da BNDES Participações (BNDESPar), braço de investimentos do banco oficial. Os papéis, lançados em dezembro de 2006, vêm sendo negociados no mercado secundário da BM&FBovespa com ganho adicional sobre os papéis do Tesouro, cujo risco é praticamente igual.
Em média, as taxas das debêntures costumam ficar acima entre 1 ponto percentual ou até 1,5 ponto percentual no caso do papel do Tesouro corrigido pelo IPCA, as Notas do Tesouro Nacional Série B (NTN-B), afirma Roberto Paris, superintendente executivo de Tesouraria do Bradesco. O banco é o formador de mercado do papel, responsável por garantir diariamente ofertas de compra e venda, mesmo que não haja negócios.
O ganho adicional é justamente o resultado da menor procura pelas debêntures e de sua liquidez mais restrita, explica Paris. Há dias em que não há negócio algum com as debêntures, o que cria dificuldades para quem pensa em comprar os títulos, de longo prazo, (a série indexada ao IPCA vence em 2012) e sair antes de seu vencimento. "Mas é um papel interessante para quem pode ficar com ele até o fim, pois terá uma remuneração maior que a do Tesouro hoje", diz Paris.
O BNDES lançou três séries de debêntures. A primeira delas, BDNP D21, paga a variação do IPCA mais juros e vence em janeiro de 2012. A segunda série, D31, tem juros prefixados e vence em janeiro de 2011. E a terceira, a D32, também corrigida pelo IPCA, vence em agosto de 2013. As séries mais procuradas são as ligadas ao IPCA.
A diferença de rentabilidade chegou a ser maior em alguns períodos de mercado mais conturbado, lembra Paris. "Em meados de outubro, novembro, as taxas de todos os papéis de renda fixa, inclusive os do governo, subiram, e o diferencial das debêntures bateu até 4 pontos pontos percentuais ao ano", diz. O mercado já se acalmou, as taxas caíram de maneira geral, acompanhando também a redução do juro básico pelo Copom, mas ainda há espaço para ganhos.
Na quarta-feira, os papéis do governo de prazo semelhante estavam na faixa de 7,12% ao ano mais IPCA, enquanto as debêntures da BNDESPar pagavam 9% ao ano para o vencimento de 2012. O executivo lembra que o diferencial não se refere a um risco maior do papel do BNDES. "O credor final é o mesmo, o governo federal", observa. A questão é mesmo a menor liquidez e a falta de popularidade do investimento.
Paris observa que a taxa depende também da quantidade que o investidor quer comprar. "Se o lote é muito grande, pode ser que a taxa se aproxime mais da dos papéis federais", observa. Isso porque, ao buscar lotes maiores, o comprador terá dificuldades em encontrá-los, pressionando o preço dos papéis para cima e as taxas para baixo.
Segundo Paris, o valor mínimo para se comprar debêntures é a partir de R$ 100 mil. "Pode-se comprar quantidades menores, até uma debênture apenas, a partir de R$ 1 mil, mas os custos podem não compensar e fica mais difícil encontrar vendedores", explica ele. Mas há alguma procura por parte de pessoas físicas de alta renda, clientes de private banks. A compra é um pouco mais complicada que a dos títulos públicos via Tesouro Direto, uma vez que o papel é negociado em bolsa, o que exige que a corretora feche o negócio. "No Tesouro Direto, o investidor vai lá e ele mesmo escolhe e compra o papel, já na debênture, normalmente é o banco - ou o private bank - quem faz tudo", explica. Os principais compradores, porém, são fundos de pensão ou de previdência, que têm retorno vinculado à inflação e não têm problemas de abrir mão da liquidez.
A média de negócios com as debêntures gira em torno de R$ 20 milhões, explica Paris. "Mas nem todo dia sai negócio", reconhece. Para ele, o mercado de debêntures poderia ser mais popular, mas isso dependeria de uma padronização maior dos títulos. "Quanto mais parecidos com os papéis do Tesouro, como fez a BNDESPar, mais fácil negociar", diz. Ele espera que, com a necessidade de mais empresas captarem neste ano pode aumentar a oferta de debêntures. "E isso pode desenvolver o mercado de títulos privados, que pagam prêmio sobre os papéis públicos".
Por Angelo Pavini, de São Paulo
30/01/2009
O investidor em renda fixa tem inúmeras oportunidades neste momento de aperto de liquidez, que valoriza quem tem recursos livres. Uma destas chances está nas debêntures da BNDES Participações (BNDESPar), braço de investimentos do banco oficial. Os papéis, lançados em dezembro de 2006, vêm sendo negociados no mercado secundário da BM&FBovespa com ganho adicional sobre os papéis do Tesouro, cujo risco é praticamente igual.
Em média, as taxas das debêntures costumam ficar acima entre 1 ponto percentual ou até 1,5 ponto percentual no caso do papel do Tesouro corrigido pelo IPCA, as Notas do Tesouro Nacional Série B (NTN-B), afirma Roberto Paris, superintendente executivo de Tesouraria do Bradesco. O banco é o formador de mercado do papel, responsável por garantir diariamente ofertas de compra e venda, mesmo que não haja negócios.
O ganho adicional é justamente o resultado da menor procura pelas debêntures e de sua liquidez mais restrita, explica Paris. Há dias em que não há negócio algum com as debêntures, o que cria dificuldades para quem pensa em comprar os títulos, de longo prazo, (a série indexada ao IPCA vence em 2012) e sair antes de seu vencimento. "Mas é um papel interessante para quem pode ficar com ele até o fim, pois terá uma remuneração maior que a do Tesouro hoje", diz Paris.
O BNDES lançou três séries de debêntures. A primeira delas, BDNP D21, paga a variação do IPCA mais juros e vence em janeiro de 2012. A segunda série, D31, tem juros prefixados e vence em janeiro de 2011. E a terceira, a D32, também corrigida pelo IPCA, vence em agosto de 2013. As séries mais procuradas são as ligadas ao IPCA.
A diferença de rentabilidade chegou a ser maior em alguns períodos de mercado mais conturbado, lembra Paris. "Em meados de outubro, novembro, as taxas de todos os papéis de renda fixa, inclusive os do governo, subiram, e o diferencial das debêntures bateu até 4 pontos pontos percentuais ao ano", diz. O mercado já se acalmou, as taxas caíram de maneira geral, acompanhando também a redução do juro básico pelo Copom, mas ainda há espaço para ganhos.
Na quarta-feira, os papéis do governo de prazo semelhante estavam na faixa de 7,12% ao ano mais IPCA, enquanto as debêntures da BNDESPar pagavam 9% ao ano para o vencimento de 2012. O executivo lembra que o diferencial não se refere a um risco maior do papel do BNDES. "O credor final é o mesmo, o governo federal", observa. A questão é mesmo a menor liquidez e a falta de popularidade do investimento.
Paris observa que a taxa depende também da quantidade que o investidor quer comprar. "Se o lote é muito grande, pode ser que a taxa se aproxime mais da dos papéis federais", observa. Isso porque, ao buscar lotes maiores, o comprador terá dificuldades em encontrá-los, pressionando o preço dos papéis para cima e as taxas para baixo.
