Jornal da Tarde
25/03/2008
Administradores é que determinam para onde vai o dinheiro investido e de que forma
Uma das vantagens do fundo de investimentos é a simplicidade. Basta a pessoa procurar o banco ou a corretora, escolher a melhor opção e investir seu dinheiro. A partir daí, a responsabilidade da administração dos recursos fica por conta de investidores profissionais. Se a gestão dos recursos for boa, os ganhos serão maiores. Em períodos de baixa da Bolsa, são os profissionais que esquentam a cabeça para encontrar as melhores oportunidades.
'Clubes e fundos são mesmo a porta de entrada para a Bolsa. Mas com os fundos as pessoas conseguem minimizar o risco', defende o economista Ricardo José de Almeida, professor do Ibmec São Paulo.
Segundo Almeida, participantes de clubes geralmente confiam na orientação das corretoras, que possuem equipes de corretagem menores que os fundos de investimento. 'A grande vantagem do clube é que a pessoa pode participar do processo de decisão. No fundo, as operações estão nas mãos dos gestores.'
O engenheiro paulistano Bruno Lagroteria, de 29 anos, participa de um clube de investimentos, o Aurum, que reúne 13 pessoas. 'A relação é de amizade e, por isso, não há cobrança', explica Lagroteria, que é um dos responsáveis pelos investimentos.
Com um patrimônio de R$ 300 mil, o Aurum está passando pelas turbulências com tranqüilidade. 'As pessoas às vezes ligam, mas a gente explica que não é preciso se assustar com as baixas da Bolsa', diz Lagroteria.
Nos fundos, o cotista aplica o dinheiro e deixa nas mãos dos profissionais a gestão. 'A pessoa aplica e não se preocupa mais', explica Almeida. 'Além disso, ela acompanha os resultados pelo extrato do banco, e há mais recursos para investir.'
O fato de a administração ficar na mão de terceiros, no entanto, não significa que o investidor possa deixar o mercado de lado. Como existem fundos com diferentes perfis, alguns estão mais vulneráveis aos altos e baixos da Bolsa. A dica, segundo os especialistas, é escolher fundos de acordo com o seu perfil de investidor: conservador, moderado ou arrojado.
terça-feira, 25 de março de 2008
No clube, decisões são em grupo
Jornal da Tarde
25/03/2008
Cotistas aprendem juntos a investir em ações. Na crise, inexperientes encontram apoio
Os clubes de investimento são uma das portas de entrada para a Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa). Ao reunir amigos, parentes ou colegas de trabalho em um mesmo grupo, eles dão mais segurança aos participantes, principalmente em momentos de crise.
Desde 2002, quando a Bovespa passou a promover a formação de clubes para atrair novos investidores, o número de grupos vem aumentando. Em 1998, havia 149 clubes no Brasil - hoje, já são 2.236, com um patrimônio que ultrapassa os R$ 13 bilhões.
'Para formar um clube, os membros precisam ter alguma proximidade. São pessoas que moram em um mesmo condomínio, por exemplo, ou que trabalham juntas', explica José Roberto Mubarack, assessor de relações institucionais da Bovespa.
Juntos, os participantes passam a comprar e a vender ações por meio de uma corretora. Ao discutir o destino do dinheiro com outras pessoas, o iniciante sente-se mais seguro e aprende mais. 'Explicamos sempre a eles que a Bolsa é um investimento de longo prazo, que tem riscos', diz Mubarack. 'Se nossas orientações atingiram o objetivo, os clubes perceberam que o momento atual é o de comprar - e não o de vender.'
O economista Alcides Leite, professor da Trevisan Escola de Negócios, lembra que o participante do clube faz parte de um grupo. Por isso, as decisões são discutidas entre todos.
É o que ocorre no clube Só Meninas, formado por 15 amigas de São José dos Campos, no interior de São Paulo. 'A iniciativa surgiu em setembro de 2007', conta a engenheira Sílvia Gasparetto, de 37 anos. 'Nós queríamos aprender mais sobre a Bolsa, e a forma que encontramos foi o clube.'
Com patrimônio de R$ 130 mil, o Só meninas recebe aportes mínimos de R$ 100 por mês, de cada sócia. Para entrar, é preciso investir R$ 5 mil. 'Toda quarta-feira, às 19h, nós fazemos um encontro semanal. O aprendizado é constante', diz Sílvia.
Com os altos e baixos do mercado, o medo de algumas sócias aumentou. Nessas horas, as mais experientes tranqüilizam as mais novas. 'Estamos passando por uma fase de queda, mas o clube vai bem', garante.
O diretor da corretora Planner, Paulo Roberto da Silva, ressalta que o destino dos investimentos são de responsabilidade dos membros. 'Você é levado a discutir os rumos do clube, mesmo sendo um mero cotista', explica. 'Normalmente, o perfil é conservador, porque os investidores estão guardando dinheiro pensando no longo prazo.'
Manuel Lois, diretor de novos negócios da Spinelli Corretora, defende que os investidores bem-sucedidos são os que poupam regularmente, por mais de cinco anos. 'O clube tem riscos? Todo investimento tem', diz Lois. 'Mas no longo prazo, quando você espera as empresas prosperarem, acaba ganhando dinheiro com isso.'
Como os clubes reúnem o dinheiro de todos os membros, o capital para investir é maior. Quando o preço das ações caem - como tem ocorrido nas últimas semanas - eles podem aproveitar o momento para comprar mais ações.
COMO FUNCIONA
Os clubes de investimento são formados por, no mínimo, três pessoas e, no máximo, por 150. Os membros são amigos, parentes, colegas de trabalho ou pessoas que façam atividades comuns
No caso de grandes empresas, a Bovespa pode abrir exceções e permitir a entrada de mais participantes. Mas nenhum deles pode deter mais de 40% das cotas
O primeiro passo para montar um clube é juntar um grupo de pessoas. Depois, é preciso entrar em contato com uma corretora, que vai fazer as operações de compra e venda de ações
Os cotistas também devem definir um estatuto, formalizando as regras de
participação. Cada sócio preenche um cadastro, que é registrado na Bovespa e na Receita Federal
O clube de investimentos está voltado para a Bolsa. Pelo menos 51% do capital disponível devem ser investidos em ações
A decisão do que fazer com o dinheiro é tomada em conjunto. A participação de todos é incentivada, e ocorrem assembléias regulares.
Todo clube possui um 'gestor', que vai operar os investimentos. Esse gestor pode ser um dos membros do clube (geralmente o mais experiente) ou um analista indicado pela corretora
O custo do clube é baixo. Paga-se apenas a corretagem e a taxa de administração. No caso dos fundos, além desses dois encargos há despesas com taxas de performance (em alguns casos), auditorias
externas, taxas de custódia e custos de envio de documentos
25/03/2008
Cotistas aprendem juntos a investir em ações. Na crise, inexperientes encontram apoio
Os clubes de investimento são uma das portas de entrada para a Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa). Ao reunir amigos, parentes ou colegas de trabalho em um mesmo grupo, eles dão mais segurança aos participantes, principalmente em momentos de crise.
