sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Juros futuros e títulos do Tesouro sentem efeitos do IOF

Valor Econômico

22/10/2010

Enfim, o mercado financeiro levou a sério a determinação do governo de conter o processo de valorização do real frente ao dólar. Depois das mudanças na taxação do capital externo, investidores reagiram à demonstração do Banco Central de que vai fechar as brechas e impedir que os estrangeiros escapem do imposto. Em reação, os juros futuros de longo prazo dispararam na BM&F, o Tesouro diminuiu a oferta de títulos prefixados no leilão e não vendeu os papéis mais longos (NTN-F) com vencimento em 2021, os preferidos pelos estrangeiros. No mercado secundário, os prêmios das NTN-F cresceram.

O mercado entende que, se o ímpeto do estrangeiro diminuir, os juros terão motivos adicionais para subir, entre eles a perspectiva de encarecimento da rolagem da dívida pública e, no limite, dificuldade de financiamento do déficit em conta corrente, que vem se agravando.

Enfim, IOF maior afeta o mercado e juro sobe

Lucinda Pinto e Angela Bittencourt | De São Paulo

Enfim, o mercado levou a sério a determinação do governo brasileiro de conter o processo de valorização do real frente ao dólar. Depois das mudanças na taxação do capital externo, investidores reagiram à demonstração do Banco Central de que vai fechar as brechas e impedir que os estrangeiros escapem do imposto. Em reação, os juros futuros de longo prazo dispararam na BM&F, o Tesouro diminuiu o tamanho dos lotes de títulos prefixados no leilão e não vendeu os mais longos (NTN-F 2021), justamente os preferidos pelos estrangeiros. Reação que demonstra que, enfim, o investidor entendeu que a enxurrada de dólares para comprar ativos prefixados no Brasil vai perder força.

Ontem, o Tesouro fez um leilão de títulos públicos considerado bastante "modesto", compatível com um ambiente de menor apetite do investidor. É bom lembrar que o Tesouro consulta as mesas de operação para avaliar a demanda e, então, definir os lotes. Ontem, foram ofertadas 150 mil unidades para cada um dos três vencimentos - 2015, 2017 e 2021 - das NTN-F, papéis prefixados com pagamento de cupom semestral. Para se ter uma ideia, na semana anterior, os volumes haviam sido de 500 mil, 1 milhão e 150 mil, respectivamente. No caso das LTNs, o volume total de ontem somou 3,5 milhões, contra 5,5 milhões na semana anterior.

O Tesouro pagou mais caro por todos os papéis e, no caso dos títulos 2021 - a menina dos olhos dos estrangeiros - recusou todas as propostas de preço que, segundo o secretário Arno Augustin, não eram "razoáveis". Provavelmente, segundo fontes do mercado, houve muita dispersão entre as taxas pedidas pelos investidores. No mercado secundário, as NTN-F 2021 eram negociadas a uma taxa 0,35 ponto percentual acima do DI de prazo equivalente (chamado prêmio do papel). Na semana anterior, o prêmio era de 0,24 ponto.

Esse prêmio mais elevado foi estabelecido sobre taxas que também já estavam em alta. A primeira reação às medidas do governo foi percebida justamente no mercado de juros futuros, na BM&F, que ajuda a balizar os demais negócios com ativos prefixados.

Todos os contratos registraram alta, mas os mais longos subiram com mais força - o que, no jargão do mercado, é chamado de "inclinação positiva da curva de juros". Isso ocorre porque, no momento, o estrangeiro, o grande aplicador em juros de longo prazo, vai pedir taxa maior para comprar esses contratos, para compensar a perda que terá com o IOF mais alto.

Profissionais de mercado calculam que para levar a mesma rentabilidade que antes no contrato com vencimento em janeiro de 2017, é preciso obter uma taxa 0,40 ponto porcentual maior do que antes do IOF maior. Para um vencimento em 2013, o prêmio seria de 0,5 ponto.

O investidor local, por outro lado, enxerga que as medidas restritivas ao capital externo terão efeito e identifica o risco de que outras ações podem ser adotadas e frear o investimento estrangeiro. E vê, portanto, um cenário de juros mais altos lá na frente.