Segundo Paris, o valor mínimo para se comprar debêntures é a partir de R$ 100 mil. "Pode-se comprar quantidades menores, até uma debênture apenas, a partir de R$ 1 mil, mas os custos podem não compensar e fica mais difícil encontrar vendedores", explica ele. Mas há alguma procura por parte de pessoas físicas de alta renda, clientes de private banks. A compra é um pouco mais complicada que a dos títulos públicos via Tesouro Direto, uma vez que o papel é negociado em bolsa, o que exige que a corretora feche o negócio. "No Tesouro Direto, o investidor vai lá e ele mesmo escolhe e compra o papel, já na debênture, normalmente é o banco - ou o private bank - quem faz tudo", explica. Os principais compradores, porém, são fundos de pensão ou de previdência, que têm retorno vinculado à inflação e não têm problemas de abrir mão da liquidez.
A média de negócios com as debêntures gira em torno de R$ 20 milhões, explica Paris. "Mas nem todo dia sai negócio", reconhece. Para ele, o mercado de debêntures poderia ser mais popular, mas isso dependeria de uma padronização maior dos títulos. "Quanto mais parecidos com os papéis do Tesouro, como fez a BNDESPar, mais fácil negociar", diz. Ele espera que, com a necessidade de mais empresas captarem neste ano pode aumentar a oferta de debêntures. "E isso pode desenvolver o mercado de títulos privados, que pagam prêmio sobre os papéis públicos".
quarta-feira, 21 de janeiro de 2009
Opções para passar pela crise
Valor Econômico
Por Alessandra Bellotto, de São Paulo
21/01/2009
Com o fim da festa na bolsa, muitos investidores de ações foram encorajados a buscar estratégias diferenciadas para atenuar, pelo menos em parte, os estragos provocados pela crise financeira internacional em seus portfólios de renda variável. Nesse processo de sofisticação do investimento, o mercado de opções foi a alternativa encontrada por alguns aplicadores para garantir um rendimento todo mês - independentemente da variação do papel - e, em momentos de baixa, proteger a carteira.
O mercado de opções é caracterizado pela negociação de direitos de compra e venda de lotes de ações, com preços e prazos predeterminados. Entre as diversas estratégias, uma em particular vem se destacando entre os investidores que começam a se aventurar pelo mundo das opções de ações. Trata-se da operação de "lançamento coberto (para quem tem as ações em carteira) de opções", também conhecida como financiamento. O professor do Calil & Calil - Centro de Estudos e Formação de Patrimônio Mauro Calil diz que o financiamento coberto com opções é a operação mais simples do mercado de derivativos e tem vantagens. "Além de aumentar o potencial de retorno do investimento, funciona como uma proteção para a carteira de ações", diz. "Não é um hedge perfeito, mas reduz o prejuízo quando o mercado é de baixa."
O dentista L.P.T., de 41 anos é um dos que usam a estratégia. Ele se tornou um investidor de bolsa em 2003, ao herdar ações do Itaú. Em meados do ano passado, quando 100% de seu patrimônio estava aplicado em ações da Vale, ele começou a zerar suas posições ao acreditar que o pior ainda estava por vir. Chegou a ter prejuízo, porque vendeu as ações da mineradora entre R$ 35 e R$ 27, enquanto seu custo de aquisição variava de R$ 19 a R$ 39. Mas ele evitou perda maior, porque as ações caíram para R$ 19 no fim de outubro. Foi nesse momento que o dentista começou a recomprar Vale a um preço muito menor e a lançar opções cobertas. "O mercado de opções ajuda a proteger a carteira, mas só lanço opção coberta", afirma. Para ele, a grande vantagem da operação é que ela reduz o preço médio de aquisição das ações.
Na operação de financiamento coberto, o investidor vende opções de compra (call) na mesma quantidade de ações que tem em carteira, comprometendo-se a entregar o ativo a um determinado preço até o vencimento da opção. Em troca, é cobrado um valor, chamado de prêmio. O comprador das opções paga o prêmio para ter o direito, não a obrigação, de ficar com as ações no futuro pelo preço combinado. O exercício da opção pelo comprador, porém, só vale a pena se o preço da ação no mercado à vista estiver acima daquele combinado na operação.
"Busco ganhar de 3% a 5% (sobre o valor da ação no mercado à vista) por lançamento", conta L.P.T. Em uma operação recente, cujo prazo de exercício venceu na segunda-feira, o investidor teve ganho bruto (sem descontar taxa de corretagem, emolumentos e imposto de renda) de 4,2%, considerando o valor dos prêmios recebidos e a variação de suas ações. O investidor fez quatro lançamentos de opções cobertas com diferentes "strikes" (preços de exercício).
No primeiro, no dia 19 de dezembro, lançou mil opções de ações da Vale PNA ao preço de exercício de R$ 26,00, recebendo um prêmio de R$ 1,55 por opção. De imediato, ganhou R$ 1.550. No dia 30 de dezembro, lançou mais mil opções com "strike" de R$ 24,00 e um prêmio de R$ 1,30, ganhando R$ 1.300. No dia 5 de janeiro, vendeu outras 900 opções ao preço de exercício de R$ 26,00 e prêmio de R$ 1,10 por opção (ou R$ 990 no total) e, no dia 6, lançou mais mil opções com strike de R$ 30 e prêmio de R$ 1,30, ganhando mais R$ 1.300. Só de prêmio, o investidor garantiu R$ 5.140 com o lançamento de 3.900 opções.
No último dia 19, com a cotação da Vale acima de R$ 26, o investidor teve três de seus lançamentos exercidos. Na operação em que entregou as ações por R$ 24,00, ele tinha pago R$ 24,14, valor que com o prêmio de R$ 1,30 foi reduzido a R$ 22,84, ou seja, o prejuízo de vender as ações a um preço abaixo do valor pago foi mais do que compensado pelo prêmio. Nos dois lançamentos de opções de Vale a R$ 26, ele foi exercido, mas não perdeu já que tinha pago um preço médio pelas ações de R$ 24,88. Já na operação de Vale a R$ 30, não houve exercício e o investidor ficou com o prêmio e as ações, pelas quais pagou o preço de R$ 29,29.
Para a aquisição das 3.900 ações de Vale, o investidor havia desembolsado um total de R$ 100.702. Após o vencimento das opções, no dia 19, seu investimento tinha virado R$ 104.930, sendo R$ 73.400 em dinheiro (R$ 5.140 de prêmio e o restante obtido com a entrega das ações) e R$ 26.390 em ações da Vale, segundo a cotação de fechamento daquele dia. Se o investidor não tivesse lançado as opções, as 3.900 ações da Vale em carteira, pelas quais havia desembolsado R$ 100.702, valeriam cerca de R$ 103 mil no dia 19, abaixo do valor que conseguiu com a operação.
Essa foi a alternativa que L.P.T. encontrou não só para proteger parte de seus investimentos em ações da Vale nesse período de turbulência, mas para conseguir ampliar o número de ações da empresa. "Não coloco dinheiro novo na bolsa, mas uso o prêmio para comprar mais papéis", diz. "E quanto mais ações eu tiver, mais lançamentos de opções posso fazer." Para ele, o momento atual é uma grande oportunidade, já que para comprar mil ações da Vale hoje é preciso ter metade do dinheiro necessário em maio de 2008, quando a bolsa fechou na maior pontuação de sua história.
