quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Educação financeira poderá ser disciplina em escolas públicas

Valor Econômico

Por Rafael Rosas, do Rio
17/12/2009

O governo brasileiro e a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) acreditam que até 1.650 escolas de ensino médio do país poderão adotar, em 2010, a disciplina de educação financeira. O projeto, que conta com o apoio da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), está em estudo desde 2007 e será avaliado anualmente a fim de mensurar os efeitos das aulas não só nos alunos, mas nos núcleos familiares.

No ano que vem, um decreto do presidente Luiz Inácio Lula da Silva deverá criar dois comitês que coordenarão o sistema de educação financeira do país, um voltado para a estrutura organizacional e outro voltado para o apoio pedagógico.

O superintendente de proteção e orientação aos investidores da CVM, José Alexandre Vasco, afirmou que a definição das escolas que adotarão a disciplina sairá no começo de 2010. Segundo ele, 150 escolas públicas serão escolhidas a partir do "Mais Educação", programa do Ministério da Educação que amplia o tempo dos alunos na escola. Outros 300 colégios serão escolhidos entre os que têm parceria com o Instituto Unibanco, que será o responsável pelas aulas de educação financeira nessas unidades.

A técnica de planejamento e gestão educacional do Ministério da Educação, Alzira Silva, acredita que outros 1.200 colégios públicos e particulares de todo o país poderão optar por oferecer aulas ligadas às finanças dentro de um universo de 5 mil unidades aptas a entrar no processo, cujo cadastro vai até 20 de dezembro.

A iniciativa conta no Brasil com a organização do Comitê de Regulação e Fiscalização dos Mercados Financeiro, de Capitais, de Seguros, de Previdência e Capitalização (Coremec), formado por CVM, Banco Central, Secretaria de Previdência Complementar (SPC) e Superintendência de Seguros Privados (Susep).

Enquanto a CVM será a responsável por coordenar a adoção da disciplina nos colégios, o BC será encarregado de organizar a iniciativa para adultos. Nesse sentido, as primeiras turmas serão dedicadas, a partir de março, ao ensino nas Forças Armadas, enquanto se estuda também a ampliação da iniciativa para os beneficiários do Bolsa Família.

"A ideia é ampliar produtos para o beneficiário do Bolsa Família, como a abertura de conta simplificada, mas a medida ainda está em negociação", frisou Sérgio Lima, consultor do presidência do BC.

A partir de meados do ano que vem, as aulas poderão ser estendidas às escolas de nível fundamental com base nos resultados obtidos no primeiro semestre nas escolas de nível médio, afirma Vasco, da CVM. De acordo com ele, a avaliação anual nas escolas poderá custar cerca de US$ 800 mil, gasto que terá financiamento apoiado, em parte, pelo Banco Mundial.

Para Aart de Geus, vice-secretário geral da OCDE, a melhor avaliação do programa será feita em 2012, quando os estudantes de 15 anos farão o Programme for International Student Assessment (Pisa), que avaliará alunos de todo o mundo, com ênfase em matemática, com questões de educação financeira na prova. Segundo ele, o nível de conhecimento no Brasil é relativamente baixo quando comparado aos países da OCDE.

De Geus citou o estudo apresentado por Vasco que aponta que 82% dos brasileiros não sabem quais os juros pagos quando entram em um financiamento ou que 87% das famílias do país não poupam para o futuro. "Mas o Brasil conseguiu coordenar suas instituições para desenvolver o programa (de educação financeira), o que parece fácil, mas não. Muitos países não conseguem", frisou De Geus.