Desde 2002, quando a Bovespa passou a promover a formação de clubes para atrair novos investidores, o número de grupos vem aumentando. Em 1998, havia 149 clubes no Brasil - hoje, já são 2.236, com um patrimônio que ultrapassa os R$ 13 bilhões.
'Para formar um clube, os membros precisam ter alguma proximidade. São pessoas que moram em um mesmo condomínio, por exemplo, ou que trabalham juntas', explica José Roberto Mubarack, assessor de relações institucionais da Bovespa.
Juntos, os participantes passam a comprar e a vender ações por meio de uma corretora. Ao discutir o destino do dinheiro com outras pessoas, o iniciante sente-se mais seguro e aprende mais. 'Explicamos sempre a eles que a Bolsa é um investimento de longo prazo, que tem riscos', diz Mubarack. 'Se nossas orientações atingiram o objetivo, os clubes perceberam que o momento atual é o de comprar - e não o de vender.'
O economista Alcides Leite, professor da Trevisan Escola de Negócios, lembra que o participante do clube faz parte de um grupo. Por isso, as decisões são discutidas entre todos.
É o que ocorre no clube Só Meninas, formado por 15 amigas de São José dos Campos, no interior de São Paulo. 'A iniciativa surgiu em setembro de 2007', conta a engenheira Sílvia Gasparetto, de 37 anos. 'Nós queríamos aprender mais sobre a Bolsa, e a forma que encontramos foi o clube.'
Com patrimônio de R$ 130 mil, o Só meninas recebe aportes mínimos de R$ 100 por mês, de cada sócia. Para entrar, é preciso investir R$ 5 mil. 'Toda quarta-feira, às 19h, nós fazemos um encontro semanal. O aprendizado é constante', diz Sílvia.
Com os altos e baixos do mercado, o medo de algumas sócias aumentou. Nessas horas, as mais experientes tranqüilizam as mais novas. 'Estamos passando por uma fase de queda, mas o clube vai bem', garante.
O diretor da corretora Planner, Paulo Roberto da Silva, ressalta que o destino dos investimentos são de responsabilidade dos membros. 'Você é levado a discutir os rumos do clube, mesmo sendo um mero cotista', explica. 'Normalmente, o perfil é conservador, porque os investidores estão guardando dinheiro pensando no longo prazo.'
Manuel Lois, diretor de novos negócios da Spinelli Corretora, defende que os investidores bem-sucedidos são os que poupam regularmente, por mais de cinco anos. 'O clube tem riscos? Todo investimento tem', diz Lois. 'Mas no longo prazo, quando você espera as empresas prosperarem, acaba ganhando dinheiro com isso.'
Como os clubes reúnem o dinheiro de todos os membros, o capital para investir é maior. Quando o preço das ações caem - como tem ocorrido nas últimas semanas - eles podem aproveitar o momento para comprar mais ações.
COMO FUNCIONA
Os clubes de investimento são formados por, no mínimo, três pessoas e, no máximo, por 150. Os membros são amigos, parentes, colegas de trabalho ou pessoas que façam atividades comuns
No caso de grandes empresas, a Bovespa pode abrir exceções e permitir a entrada de mais participantes. Mas nenhum deles pode deter mais de 40% das cotas
O primeiro passo para montar um clube é juntar um grupo de pessoas. Depois, é preciso entrar em contato com uma corretora, que vai fazer as operações de compra e venda de ações
Os cotistas também devem definir um estatuto, formalizando as regras de
participação. Cada sócio preenche um cadastro, que é registrado na Bovespa e na Receita Federal
O clube de investimentos está voltado para a Bolsa. Pelo menos 51% do capital disponível devem ser investidos em ações
A decisão do que fazer com o dinheiro é tomada em conjunto. A participação de todos é incentivada, e ocorrem assembléias regulares.
Todo clube possui um 'gestor', que vai operar os investimentos. Esse gestor pode ser um dos membros do clube (geralmente o mais experiente) ou um analista indicado pela corretora
O custo do clube é baixo. Paga-se apenas a corretagem e a taxa de administração. No caso dos fundos, além desses dois encargos há despesas com taxas de performance (em alguns casos), auditorias
externas, taxas de custódia e custos de envio de documentos
quinta-feira, 20 de março de 2008
Taxa pode ser comparada em site do BB
Alex Ribeiro
Valor Econômico
20/3/2008
O Banco do Brasil lançou ontem uma página no seu site na internet que permite aos seus próprios clientes - e dos concorrentes - simular operações de crédito e comparar as taxas de juros bancárias dentro do conceito de custo efetivo total (CET), recentemente criado em regra do Conselho Monetário Nacional (CMN).
O custo efetivo global foi criado pelo governo, atendendo a pressão dos órgãos de defesa do consumidor, para facilitar aos clientes bancários comparar os juros do crédito. Alguns bancos mantinham a prática de dizer aos clientes que cobravam juros mais baixos, mas compensavam a receita menor com a exigência de outros encargos, como as taxas de abertura de crédito (TAC) e ressarcimento de custos com terceiro, como registros em cartório e remuneração de serviços prestados por intermediários.
Com a nova regra, em vigor desde 3 de março, os bancos têm que incluir todos esses encargos em uma uma única taxa, o custo efetivo global, que deve ser informada ao consumidor antes da contratação da operação.
"Estamos vendo na custo efetivo total uma oportunidade para aumentar a nossa fatia no mercado de crédito", disse o diretor de varejo do BB, Paulo Bonzanini. "Resolvemos permitir que clientes de outros bancos comparem as taxas de juros porque acreditamos que nossas condições são as melhores do mercado."
Nos primeiros dias de funcionamento do CET, os bancos tiveram dificuldades para colocar os serviços para funcionar. Tanto que a fiscalização do Banco Central enviou ofícios para todas as instituições financeiras questionando as providências tomadas para cumprir as regras.
O BC informa que seu levantamento identificou problemas como a falta de adequação do sistema de informática, falta de treinamento da rede para atender as demandas dos consumidores, descumprimento da regra que determina a entrega da planilha aos clientes com o cálculo do custo efetivo global e falta de publicidade aos clientes sobre o tema. O BC já sinalizou que, em breve, irá apertar a fiscalização, aplicando penalidades nos bancos que não cumprirem a regra, como multas.
Bonzanini, do BB, reconhece que, nos primeiros dias de vigência da regra, houve problemas - o principal desafio foi adequar os sistemas de informática. Ele diz que hoje, porém, o BB está dentro das regras. O banco deixou mensagens para cerca de 16 milhões de clientes nos terminais de auto-atendimento explicando o que é o custo efetivo total - até agora, 8,5 milhões de clientes já acessaram as informações. As informações também foram incorporadas aos extratos enviados pelo correio e na internet.
No domingo, o BB irá colocar no ar uma ampla campanha publicitária para divulgar o sistema. Entre os grandes bancos de varejo, o BB é um caso isolado de instituição que permite ao público de não-clientes simular e comparar os juros nas novas regras.
Uma das apostas do BB é no segmento de financiamento de veículos, em que custos paralelos, como comissões pagas a revendedores, tem um peso substancial no custo efetivo total. A expectativa é que, quando os consumidores tiverem condições de comparar os valores, eles passarão a tomar linhas nas agências bancárias, onde os empréstimos são feitos de forma massificada, com custos operacionais mais baixos.