O raciocínio do dentista-investidor é o de usar o financiamento coberto com opções para "forjar juros compostos", afirma o consultor Mauro Calil. Se o investidor que consegue um prêmio de 5% toda vez que lança uma opção coberta reinvestir o dinheiro na compra de mais ações para o lançamentos de novas opções, terá obtido uma rentabilidade excepcional após sucessivas operações, afirma. "Cinco por cento reaplicados todo mês em opções terão virado 79% ao fim de um ano", exemplifica Calil, mais do que qualquer retorno de renda fixa convencional - vale lembrar que o valor do prêmio varia, assim como o preço das ações. Calil destaca que as opções mais líquidas são as de Vale e Petrobras.
Mesmo com a estratégia de opções para proteger a carteira, L.P.T. ficou mais cauteloso após a crise. Do seu patrimônio total hoje, a bolsa, que chegou a representar 100%, equivale a uma fatia menor que 50%. A mesma atitude de cautela foi tomada pelo engenheiro Emerson Morga, de 50 anos, na bolsa desde 2002. "Comecei 2008 com mais de 60% do meu patrimônio financeiro em ações, saquei tudo no dia 27 de outubro (na menor pontuação da bolsa do ano) e comecei a me reposicionar ao poucos no início de novembro", conta. Hoje, sua exposição em ações é de 25%. Ele conta que está mantendo dinheiro em caixa para aproveitar quedas bruscas para comprar, mas pretende se limitar a 30% de exposição.
Emerson também usa o mercado de opções cobertas para proteger a carteira. No ano passado, com o lançamento de opções e outras estratégias mais sofisticadas, como a arbitragem de preços entre papéis, conseguiu ter uma perda menor (-20%) na bolsa do que o Ibovespa, que recuou mais de 40%.
Há quem tenha chegado em boa hora ao mercado de ações. É o caso do empresário de 40 anos Eduardo Barreto Wang. Ele conta que começou a investir mais pesadamente em ações no fim do ano passado, quando a bolsa estava em torno de 31 mil pontos. "Minha estratégia tem sido de realizar o lucro toda vez que a ação sobe e usar o dinheiro para ampliar o número de ações das companhias que tenho em carteira", conta. Esse é um dinheiro de longo prazo que ele pretende usar somente no futuro.
Por Alessandra Bellotto, de São Paulo
21/01/2009
Com o fim da festa na bolsa, muitos investidores de ações foram encorajados a buscar estratégias diferenciadas para atenuar, pelo menos em parte, os estragos provocados pela crise financeira internacional em seus portfólios de renda variável. Nesse processo de sofisticação do investimento, o mercado de opções foi a alternativa encontrada por alguns aplicadores para garantir um rendimento todo mês - independentemente da variação do papel - e, em momentos de baixa, proteger a carteira.
O mercado de opções é caracterizado pela negociação de direitos de compra e venda de lotes de ações, com preços e prazos predeterminados. Entre as diversas estratégias, uma em particular vem se destacando entre os investidores que começam a se aventurar pelo mundo das opções de ações. Trata-se da operação de "lançamento coberto (para quem tem as ações em carteira) de opções", também conhecida como financiamento. O professor do Calil & Calil - Centro de Estudos e Formação de Patrimônio Mauro Calil diz que o financiamento coberto com opções é a operação mais simples do mercado de derivativos e tem vantagens. "Além de aumentar o potencial de retorno do investimento, funciona como uma proteção para a carteira de ações", diz. "Não é um hedge perfeito, mas reduz o prejuízo quando o mercado é de baixa."
O dentista L.P.T., de 41 anos é um dos que usam a estratégia. Ele se tornou um investidor de bolsa em 2003, ao herdar ações do Itaú. Em meados do ano passado, quando 100% de seu patrimônio estava aplicado em ações da Vale, ele começou a zerar suas posições ao acreditar que o pior ainda estava por vir. Chegou a ter prejuízo, porque vendeu as ações da mineradora entre R$ 35 e R$ 27, enquanto seu custo de aquisição variava de R$ 19 a R$ 39. Mas ele evitou perda maior, porque as ações caíram para R$ 19 no fim de outubro. Foi nesse momento que o dentista começou a recomprar Vale a um preço muito menor e a lançar opções cobertas. "O mercado de opções ajuda a proteger a carteira, mas só lanço opção coberta", afirma. Para ele, a grande vantagem da operação é que ela reduz o preço médio de aquisição das ações.
Na operação de financiamento coberto, o investidor vende opções de compra (call) na mesma quantidade de ações que tem em carteira, comprometendo-se a entregar o ativo a um determinado preço até o vencimento da opção. Em troca, é cobrado um valor, chamado de prêmio. O comprador das opções paga o prêmio para ter o direito, não a obrigação, de ficar com as ações no futuro pelo preço combinado. O exercício da opção pelo comprador, porém, só vale a pena se o preço da ação no mercado à vista estiver acima daquele combinado na operação.
"Busco ganhar de 3% a 5% (sobre o valor da ação no mercado à vista) por lançamento", conta L.P.T. Em uma operação recente, cujo prazo de exercício venceu na segunda-feira, o investidor teve ganho bruto (sem descontar taxa de corretagem, emolumentos e imposto de renda) de 4,2%, considerando o valor dos prêmios recebidos e a variação de suas ações. O investidor fez quatro lançamentos de opções cobertas com diferentes "strikes" (preços de exercício).
No primeiro, no dia 19 de dezembro, lançou mil opções de ações da Vale PNA ao preço de exercício de R$ 26,00, recebendo um prêmio de R$ 1,55 por opção. De imediato, ganhou R$ 1.550. No dia 30 de dezembro, lançou mais mil opções com "strike" de R$ 24,00 e um prêmio de R$ 1,30, ganhando R$ 1.300. No dia 5 de janeiro, vendeu outras 900 opções ao preço de exercício de R$ 26,00 e prêmio de R$ 1,10 por opção (ou R$ 990 no total) e, no dia 6, lançou mais mil opções com strike de R$ 30 e prêmio de R$ 1,30, ganhando mais R$ 1.300. Só de prêmio, o investidor garantiu R$ 5.140 com o lançamento de 3.900 opções.
No último dia 19, com a cotação da Vale acima de R$ 26, o investidor teve três de seus lançamentos exercidos. Na operação em que entregou as ações por R$ 24,00, ele tinha pago R$ 24,14, valor que com o prêmio de R$ 1,30 foi reduzido a R$ 22,84, ou seja, o prejuízo de vender as ações a um preço abaixo do valor pago foi mais do que compensado pelo prêmio. Nos dois lançamentos de opções de Vale a R$ 26, ele foi exercido, mas não perdeu já que tinha pago um preço médio pelas ações de R$ 24,88. Já na operação de Vale a R$ 30, não houve exercício e o investidor ficou com o prêmio e as ações, pelas quais pagou o preço de R$ 29,29.