Usar parte do FGTS pode ser bom negócio. Mas é preciso cautela

 O Estado de São Paulo

17/12/2009

Especialistas alertam que retorno em infraestrutura não será o mesmo obtido com Vale e Petrobrás

Renée Pereira

A possibilidade de investir parte do saldo do Fundo de Garantia (FGTS) tem se mostrado um ótimo negócio para o trabalhador. Isso porque a remuneração do FGTS nos últimos anos tem ficado abaixo até mesmo da inflação. Por isso, especialistas acreditam que a alternativa aberta esta semana pelo governo de permitir a aplicação de até 30% do FGTS em cotas do FI-FGTS (um fundo que aplica em projetos de infraestrutura) terá uma grande demanda.

Mas não se deve esperar a mesma remuneração dos investimentos feitos em ações da Vale e da Petrobrás, destaca o advogado Flávio Porta, do escritório Libertuci Advogados Associados. Ele calcula que quem aplicou em ações da Petrobrás ganhou 13 vezes mais que a remuneração do fundo entre 10 de agosto de 2000 e 10 de dezembro de 2009 - 892,22% contra 61,29%. Já na Vale, o ganho foi de 988,2%, ante 49,33% do fundo, entre 10 de abril de 2002 e 10 de dezembro de 2009.

No caso do FI-FGTS, a remuneração nos últimos 14 meses foi de 11,7%. Embora distante dos resultados em ações, os números se mostram vantajosos. Além de poder ganhar mais, ele estará diversificando a carteira de investimentos, afirma o professor do Instituto de Ensino e Pesquisa, Alexandre Chaia.

Ele destaca, porém, que cada um precisa avaliar seus objetivos. "No longo prazo, o investimento tende a ser vantajoso. Mas, para quem está perto da aposentadoria, pode não ser um bom negócio." De acordo com a regra estipulada pelo governo, o dinheiro terá de ficar aplicado no FI-FGTS durante, pelo menos, 12 meses.

Outro alerta dado pelos especialistas refere-se aos riscos. O fundo vai investir em um projeto ou empresa do setor de infraestrutura, como energia e transporte. Portanto, os ganhos do trabalhador estarão associados ao sucesso do empreendimento. "É a mesma lógica de investir no papel de uma empresa. O ganho está vinculado aos lucros que a companhia tiver", diz Chaia. "Por isso, é preciso estar ciente que você pode ganhar, perder da inflação ou perder parte do capital investido", completa Porta.

Mas, como as previsões em relação à economia são positivas, haverá uma demanda grande por infraestrutura. Os aportes dos trabalhadores estarão limitados a um montante de R$ 2 bilhões. Caso a demanda supere esse valor, haverá rateio entre os participantes, nos mesmos moldes daquele que ocorreu na compra das ações da Petrobrás e Vale.




PRINCIPAIS DÚVIDAS

Como será o investimento?
O trabalhador vai comprar cotas do FI-FGTS. Inicialmente serão investidos R$ 2 bilhões

Quanto do FGTS poderá ser investido no novo fundo?
Até 30% do saldo da conta do FGTS

A aplicação pode superar os 30% do saldo do FGTS?
Na realidade, pode até ser inferior, pois se a demanda superar os R$ 2 bilhões haverá rateio proporcional entre os trabalhadores

Onde serão aplicados os recursos?
Em obras do nos setores de energia, rodovias, ferrovias, hidrovias, portos e saneamento

Qual será o rendimento do novo fundo?

Ainda não dá para saber, mas, segundo o governo, uma carteira hipotética projetada para o FI-FGTS apresenta uma rentabilidade em torno de 9%, mais a TR

Há riscos para o trabalhador?
Sim. É uma aplicação financeira como outra qualquer e não tem, como o FGTS, a garantia de rendimento de 3% mais TR

A partir de quando poderá ser feita a aplicação?
Entre março e abril deve ocorrer a primeira oferta pública, pois a operação ainda depende de aprovação da Comissão de Valores Mobiliários (CVM)

O trabalhador poderá sacar a qualquer momento?
Não. Feita a aplicação, precisará permanecer 12 meses no fundo.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