Outro segmento em que espera avançar é no crédito consignado. Intermediários usados pelos bancos pequenos e médios, conhecidos como pastinhas, representam uma fatia importante no custo efetivo global.
Valor Econômico
20/3/2008
O Banco do Brasil lançou ontem uma página no seu site na internet que permite aos seus próprios clientes - e dos concorrentes - simular operações de crédito e comparar as taxas de juros bancárias dentro do conceito de custo efetivo total (CET), recentemente criado em regra do Conselho Monetário Nacional (CMN).
O custo efetivo global foi criado pelo governo, atendendo a pressão dos órgãos de defesa do consumidor, para facilitar aos clientes bancários comparar os juros do crédito. Alguns bancos mantinham a prática de dizer aos clientes que cobravam juros mais baixos, mas compensavam a receita menor com a exigência de outros encargos, como as taxas de abertura de crédito (TAC) e ressarcimento de custos com terceiro, como registros em cartório e remuneração de serviços prestados por intermediários.
Com a nova regra, em vigor desde 3 de março, os bancos têm que incluir todos esses encargos em uma uma única taxa, o custo efetivo global, que deve ser informada ao consumidor antes da contratação da operação.
"Estamos vendo na custo efetivo total uma oportunidade para aumentar a nossa fatia no mercado de crédito", disse o diretor de varejo do BB, Paulo Bonzanini. "Resolvemos permitir que clientes de outros bancos comparem as taxas de juros porque acreditamos que nossas condições são as melhores do mercado."
Nos primeiros dias de funcionamento do CET, os bancos tiveram dificuldades para colocar os serviços para funcionar. Tanto que a fiscalização do Banco Central enviou ofícios para todas as instituições financeiras questionando as providências tomadas para cumprir as regras.
O BC informa que seu levantamento identificou problemas como a falta de adequação do sistema de informática, falta de treinamento da rede para atender as demandas dos consumidores, descumprimento da regra que determina a entrega da planilha aos clientes com o cálculo do custo efetivo global e falta de publicidade aos clientes sobre o tema. O BC já sinalizou que, em breve, irá apertar a fiscalização, aplicando penalidades nos bancos que não cumprirem a regra, como multas.
Bonzanini, do BB, reconhece que, nos primeiros dias de vigência da regra, houve problemas - o principal desafio foi adequar os sistemas de informática. Ele diz que hoje, porém, o BB está dentro das regras. O banco deixou mensagens para cerca de 16 milhões de clientes nos terminais de auto-atendimento explicando o que é o custo efetivo total - até agora, 8,5 milhões de clientes já acessaram as informações. As informações também foram incorporadas aos extratos enviados pelo correio e na internet.
No domingo, o BB irá colocar no ar uma ampla campanha publicitária para divulgar o sistema. Entre os grandes bancos de varejo, o BB é um caso isolado de instituição que permite ao público de não-clientes simular e comparar os juros nas novas regras.
Uma das apostas do BB é no segmento de financiamento de veículos, em que custos paralelos, como comissões pagas a revendedores, tem um peso substancial no custo efetivo total. A expectativa é que, quando os consumidores tiverem condições de comparar os valores, eles passarão a tomar linhas nas agências bancárias, onde os empréstimos são feitos de forma massificada, com custos operacionais mais baixos.
Outro segmento em que espera avançar é no crédito consignado. Intermediários usados pelos bancos pequenos e médios, conhecidos como pastinhas, representam uma fatia importante no custo efetivo global.
Conta de bar e Teoria dos Jogos
Valor Econômico
Por Carlos Eduardo Soares Gonçalves
20/03/2008
Caballero
Nos tempos de faculdade, as idas aos bares e restaurantes com grupos de amigos eram eventos de grande descontração, nos quais, entre outros assuntos, sonhávamos com o sucesso profissional que teríamos após acabar os estudos. O futuro parecia promissor: dinheiro não seria mais o problema, imaginávamos, e contar chopes não seria mais humilhantemente necessário. Mas, não raro, ameaçando o entusiasmo e o clima relaxado, se encontrava o espectro de uma gorda conta final a ser repartida entre todos no fim da noite.
Muitas décadas antes dessas incursões noturnas, matemáticos como John Von Neumann e o célebre John Nash, em vez de freqüentar bares com seus colegas de universidade, estavam mais ocupados desenvolvendo uma nova área da economia denominada Teoria dos Jogos. Um dos conceitos importantes dessa vertente da economia moderna é a noção de estratégia dominante. Ela nos ajuda a explicar o inchaço da conta do bar quando é dividida entre todos na mesma proporção, além das ameaças aos recursos naturais e a crise financeira na Argentina em 2001.
Na Teoria dos Jogos, é usual postular que, quando os ganhos e perdas dos indivíduos, em qualquer situação em que haja interação com outras pessoas, dependem tanto das suas ações como das ações daquelas, cada um tomará o curso de ação que lhe gerar maiores ganhos líquidos (no sentido amplo, e não necessariamente financeiro, da palavra) baseando-se na hipótese de que todos os outros assim também procederão. Parece simples, mas a idéia de levar em conta ação alheia na hora de escolher a sua ainda não tinha fincado pé na teoria econômica de modo sistemático.
Simplificando, no bar com os colegas há dois cursos de ação: cada um pode escolher o prato mais barato e pedir água como acompanhamento, ou pede comida cara e bebe cerveja importada. Quando um indivíduo decide pela primeira opção, ele economiza para todos, que pagarão uma conta menor no fim da noite. Mas o problema é que, assim fazendo, ele pagará por essa economia sozinho caso os outros optem pela segunda opção, a mais cara. Percebendo que ficará com os custos, mas muito provavelmente não se apropriará dos benefícios de tal decisão, ele termina optando pelo menu mais "salgado".
Pedir o menu mais caro é a estratégia dominante na mesa do bar, pois, dadas as expectativas de cada um sobre o que os outros vão fazer, pedir o menu mais simples diminui apenas marginalmente o tamanho da conta. Como ela será dividida em parcelas iguais para todos, a economia que volta a quem pede água é apenas uma fração de quanto seu menu é mais barato que os dos outros. Se minha expectativa é de que outros vão pedir o prato mais caro, pedir o mais barato ajuda muito pouco a diminuir quanto desembolsarei no fim da noite. E, se minhas expectativas são de que os outros escolherão o prato mais barato, posso tranqüilamente escolher o mais caro, pois o fardo financeiro de tal decisão será dividido com meus pares. Assim, a melhor escolha para mim é sempre pedir o mais caro. Todos raciocinando de modo similar, o resultado é uma conta assustadoramente elevada.
A divulgação de que o desmatamento na Amazônia voltou a crescer recentemente provocou grande bafafá na mídia, protestos dos ambientalistas e desmentidos de algumas áreas do governo. Freqüentemente, recursos naturais são explorados de modo predatório pela mesma razão que produz a conta elevada no bar. Fala-se que quem explora uma floresta ou outro recurso natural qualquer não se preocupa em preservá-lo para uso futuro. Condena-se a ambição dos exploradores, que supostamente leva ao fim da floresta. Mas essa é uma caracterização imprecisa do problema. Ambição não é algo inerente apenas a quem corta madeira na floresta pública.
