sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Mercado do ti-ti-ti

Valor Econômico

29/01/2010

Por Angelo Pavini, de São Paulo

Enquanto o Índice Bovespa cai mais de 5% no ano, um grupo de papéis dispara, com ganhos que chegam a superar 200%. O volume de negócios também explode, saltando de poucos milhares de reais para milhões por dia. É o mercado do "ouvi dizer", do "ti-ti-ti", da "dica quentíssima", que ainda fascina muitos investidores novatos, movidos pelo sonho de ficar ricos na bolsa da noite para o dia e que pegam carona nesses boatos. E, normalmente, quebram a cara.

A lista inclui papéis conhecidos, como Parmalat, Gradiente, Cobrasma e Telebrás, além de outros bem menos famosos, como a Refinaria de Petróleo Manguinhos ou Kepler Weber. Em comum, todas estavam praticamente esquecidas até pouco tempo atrás, têm cotações muito baixas, em centavos de reais, nenhuma cobertura de analistas de corretoras, baixa liquidez e, o mais importante, algum fator que pode mudar radicalmente sua situação, em geral de estagnação ou dificuldades. É o zumbi que, de uma hora para outra, pode se transformar na fênix e renascer das cinzas. Outro ponto em comum é que elas reúnem uma legião de investidores interessados em especular.

Estudo feito pela Economática detectou mais de 20 ações que subiam 50% ou mais no ano. Há casos em que o volume disparou, aumentando até 121.000%, de R$ 6 mil por dia em 2009 para R$ 7,292 milhões por dia neste ano. A Laep, controladora da Parmalat, chegou a ficar entre as três ações mais negociada em um dos pregões, dividindo os holofotes com as estrelas Petrobras e Vale, movimentando R$ 400 milhões, quase o dobro de seu valor de mercado na época.

Em alguns casos, os boatos se confirmam parcialmente. Laep e sua controlada Parmalat não foram vendidas para um grande grupo frigorífico, mas anunciaram ontem que conseguiram transformar parte da dívida em capital (ver página D2). Gradiente não recebeu uma injeção milionária de fundos de pensão, mas divulgou um princípio de acordo com credores nesta semana. Com Telebrás, o governo se encarrega de alimentar o vaivém, ora confirmando, ora negando a ressurreição da companhia telefônica.

Quando detecta esses movimentos estranhos, a bolsa e a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) questionam a empresa, mas a resposta, normalmente, é que os executivos desconhecem os motivos da alta. Se depois surgem motivos reais, há a possibilidade de investigações sobre uso de informações privilegiadas. "Mas os valores são tão pequenos que acabam no fim da fila das prioridades de investigação, o que atrasa e dificulta uma punição", diz um executivo de mercado que pediu para não ser citado.

Os investidores buscam essas empresas menos líquidas na esperança de achar algum valor esquecido, alguma "galinha morta", diz Lika Takahashi, chefe de análise da Fator Corretora, casa especializada em papéis de segunda linha, mas que não acompanha as ações da lista. "Talvez até ache algo bom, mas talvez não sejam histórias de tanta qualidade", avalia. Para ela, esse é um sintoma também de um mercado que estava muito esticado, o que leva os investidores a procurarem alternativas. "Mas geralmente essas empresas não têm análise nenhuma e é difícil saber se é coisa boa ou não", diz. A maior parte delas é movida por eventos, lembra Lika, e há sempre o risco do "timing", ou seja, a solução pode demorar muito mais tempo do que se esperava e o investidor acaba "casando", com o papel.

Alguns grupos de mercado precisam propagar notícias para dar liquidez a alguns papéis, observa Maílson Rykavei, sócio da consultoria de investimentos FinPlan. Para atrair essa liquidez, usam empresas que estão sujeitas a um possível evento, como foi o caso de Parmalat e Laep. Em alguns casos, a empresa mais engenhosa até se aproveita disso, para divulgar alguma informação positiva. "São fatos ou factoides que têm a possibilidade de acontecer", observa. Como a parcela do capital dessas empresas que está no mercado, o chamado "free float", é pequena, pouca coisa já provoca fortes altas, sem afetar a estrutura de capital da companhia. "Mas o que o investidor precisa conhecer é o pano de fundo daquela empresa e quanto aquela informação que circula pode se concretizar", diz.

No mais, trata-se de de um processo típico de especulação, em que a empresa tanto pode dar a volta por cima quanto falir, afirma o consultor. Ele conta o caso de um cliente que resolveu investir em uma dessas empresas. Antes, foi visitá-la, conheceu os administradores, os projetos e então resolveu aplicar 1% das economias nas ações da companhia. "As ações saíram de R$ 0,17 centavos para R$ 0,25 apenas com as compras dele, em duas semanas", afirma.