O investidor busca formas de proteção

Valor Econômico

16/12/2009

Daniele Camba

Ao mesmo tempo que o Índice Bovespa alegra os investidores ao rondar os 70 mil pontos, aumentam as preocupações sobre uma possível correção de preços no curto prazo. O raciocínio é o seguinte: quanto mais a bolsa sobe, maiores são as chances de uma "barrigada" nesse processo de valorização, o que faz todo sentido se cogitar. Se o Ibovespa já subiu 84,58% no ano, ele pode perfeitamente voltar alguns pontos percentuais. Com o temor de que isso ocorra, os investidores estão buscando formas de proteger suas carteiras de ações de solavancos de curto prazo. Entre elas estão as opções de venda sobre Ibovespa futuro, negociado na Bolsa de Mercadorias e Futuros (BM&F). Quem compra opções de venda de Ibovespa futuro tem o direito de vender a cesta do índice pelo preço combinado. Isso parece bom negócio quando existe a expectativa de queda das ações, uma vez que quem comprou essas opções poderá vender o Ibovespa por um preço (no caso do índice, por uma pontuação) maior combinado anteriormente.

A Link Investimentos - uma corretora bastante atuante tanto em pessoa física quanto em institucionais - vem percebendo um aumento na procura por opções de venda desde a semana passada. Segundo o chefe da área comercial de ações da Link, Adriano Yamamoto, cresceu muito, principalmente, a procura por informações sobre as opções de venda. "Os investidores estão ligando para saber como funcionam essas opções, como fazê-las e quais os custos", explica Yamamoto.

Ele explica que essa procura vem ocorrendo tanto por parte de pessoas físicas quanto de grandes investidores institucionais, como gestoras de recursos e fundos de pensão. Apesar de esse movimento estar bem no começo, ele é um importante sinal de que os investidores estão buscando formas de se proteger de futuras quedas. "Essas opções são uma espécie de seguro contra uma correção de preços", diz o executivo da Link.

Além da grande valorização da bolsa em 2009, o fato de estarmos no fim do ano justifica ainda mais a escolha por essa espécie de seguro, afirma o diretor de renda variável da Link, Frederico Meinberg. Como existe o tradicional rali de fim de ano, muitas ações sobem de forma exagerada, inclusive papéis com pouquíssima liquidez (as "small caps"), algumas até sem fundamento para tal alta. "Quando essa euforia de fim de ano terminar, muitas dessas ações podem cair bem, portanto, vale a pena fazer algum tipo de proteção", diz Meinberg.

Apesar da procura estar no começo, já é possivel perceber um aumento no volume financeiro das opções de venda de Ibovespa futuro. No dia 4 deste mês, por exemplo, o volume de negócios com esses papéis foi de apenas R$ 519 mil. Já no dia 10, subiu para R$ 3,7 milhões e, no dia seguinte, para R$ 4,3 milhões . Vale destacar que hoje ocorre o vencimento de índice futuro e os negócios costumam ganhar força nos dias anteriores.

Outras alternativas

As opções de Ibovespa podem ser uma forma de proteção, mas há várias ressalvas para as pessoas físicas. Primeiro porque são mais caras do que as opções de ações - o prêmio delas pode custar mais de R$ 1 mil, enquanto as opções de ações, muita vezes, valem alguns centavos. Além disso, possuem baixíssima liquidez. Segundo o sócio da InvestCerto Consultoria Financeira e de Investimentos, Luiz Francisco Rogé Ferreira, vender as ações que o investidor possui e comprar uma opção de compra dos mesmos papéis (ter o direito de comprar o papel) podem ser uma forma mais fácil e mais barata de se proteger das quedas. "Se a bolsa cair, o investidor já se desfez do papel antes e ele não exerce o direito de comprá-lo novamente", explica Rogé. "Já se o mercado subir, ele consegue comprá-lo de volta por um preço abaixo do que está no mercado", completa ele. Num dia de baixo volume, o Ibovespa ontem fechou em leve queda de 0,06%, aos 69.310 pontos.