A exploração excessiva das florestas é mais um exemplo de estratégia dominante. O explorador abusa da derrubada de árvores porque não tem incentivo nenhum para "poupar" a floresta para o futuro. De novo, ele escolhe seu curso de ação com base no que espera que os outros exploradores farão. Cortar menos árvores tem a vantagem de preservar a floresta para exploração futura, mas se eu economizo e os outros não o fazem, a floresta se deprecia do mesmo modo e nada ganho com minha escolha. Se o explorador espera que os outros não economizarão árvores na derrubada, a melhor coisa é derrubar o máximo possível, pois amanhã não haverá mais floresta. Se a expectativa é de que os outros cortarão poucas árvores, ele tampouco terá incentivos para imitá-los, visto que, se os outros preferem a preservação, seu corte excessivo de árvores não trará por si só o fim acelerado da floresta.
A única estratégia dominante nesse jogo interativo, no qual a floresta é de todos e, portanto, de ninguém, é explorar em demasia a floresta. A bem da verdade, o problema é ainda mais grave, pois a decisão individual de derrubar árvores e promover queimadas afeta outras pessoas via maior poluição do ar e erosão do solo. Esse tipo de "externalidade negativa" - como gostam de dizer os economistas - é tema para crônica futura.
No começo deste século, nossos "hermanos" da Argentina passaram por grave crise econômica. Entre outros fatores, a imprudência fiscal das províncias estava na raiz dos problemas macroeconômicos daquele país. Por que as províncias gastavam demais? A explicação é similar à apresentada nos dois casos anteriores.
As províncias gastavam e recorriam ao governo federal para cobrir seus rombos. Uma atitude mais austera por parte de uma dada província geraria uma economia para o governo federal. Mas o "sacrifício" em termos de menos gastos seria então apropriado pelas outras províncias gastadoras que não procedessem assim. Mais ainda, a economia individual de uma província não salvaria o governo central da crise financeira - que é ruim para todas. E, se as outras fossem austeras, gastar mais à custa do governo federal não aumentaria muito a probabilidade de catapultar uma crise, graças à economia feita por aquelas.
Diga-se que sempre há os que eticamente não pedem os pratos mais caros, são prudentes no corte de madeira movidos pelo respeito à natureza e não têm a desfaçatez de passar seus pepinos para outras instâncias de governo. Infelizmente, algumas andorinhas não fazem verão.
Como, então, evitar contas desnecessariamente altas nos bares, o desmatamento excessivo e as crises econômicas causadas por gastança desmedida de unidades de governo subnacionais? Resposta: fazendo que as ações de cada um não afetem os custos e benefícios dos outros, mas apenas os próprios. Cartões individuais nos bares e restaurantes, direitos de propriedade bem definidos nas terras ocupadas e dar às unidades federativas não somente o direito de gastar, mas também o fardo de tributar, são as soluções.
Já sabe o leitor por que as pessoas tomam banhos mais demorados em prédios do que em casas? Na próxima reunião de condomínio leve a solução econômica desse problema a seu síndico.
Carlos Eduardo Soares Gonçalves é doutor em economia, professor no departamento de economia da FEA-USP e autor, com Bernardo Guimarães, do livro "Economia sem Truques".
Por Carlos Eduardo Soares Gonçalves
20/03/2008
Caballero
Nos tempos de faculdade, as idas aos bares e restaurantes com grupos de amigos eram eventos de grande descontração, nos quais, entre outros assuntos, sonhávamos com o sucesso profissional que teríamos após acabar os estudos. O futuro parecia promissor: dinheiro não seria mais o problema, imaginávamos, e contar chopes não seria mais humilhantemente necessário. Mas, não raro, ameaçando o entusiasmo e o clima relaxado, se encontrava o espectro de uma gorda conta final a ser repartida entre todos no fim da noite.
Muitas décadas antes dessas incursões noturnas, matemáticos como John Von Neumann e o célebre John Nash, em vez de freqüentar bares com seus colegas de universidade, estavam mais ocupados desenvolvendo uma nova área da economia denominada Teoria dos Jogos. Um dos conceitos importantes dessa vertente da economia moderna é a noção de estratégia dominante. Ela nos ajuda a explicar o inchaço da conta do bar quando é dividida entre todos na mesma proporção, além das ameaças aos recursos naturais e a crise financeira na Argentina em 2001.
Na Teoria dos Jogos, é usual postular que, quando os ganhos e perdas dos indivíduos, em qualquer situação em que haja interação com outras pessoas, dependem tanto das suas ações como das ações daquelas, cada um tomará o curso de ação que lhe gerar maiores ganhos líquidos (no sentido amplo, e não necessariamente financeiro, da palavra) baseando-se na hipótese de que todos os outros assim também procederão. Parece simples, mas a idéia de levar em conta ação alheia na hora de escolher a sua ainda não tinha fincado pé na teoria econômica de modo sistemático.
Simplificando, no bar com os colegas há dois cursos de ação: cada um pode escolher o prato mais barato e pedir água como acompanhamento, ou pede comida cara e bebe cerveja importada. Quando um indivíduo decide pela primeira opção, ele economiza para todos, que pagarão uma conta menor no fim da noite. Mas o problema é que, assim fazendo, ele pagará por essa economia sozinho caso os outros optem pela segunda opção, a mais cara. Percebendo que ficará com os custos, mas muito provavelmente não se apropriará dos benefícios de tal decisão, ele termina optando pelo menu mais "salgado".
Pedir o menu mais caro é a estratégia dominante na mesa do bar, pois, dadas as expectativas de cada um sobre o que os outros vão fazer, pedir o menu mais simples diminui apenas marginalmente o tamanho da conta. Como ela será dividida em parcelas iguais para todos, a economia que volta a quem pede água é apenas uma fração de quanto seu menu é mais barato que os dos outros. Se minha expectativa é de que outros vão pedir o prato mais caro, pedir o mais barato ajuda muito pouco a diminuir quanto desembolsarei no fim da noite. E, se minhas expectativas são de que os outros escolherão o prato mais barato, posso tranqüilamente escolher o mais caro, pois o fardo financeiro de tal decisão será dividido com meus pares. Assim, a melhor escolha para mim é sempre pedir o mais caro. Todos raciocinando de modo similar, o resultado é uma conta assustadoramente elevada.
A divulgação de que o desmatamento na Amazônia voltou a crescer recentemente provocou grande bafafá na mídia, protestos dos ambientalistas e desmentidos de algumas áreas do governo. Freqüentemente, recursos naturais são explorados de modo predatório pela mesma razão que produz a conta elevada no bar. Fala-se que quem explora uma floresta ou outro recurso natural qualquer não se preocupa em preservá-lo para uso futuro. Condena-se a ambição dos exploradores, que supostamente leva ao fim da floresta. Mas essa é uma caracterização imprecisa do problema. Ambição não é algo inerente apenas a quem corta madeira na floresta pública.