Esse é outro risco do investidor: começar a comprar e o preço disparar. "E a corretora continua comprando, mesmo depois de o papel subir 40%", alerta. "Os casos de fracasso costumam ser maiores que os de sucesso, a questão é que ninguém conta quando perde, só quando ganha", diz Rogério Bastos, também da FinPlan.

O movimento dos chamados "micos" de mercado é sazonal, costuma ocorrer no início do ano, diz Ricardo Pinto Nogueira, ex-superintendente da Bovespa e hoje diretor da corretora Souza Barros. "É época de férias, todo mundo querendo saber o que vai subir", conta ele.

Em geral, o boato tem origem em sites de bate-papo ou fóruns de debate especializados, ou ainda em corretoras, quando um papel começa a se mexer demais e é preciso encontrar uma explicação. E todos têm uma certa lógica: é o trem-bala que vai usar vagões da Cobrasma ou uma empresa estrangeira que vai comprar fios da Kepler Weber. A boataria é tanta que só o bilionário Eike Batista já teria comprado pelo menos três empresas neste ano. Quando a companhia é questionada pela bolsa e vem o desmentido, a especulação muda de endereço. "Mas até isso acontecer, a especulação pode durar semanas", diz.

Em alguns casos, os boatos são plantados propositadamente, por espertalhões que querem aumentar o valor de suas carteiras, alerta Nogueira. E é difícil detectar o culpado, pois em geral quem espalha a notícia é um conhecido ou "laranja". Em outros casos, pode haver algum fundamento na informação.

Ele chama a atenção para o fato de que, como os papéis são muito baratos, chamados "papel de pó", qualquer centavo de alta já representa um ganho expressivo para o especulador. "Uma ação que custa R$ 0,50 e que sobe para R$ 0,51 já representa um ganho de 2%, o que está bom em um mercado onde o juro anual é de 8,75%", lembra. E, com as corretoras reduzindo as taxas de corretagem, fica mais barato especular com esses papéis, comprando e vendendo no mesmo dia, no chamado "day-trade". O que o investidor esquece é que, se o papel cai alguns centavos, aí o prejuízo também é elevado.

Nogueira lembra que, há dois anos, os protagonistas desse mercado do ti-ti-ti eram outros, como Grazziotin, Recrusul e Gazola. Mas até Souza Cruz já foi vítima. Segundo ele, a bolsa tem poucos recursos para impedir esses movimentos. "O que pode ser feito é colocar esses papéis em leilão, pois as negociações param por uma hora e isso reduz a especulação", diz.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Educação financeira engatinha no Brasil

Valor Econômico

28/01/2010


 

Por Luciana Monteiro, de São Paulo

É cada vez maior a preocupação de governos e entidades reguladores no que se refere à educação financeira da população para que ela esteja apta a tomar decisões de forma consciente e fundamentada. Em países desenvolvidos, o tema finanças pessoais já se encontra em estágio avançado, constando, inclusive, na grade curricular das escolas. Por aqui e em países emergentes, no entanto, o assunto ainda engatinha, embora venha ganhando terreno nos últimos tempos.

Estudo realizado pelo pesquisador e professor do Laboratório de Finanças (Labfin) da Fundação Instituto de Administração (FIA) André Saito mostra que o processo de educação financeira está se desenvolvendo de forma mais intensa nos Estados Unidos, Reino Unido, Japão, Austrália, Nova Zelândia e Coreia do Sul. Esses países representam 37% das regiões analisadas no levantamento. Já na América Latina e no Leste Europeu, que compreendem 63% das regiões avaliadas, o ritmo de ações no sentido de prover conhecimento financeiro para a população ainda é bastante lento.

Com base numa pesquisa bibliográfica e documental, o estudo tinha como objetivo mapear os fatores críticos para a implantação da educação financeira nas grades curriculares, além de analisar as estratégias que podem fomentar a capacitação financeira dos indivíduos nos âmbitos escolares. "Sob o ponto de vista acadêmico, há uma lacuna de estudos sobre educação financeira", diz o pesquisador, lembrando que, por aqui, a área de finanças pessoais tem um enfoque mais voltado para recomendações. "No Brasil, quando o assunto é tratado, é mais com foco no aconselhamento, do tipo "como conseguir o primeiro milhão", por exemplo."

De acordo com Saito, os resultados sugerem a necessidade da inserção do assunto sem o foco nos interesses comerciais de agentes privados, além do desenvolvimento de profissionais que entendam o assunto, tanto na esfera pública quanto privada. É importante também que haja a introdução do tema educação em finanças pessoais no ensino básico.