Daniele Camba é repórter de Investimentos

Trabalhador vai poder aplicar FGTS em fundo

O Estado de São Paulo

16/12/2009

Os trabalhadores poderão investir 30% do saldo do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) no FI-FGTS, que é um fundo de investimento em infraestrutura administrado pela Caixa Econômica Federal. O limite global de investimento, aprovado ontem pelo Conselho Curador do FGTS, é de R$ 2 bilhões para garantir a saúde financeira do FGTS.

Nos últimos 14 meses, o FI-FGTS teve rentabilidade de 11,7%, bem acima do ganho proporcionado pelo FGTS , de apenas a Taxa Referencial (TR) mais 3% ao ano. Portanto, a aplicação pode ser vantajosa para o trabalhador. Mas a aplicação não terá garantia de rentabilidade e o trabalhador corre o risco de perder o recurso.

A operação ainda depende de aprovação da Comissão de Valores Mobiliários (CVM). A expectativa do ministro do Trabalho, Carlos Lupi , é de que isso ocorra entre os meses de março e abril. Pelas regras acatadas ontem pelo Conselho Curador, a Caixa realizará uma oferta pública para compra de cotas de um Fundo de Investimentos em Contas (FIC) para aquisição de participação do FI-FGTS. Os interessados deverão manifestar o interesse ao banco - modelo semelhante à operação que autorizou os trabalhadores a aplicarem o FGTS em ações da Petrobrás e da Vale.

Para garantir a presença de quem tem contas com valores baixos no FGTS, o vice-presidente de Fundos de Governo da Caixa, Welligton Moreira Franco, disse que se a demanda ultrapassar R$ 2 bilhões haverá regras de rateio. "O valor de R$ 2 bilhões é uma trava. Se houver uma procura grande vai haver rateio para que todos possam participar", afirmou.

Lupi acrescentou que, em uma segunda etapa, o valor de aplicação dos trabalhadores no FI-FGTS poderá ser ampliado e chegar a R$ 5 bilhões. Os trabalhadores que aplicarem o FGTS estão obrigados a manter o investimento por 12 meses. "Esse prazo existe porque não estamos falando de investimento em bolsa, que você entra hoje e sai amanhã", frisou Lupi. Caso o investidor queira sair, terá de fazer uma comunicação à Caixa.

Mas as regras de saque serão as mesmas que valem para o FGTS - o saque só é liberado quando a pessoa é demitida ou se aposenta. Em caso de desastres ambientais, a pessoa está autorizada a retirar do FGTS até R$ 4,6 mil. O investimento também pode ser sacado para a compra da casa própria.

Moreira Franco alertou que o trabalhador precisa estar consciente de que é um investimento de risco. Ressaltou, no entanto, que os recursos do FI-FGTS são destinados para investimentos em áreas como energia elétrica e transportes, onde há elevada demanda por recursos e alta rentabilidade.

Ainda ontem, o Conselho Curador do FGTS aprovou um novo aporte direto de R$ 5 bilhões no FI-FGTS. É o quarto nesse mesmo valor.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Programa ensinará educação financeira para os militares

Valor Econômico

Por Janes Rocha, do Rio
11/12/2009

Está marcada para 8 de março a primeira aula de educação financeira do Banco Central (BC) para os militares da Aeronáutica. O curso será numa sede da Aeronáutica no Rio, que está para ser definida, e os militares vão receber treinamento sobre como lidar com o dinheiro, organizar o orçamento pessoal, como evitar as armadilhas do crédito e aplicar o excedente financeiro.

O BC também vai levar o curso para o Exército e a Marinha. A ideia é que eles formem grupos que, no futuro, vão levar orientação financeira para os lugares remotos do país aonde só eles chegam. "O curso é bem simples", explica Sergio Lima, consultor da presidência do BC e coordenador do grupo de trabalho de educação financeira do banco. "A ideia não é transferir conhecimentos técnicos sofisticados, mas sensibilizar as pessoas para que consumam de forma mais consciente", diz Lima.