O mercado entende que, se os estrangeiros deixarem de entrar no mercado brasileiro, os juros por aqui terão motivos adicionais para subir. Entre eles, a perspectiva de encarecimento da rolagem da dívida pública pelo Tesouro e, no limite, dificuldade de financiamento do déficit em conta corrente, que vem se agravando. A aposta de que as taxas continuarão em queda, por causa do ingresso de capital de fora, mudou. Isso justifica uma correção para cima das taxas, tanto dos DIs quanto dos títulos públicos. Um DI com vencimento em 2017 - vedete dos estrangeiros na BM&F - teria de subir 0,35 ponto percentual para compensar a perda com o IOF.

O que não se vê no mercado, entretanto, é uma fuga de capital. Afinal, quem conseguiu escapar do IOF mais salgado vai pensar muitas vezes antes de deixar o mercado. Além disso, esse investidor perdeu rentabilidade em relação à última semana - mas ainda está ganhando muito mais do que na maior parte do mundo.

Nesse ambiente, cresce a aposta de que o Tesouro pode ampliar a oferta de bônus em reais no exterior - que saem mais barato para o governo e suprem parte do apetite do investidor sem pressionar o câmbio. Entre especialistas do mercado, é consenso que essa deve ser a tendência. "Tudo indica que o espaço para grandes lotes de papéis prefixados aqui diminuiu realmente e emitir no exterior pode ser uma boa opção de financiamento mais barata para o Tesouro", afirma um profissional.

Há outros ingredientes pressionando os juros neste momento. Ontem, saiu a taxa de desemprego, que despencou para 6,2% em setembro, a menor em oito anos. O mercado de trabalho aquecido alimenta a aposta de que a taxa Selic vai voltar a subir em 2011. Além disso, o fato de o Tesouro ter feito esta semana uma oferta de R$ 1 bilhão em bônus no exterior pode, de alguma maneira, reduzir o apetite por parte dos estrangeiros por papéis no Brasil.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Tudo pelo investidor

Valor Econômico
19/10/2010
Bolsa prepara para novembro o programa de milhagem para o acionista e uma série de iniciativas para aumentar o número de aplicadores.