Na visão do professor, ainda que algumas unidades de ensino no país isoladamente estejam colocando em suas grades curriculares a educação em finanças pessoais, há a necessidade de se promover a inclusão do tema nos currículos brasileiros como um todo. "Esta demanda é coerente com os interesses sociais predominantes e relevante para o desenvolvimento econômico do país."

Ao analisar as iniciativas existentes nos Estados Unidos, o pesquisador pode perceber que a educação financeira é um assunto que consta no currículo escolar de 48 Estados, além do Distrito de Columbia. "Nos Estados Unidos, percebe-se uma grande diversidade de grupos envolvidos no processo de educação em finanças pessoais , de modo que a participação de órgãos governamentais, instituições financeiras e do terceiro setor ocorre, concomitantemente, com a ação do sistema de ensino formal", escreve.

Segundo Saito, nos EUA, o sistema educacional é de responsabilidade estadual e local, diante da noção de descentralização característica do regime de federalismo. "No entanto, o Departamento de Educação exerce papel primordial no desenvolvimento dos conteúdos curriculares que promovam a melhoria da educação no país"

Já no Reino Unido, o tema é facultativo desde 2001. Na maior parte das vezes, no entanto, o assunto não é uma disciplina, mas está inserido em outras matérias estudadas pelos alunos durante a vida escolar. No Japão, segundo o pesquisador, verifica-se a participação das principais instituições financeiras privadas. O sistema de ensino insere a economia doméstica nas grades curriculares. "No caso japonês, a formação de poupança está muito ligada à história do país, à preocupação de reconstruir a nação depois da Segunda Guerra Mundial", diz.

No que se refere ao Leste Europeu e à América Latina, os países se mostram muito atrasados no que se refere ao desenvolvimento de uma cultura de poupança, apesar das iniciativas incipientes. "Países que sofreram mais com instabilidades políticas e econômicas em seu processo histórico tiveram um resultado na pesquisa aquém do dos desenvolvidos", diz Saito.

Apesar do baixo desempenho do Brasil quando o assunto é educação financeira, o país tem posição de destaque na América Latina. Vale lembrar que o Brasil tem trabalhado no sentido de desenvolver a educação financeira nas escolas. Há, por exemplo, um projeto de lei (número 3401/2004) que propõe que a disciplina educação financeira seja inserida no currículo escolar da quinta à oitava séries do ensino fundamental e do ensino médio. O projeto, proposto pelo deputado Lobbe Neto (PSDB-SP), já foi aprovado pelo Congresso e foi encaminhado para discussão no Senado.

Mesmo o Ministério da Educação (MEC) já revelou que espera integrar as ações voltadas às finanças pessoais em um grande programa nacional de educação financeira nas escolas, que será lançado neste início de 2010 por decreto do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O Banco Central também está preocupado com o assunto e quer treinar militares da Aeronáutica para levar orientação financeira para os lugares mais remotos do país. "Ainda que as iniciativas estejam em estágio bastante incipiente, é importante ressaltar que a preocupação com o assunto vem crescendo nos últimos anos", diz Saito.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Conheça melhor o seu perfil

Jornal da Tarde

25/01/2010


Teste feito pelos bancos mostra qual aplicação é mais indicada para cada tipo de investidor

Paulo Justus, paulo.justus@grupoestado.com.br

Quem aplica em fundos de risco pela primeira vez é convidado pelo banco a fazer uma avaliação de perfil. O questionário, chamado de Análise do Perfil do Investidor (API), cruza informações sobre o risco que o aplicador está disposto a correr com o momento da vida em que se encontra. Como resultado, classifica o investidor em categorias que variam do conservador ao arrojado (veja exemplo ao lado).

Os bancos estão, desde o começo do ano, obrigados a oferecer a API para quem investe pela primeira vez em fundos classificados como de maior risco - ações, multimercados (que aplicam em vários ativos, inclusive ações) ou de crédito privado (títulos emitidos por empresas). O levantamento é feito por meio de 15 questões e pode ser preenchido pelo internet banking, atendimento telefônico ou nas agências.

Alguns bancos, como o Itaú Unibanco, Bradesco, HSBC e Banco do Brasil mostram se os investimentos já feitos pelo cliente no passado estão adequados ao resultado do teste. No Itaú, além da análise das aplicações, a API também sugere fundos para investir.

Com a API, os bancos devem passar a acompanhar mais de perto os investimentos de seus clientes. “Toda vez que o cliente fizer um investimento fora do perfil, o sistema vai alertá-lo”, diz Antônio Cássio Segura, gerente executivo do Banco do Brasil.