O projeto faz parte do programa de educação financeira do governo federal, que está em elaboração e envolve o Ministério da Educação e quatro órgãos relacionados com as finanças - BC, Comissão de Valores Mobiliários (CVM), Superintendência de Seguros Privados (Susep) e Secretaria de Previdência Complementar (SPC).

O grupo nasceu de um decreto de 2007, que criou um comitê de fiscalização da área financeira, o Coremec. Uma das tarefas do comitê é propor um programa nacional de educação financeiro como política pública nacional. Na divisão de funções dentro do projeto, a CVM ficou de levar a educação para crianças e adolescentes nas escolas e o BC, ao público adulto.

A aproximação com os militares se deu durante a busca por parceiros que fossem "multiplicadores" do programa de educação financeira que o BC já tinha, mas que não conta com estrutura própria para se difundir, explicou Lima. Com a mesma finalidade foram contatados centros acadêmicos como a Unesp, Instituto Militar de Engenharia, a Universidade Católica de Petrópolis, e instituições de outros ramos como o Tribunal Regional do Trabalho de São Paulo e a Associação de Prefeituras do Vale do São Francisco.

O objetivo final, explica o consultor do BC, é dar conta de um enorme desafio que vem pela frente: atender o programa do governo de levar serviços financeiros para os 12,4 milhões de titulares da bolsa família.

Os beneficiários do programa de complementação de renda do governo já estão de posse de cartões de débito e a Caixa Econômica Federal (CEF) já abriu conta corrente para dois milhões deles. A Caixa tem manifestado que o próximo passo será dar acesso a produtos financeiros como crédito e microsseguros por meio dessas contas.

José Alexandre Vasco, superintendente de Proteção e Orientação aos Investidores da CVM e coordenador do grupo dentro da autarquia, completa que há também uma preocupação com a entrada maciça de investidores no mercado. Só na área da comissão, já são 552 mil investidores no mercado de ações e 13 milhões de cotistas de fundos de investimentos.

A população inserida no mundo financeiro conta ainda com 92 milhões de aplicadores nas cadernetas de poupança e um número não calculado de tomadores de crédito. "O movimento de redistribuição de renda que estamos assistindo, e que se espera que continue, fará com que cada vez mais pessoas ingressem no mundo das finanças", diz Vasco.

Para o coordenador da CVM, "é por meio da escola que vamos construir uma relação saudável dessas pessoas com o dinheiro". Vasco diz que o projeto também tem um aspecto importante que é não apenas evitar o superendividamento, que leva à inadimplência, mas também as captações irregulares (como as pirâmides) e as fraudes contra os investidores.

A preocupação não é só no Brasil. Na próxima terça-feira, a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) vai realizar uma conferência internacional no Rio, junto com a CVM, para discutir educação financeira. A conferência será nos dias 15 e 16 de dezembro de 2009 no Hotel Sofitel. Serão seis sessões de debates, divididas entre os dois dias de evento, com representantes de reguladores e outras entidades relacionadas à educação financeira de todo o mundo.

Análise de perfil do investidor chega ao varejo em janeiro

Valor Econômico

Por Alessandra Bellotto, de São Paulo
11/12/2009

O dinamismo do mercado de capitais aumentou o trabalho da área de regulação e melhores práticas da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima). Na agenda de 2010, destaca-se, por exemplo, a supervisão da implantação da Análise de Perfil do Investidor (API, nome adotado no Brasil para o conceito de "suitability") no varejo bancário de todo o país já a partir de janeiro.