Para a aquisição das 3.900 ações de Vale, o investidor havia desembolsado um total de R$ 100.702. Após o vencimento das opções, no dia 19, seu investimento tinha virado R$ 104.930, sendo R$ 73.400 em dinheiro (R$ 5.140 de prêmio e o restante obtido com a entrega das ações) e R$ 26.390 em ações da Vale, segundo a cotação de fechamento daquele dia. Se o investidor não tivesse lançado as opções, as 3.900 ações da Vale em carteira, pelas quais havia desembolsado R$ 100.702, valeriam cerca de R$ 103 mil no dia 19, abaixo do valor que conseguiu com a operação.
Essa foi a alternativa que L.P.T. encontrou não só para proteger parte de seus investimentos em ações da Vale nesse período de turbulência, mas para conseguir ampliar o número de ações da empresa. "Não coloco dinheiro novo na bolsa, mas uso o prêmio para comprar mais papéis", diz. "E quanto mais ações eu tiver, mais lançamentos de opções posso fazer." Para ele, o momento atual é uma grande oportunidade, já que para comprar mil ações da Vale hoje é preciso ter metade do dinheiro necessário em maio de 2008, quando a bolsa fechou na maior pontuação de sua história.
O raciocínio do dentista-investidor é o de usar o financiamento coberto com opções para "forjar juros compostos", afirma o consultor Mauro Calil. Se o investidor que consegue um prêmio de 5% toda vez que lança uma opção coberta reinvestir o dinheiro na compra de mais ações para o lançamentos de novas opções, terá obtido uma rentabilidade excepcional após sucessivas operações, afirma. "Cinco por cento reaplicados todo mês em opções terão virado 79% ao fim de um ano", exemplifica Calil, mais do que qualquer retorno de renda fixa convencional - vale lembrar que o valor do prêmio varia, assim como o preço das ações. Calil destaca que as opções mais líquidas são as de Vale e Petrobras.
Mesmo com a estratégia de opções para proteger a carteira, L.P.T. ficou mais cauteloso após a crise. Do seu patrimônio total hoje, a bolsa, que chegou a representar 100%, equivale a uma fatia menor que 50%. A mesma atitude de cautela foi tomada pelo engenheiro Emerson Morga, de 50 anos, na bolsa desde 2002. "Comecei 2008 com mais de 60% do meu patrimônio financeiro em ações, saquei tudo no dia 27 de outubro (na menor pontuação da bolsa do ano) e comecei a me reposicionar ao poucos no início de novembro", conta. Hoje, sua exposição em ações é de 25%. Ele conta que está mantendo dinheiro em caixa para aproveitar quedas bruscas para comprar, mas pretende se limitar a 30% de exposição.
Emerson também usa o mercado de opções cobertas para proteger a carteira. No ano passado, com o lançamento de opções e outras estratégias mais sofisticadas, como a arbitragem de preços entre papéis, conseguiu ter uma perda menor (-20%) na bolsa do que o Ibovespa, que recuou mais de 40%.
Há quem tenha chegado em boa hora ao mercado de ações. É o caso do empresário de 40 anos Eduardo Barreto Wang. Ele conta que começou a investir mais pesadamente em ações no fim do ano passado, quando a bolsa estava em torno de 31 mil pontos. "Minha estratégia tem sido de realizar o lucro toda vez que a ação sobe e usar o dinheiro para ampliar o número de ações das companhias que tenho em carteira", conta. Esse é um dinheiro de longo prazo que ele pretende usar somente no futuro.
quarta-feira, 14 de janeiro de 2009
Renda fixa ganha com juro menor
Valor Econômico
Luciana Monteiro e Angelo Pavini, de São Paulo
14/01/2009
A grande expectativa de que o Comitê de Política Monetária do Banco Central (Copom) irá cortar a taxa Selic na sua próxima reunião nos dias 20 e 21 de janeiro vem favorecendo a rentabilidade dos fundos de renda fixa e multimercados.
Segundo dados do site financeiro Fortuna, os renda fixa, que podem aplicar em papéis prefixados, apresentam retorno médio de 0,33% no ano até dia 9. Os multimercados têm ganho médio de 0,55%. Esse percentual está acima da variação de 0,30% do Certificado de Depósito Interfinanceiro (CDI, o juro interbancário que serve de referência para as aplicações mais conservadoras) no mesmo período.
A queda das projeções de juros ajudou o setor de fundos, especialmente os multimercados, diz George Wachsmann, sócio da Bawm Investments. "A bolsa também subiu e o dólar caiu, mas isso mais atrapalhou do que ajudou", conta. Segundo ele, a recuperação dos multimercados foi muito concentrada na alta dos preços das Notas do Tesouro Nacional sério B (NTN-B, título com rentabilidade vinculada à variação do IPCA acrescido de juros) e dos papéis prefixados por conta da queda dos juros.
A disparada dos juros futuros em outubro e novembro, quando a instabilidade aumentou, deu oportunidade para os gestores comprarem papéis prefixados com ótimas taxas. Uma Letra do Tesouro Nacional (LTN) com vencimento em julho de 2010 chegou pagar 17,30% ao ano em 27 de outubro. Ontem, esse mesmo papel pagava 11%. Para Wachsmann, no entanto, é difícil imaginar que esse ganho vai ser estável daqui por diante. Com a instabilidade dos mercados ainda forte neste primeiro trimestre, em meio às incertezas com a economia mundial, o jogo será de espera. "O gestor vai querer cumprir tabela apenas, para quando o mercado voltar a melhorar, ele fazer bonito", diz.
O ano também começou bem em termos de captação para o setor de fundos, com ingresso de R$ 3,826 bilhões até o dia 9. Os fundos DI foram os que mais atraíram recursos, com R$ 2,579 bilhões, seguidos pelos renda fixa, com R$ 2,128 bilhões no período. Os fundos curto prazo - que aplicam em papéis com vencimento de no máximo 365 dias - também apresentam captação, de R$ 1,388 bilhão. Em contrapartida, os multimercados continuam sofrendo resgates, de R$ 5,071 bilhões até o dia 9.
Apesar da alta do Índice Bovespa, de 10,74% até o dia 9, os fundos de ações apresentam resgate de R$ 110 milhões. As carteiras formadas só por Petrobras registraram ganho médio de 11,77% no período, mas saques de R$ 84 milhões. Os fundos de Vale renderam 15,20% e resgates de R$ 12 milhões.
Veja as tabelas de fundos em http://www.valoronline.com.br/fundodeinvestimentos.aspx
Luciana Monteiro e Angelo Pavini, de São Paulo
14/01/2009
A grande expectativa de que o Comitê de Política Monetária do Banco Central (Copom) irá cortar a taxa Selic na sua próxima reunião nos dias 20 e 21 de janeiro vem favorecendo a rentabilidade dos fundos de renda fixa e multimercados.
Segundo dados do site financeiro Fortuna, os renda fixa, que podem aplicar em papéis prefixados, apresentam retorno médio de 0,33% no ano até dia 9. Os multimercados têm ganho médio de 0,55%. Esse percentual está acima da variação de 0,30% do Certificado de Depósito Interfinanceiro (CDI, o juro interbancário que serve de referência para as aplicações mais conservadoras) no mesmo período.
A queda das projeções de juros ajudou o setor de fundos, especialmente os multimercados, diz George Wachsmann, sócio da Bawm Investments. "A bolsa também subiu e o dólar caiu, mas isso mais atrapalhou do que ajudou", conta. Segundo ele, a recuperação dos multimercados foi muito concentrada na alta dos preços das Notas do Tesouro Nacional sério B (NTN-B, título com rentabilidade vinculada à variação do IPCA acrescido de juros) e dos papéis prefixados por conta da queda dos juros.