A exploração excessiva das florestas é mais um exemplo de estratégia dominante. O explorador abusa da derrubada de árvores porque não tem incentivo nenhum para "poupar" a floresta para o futuro. De novo, ele escolhe seu curso de ação com base no que espera que os outros exploradores farão. Cortar menos árvores tem a vantagem de preservar a floresta para exploração futura, mas se eu economizo e os outros não o fazem, a floresta se deprecia do mesmo modo e nada ganho com minha escolha. Se o explorador espera que os outros não economizarão árvores na derrubada, a melhor coisa é derrubar o máximo possível, pois amanhã não haverá mais floresta. Se a expectativa é de que os outros cortarão poucas árvores, ele tampouco terá incentivos para imitá-los, visto que, se os outros preferem a preservação, seu corte excessivo de árvores não trará por si só o fim acelerado da floresta.
A única estratégia dominante nesse jogo interativo, no qual a floresta é de todos e, portanto, de ninguém, é explorar em demasia a floresta. A bem da verdade, o problema é ainda mais grave, pois a decisão individual de derrubar árvores e promover queimadas afeta outras pessoas via maior poluição do ar e erosão do solo. Esse tipo de "externalidade negativa" - como gostam de dizer os economistas - é tema para crônica futura.
No começo deste século, nossos "hermanos" da Argentina passaram por grave crise econômica. Entre outros fatores, a imprudência fiscal das províncias estava na raiz dos problemas macroeconômicos daquele país. Por que as províncias gastavam demais? A explicação é similar à apresentada nos dois casos anteriores.
As províncias gastavam e recorriam ao governo federal para cobrir seus rombos. Uma atitude mais austera por parte de uma dada província geraria uma economia para o governo federal. Mas o "sacrifício" em termos de menos gastos seria então apropriado pelas outras províncias gastadoras que não procedessem assim. Mais ainda, a economia individual de uma província não salvaria o governo central da crise financeira - que é ruim para todas. E, se as outras fossem austeras, gastar mais à custa do governo federal não aumentaria muito a probabilidade de catapultar uma crise, graças à economia feita por aquelas.
Diga-se que sempre há os que eticamente não pedem os pratos mais caros, são prudentes no corte de madeira movidos pelo respeito à natureza e não têm a desfaçatez de passar seus pepinos para outras instâncias de governo. Infelizmente, algumas andorinhas não fazem verão.
Como, então, evitar contas desnecessariamente altas nos bares, o desmatamento excessivo e as crises econômicas causadas por gastança desmedida de unidades de governo subnacionais? Resposta: fazendo que as ações de cada um não afetem os custos e benefícios dos outros, mas apenas os próprios. Cartões individuais nos bares e restaurantes, direitos de propriedade bem definidos nas terras ocupadas e dar às unidades federativas não somente o direito de gastar, mas também o fardo de tributar, são as soluções.
Já sabe o leitor por que as pessoas tomam banhos mais demorados em prédios do que em casas? Na próxima reunião de condomínio leve a solução econômica desse problema a seu síndico.
Carlos Eduardo Soares Gonçalves é doutor em economia, professor no departamento de economia da FEA-USP e autor, com Bernardo Guimarães, do livro "Economia sem Truques".
terça-feira, 18 de março de 2008
Crédito pessoal: juro varia até 46%
Jornal da Tarde
18/03/2008
Diferença entre as taxas cobradas pelos grandes bancos foi verificada por levantamento do Procon
Fabio Leite, f.leite@grupoestado.com.br
A diferença entre as taxas de juros cobradas pelos bancos em empréstimo à pessoa física chega a 46,7%. Isso é o que revela pesquisa divulgada ontem pela Fundação Procon-SP com dez instituições financeiras do País , em apuração realizada neste mês.
A maior diferença foi constatada entre as taxas praticadas pela Caixa Econômica Federal (4,49%ao mês) e o Unibanco (6,59% mensais). A pesquisa foi realizada entre os dias 4 e 5 de março. Na comparação com o levantamento feito em fevereiro, apenas dois bancos alteraram seus juros, o que resultou numa ligeira alta de 0,02 ponto porcentual na taxa média, que passou de 5,49% ao mês para 5,51% ao mês.
'O que nos chamou atenção na pesquisa foi o Itaú, que elevou a taxa de empréstimo pessoal em 3,38%', afirma a a diretora de Estudos e Pesquisas do Procon-SP, Valéria Garcia. Os juros neste banco passaram de 5,92% em fevereiro para 6,12% agora. Em contrapartida, o HSBC reduziu as suas de 5,51% para 5,49% ao mês. Procurados pelo Jornal da Tarde, os bancos não se manifestaram.
Para Valéria, estas grandes variações de taxas exige um pouco de cautela do consumidor, 'principalmente num momento de muita oferta e maior facilidade para obtenção de crédito como este.' O consumidor também deve ficar atento às exigências dos bancos para a concessão de crédito. Embora a diretora do Procon-SP tenha ressaltado que é direito do consumidor tomar dinheiro sem precisar abrir uma conta no banco credor, a Federação Brasileira de Bancos (Febraban) afirma que as instituições são livres para impor este critério.
Cheque
A pesquisa do Procon-SP também apurou os juros do cheque especial. Nesta modalidade, porém, a maior variação entre um banco e outro é um pouco inferior (29%). Novamente a Caixa tem a menor taxa (7,20%), enquanto o Safra cobra a maior do mercado (9,29%). Na média, a taxa neste mês é de 8,20%, enquanto em fevereiro era 8,21%.
'Cada banco trabalha com um perfil de cliente, por isso as taxas variam bastante. Depende do intuito do banco e a Caixa, sendo estatal, tem um viés social', diz o coordenador do Centro de Estudos em Finanças da FGV-SP, William Eid Júnior
18/03/2008
Diferença entre as taxas cobradas pelos grandes bancos foi verificada por levantamento do Procon
Fabio Leite, f.leite@grupoestado.com.br
A diferença entre as taxas de juros cobradas pelos bancos em empréstimo à pessoa física chega a 46,7%. Isso é o que revela pesquisa divulgada ontem pela Fundação Procon-SP com dez instituições financeiras do País , em apuração realizada neste mês.
A maior diferença foi constatada entre as taxas praticadas pela Caixa Econômica Federal (4,49%ao mês) e o Unibanco (6,59% mensais). A pesquisa foi realizada entre os dias 4 e 5 de março. Na comparação com o levantamento feito em fevereiro, apenas dois bancos alteraram seus juros, o que resultou numa ligeira alta de 0,02 ponto porcentual na taxa média, que passou de 5,49% ao mês para 5,51% ao mês.
'O que nos chamou atenção na pesquisa foi o Itaú, que elevou a taxa de empréstimo pessoal em 3,38%', afirma a a diretora de Estudos e Pesquisas do Procon-SP, Valéria Garcia. Os juros neste banco passaram de 5,92% em fevereiro para 6,12% agora. Em contrapartida, o HSBC reduziu as suas de 5,51% para 5,49% ao mês. Procurados pelo Jornal da Tarde, os bancos não se manifestaram.