Esse trabalho de verificar a adequação das recomendações de investimento ao perfil do cliente começou a ser desenvolvido nas áreas private, em julho de 2008. Naquele momento, foram definidas as políticas, procedimentos e prazos para que as instituições apresentassem suas metodologias. O processo de verificação do perfil do investidor no varejo deverá ser aplicado inicialmente para aquisição de cotas de fundos de ações, multimercados ou de renda fixa com crédito privado.

"O mercado brasileiro evoluiu, é preciso avançar", disse o presidente da Anbima, Marcelo Giufrida. O juro baixo tem levado investidores a buscar alternativas com potencial de ganho maior e, muitas vezes, mais sofisticadas. "A implantação da API no varejo mostra o cuidado com o investimento da pessoa física", reforçou o vice-presidente da Anbima, Demosthenes Madureira de Pinho Neto. Além disso, segundo ele, traz mais transparência e elementos para que o processo de decisão seja tomado de forma consciente.

Os bancos deverão confrontar o perfil do investidor com as características das aplicações. Caso o investidor opte por um fundo que, em tese, não se enquadra ao seu perfil, terá de registrar sua intenção por escrito, disse Giufrida. Ainda segundo ele, no futuro, a ideia é estender o processo para todos os investimentos.

As áreas de private banking de 18 entidades que já implantaram a "suitability" foram alvo neste ano, de uma supervisão in loco. O objetivo era verificar se a recomendação de investimentos estava adequada. Segundo o superintendente de regulação e melhores práticas da Anbima, José Carlos Doherty, o resultado mostra que os processos foram bem implantados.

A verificação, segundo ele, é por amostragem e envolveu a análise de todo o procedimento adotado pelo banco na oferta de produtos aos clientes, como os questionários aplicados e registros assinados. No varejo, ele reconhece que o desafio será maior, mas o período para a implantação, a fim de cobrir toda a base de clientes, será de pelo menos dois anos.

A Anbima ampliou ainda a supervisão das atividades de fundos. Segundo Doherty, o foco deste ano foi o acompanhamento da participação de títulos de crédito privado nas carteiras dos fundos de investimento. A supervisão temática começou em meados de 2007 com as Cédulas de Crédito Bancário (CCBs). O objetivo era medir a exposição do mercado a esses papéis. O processo continua até para verificar como os administradores fazem a marcação a mercado de títulos de empresas que, por exemplo, entram em recuperação judicial.

Neste ano, a entidade passou a olhar para Certificados de Depósito Bancário (CDBs), debêntures, Depósitos a Prazo com Garantia Especial (DPGEs) e títulos do agronegócio. "A exposição do setor de fundos a títulos privados ainda é pequena", disse. Com CDB, soma 15% do patrimônio. Sem esse ativo, não chega a 5%. Mas a supervisão é importante por conta do risco de imagem. Um problema com um título pode afetar outras carteiras.

Os fundos de recebíveis também entraram no foco da entidade. A Anbima passou a acompanhá-los sob duas óticas: a do administrador/gestor e a do custodiante, que tem responsabilidade em atestar o lastro dos recebíveis.

Neste ano, a Anbima enviou mais de 200 cartas de recomendação, aplicou 149 multas e instaurou 5 processos para apurar irregularidades.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

O desafio da educação financeira está em mudar atitudes

Valor Econômico

Haroldo Torres
10/12/2009

Quem nunca ficou enforcado no cartão de crédito ou no cheque especial? Quem conhece os truques da previdência privada? Quem sabe investir na bolsa de valores? Quem lê regularmente a seção de notícias econômicas nos jornais? Se você respondeu positivamente às quatro perguntas acima, sinta-se incluído entre o seleto grupo de brasileiros que possui um produto escasso e considerado de grande importância: educação financeira.

Além de sua óbvia relevância em países de baixa escolaridade como o Brasil, o tema da educação financeira se tornou uma preocupação global. Organizações tão diversas quanto a Financial Consumer Agency, do Canadá, o Banco Central da Áustria, a Comissão de Aposentadoria, da Nova Zelândia, o Departamento do Tesouro dos Estados Unidos e a Financial Services Authority , da Inglaterra, estão diligentemente liderando programas de educação financeira.