A disparada dos juros futuros em outubro e novembro, quando a instabilidade aumentou, deu oportunidade para os gestores comprarem papéis prefixados com ótimas taxas. Uma Letra do Tesouro Nacional (LTN) com vencimento em julho de 2010 chegou pagar 17,30% ao ano em 27 de outubro. Ontem, esse mesmo papel pagava 11%. Para Wachsmann, no entanto, é difícil imaginar que esse ganho vai ser estável daqui por diante. Com a instabilidade dos mercados ainda forte neste primeiro trimestre, em meio às incertezas com a economia mundial, o jogo será de espera. "O gestor vai querer cumprir tabela apenas, para quando o mercado voltar a melhorar, ele fazer bonito", diz.
O ano também começou bem em termos de captação para o setor de fundos, com ingresso de R$ 3,826 bilhões até o dia 9. Os fundos DI foram os que mais atraíram recursos, com R$ 2,579 bilhões, seguidos pelos renda fixa, com R$ 2,128 bilhões no período. Os fundos curto prazo - que aplicam em papéis com vencimento de no máximo 365 dias - também apresentam captação, de R$ 1,388 bilhão. Em contrapartida, os multimercados continuam sofrendo resgates, de R$ 5,071 bilhões até o dia 9.
Apesar da alta do Índice Bovespa, de 10,74% até o dia 9, os fundos de ações apresentam resgate de R$ 110 milhões. As carteiras formadas só por Petrobras registraram ganho médio de 11,77% no período, mas saques de R$ 84 milhões. Os fundos de Vale renderam 15,20% e resgates de R$ 12 milhões.
Veja as tabelas de fundos em http://www.valoronline.com.br/fundodeinvestimentos.aspx
terça-feira, 13 de janeiro de 2009
CDB, o favorito
Valor Econômico
Por Angelo Pavini, de São Paulo
13/01/2009
Entre uma maldade e outra da vilã da novela das oito, um dos personagens faz o seu "merchandising". Mas, em lugar de falar das maravilhas de aparelhos de som ou bebidas, ele alardeia as vantagens do CDB de um grande banco. Um bom exemplo de como a crise de liquidez fez uma aplicação veterana passar de coadjuvante à estrela do mercado. No ano passado, os CDBs lideraram as captações, com R$ 234 bilhões, para R$ 28 bilhões no ano anterior. A poupança captou R$ 17,7 bilhões e os fundos de investimento tiveram resgates de R$ 77,8 bilhões.
Os CDBs continuam pagando taxas bastante atrativas para o investidor. Clientes mais endinheirados, de private banks, conseguem taxas equivalentes a 102%, 104% do Certificado de Depósito Interfinanceiro (CDI) em papéis de grandes bancos de primeira linha sem liquidez diária e de 101% a 102% com liquidez em prazos de um a dois anos. Bancos estrangeiros chegam a pagar 105% do CDI para volumes acima de R$ 3 milhões. Um sinal de que, apesar de todas as medidas do governo para aumentar a liquidez do sistema, liberando compulsórios e injetando recursos, ainda falta dinheiro, diz Marcelo Xandó Baptista, sócio da Verax Serviços Financeiros. Por isso, as taxas seguem atraentes. "Vemos taxas de até 106% do CDI em bancos de primeira linha para valores acima de R$ 3 milhões."
Nas agências, o investidor de varejo consegue taxas menores, mas interessantes. O Unibanco pagava 91% em um CDB de dois anos para uma aplicação de R$ 10 mil. Melhor que um fundo de investimento com taxa de administração de 1% ao ano. E, com a expectativa de queda dos juros, a vantagem do CDB aumenta, pois o impacto da taxa de administração no fundo cresce. A queda nos juros deve reduzir a rentabilidade dos CDBs pós-fixados, uma vez que o CDI também vai cair. Mas seu ganho comparativamente deverá seguir melhor que outras opções semelhantes, como fundos DI.
Uma alternativa para o pequeno investidor são os CDBs com taxa crescente de acordo com o prazo, que chegam a pagar 100% do CDI para valores a partir de R$ 5 mil e que fiquem aplicados por dois anos. Em alguns casos, com quantias maiores, pode-se conseguir taxas acima de 100% após dois ou três anos. E há liquidez diária após seis meses, apesar de o cliente que sacar antes levar um percentual bem menor do CDI.
Os juros dos CDBs recuaram em relação ao pico da crise de liquidez, entre agosto e novembro do ano passado, mas se estabilizaram em um nível bastante alto, afirma George Wachsmann, da consultoria Bawm Investments. Além disso, a negociação das taxas ficou mais dura. Os bancos aceitam aumentar a remuneração, mas somente para prazos mais longos de investimento e sem resgates.
Mesmo assim, o ganho para o investidor é bastante atrativo. Na semana passada, bancos estrangeiros pagavam 107% para um ano e 108% para dois anos, sem liquidez diária. Já um grande banco privado nacional pagava 103% para clientes private para dois anos, sem liquidez. "Quanto mais tempo, maior a taxa", diz Wachsmann.
A pressão sobre as taxas dos CDBs deve continuar até que o mercado internacional volte a se abrir para os bancos brasileiros, afirma Paulo Saba, diretor de tesouraria do BES Investimento. Por isso, o aumento das taxas de CDB foi rápido, mas sua redução será lenta, alerta ele. Para Saba, a liberação dos compulsórios resolveu os problemas emergenciais do sistema, de socorro às instituições menores, mas não chegou a afetar as taxas.
Enquanto isso, as instituições locais vão pagar o que for preciso para arrumar dinheiro para emprestar ou mesmo para reforçar o caixa, afirma um gestor de recursos que pediu para não ser citado. Parte dos recursos captados está ficando no overnight, como mostram os dados do Banco Central, que saltaram de R$ 60 bilhões no ano passado para R$ 133 bilhões este ano. Os fundos de investimento, por sua vez, têm procurado comprar CDBs apenas de curto prazo, de um ano no máximo, pelos problemas para marcar esses papéis a mercado todo dia.
No varejo, os CDBs com ganho crescente tornaram-se um sucesso, explica Marcus Matos, gerente executivo de captação do Santander. Em dezembro, 20% da captação do banco veio do CDB Recompensa, que paga 100% do CDI para valores a partir de R$ 5 mil que ficarem mais de três anos. Para valores acima de R$ 50 mil, o ganho chega a 102% do CDI em mais de dois anos. Mas, se sacar antes, o investidor leva taxas menores, 70% do CDI em seis meses, por exemplo, no caso do valor mais baixo. Como comparação, a poupança paga em média 60% do CDI líquidos, o que equivaleria a 77% do CDI antes do imposto de 22,5% em seis meses.
O Bradesco, que também fez campanha para seu CDB Fidelidade, fechou o ano com um aumento expressivo de captação nessa modalidade, diz Marcos Villanova, diretor de investimentos do banco, sem dar números. Segundo ele, a tendência das taxas dos CDBs é de queda, acompanhando a menor procura por crédito neste início de ano. "Todo mundo, empresas, pessoas, bancos, estão em compasso de espera", diz.