Os alertas e sugestões de investimento, no entanto, não impedem que o cliente aplique como quiser. Funcionam mais como uma forma de conscientização. “Boa parte continua a investir de maneira diferente do seu perfil, após passar pela API, mas faz isso conscientemente”, diz Segura.

O resultado da API também vai ajudar os bancos a oferecerem produtos adequados ao perfil de seus clientes. “O gerente sugere uma carteira de produtos, não apenas um tipo de investimento”, diz Marcos Villanova, superintendente do Bradesco.

Com a nova ferramenta, algumas instituições pretendem inclusive extrapolar a API e considerar também o momento da vida do cliente. “Se o cliente vai ter um filho, por exemplo, a sugestão de investimentos muda”, diz Osvaldo Nascimento, diretor executivo do Itaú Unibanco.

A convite do JT, o gerente de qualidade Rogério Sudré, de 32 anos, aceitou fazer a API no banco em que tem conta. Ele se considera conservador e investe há três anos, seguindo uma fórmula de 30% em ações e o restante em fundos de renda fixa. A API do Unibanco classificou Sudré como um investidor moderado. “O teste mostrou que eu posso arriscar mais nos investimentos”, disse.

Independentemente da sugestão do banco, o importante é aplicar de acordo com um planejamento, diz o consultor do Instituto de Educação Financeira (Disop), Francis Hesse. “É preciso saber se a aplicação é para aposentadoria ou para comprar um carro novo”, diz.

Já o consultor financeiro Marcos Crivelaro diz que o investidor deve comparar as taxas de administração e rentabilidade entre os bancos. “Ao analisar um fundo, é importante saber qual foi a rentabilidade dele no passado, como se comportou durante as crises e comparar com outros produtos existentes no mercado”, diz.

O educador financeiro e autor do livro Terapia financeira, Reinaldo Domingos, diz que a idade do aplicador também deve ser levada em conta. “Uma pessoa mais velha tem menos tempo para recuperar uma perda, caso ocorra”, afirma Domingos .

COMO INVESTIR
Análise do Perfil do Investidor (API)
A API pode ser feita em agências, internet banking ou teleatendimento dos bancos.
Mais informações em www.comoinvestir.com.br


Modelo de questionário de Análise de Perfil do Investidor *

1) Atualmente sua idade é:
1 ( ) Mais de 65 anos
2 ( ) Entre 56 e 65 anos
3 ( ) Entre 36 e 55 anos
4 ( ) Menos de 36 anos

2) Seus investimentos representam que porcentual do total de seu patrimônio ?
1 ( ) Mais de 75%
2 ( ) De 51% a 75%
3 ( ) De 25% a 50%
4 ( ) Menos de 25%

3) Quando você espera realizar resgates em seus investimentos?
1 ( ) Entre 1 mês e 6 meses
2 ( ) Entre 6 meses e 1 ano
3 ( ) Entre 1 ano e 2 anos
4 ( ) Acima de 3 anos

4) Qual a finalidade dos seus investimentos?

1 ( ) Consumo (Ex.: comprar um carro, uma casa, reforma, viagem, etc)
2 ( ) Proteção do capital contra a inflação
3 ( ) Aposentadoria
4 ( ) Crescimento substancial do patrimônio

5) Em quais produtos de investimento você costuma aplicar ?
1 ( ) Não investia anteriormente
2 ( ) Poupança, CDB e fundos DI
3 ( ) Poupança, CDB, fundos DI , fundos de renda fixa e multimercados
4 ( ) Poupança, CDB, fundos DI, de renda fixa, multimercados , fundos de ações, ações (home broker)

6) Para obtenção de maiores retornos no longo prazo, qual seria o porcentual de perda aceitável ?
1 ( ) Não aceitaria perda
2 ( ) Até 5%
3 ( ) Entre 5% e 10%
4 ( ) Acima de 10%

7) Considerando a relação risco X retorno, na qual, quanto maior o retorno maior o risco, qual sua expectativa de retorno para seus investimentos ?
1 ( ) Proteção do capital
2 ( ) Pequeno crescimento do capital
3 ( ) Crescimento moderado do capital
4 ( ) Grande crescimento do capital


ENCONTRE SEU PERFIL
Responda a todas as questões, marcando apenas uma resposta para cada pergunta.
Some os valores das alternativas respondidas e confira o resultado na tabela abaixo:
Defensivo: de 7 a 9 pontos
Esse perfil é formado por aqueles investidores que não querem correr nenhum risco e tem como principal objetivo preservar o capital, antes mesmo da obtenção de renda. Para esses aplicadores as sugestões são poupança, fundos DI e CDBs Conservador: de 10 a 16 pontos
Deseja obter um rendimento real positivo, mas já admite algum risco nas aplicações, que se concentram na maior parte em poupança e DI, com uma pequena parte em renda fixa e fundos multimercado
Moderado: de 17 a 22 pontos