Para Valéria, estas grandes variações de taxas exige um pouco de cautela do consumidor, 'principalmente num momento de muita oferta e maior facilidade para obtenção de crédito como este.' O consumidor também deve ficar atento às exigências dos bancos para a concessão de crédito. Embora a diretora do Procon-SP tenha ressaltado que é direito do consumidor tomar dinheiro sem precisar abrir uma conta no banco credor, a Federação Brasileira de Bancos (Febraban) afirma que as instituições são livres para impor este critério.
Cheque
A pesquisa do Procon-SP também apurou os juros do cheque especial. Nesta modalidade, porém, a maior variação entre um banco e outro é um pouco inferior (29%). Novamente a Caixa tem a menor taxa (7,20%), enquanto o Safra cobra a maior do mercado (9,29%). Na média, a taxa neste mês é de 8,20%, enquanto em fevereiro era 8,21%.
'Cada banco trabalha com um perfil de cliente, por isso as taxas variam bastante. Depende do intuito do banco e a Caixa, sendo estatal, tem um viés social', diz o coordenador do Centro de Estudos em Finanças da FGV-SP, William Eid Júnior
segunda-feira, 17 de março de 2008
Por que trocar a TV paga pela digital
Artigo - Costábile Nicoletta
Gazeta Mercantil
17/3/2008
O brasileiro tem paixão por televisão. Quando a tecnologia não nos oferecia recursos como os de hoje, recorríamos até a palhas de aço na ponta de antenas para tentar melhorar o sinal das emissoras. No início das transmissões coloridas, no começo da década de 70, quem não tinha dinheiro para trocar seu televisor preto-e-branco contentava-se em instalar sobre a tela do aparelho uma película plástica com estampa semelhante a um arco-íris. Difícil era fazer coincidir a cor do plástico com a da pele de qualquer ser humano que figurasse na telinha, principalmente quando a pessoa se movia de um lado a outro.
Vinte anos mais tarde, quase todo lar brasileiro dispunha de pelo menos um televisor em cores, mas a qualidade da recepção da imagem ainda era um problema. Foi mais ou menos nessa época que a televisão por assinatura começou a ganhar corpo comercialmente no País, embora a ABTA - a associação que reúne as empresas do setor - informe em seu site que o serviço começou há mais de quarenta anos em razão da necessidade de resolver um problema puramente técnico: fazer com que o sinal das emissoras de televisão localizadas no município do Rio de Janeiro chegasse às cidades de Petrópolis, Teresópolis, Friburgo, entre outras situadas na Serra do Mar, com boa qualidade de som e de imagem. As cidades serranas passaram a ser servidas por uma rede de cabos coaxiais que transportavam os sinais até as residências depois de recebidos por antenas instaladas no alto da serra. Os usuários que desejassem o serviço pagavam uma taxa mensal, a exemplo do que ocorre hoje.
As projeções econômicas que se faziam para a TV por assinatura eram de crescimento exponencial. Algo como 10 milhões de clientes alguns anos após o seu lançamento. Hoje, quase 20 anos depois, as empresas do setor contabilizam apenas um pouco mais da metade da quantidade de usuários que se esperava, conforme dados oficiais da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel). Muita gente se frustrou com a qualidade da programação dos canais e se considerou enganada quando as operadoras começaram a cobrar uma taxa extra pela exibição de jogos de futebol. Ainda hoje, vários canais pagos vendem horário para empresas de televendas. O telespectador que se dispôs a desembolsar dinheiro imaginando que assistiria a um programa ou filme diferente constata que pagou para ver a mesma coisa que, muito provavelmente, o aborrece na televisão aberta.
É difícil quantificar, mas muita gente ainda paga uma assinatura de televisão somente para melhorar o sinal das emissoras abertas. Um pacote com os canais convencionais e um ou outro de filme ou esportes não sai por menos de R$ 70 em qualquer operadora. No ano, são R$ 840. É mais do que se cobra por um decodificador de sinais analógicos para digitais (set top box, no jargão do setor), não o apregoado pelo ministro das Comunicações, Hélio Costa, que ainda acredita que seja possível produzir e vender o aparelho por bem menos que isso.
É provável que as operadoras de televisão paga já tenham feito essa conta. Se não a fizeram, é possível que assistam a uma reprise dos prejuízos que quase levaram à bancarrota a Net e a TVA e os grupos que as controlavam (Globo e Abril) quando os telespectadores perceberem essa aritmética, sobretudo os de baixo poder aquisitivo, aqueles que quase todas as empresas parecem ter descoberto nos últimos anos e sempre foram negligenciados.
Dependendo dos recursos que a TV digital oferecer, talvez até mesmo os clientes mais abonados questionem a validade de continuar pagando para assistir a uma programação que pouco difere da convencional e cujo provedor tortura seus clientes ao telefone quando eles necessitam de assistência técnica ou precisam resolver problemas de cobrança.
kicker: Vários canais por assinatura vendem horário para empresas de televendas
Gazeta Mercantil
17/3/2008
O brasileiro tem paixão por televisão. Quando a tecnologia não nos oferecia recursos como os de hoje, recorríamos até a palhas de aço na ponta de antenas para tentar melhorar o sinal das emissoras. No início das transmissões coloridas, no começo da década de 70, quem não tinha dinheiro para trocar seu televisor preto-e-branco contentava-se em instalar sobre a tela do aparelho uma película plástica com estampa semelhante a um arco-íris. Difícil era fazer coincidir a cor do plástico com a da pele de qualquer ser humano que figurasse na telinha, principalmente quando a pessoa se movia de um lado a outro.
Vinte anos mais tarde, quase todo lar brasileiro dispunha de pelo menos um televisor em cores, mas a qualidade da recepção da imagem ainda era um problema. Foi mais ou menos nessa época que a televisão por assinatura começou a ganhar corpo comercialmente no País, embora a ABTA - a associação que reúne as empresas do setor - informe em seu site que o serviço começou há mais de quarenta anos em razão da necessidade de resolver um problema puramente técnico: fazer com que o sinal das emissoras de televisão localizadas no município do Rio de Janeiro chegasse às cidades de Petrópolis, Teresópolis, Friburgo, entre outras situadas na Serra do Mar, com boa qualidade de som e de imagem. As cidades serranas passaram a ser servidas por uma rede de cabos coaxiais que transportavam os sinais até as residências depois de recebidos por antenas instaladas no alto da serra. Os usuários que desejassem o serviço pagavam uma taxa mensal, a exemplo do que ocorre hoje.
As projeções econômicas que se faziam para a TV por assinatura eram de crescimento exponencial. Algo como 10 milhões de clientes alguns anos após o seu lançamento. Hoje, quase 20 anos depois, as empresas do setor contabilizam apenas um pouco mais da metade da quantidade de usuários que se esperava, conforme dados oficiais da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel). Muita gente se frustrou com a qualidade da programação dos canais e se considerou enganada quando as operadoras começaram a cobrar uma taxa extra pela exibição de jogos de futebol. Ainda hoje, vários canais pagos vendem horário para empresas de televendas. O telespectador que se dispôs a desembolsar dinheiro imaginando que assistiria a um programa ou filme diferente constata que pagou para ver a mesma coisa que, muito provavelmente, o aborrece na televisão aberta.