O Bradesco paga para valores, entre R$ 10 mil e R$ 50 mil, 100% do CDI após dois anos. O papel tem liquidez diária, mas se o investidor resgatar antes leva menos, 85% do CDI até um ano e 90% de um ano a dois. Valores acima de R$ 50 mil conseguem 100,5% do CDI após dois anos. Villanova observa, porém, que o banco paga a taxa máxima para o período todo do cliente. Em alguns bancos, alerta, o cálculo da rentabilidade é pela média das taxas de cada período, o que dá menos de 100% do CDI mesmo após dois anos.
O que pode aumentar a pressão sobre os CDBs e melhorar ainda mais a situação para o investidor são as ofertas de papéis de empresas. Na semana passada, a Bradespar concluiu a emissão de uma debênture com juros equivalentes a 125% do CDI e prazo de três anos. "Muitas empresas de capital aberto devem fazer o mesmo e vão pagar taxas atrativas, inclusive para pessoas físicas, competindo com os CDBs", diz Wachsmann, da Bawm.
Assim, além de elevar o referencial de ganho dos CDBs e fundos de investimento, a debênture ainda afasta o investidor desses dois mercados por três anos.
Por Angelo Pavini, de São Paulo
13/01/2009
Entre uma maldade e outra da vilã da novela das oito, um dos personagens faz o seu "merchandising". Mas, em lugar de falar das maravilhas de aparelhos de som ou bebidas, ele alardeia as vantagens do CDB de um grande banco. Um bom exemplo de como a crise de liquidez fez uma aplicação veterana passar de coadjuvante à estrela do mercado. No ano passado, os CDBs lideraram as captações, com R$ 234 bilhões, para R$ 28 bilhões no ano anterior. A poupança captou R$ 17,7 bilhões e os fundos de investimento tiveram resgates de R$ 77,8 bilhões.
Os CDBs continuam pagando taxas bastante atrativas para o investidor. Clientes mais endinheirados, de private banks, conseguem taxas equivalentes a 102%, 104% do Certificado de Depósito Interfinanceiro (CDI) em papéis de grandes bancos de primeira linha sem liquidez diária e de 101% a 102% com liquidez em prazos de um a dois anos. Bancos estrangeiros chegam a pagar 105% do CDI para volumes acima de R$ 3 milhões. Um sinal de que, apesar de todas as medidas do governo para aumentar a liquidez do sistema, liberando compulsórios e injetando recursos, ainda falta dinheiro, diz Marcelo Xandó Baptista, sócio da Verax Serviços Financeiros. Por isso, as taxas seguem atraentes. "Vemos taxas de até 106% do CDI em bancos de primeira linha para valores acima de R$ 3 milhões."
Nas agências, o investidor de varejo consegue taxas menores, mas interessantes. O Unibanco pagava 91% em um CDB de dois anos para uma aplicação de R$ 10 mil. Melhor que um fundo de investimento com taxa de administração de 1% ao ano. E, com a expectativa de queda dos juros, a vantagem do CDB aumenta, pois o impacto da taxa de administração no fundo cresce. A queda nos juros deve reduzir a rentabilidade dos CDBs pós-fixados, uma vez que o CDI também vai cair. Mas seu ganho comparativamente deverá seguir melhor que outras opções semelhantes, como fundos DI.
Uma alternativa para o pequeno investidor são os CDBs com taxa crescente de acordo com o prazo, que chegam a pagar 100% do CDI para valores a partir de R$ 5 mil e que fiquem aplicados por dois anos. Em alguns casos, com quantias maiores, pode-se conseguir taxas acima de 100% após dois ou três anos. E há liquidez diária após seis meses, apesar de o cliente que sacar antes levar um percentual bem menor do CDI.
Os juros dos CDBs recuaram em relação ao pico da crise de liquidez, entre agosto e novembro do ano passado, mas se estabilizaram em um nível bastante alto, afirma George Wachsmann, da consultoria Bawm Investments. Além disso, a negociação das taxas ficou mais dura. Os bancos aceitam aumentar a remuneração, mas somente para prazos mais longos de investimento e sem resgates.
Mesmo assim, o ganho para o investidor é bastante atrativo. Na semana passada, bancos estrangeiros pagavam 107% para um ano e 108% para dois anos, sem liquidez diária. Já um grande banco privado nacional pagava 103% para clientes private para dois anos, sem liquidez. "Quanto mais tempo, maior a taxa", diz Wachsmann.
A pressão sobre as taxas dos CDBs deve continuar até que o mercado internacional volte a se abrir para os bancos brasileiros, afirma Paulo Saba, diretor de tesouraria do BES Investimento. Por isso, o aumento das taxas de CDB foi rápido, mas sua redução será lenta, alerta ele. Para Saba, a liberação dos compulsórios resolveu os problemas emergenciais do sistema, de socorro às instituições menores, mas não chegou a afetar as taxas.
Enquanto isso, as instituições locais vão pagar o que for preciso para arrumar dinheiro para emprestar ou mesmo para reforçar o caixa, afirma um gestor de recursos que pediu para não ser citado. Parte dos recursos captados está ficando no overnight, como mostram os dados do Banco Central, que saltaram de R$ 60 bilhões no ano passado para R$ 133 bilhões este ano. Os fundos de investimento, por sua vez, têm procurado comprar CDBs apenas de curto prazo, de um ano no máximo, pelos problemas para marcar esses papéis a mercado todo dia.
No varejo, os CDBs com ganho crescente tornaram-se um sucesso, explica Marcus Matos, gerente executivo de captação do Santander. Em dezembro, 20% da captação do banco veio do CDB Recompensa, que paga 100% do CDI para valores a partir de R$ 5 mil que ficarem mais de três anos. Para valores acima de R$ 50 mil, o ganho chega a 102% do CDI em mais de dois anos. Mas, se sacar antes, o investidor leva taxas menores, 70% do CDI em seis meses, por exemplo, no caso do valor mais baixo. Como comparação, a poupança paga em média 60% do CDI líquidos, o que equivaleria a 77% do CDI antes do imposto de 22,5% em seis meses.
O Bradesco, que também fez campanha para seu CDB Fidelidade, fechou o ano com um aumento expressivo de captação nessa modalidade, diz Marcos Villanova, diretor de investimentos do banco, sem dar números. Segundo ele, a tendência das taxas dos CDBs é de queda, acompanhando a menor procura por crédito neste início de ano. "Todo mundo, empresas, pessoas, bancos, estão em compasso de espera", diz.
O Bradesco paga para valores, entre R$ 10 mil e R$ 50 mil, 100% do CDI após dois anos. O papel tem liquidez diária, mas se o investidor resgatar antes leva menos, 85% do CDI até um ano e 90% de um ano a dois. Valores acima de R$ 50 mil conseguem 100,5% do CDI após dois anos. Villanova observa, porém, que o banco paga a taxa máxima para o período todo do cliente. Em alguns bancos, alerta, o cálculo da rentabilidade é pela média das taxas de cada período, o que dá menos de 100% do CDI mesmo após dois anos.