Busca equilíbrio entre ganho e crescimento. Aceita riscos e aplica em médio e longo prazo. Mais da metade da carteira vai para CDBs, fundos DI e multimercado. Divide o restante em ações, renda fixa e crédito privado.
Agressivo: de 23 a 28 pontos
Busca o crescimento do capital e aplica para resgate acima de um ano. Até um quarto da carteira em ações, boa parte em renda fixa e o restante em fundos multimercado, CDBs e crédito privado

* - Modelo do HSBC. O perfil pode ser diferente em outros bancos

Investidor acelera venda de títulos

O Estado de São Paulo

25/01/2010


2009 foi marcado pela venda de papéis; para especialistas, investidor deve buscar título de inflação neste ano

Yolanda Fordelone


No oitavo ano de funcionamento, o Tesouro Direto teve um perfil diferente de investidor em 2009. Dados do balanço anual mostram um aplicador mais ativo. Enquanto o volume financeiro das compras por pessoas físicas manteve-se em torno de R$ 1,5 bilhão, as vendas sofreram um aumento de 42%. Em 2009, foram vendidos R$ 493 milhões em papéis, nas recompras semanais que ocorrem no site do governo às quartas-feiras. O volume de 2008 havia sido de R$ 347 milhões.

"Em 2008, houve uma campanha para trazer mais investidores para o Tesouro. Quem já estava aplicando desde então, em 2009, passou a entender melhor o instrumento, a fazer mais trocas e a vender os títulos para cobrir despesas ou para buscar mercados mais voláteis", diz o diretor-executivo da consultoria BI Invest, Reinaldo Zakalski.

"Vendi os títulos LFT em outubro para aplicar em ações", lembra o engenheiro Diego Venâncio, de 32 anos, que havia comprado os papéis em novembro de 2008. "Investi em títulos para acumular capital enquanto a Bolsa não apresentava uma retomada mais forte."

PERSPECTIVA

Apesar das vendas intensas em 2009, o investimento em títulos continua a ser recomendado, especialmente os papéis pós-fixados já que o cenário é de alta de juros. "A única certeza de 2010 é que os juros vão subir e acreditamos numa alta acima de 10,50%", diz o sócio da gestora de recursos M2 Investimentos, Luiz Medina.

Como o papel prefixado mais curto está com taxa de 10,37%, títulos pós que acompanham a inflação são mais indicados, dizem os especialistas.

Esses papéis pagam ao investidor um juro fixo mais a variação da inflação oficial, medida pelo IPCA. "A parte fixa já está projetando uma futura alta do juro. Além disso, o investidor se protege do aumento da inflação", diz Zakalski.

Analistas esperam IPCA de 4,5% neste ano. "É difícil que o IPCA seja menor do que no ano passado. Muitas casas projetam a inflação considerando um dólar baixo, mas a moeda tem subido", diz Medina.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

O Leão dá um desconto

Valor Econômico

Por Luciana Monteiro e Antonio Perez, de São Paulo
22/01/2010

Cerco da Receita ao investidor com ganho em bolsa amplia procura pelo Refis, que teve 169 mil pedidos no ano passado.

O cerco da Receita Federal, em especial aos investidores em ações, está aumentando o interesse das pessoas físicas pela renegociação de débitos com o Leão. Pelo menos 169 mil aproveitaram o Programa de Recuperação Fiscal (Refis), encerrado no fim do ano passado, para parcelar suas dívidas. Muitos são investidores que não declaravam os ganhos obtidos em bolsa. Tanto que 59% dos que aderiram ao programa - ou 99.810 pessoas - estão justamente na modalidade que compreende, entre outros casos, os débitos não declarados por ganhos de capital em vendas de ações no mercado à vista.

A Receita já deixou claro que está aumentando a fiscalização e vai cada vez mais atrás de quem aplica em bolsa. Isso está estimulando a procura por consultoria na área e incentivando as corretoras a lançar serviços de orientação fiscal aos investidores de home broker.

Os números mostram que a BM&FBovespa encerrou o ano passado com 552.364 contas de pessoas físicas. E, diante da valorização de 82,66% do Ibovespa em 2009, o número de investidores que terão de declarar os lucros com ações não será pequeno. O problema é que pelo menos 70% desses investidores não recolhem o tributo, avalia Meire Bomfim Poza, da Arbor Contábil.