É difícil quantificar, mas muita gente ainda paga uma assinatura de televisão somente para melhorar o sinal das emissoras abertas. Um pacote com os canais convencionais e um ou outro de filme ou esportes não sai por menos de R$ 70 em qualquer operadora. No ano, são R$ 840. É mais do que se cobra por um decodificador de sinais analógicos para digitais (set top box, no jargão do setor), não o apregoado pelo ministro das Comunicações, Hélio Costa, que ainda acredita que seja possível produzir e vender o aparelho por bem menos que isso.
É provável que as operadoras de televisão paga já tenham feito essa conta. Se não a fizeram, é possível que assistam a uma reprise dos prejuízos que quase levaram à bancarrota a Net e a TVA e os grupos que as controlavam (Globo e Abril) quando os telespectadores perceberem essa aritmética, sobretudo os de baixo poder aquisitivo, aqueles que quase todas as empresas parecem ter descoberto nos últimos anos e sempre foram negligenciados.
Dependendo dos recursos que a TV digital oferecer, talvez até mesmo os clientes mais abonados questionem a validade de continuar pagando para assistir a uma programação que pouco difere da convencional e cujo provedor tortura seus clientes ao telefone quando eles necessitam de assistência técnica ou precisam resolver problemas de cobrança.
kicker: Vários canais por assinatura vendem horário para empresas de televendas
quarta-feira, 12 de março de 2008
Previdência em alerta
Valor Econômico
Por Danilo Fariello, de São Paulo
12/03/2008
Os investidores da previdência privada têm migrado com persistência para os planos mistos, com parte em ações, mesmo após as reviravoltas do mercado iniciadas em agosto do ano passado. Essa tendência, porém, arrefeceu em fevereiro, após a queda forte de 6,88% do Índice Bovespa (Ibovespa) em janeiro. No mês passado, a captação dos PGBLs e VGBLs com renda variável caiu para R$ 600 milhões, a metade do que foi no primeiro mês do ano. Os planos puros de renda fixa voltaram a ter captação, mas com apenas R$ 6 milhões.
Embora os participantes continuem a apostar na bolsa para o longo prazo, porém, o episódio recente de volatilidade das ações serve para aplicadores ficarem alertas às diferenças de estilo de gestão desses planos, que vão além dos nomes de balanceados, multimercados ou compostos. Há planos cuja estratégia é fixa, com determinado percentual em ações e pouca flexibilidade nesse sentido, e outros em que a aplicação em renda variável pode ficar ao gosto do gestor, oscilando dentro de uma banda, comenta Renato Russo, diretor da Federação Nacional de Previdência Privada e Vida (Fenaprevi) e vice-presidente da SulAmérica.
Dependendo do objetivo de cada fundo e da conjuntura do mercado, é compreensível que determinado gestor queira às vezes reduzir o que investe em bolsa, comenta Marcelo Rudge Ribeiro, responsável pela área de previdência da Quórum Seguros. "Na dúvida, ele pode ficar mais conservador e evitar perdas esporádicas."
Por esse motivo, pôde-se verificar que, em fevereiro, apesar de os planos com ações terem captado mais, as carteiras em que PGBL e VGBL aplicam reduziram sua exposição em bolsa. Saíram dos fundos de ações especialmente destinados aos planos de previdência R$ 116 milhões em fevereiro, segundo dados do site financeiro Fortuna. Parte desse resgate se deve à realocação dos planos fixos, que tiveram de reduzir a parcela em bolsa após a subida de 6,72% do Ibovespa em fevereiro justamente para respeitar os limites de alocação. A outra parte, porém, fica por conta de gestores que resolveram ficar mais conservadores neste vaivém do mercado.
Esse foi o caso da Caixa. Segundo Juvêncio Braga, diretor de Vida e Previdência da instituição federal, em momentos de muita volatilidade, como o atual, os planos podem ficar menos expostos em bolsa. Os planos mistos da Caixa são distribuídos como carteiras com alocação até 15%, 30% e 49% em bolsa, mas não é nesse limite que mantêm o tempo todo, explica Braga. Procura-se, porém, respeitar sempre o piso de metade da alocação indicada, diz ele.
Para o aplicador, é fácil descobrir se o plano que investe o tempo todo em percentual fixo em ações ou varia. No prospecto do PGBL ou do VGBL há a indicação se a exposição é de determinada parcela ou até determinado percentual. Se houve a palavra "até", significa que a fatia pode ser menor em determinados momentos. Há também os gestores que indicam uma banda. O Flexprev V40, do Itaú, por exemplo, aplica de 30% a 49% em renda variável.
Para o investidor, a possibilidade de se mexer no nível de alocação em bolsa é uma variável a mais para ser observada quando se escolher um plano composto, diz Marcelo D'Agosto, do Fortuna. A priori, não há estratégia melhor ou pior, diz Russo, da Fenaprevi. "Mas cabe ao aplicador entender as diferenças dos estilos", completa.
O investidor que optar pela parcela variável em bolsa deposita uma dose a mais de confiança na habilidade do gestor em fazer essas escolhas, diz Ribeiro, da Quórum. No longo prazo - característica natural dos planos de previdência -, essa atuação do gestor pode fazer bastante diferença em relação a um plano que tenha percentual fixo em determinado índice de bolsa. No entanto, alguns consultores defendem que os índices tendem a ter desempenho melhor ao longo do tempo do que a maioria dos gestores que tentam selecionar os melhores papéis. "Acertar o momento certo de entrar e sair é difícil", diz Ribeiro.
Em fevereiro, por exemplo, o gestor que reduziu posições dos planos de previdência em renda variável pode ter perdido parte da recuperação da bolsa, que praticamente zerou as perdas apresentadas em janeiro.
Executivos do mercado lembram, ainda, que a alocação natural dos planos de previdência já é reduzida. A Superintendência de Seguros Privados (Susep) limita a 49% a exposição dos gestores dos PGBL e VGBL em bolsa. Ribeiro, que prefere os fundos com percentual fixo em ações do que variável, lembra ainda que, em geral, os investidores têm parte das aplicações apenas em previdência privada, o que significa que a tolerância a riscos pode ser maior. Segundo o Fortuna, em média, os planos compostos aplicam apenas 25% da carteira total em ações, ou seja, a metade do possível dentro do limite.
A noção de risco já parece bastante difundida entre os participantes, ao menos se comparada há um ano. Segundo o Fortuna, apesar dos resgates nos fundos de ações pelos planos de previdência em fevereiro, a participação da renda variável na carteira dos PGBL e VGBL mais que dobrou em pouco mais de dois anos: subiu de 6% em dezembro de 2005 para 12,5% em fevereiro.
Grande parte desse movimento, segundo o Fortuna, se deve ao recente bom desempenho das ações e, por conseqüência, dos planos com bolsa. De janeiro de 2006 até fevereiro deste ano, os planos puros de renda fixa tiveram uma rentabilidade média de 25,3%, segundo o Fortuna, enquanto os planos com ações avançaram 38,4%. Se considerada a variação ao ano, os planos com ações superaram o Certificado de Depósito Interbancário (CDI) em 2,6%, enquanto os renda fixa ficaram 2% abaixo.