O que pode aumentar a pressão sobre os CDBs e melhorar ainda mais a situação para o investidor são as ofertas de papéis de empresas. Na semana passada, a Bradespar concluiu a emissão de uma debênture com juros equivalentes a 125% do CDI e prazo de três anos. "Muitas empresas de capital aberto devem fazer o mesmo e vão pagar taxas atrativas, inclusive para pessoas físicas, competindo com os CDBs", diz Wachsmann, da Bawm.
Assim, além de elevar o referencial de ganho dos CDBs e fundos de investimento, a debênture ainda afasta o investidor desses dois mercados por três anos.
segunda-feira, 12 de janeiro de 2009
Na dúvida, fique com o real
Valor Econômico
Por Adriana Cotias, de São Paulo
12/01/2009
O balanço de pagamentos brasileiro deve repetir em 2009 mais um ano de déficit em conta corrente. A queda nas exportações, o menor fluxo de investimentos estrangeiros diretos (IED) e o retorno incerto de recursos para a bolsa ou renda fixa sugeririam que o real pode apanhar do dólar e do euro de novo. Mas não é com tal cenário que os analistas trabalham e comprar divisas como forma de diversificar a poupança pessoal é uma escolha que pode naufragar ou, na melhor das hipóteses, levando-se em conta as previsões daqueles que esperam um câmbio mais depreciado ao longo do ano, proporcionar retornos menores do que a renda fixa.
Entre casas de análise que estão entre as "top 5" do Banco Central (BC) pelo acerto em previsões, seja de curto ou médio prazo, no boletim semanal Focus - Santander/Banco Real Western Asset Management (Legg Mason) Tendências Consultoria e Idéias Consultoria - as projeções para o dólar em dezembro variam de R$ 2,00 a R$ 2,40. Considerando-se a média da pesquisa divulgada na semana passada (todo o mercado), a expectativa é de que a moeda encerre o ano a R$ 2,25.
Pelo fechamento de sexta-feira, a R$ 2,272, tais estimativas significariam, no máximo, um retorno de 5,6% para quem adquirisse a moeda americana ao preço atual. Comparando-se à Selic em vigor, de 13,75% ao ano, na renda fixa o investidor fará melhor negócio mesmo que o pior cenário para a taxa de câmbio brasileira se concretize. Para o euro, a história não é muito diferente, pois espera-se que a divisa européia perca valor em relação ao dólar. Fazendo-se a conversão para o real, a Tendências, por exemplo, estima uma cotação de R$ 2,36 para a moeda européia no fim deste ano.
É mais ou menos consenso que 2009 será um ano difícil do ponto de vista de fluxo de capitais para o Brasil. A fartura de liquidez que se viu no passado, e que fez o dólar chegar à mínima de R$ 1,562 em julho passado, está fora de cogitação, especialmente num ambiente de retração da atividade global, afirma o economista do Banco Real Cristiano Souza.
Para ele, embora o país ainda possa contar com superávit comercial, o líquido entre ingressos por exportações e saídas por importações será sensivelmente menor do que em 2008. Pelas suas contas, considerando o déficit nas transações correntes e o total de amortizações a pagar, o governo terá de usar US$ 15 bilhões das reservas para fechar a conta do setor externo. "O crédito está muito restrito, as linhas de 'trade finance' estão mais caras e isso atrapalha inclusive as exportações." Tal dinâmica, diz, é condizente com um dólar na casa dos R$ 2,40 em dezembro - podendo rondar os R$ 2,50 ou R$ 2,60 ao longo do primeiro trimestre -, calcula Souza.
Estimativa semelhante tem Samuel Kinoshita, da Idéias Consultoria. "Em 2008, mudaram as regras do jogo e, para 2009, todos os vetores apontam na direção de um real desvalorizado." A história para este ano, argumenta, estará mais efetivamente atrelada às transações do país com o exterior. A capacidade de atrair investimentos diretos será menor, enquanto o interesse por ativos brasileiros deve cair pela aversão ainda elevada a riscos na renda variável e pela queda dos juros, no caso da renda fixa.
Kinoshita prevê que o saldo da balança comercial se limite a US$ 10 bilhões, que o investimento direto fique em US$ 20 bilhões e o déficit em conta corrente na casa dos US$ 28 bilhões, ante os US$ 25 bilhões da média do mercado. Apesar de mais pessimista, ele não espera movimentos abruptos no câmbio, como aqueles que levaram a divisa americana de R$ 1,8120 para R$ 2,50 num intervalo de menos de dois meses.
Com salto dessa magnitude, o dólar acabou figurando em 2008 como a melhor opção entre os ativos negociados no mercado brasileiro, com valorização de 31,3%. O Brasil pagou não só o preço de estar com a moeda sobrevalorizada como também de dispor de mercados à vista e futuro líquidos o bastante para ser o porto de operações de "hedge" (proteção) de gestores internacionais, diz o diretor de investimentos de Renda Fixa da Legg Mason, Guilherme Abbud. "Eram casas que mantinham posições em moedas de países emergentes com câmbio fixo ou mercado mais restrito do que o brasileiro." Ele lembra que o "efeito estilingue" no câmbio também resultou da demanda extra por divisas das exportadoras locais que se alavancaram no mercado futuro.
Tal combinação de infortúnios fez com que o Brasil tivesse a pior performance cambial do mundo em 2008, apesar de não ter o balanço de pagamentos mais fraco comparativamente, acrescenta Abbud. Embora concorde que será mais difícil atrair capitais para os emergentes neste ano, ele vê exageros na desvalorização do real, que levou a moeda a valer R$ 2,50, e considera factível que as cotações voltem para a casa dos R$ 2,00 nos próximos meses. "Nos últimos anos houve um crescimento grande na corrente de comércio e a soma de exportações e importações deve ser maior do que no ano passado, a desvalorização cambial menor já faz o serviço de ajuste no balanço." Ele trabalha com um superávit comercial de US$ 20 bilhões, bem acima da média do mercado, de US$ 14,5 bilhões.
A Tendências Consultoria também tem números mais destoantes do consenso e estima um saldo comercial de US$ 22 bilhões, além de esperar um fluxo razoável de investimento direto (US$ 25 bilhões) e de investimentos em portfólios (US$ 15 bilhões). Isso resultaria num déficit em conta corrente da ordem de US$ 15 bilhões, menor do que os US$ 29 bilhões previstos na consolidação das estatísticas de 2008. "O que vai entrar pela conta de capitais é mais do que suficiente para bancar o déficit", diz a economista Alessandra Ribeiro. Pelas suas contas, 2009 deve fechar com sobra de US$ 20 bilhões no balanço. Para ela, a incursão do Brasil no mercado internacional, com uma captação de US$ 1 bilhão por 10 anos há uma semana, dá indícios de que as portas do crédito externo também podem ser reabertas para as empresas locais.
Lucros menores das empresas e taxa de câmbio mais alta também devem resultar em remessas menos expressivas de lucros e dividendos, acrescenta o economista-chefe do Banco Schahin, Silvio Campos Neto, contribuindo para uma conta corrente mais comportada. "Os eventos que provocaram a mudança de faixa do dólar, de R$ 1,70 para R$ 2,30/R$ 2,40, já ajustaram a moeda a um fluxo cambial mais negativo, é um movimento que não prossegue em 2009."