Muitos simplesmente não declaram os ganhos em bolsa, nunca caíram na malha fina e acham que não serão pegos pela Receita, diz Meire. "Tem muita gente que nem sabe que é ele, investidor, o responsável por apurar o imposto, pensam que isso é responsabilidade da corretora." Caso seja pego, o contribuinte terá de pagar, além do valor devido, juros e as multas regulares, outra multa, que pode variar de 75% do valor do imposto, para casos de erro, a 225%, quando há indícios de fraude ou sonegação.

A forma de cálculo do imposto também é complicada, exige que o aplicador guarde todos os documentos das negociações por muito tempo e faça várias contas. Todo investidor que vende ações num valor superior a R$ 20 mil por mês precisa pagar 15% de imposto de renda sobre os ganhos. A apuração do tributo é mensal e vence no último dia útil do mês seguinte ao da venda das ações.

Se o total vendido no mês não superar R$ 20 mil, não há imposto. Mas não é R$ 20 mil por operação. O cálculo deve levar em conta a soma de todas as vendas realizadas no mês. Se o total superar em um real que seja o limite, o investidor tem de pagar 15% sobre todos os ganhos líquidos, já descontadas eventuais perdas naquele mês ou em meses anteriores. Ou seja, não é só sobre o que ultrapassar R$ 20 mil, é sobre o valor total.

A confusão é tanta que as corretoras já se movimentam a fim de facilitar a vida dos clientes. A Gradual Investimentos, por exemplo, estreou nesta semana um portal exclusivamente com informações sobre o recolhimento do imposto. Com mais de 30 mil clientes no home broker, o portal recebeu 40% mais acessos que a página da corretora, diz Marcelo Smarrito, diretor de clientes. Para ele, as corretoras têm a obrigação de orientar os clientes, já que investiram pesadamente na atração da pessoa física para o mercado acionário. "As pessoas desconhecem completamente as regras; a Receita está certíssima em apertar o certo", afirma.

Já a Ágora lançará até o fim do primeiro trimestre um software para o cálculo do imposto, informa Helio Pio, gerente comercial da corretora. O programa vai capturar e consolidar automaticamente as operações dos clientes pelo home broker, emitindo a cada mês um formulário com o imposto devido. Basta o cliente imprimir e pagar. "Era grande a demanda por algo que simplificasse o recolhimento", explica Pio. A ferramenta serve para quem opera apenas pela Ágora.

A corretora Socopa atende pelo menos um cliente por dia com dúvidas sobre como declarar o imposto de renda, afirma Michel Campanela, gerente de Home Broker da instituição. "A procura aumentou muito de um ano para cá; tem cliente que pede de um sistema automático até um contador." A corretora oferece em sua página na internet um guia sobre a declaração, com um exemplo do cálculo do imposto a partir das notas de corretagem.

Com o crescente interesse dos investidores pela questão tributária, a Investeducar, empresa especializada em educação financeira, realizou este ano um workshop dedicado ao tema. "A parte tributária ganha cada vez mais importância nos nossos cursos", diz Márcio Rodrigues, professor da Investeducar.

O imposto sobre o ganho de capital obtido com a venda de ações é pago pelo investidor em forma de Documento de Arrecadação de Receitas Federais (Darf), com o código 6015. Na hora de fazer a declaração anual do imposto de renda, o investidor deve informar mês a mês o ganho de todas as operações na seção "Renda Variável".

Uma mão na roda para o investidor é baixar o arquivo SICALC, no site da Receita, para preencher e imprimir o Darf. Mas se o valor vendido em ações não ultrapassar R$ 20 mil por mês, o investidor declara no IR só o ganho na ficha "Rendimentos Isentos e Não Tributáveis", no item "Outros".

É muito comum os investidores não fazerem o recolhimento do imposto já que, no ato da venda das ações , a corretora recolhe na fonte 0,005% sobre o valor, avisando a Receita da operação, lembra Meire, da Arbor. Esse percentual pode ser deduzido na hora de pagar o imposto sobre o ganho de capital. "Mas muito investidor vê esse recolhimento no extrato da corretora e acha que já pagou o imposto, o que não é verdade", diz.

Quem estava com impostos atrasados poderia aderir ao Refis para parcelar débitos registrados de 2005 a 2008 (até o dia 30 de novembro daquele ano). A adesão permitia o parcelamento do débito em até 180 meses com desconto na multa e nos juros. Se optasse por pagar à vista, o contribuinte ficaria livre da multa e abateria 45% dos juros do período.

Mas, e quem perdeu o prazo? A saída é fazer um refinanciamento ordinário, que permite pagar a dívida em até 60 meses, mas sem desconto das multas e juros. É preciso também apresentar garantias, como imóveis, por exemplo.