A intenção é mudar o comportamento de consumidores superendividados, a mudança dos hábitos de poupança de longo prazo e o aumento do conhecimento sobre a grande gama de produtos financeiros atualmente existentes. A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OECD) lançou recentemente um portal de informações (www.financial-education.org) que visa consolidar a experiência sobre o tema entre os diversos governos filiados.

Em tese, educação financeira deveria fazer parte do currículo básico de todo cidadão. Juros compostos, por exemplo, são essenciais para quem tenta construir um raciocínio sobre compras a crédito ou sobre investimentos de longo prazo. No entanto, a maioria dos brasileiros, mesmo os relativamente educados, não entende essa lógica. E, mesmo sem entender, as pessoas tomam decisões sobre esse tema o tempo todo. O que vale mais à pena: financiar três vezes no cartão ou comprar à vista? Como me organizar para quitar a casa própria ou o carro? Qual é a melhor proposta de seguro?

Recentemente, o Ministério do Desenvolvimento Social anunciou que transformará, em parceria com a Caixa Econômica Federal, o cartão do Programa Bolsa Família (com 12 milhões de beneficiários) em uma conta corrente. Pela primeira vez, a população mais carente do Brasil terá acesso aos benefícios do cartão de débito, da poupança e, possivelmente, do crédito. Apesar dos méritos do projeto, como será que funcionarão esses produtos na mão de um usuário frequentemente analfabeto ou com baixíssima escolaridade?

Entre os especialistas, persistem muitas dúvidas sobre quais ações funcionam e quais não funcionam no campo da educação financeira. Afinal, uma coisa é dar informação e outra é mudar hábitos e atitudes.

Muitos sabem que não devem se endividar excessivamente, mas não resistem quando recebem uma boa proposta de crediário. Quase todos sabem que devem poupar para a velhice, mas são poucos os que se organizam efetivamente para adquirir seguros e planos de previdência privada. Como mudar atitudes? Essa é a principal pergunta do campo de educação financeira. Aliás, como fazer para mudar atitudes quando o varejo e os bancos nos bombardeiam diariamente com ofertas imperdíveis de produtos e serviços com prazos a perder de vista?

E se mudar atitudes é difícil na Austrália e no Canadá, no Brasil o desafio da educação financeira é dobrado, pois a população adulta tem apenas sete anos de escolaridade, em média. Por aqui, precisamos dar educação financeira para quem não tem educação formal. E o nosso tardio processo de inclusão bancária tende a complicar ainda mais essa dinâmica.

As experiências que vem da área de saúde relacionadas ao combate ao hábito de fumar, à promoção do uso da camisinha e ao emprego do cinto de segurança mostram que as iniciativas mais bem-sucedidas em termos de estímulo a mudanças de hábitos considerados socialmente inadequados possuem uma combinação de elementos tão sofisticados e elaborados quanto os das melhores campanhas de marketing de bens de consumo, levando em conta aspectos educativos, promocionais e repressivos.

Mas será que estamos preparados para uma legislação mais dura na área de comunicação de produtos financeiros, a exemplo da verificada com o cigarro e com remédios? Será que deveríamos passar a multar quem deixou o nome sujo pela terceira vez?

Independente da resposta a todas essas perguntas, tudo indica que a educação financeira é um tema que veio para ficar. Bancos, varejistas, governo, mídia e autoridades regulatórias terão de se posicionar sobre o assunto. Qual é a sua posição?

Haroldo Torres é economista, demógrafo e um dos dirigentes da PlanoCDE, empresa especializada em projetos para a base da pirâmide

Este artigo reflete as opiniões do autor, e não do jornal Valor Econômico. O jornal não se responsabiliza e nem pode ser responsabilizado pelas informações acima ou por prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso destas informações.

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