Levantamento do Itaú mostra que, no último trimestre de 2008, o real teve desvalorização de 21,52%, a maior entre uma cesta que inclui as moedas da África do Sul, Hungria, Austrália e Nova Zelândia, e que tiveram variações em sua maioria entre 10% e 15%. A moeda da Turquia, em segundo lugar, perdeu 21,35%.
Por Adriana Cotias, de São Paulo
12/01/2009
O balanço de pagamentos brasileiro deve repetir em 2009 mais um ano de déficit em conta corrente. A queda nas exportações, o menor fluxo de investimentos estrangeiros diretos (IED) e o retorno incerto de recursos para a bolsa ou renda fixa sugeririam que o real pode apanhar do dólar e do euro de novo. Mas não é com tal cenário que os analistas trabalham e comprar divisas como forma de diversificar a poupança pessoal é uma escolha que pode naufragar ou, na melhor das hipóteses, levando-se em conta as previsões daqueles que esperam um câmbio mais depreciado ao longo do ano, proporcionar retornos menores do que a renda fixa.
Entre casas de análise que estão entre as "top 5" do Banco Central (BC) pelo acerto em previsões, seja de curto ou médio prazo, no boletim semanal Focus - Santander/Banco Real Western Asset Management (Legg Mason) Tendências Consultoria e Idéias Consultoria - as projeções para o dólar em dezembro variam de R$ 2,00 a R$ 2,40. Considerando-se a média da pesquisa divulgada na semana passada (todo o mercado), a expectativa é de que a moeda encerre o ano a R$ 2,25.
Pelo fechamento de sexta-feira, a R$ 2,272, tais estimativas significariam, no máximo, um retorno de 5,6% para quem adquirisse a moeda americana ao preço atual. Comparando-se à Selic em vigor, de 13,75% ao ano, na renda fixa o investidor fará melhor negócio mesmo que o pior cenário para a taxa de câmbio brasileira se concretize. Para o euro, a história não é muito diferente, pois espera-se que a divisa européia perca valor em relação ao dólar. Fazendo-se a conversão para o real, a Tendências, por exemplo, estima uma cotação de R$ 2,36 para a moeda européia no fim deste ano.
É mais ou menos consenso que 2009 será um ano difícil do ponto de vista de fluxo de capitais para o Brasil. A fartura de liquidez que se viu no passado, e que fez o dólar chegar à mínima de R$ 1,562 em julho passado, está fora de cogitação, especialmente num ambiente de retração da atividade global, afirma o economista do Banco Real Cristiano Souza.
Para ele, embora o país ainda possa contar com superávit comercial, o líquido entre ingressos por exportações e saídas por importações será sensivelmente menor do que em 2008. Pelas suas contas, considerando o déficit nas transações correntes e o total de amortizações a pagar, o governo terá de usar US$ 15 bilhões das reservas para fechar a conta do setor externo. "O crédito está muito restrito, as linhas de 'trade finance' estão mais caras e isso atrapalha inclusive as exportações." Tal dinâmica, diz, é condizente com um dólar na casa dos R$ 2,40 em dezembro - podendo rondar os R$ 2,50 ou R$ 2,60 ao longo do primeiro trimestre -, calcula Souza.
Estimativa semelhante tem Samuel Kinoshita, da Idéias Consultoria. "Em 2008, mudaram as regras do jogo e, para 2009, todos os vetores apontam na direção de um real desvalorizado." A história para este ano, argumenta, estará mais efetivamente atrelada às transações do país com o exterior. A capacidade de atrair investimentos diretos será menor, enquanto o interesse por ativos brasileiros deve cair pela aversão ainda elevada a riscos na renda variável e pela queda dos juros, no caso da renda fixa.
Kinoshita prevê que o saldo da balança comercial se limite a US$ 10 bilhões, que o investimento direto fique em US$ 20 bilhões e o déficit em conta corrente na casa dos US$ 28 bilhões, ante os US$ 25 bilhões da média do mercado. Apesar de mais pessimista, ele não espera movimentos abruptos no câmbio, como aqueles que levaram a divisa americana de R$ 1,8120 para R$ 2,50 num intervalo de menos de dois meses.
Com salto dessa magnitude, o dólar acabou figurando em 2008 como a melhor opção entre os ativos negociados no mercado brasileiro, com valorização de 31,3%. O Brasil pagou não só o preço de estar com a moeda sobrevalorizada como também de dispor de mercados à vista e futuro líquidos o bastante para ser o porto de operações de "hedge" (proteção) de gestores internacionais, diz o diretor de investimentos de Renda Fixa da Legg Mason, Guilherme Abbud. "Eram casas que mantinham posições em moedas de países emergentes com câmbio fixo ou mercado mais restrito do que o brasileiro." Ele lembra que o "efeito estilingue" no câmbio também resultou da demanda extra por divisas das exportadoras locais que se alavancaram no mercado futuro.
Tal combinação de infortúnios fez com que o Brasil tivesse a pior performance cambial do mundo em 2008, apesar de não ter o balanço de pagamentos mais fraco comparativamente, acrescenta Abbud. Embora concorde que será mais difícil atrair capitais para os emergentes neste ano, ele vê exageros na desvalorização do real, que levou a moeda a valer R$ 2,50, e considera factível que as cotações voltem para a casa dos R$ 2,00 nos próximos meses. "Nos últimos anos houve um crescimento grande na corrente de comércio e a soma de exportações e importações deve ser maior do que no ano passado, a desvalorização cambial menor já faz o serviço de ajuste no balanço." Ele trabalha com um superávit comercial de US$ 20 bilhões, bem acima da média do mercado, de US$ 14,5 bilhões.
A Tendências Consultoria também tem números mais destoantes do consenso e estima um saldo comercial de US$ 22 bilhões, além de esperar um fluxo razoável de investimento direto (US$ 25 bilhões) e de investimentos em portfólios (US$ 15 bilhões). Isso resultaria num déficit em conta corrente da ordem de US$ 15 bilhões, menor do que os US$ 29 bilhões previstos na consolidação das estatísticas de 2008. "O que vai entrar pela conta de capitais é mais do que suficiente para bancar o déficit", diz a economista Alessandra Ribeiro. Pelas suas contas, 2009 deve fechar com sobra de US$ 20 bilhões no balanço. Para ela, a incursão do Brasil no mercado internacional, com uma captação de US$ 1 bilhão por 10 anos há uma semana, dá indícios de que as portas do crédito externo também podem ser reabertas para as empresas locais.
Lucros menores das empresas e taxa de câmbio mais alta também devem resultar em remessas menos expressivas de lucros e dividendos, acrescenta o economista-chefe do Banco Schahin, Silvio Campos Neto, contribuindo para uma conta corrente mais comportada. "Os eventos que provocaram a mudança de faixa do dólar, de R$ 1,70 para R$ 2,30/R$ 2,40, já ajustaram a moeda a um fluxo cambial mais negativo, é um movimento que não prossegue em 2009."
Levantamento do Itaú mostra que, no último trimestre de 2008, o real teve desvalorização de 21,52%, a maior entre uma cesta que inclui as moedas da África do Sul, Hungria, Austrália e Nova Zelândia, e que tiveram variações em sua maioria entre 10% e 15%. A moeda da Turquia, em segundo lugar, perdeu 21,35%.
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