Na declaração, as ações em carteira devem ser informadas na seção "Bens e Direitos", empresa por empresa, papel por papel, separadamente, pelo valor de compra, sem atualização. Eventuais proventos provisionados e não recebidos também devem ser informados lá.

Os dividendos devem ser declarados na linha 5 da ficha de "Rendimentos Isentos e Não Tributáveis". Já os juros sobre capital próprio devem entrar em "Rendimentos Sujeitos à Tributação Exclusiva". As operações de compra e venda no mesmo dia, o chamado "day-trade", pagam 20% sobre os ganhos e mais 1% na fonte

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Número de novos cadastros no Tesouro Direto cai 33%

Valor Econômica

21/01/2010

De São Paulo

O Tesouro Direto - sistema de negociação de títulos públicos pela internet - atraiu menos investidores em 2009. No ano passado, 28.719 aplicadores se cadastraram no programa, elevando em 19,7% o total acumulado em relação a 2008. Apesar disso, a quantidade de novos cadastros caiu um terço, ou 33%, em relação aos 42.946 que aderiram ao programa no ano anterior.

A redução no ritmo de crescimento de cadastros ocorreu justamente num ano em que a crise financeira internacional arrefeceu, fazendo com que muitos investidores buscassem ativos um pouco mais arriscados.

 

 

O Índice Bovespa, por exemplo, encerrou 2009 com valorização de 82,66% . Com o mercado acionário em alta, o interesse por ações também aumentou. A BM&FBovespa encerrou o ano passado com 552.364 contas de pessoas físicas, 15.501 a mais do total registrado em 2008.

É preciso ressaltar, entretanto, que o forte crescimento do número de cadastros novos no Tesouro Direto em 2008 se deveu aos impactos da crise financeira, que levou os investidores a buscar refúgio em alternativas de investimento mais conservadoras.

A queda no ritmo de crescimento do número de cadastros ocorreu justamente no ano em que o Tesouro Direto fechou uma parceria com a BM&FBovespa, que passou a divulgar o programa em sua campanha de popularização. Além disso, as duas instituições fizeram um processo de integração do sistema de negociação eletrônica de ações, o home broker, com o de venda de títulos públicos para as pessoas físicas, para facilitar as operações.

Os números do balanço das operações do sistema mostram que os pequenos investidores ainda são maioria nas aplicações. A venda de títulos para valores até R$ 1 mil representou 28,2% das operações no ano passado. Já a fatia para investidores com investimentos de até 5 mil atingiu 67,5% do total.

Os títulos mais procurados em 2009 foram as Letras do Tesouro Nacional (LTN, títulos com rentabilidade prefixada), com 28,53%. Em seguida ficaram as Notas do Tesouro Nacional série B (NTN-B), com 21,16%. Esses papéis remuneram o investidor com juros definidos no momento da compra mais a variação do IPCA.

As Notas do Tesouro Nacional série F (NTN-F, títulos prefixados com pagamento de juros semestral) representaram 19,61% das vendas no ano. Em quarto lugar ficaram as NTN-B Principal - que têm as mesmas características da NTN-B, mas sem pagamento de juros semestral -, com 17,73%. As Letras Financeiras do Tesouro (LFT, pós-fixadas), que seguem a variação da Selic, obtiveram fatia de 12,96%.

As vendas de títulos públicos por meio do Tesouro Direto somaram R$ 1,562 bilhão no ano passado, valor praticamente estável em comparação ao R$ 1,558 bilhão registrado em 2008 - crescimento de 0,27%. Os papéis com prazo entre um e cinco anos representaram 48,88% das vendas. Já os títulos com vencimento acima de cinco anos tiveram participação de 44,45%. Os papéis com vencimento em até um ano representaram apenas 6,67% do volume de vendas.

As NTN-B Principal com vencimento em 2024 foram as mais rentáveis no ano passado, com retorno de 25,55%. Em seguida vieram as NTN-B 2045, com rendimento de 24,91%. A rentabilidade dos títulos atrelados a índices de preços, que inclui também a NTN-C, indexada ao IGP-M, variou entre 11% e 25,6% no ano passado.

Entre as LTN, o destaque ficou por conta dos papéis que vencem em janeiro de 2011, com 14,41%. Considerando LTN e NTN-F, os títulos prefixados apresentaram rentabilidade entre 12,2% e 15,2%. Já os pós-fixados obtiveram retorno de 9,9%.

O estoque total do Tesouro Direto atingiu R$ 3,268 bilhões no fim de 2009, o que representa um acréscimo de 32,9% em relação ao anterior, no valor de R$ 2,460 bilhões.