Os números de retorno dos planos acima, porém, devem ser analisados com cuidado pelo aplicador. O participante não deve ficar avaliando o retorno do PGBL ou VGBL mês a mês, diz Ribeiro. Com essa noção, muitos continuaram a aplicar em planos com ações, mesmo com a instabilidade recente da bolsa. No entanto, o investidor também deve ter noção de que o retorno das ações nos últimos anos pode não continuar nos próximos. Mais do que em outras aplicações, em previdência o investidor deve ter noção de que ganho passado não é garantia de lucro futuro. Ainda mais se esse futuro se referir a décadas
Por Danilo Fariello, de São Paulo
12/03/2008
Os investidores da previdência privada têm migrado com persistência para os planos mistos, com parte em ações, mesmo após as reviravoltas do mercado iniciadas em agosto do ano passado. Essa tendência, porém, arrefeceu em fevereiro, após a queda forte de 6,88% do Índice Bovespa (Ibovespa) em janeiro. No mês passado, a captação dos PGBLs e VGBLs com renda variável caiu para R$ 600 milhões, a metade do que foi no primeiro mês do ano. Os planos puros de renda fixa voltaram a ter captação, mas com apenas R$ 6 milhões.
Embora os participantes continuem a apostar na bolsa para o longo prazo, porém, o episódio recente de volatilidade das ações serve para aplicadores ficarem alertas às diferenças de estilo de gestão desses planos, que vão além dos nomes de balanceados, multimercados ou compostos. Há planos cuja estratégia é fixa, com determinado percentual em ações e pouca flexibilidade nesse sentido, e outros em que a aplicação em renda variável pode ficar ao gosto do gestor, oscilando dentro de uma banda, comenta Renato Russo, diretor da Federação Nacional de Previdência Privada e Vida (Fenaprevi) e vice-presidente da SulAmérica.
Dependendo do objetivo de cada fundo e da conjuntura do mercado, é compreensível que determinado gestor queira às vezes reduzir o que investe em bolsa, comenta Marcelo Rudge Ribeiro, responsável pela área de previdência da Quórum Seguros. "Na dúvida, ele pode ficar mais conservador e evitar perdas esporádicas."
Por esse motivo, pôde-se verificar que, em fevereiro, apesar de os planos com ações terem captado mais, as carteiras em que PGBL e VGBL aplicam reduziram sua exposição em bolsa. Saíram dos fundos de ações especialmente destinados aos planos de previdência R$ 116 milhões em fevereiro, segundo dados do site financeiro Fortuna. Parte desse resgate se deve à realocação dos planos fixos, que tiveram de reduzir a parcela em bolsa após a subida de 6,72% do Ibovespa em fevereiro justamente para respeitar os limites de alocação. A outra parte, porém, fica por conta de gestores que resolveram ficar mais conservadores neste vaivém do mercado.
Esse foi o caso da Caixa. Segundo Juvêncio Braga, diretor de Vida e Previdência da instituição federal, em momentos de muita volatilidade, como o atual, os planos podem ficar menos expostos em bolsa. Os planos mistos da Caixa são distribuídos como carteiras com alocação até 15%, 30% e 49% em bolsa, mas não é nesse limite que mantêm o tempo todo, explica Braga. Procura-se, porém, respeitar sempre o piso de metade da alocação indicada, diz ele.
Para o aplicador, é fácil descobrir se o plano que investe o tempo todo em percentual fixo em ações ou varia. No prospecto do PGBL ou do VGBL há a indicação se a exposição é de determinada parcela ou até determinado percentual. Se houve a palavra "até", significa que a fatia pode ser menor em determinados momentos. Há também os gestores que indicam uma banda. O Flexprev V40, do Itaú, por exemplo, aplica de 30% a 49% em renda variável.
Para o investidor, a possibilidade de se mexer no nível de alocação em bolsa é uma variável a mais para ser observada quando se escolher um plano composto, diz Marcelo D'Agosto, do Fortuna. A priori, não há estratégia melhor ou pior, diz Russo, da Fenaprevi. "Mas cabe ao aplicador entender as diferenças dos estilos", completa.
O investidor que optar pela parcela variável em bolsa deposita uma dose a mais de confiança na habilidade do gestor em fazer essas escolhas, diz Ribeiro, da Quórum. No longo prazo - característica natural dos planos de previdência -, essa atuação do gestor pode fazer bastante diferença em relação a um plano que tenha percentual fixo em determinado índice de bolsa. No entanto, alguns consultores defendem que os índices tendem a ter desempenho melhor ao longo do tempo do que a maioria dos gestores que tentam selecionar os melhores papéis. "Acertar o momento certo de entrar e sair é difícil", diz Ribeiro.
Em fevereiro, por exemplo, o gestor que reduziu posições dos planos de previdência em renda variável pode ter perdido parte da recuperação da bolsa, que praticamente zerou as perdas apresentadas em janeiro.
Executivos do mercado lembram, ainda, que a alocação natural dos planos de previdência já é reduzida. A Superintendência de Seguros Privados (Susep) limita a 49% a exposição dos gestores dos PGBL e VGBL em bolsa. Ribeiro, que prefere os fundos com percentual fixo em ações do que variável, lembra ainda que, em geral, os investidores têm parte das aplicações apenas em previdência privada, o que significa que a tolerância a riscos pode ser maior. Segundo o Fortuna, em média, os planos compostos aplicam apenas 25% da carteira total em ações, ou seja, a metade do possível dentro do limite.
A noção de risco já parece bastante difundida entre os participantes, ao menos se comparada há um ano. Segundo o Fortuna, apesar dos resgates nos fundos de ações pelos planos de previdência em fevereiro, a participação da renda variável na carteira dos PGBL e VGBL mais que dobrou em pouco mais de dois anos: subiu de 6% em dezembro de 2005 para 12,5% em fevereiro.
Grande parte desse movimento, segundo o Fortuna, se deve ao recente bom desempenho das ações e, por conseqüência, dos planos com bolsa. De janeiro de 2006 até fevereiro deste ano, os planos puros de renda fixa tiveram uma rentabilidade média de 25,3%, segundo o Fortuna, enquanto os planos com ações avançaram 38,4%. Se considerada a variação ao ano, os planos com ações superaram o Certificado de Depósito Interbancário (CDI) em 2,6%, enquanto os renda fixa ficaram 2% abaixo.
Os números de retorno dos planos acima, porém, devem ser analisados com cuidado pelo aplicador. O participante não deve ficar avaliando o retorno do PGBL ou VGBL mês a mês, diz Ribeiro. Com essa noção, muitos continuaram a aplicar em planos com ações, mesmo com a instabilidade recente da bolsa. No entanto, o investidor também deve ter noção de que o retorno das ações nos últimos anos pode não continuar nos próximos. Mais do que em outras aplicações, em previdência o investidor deve ter noção de que ganho passado não é garantia de lucro futuro. Ainda mais se esse futuro se referir a décadas
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