Luiz Sérgio Guimarães

Valor Econômico

21/01/2010

Juro ignora efeito da aversão global e sobe

Para sintonizar-se com a feroz aversão a risco exibida ontem no mercado internacional, os juros deveriam ter caído no pregão de CDI futuro da BM&F. Afinal, se os EUA, como revelam os balanços do quarto trimestre do ano passado, não estão se recuperando com a desenvoltura imaginada e se a China se empenha em restringir o crédito, aumentará a possibilidade de os bancos centrais adiarem o início de movimentos de aperto monetário. O prolongamento de uma fase de crescimento moderado - conjugada com a queda de preço das commodities - favorece políticas monetárias mais frouxas. Apesar disso, os juros continuaram subindo na BM&F. A taxa do swap de 360 dias avançou de 10,43% para 10,45%. E o CDI para a virada do ano subiu de 10,32% para 10,33%.

O motivo para a autonomia doméstica de juros é a percepção de que a economia brasileira está se expandindo num canal próprio de alta, não inteiramente vinculado ao que acontece lá fora. Os dados algo decepcionantes do Caged não esmoreceram a sensação de que o Brasil crescerá mais do que a média dos emergentes, com exceção da China e da Índia. Mesmo tendo apontado o fechamento líquido (415,2 mil) de mais postos de trabalho do que o previsto (340 mil) pelos analistas, o Caged não sinalizou a interrupção da recuperação do mercado de trabalho. A consultoria LCA observa que no ano passado foram gerados 995 mil postos formais, resultado inferior ao observado em 2008 (1,452 milhão), "mas bastante significativo se levarmos em conta a importante retração sofrida pelo mercado formal entre novembro de 2008 e março de 2009". E se o crescimento brasileiro desacopla-se em certa medida ao que acontece nos EUA e na Europa, a onda mundial de valorização da moeda americana poderá produzir mais facilmente algum efeito inflacionário. O dólar fechou ontem cotado a R$ 1,7930, com acréscimo de 1,19%. Apenas nos 13 primeiros dias úteis do ano, a moeda avançou 2,87%.

Os players do mercado futuro de juros não ignoram que o "pass-through" cambial para os preços no varejo tende a ser amortecido pela queda das commodities, cuja oferta ao mercado interno cresceria se houvesse resistência à sua colocação nos mercados globais. Mas os analistas temem que o aquecimento do consumo leve a uma ampliação da importação de bens de consumo independentemente do preço em dólar. Como diz o chefe do Departamento Econômico do Banco Central, Altamir Lopes, se o déficit em transações correntes não é problema, a balança comercial preocupa. O déficit em conta corrente registrado em dezembro surpreendeu negativamente. Foi de US$ 5,9 bilhões, elevando para US$ 24,3 bilhões o rombo do ano. Para 2010, o BC projeta um déficit maior ainda, na casa da US$ 40 bilhões. Mas, como no ano passado, o deste ano será amplamente financiado pelo investimento direto, estimado na faixa de US$ 45 bilhões. Sem problema.

 

 

O quadro para a balança comercial não é tão reconfortante assim. Se ao crescimento das importações forem agregados o fator externo da aversão e o interno do ruído eleitoral, o dólar parece ter um potencial inquietante de valorização. A variável decisiva vem mesmo lá de fora. A moeda americana costuma se comportar de maneira desconcertante: ela assume como verdadeira a direção indicada pelo mercado externo e sobe ou cai assimetricamente em relação ao fluxo cambial. A lei da oferta e da procura não vale muito para o câmbio. Em teoria, o dólar deveria subir se falta moeda na praça e cair se sobra.

Na prática, o superávit ou o déficit do fluxo cambial são compensados pelas intervenções de compra do BC e pela contração ou expansão das posições registradas à vista pelos bancos. Na primeira semana do mês, o fluxo cambial foi negativo em US$ 1,77 bilhão, mas a reviravolta foi impressionante na segunda (superávit de US$ 1,86 bilhão) a ponto de na quinzena a balança cambial exibir saldo de US$ 95 milhões. Apesar dessa sobra muito pequena, o BC não teve dó: comprou US$ 783 milhões na primeira semana e US$ 476 milhões na segunda. Era para o dólar ter subido bem mais do que os 2,87%. Não subiu mais do que o indicado pela tendência externa porque os bancos decidiram reduzir suas posições compradas de US$ 3,39 bilhões para US$ 2,23 bilhões, pelos cálculos da corretora NGO.

Com modulações locais, a tendência do dólar vem das praças de câmbio desenvolvidas. Quem manda é o grande investidor insatisfeito com os balanços de bancos e corporações americanas e temeroso das consequências globais das tentativas empreendidas pelo governo chinês de furar a bolha de crédito.

Luiz Sérgio Guimarães é repórter de finanças

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