Por Angelo Pavini | De São Paulo

A BM&FBovespa está trabalhando a todo vapor para atrair mais investidores pessoa física para o mercado. Além da campanha estrelada pelo rei Pelé, que começou em algumas cidades em setembro e parte agora para todo o Brasil, a bolsa se prepara para começar, em novembro, o programa de milhagem do investidor, o Fica Mais, no qual o acionista ganhará pontos toda virada de mês em que mantiver as ações em custódia ou indicar amigos para o mercado. Os pontos poderão ser trocados por viagens e livros e até por consultoria financeira básica, uma demanda grande detectada pela bolsa.
Essas são apenas algumas ações desenvolvidas dentro do esforço de popularizar o mercado, diz José Antônio Gragnani, diretor-executivo de Desenvolvimento e Fomento de Negócios da BM&FBovespa. Ex-secretário adjunto do Tesouro Nacional, Gragnani traz a experiência de ter montado o sistema de negociação de papéis federais de varejo via internet, o Tesouro Direto.
Além do programa de milhagem, a bolsa se prepara para transformar o Desafio Bovespa, competição entre estudantes de escolas envolvendo noções de mercado, em um programa de auditório. O programa, a ser lançado no ano que vem, será transmitido pela TV Futura, sob coordenação do consultor financeiro Gustavo Cerbasi.
A BM&FBovespa está montando ainda um simulador no Facebook e prepara dois programas de rádio via web, o Desafio Bovespa, para as escolas e jovens, e o Mulheres em Ações, ambos no site da bolsa. Serão 24 horas de programação com música e conteúdo de educação financeira. Essas iniciativas se juntam ao programa de televisão na TV Cultura sobre educação financeira exibido aos sábados.
Já a campanha de divulgação com Pelé, exibida nas cidades de Belo Horizonte, Curitiba e Campinas, estreou neste mês na tevê a cabo - GloboNews, HBO, Telecine, Nat Geo e Discovery - e, no dia 13, na tevê aberta via TV Cultura. Nas próximas semanas, deve ser ampliada para outros canais abertos.
O objetivo da bolsa, diz Gragnani, é aumentar tanto o número de empresas quanto de investidores do mercado. No caso das empresas listadas, a meta são 200 novas em cinco anos. Na parte dos investidores, além de dinamizar a parte internacional, o projeto é chegar a 5 milhões de investidores. "Não é tão difícil se imaginarmos que a China tem 80 milhões de investidores, os Estados Unidos 90 milhões e a Coreia do Sul 5 milhões numa população de 50 milhões", destaca.
Ainda na área de pessoas físicas, Gragnani destaca a parte educacional, voltada para a formação do investidor de todas as idades. Para crianças a partir de sete anos, há o site da Turma da Bolsa, que busca dar noções de equilíbrio financeiro. No ar desde abril, o site já tem 6 mil crianças cadastradas. Outro site, o Quer ser Sócio? já registrou 63 mil visitas desde 20 de agosto.
Gragnani diz que está trabalhando também no projeto de redução das taxas de custódia para valores menores de ações. Hoje o investidor paga no mínimo R$ 120 por ano para guardar os papéis, o que torna inviáveis aplicações menores. O projeto está em discussão com as corretoras.
Outra iniciativa foi a criação de uma ferramenta de pesquisa "Vitrine das Corretoras", que permite ao investidor definir um perfil de instituição de acordo com suas aplicações. O site teve 24 mil acessos desde 13 de setembro.
Uma forma de ajudar indiretamente os investidores é o Programa de Qualificação Operacional da corretoras, o PQO. Ele busca aumentar o nível de exigência e o padrão das instituições que atendem os acionistas. Em sua última versão, divulgada há duas semanas, o PQO definiu um prazo de um dia para a transferência de custódia entre corretoras, fonte de constantes reclamações de investidores. Foi também criada uma categoria de home broker, com exigências específicas para esse serviço, e estabelecidos critérios de controle maior dos agentes autônomos, outra fonte de reclamações dos investidores.
Muita coisa está sendo feita na campanha de popularização, mas o mais importante é a educação financeira, afirma Gragnani. Por isso, a primeira meta de trabalho é aumentar o conhecimento dos investidores e das empresas, diz. Para isso, foi criado um instituto educacional com cursos de derivativos e mercados de capitais para empresários e pessoas físicas. "Há agora duas novas linhas de cursos, uma escola de empreendedores e empresas e uma escola de investidores", explica Gragnani.
No alvo estão as 15 mil empresas menores, com faturamento entre R$ 100 milhões e R$ 400 milhões anuais. "São empresas que não acessam plenamente o mercado", afirma Gragnani. "Queremos mostrar como elas podem chegar à forma ótima na relação entre ações e dívida", diz.
Muitas delas são candidatas naturais a usar o mercado de acesso da bolsa, o Bovespa Mais, que tem menos exigências que o mercado oficial. "No Canadá, o mercado de acesso, chamado de Venture, tem 2.400 empresas e o oficial 1.500, das quais 400 vieram do Venture nos últimos dez anos", diz Gragnani.
O Bovespa Mais tem hoje apenas uma empresa, a Nutriplant. Para Gragnani, o mercado de acesso perdeu espaço na fase áurea da bolsa, antes da crise de 2008, porque era tão fácil lançar empresas na bolsa direto que ninguém se preocupava em passar por uma fase de preparação. Agora, o mercado está mais seletivo e a procura pelo Bovespa Mais cresceu. "Pelo menos dez empresas já nos procuraram mais de uma vez para saber das condições", afirma Gragnani. Ele espera que o Bovespa Mais deslanche a partir da terceira empresa registrada.
A bolsa fez ainda uma parceria na área de empreendedorismo com o Grupo Endeavor para trazer para o Brasil o programa da Kauffman Foundation. Ele foi tropicalizado e transformado no programa Fast Track, que será oferecido a partir deste mês. A bolsa fechou uma parceria com o Babson College, da Universidade de Boston, um dos principais centros de empreendedorismo do mundo, que trará no ano que vem um programa adaptado para o Brasil.
Serão três módulos a partir de março de 2011, buscando levar maior conhecimento do mercado de capitais para o empreendedor. "A proposta é começar de baixo, ajudando desde o plano de negócios, contabilidade, abertura da empresa, marketing, até gerenciamento de risco, governança corporativa, transparência e boas práticas de mercado", diz.
A bolsa também está investindo em um escritório no parque tecnológico de São José dos Campos, que funciona como uma incubadora de projetos de empresas.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

A questão da remuneração dos gestores de previdência privada

Valor Econômico

14/10/2010

:: Fernando Camargo

É fato que os fundos de previdência disponíveis hoje carecem de estratégia de longo prazo. São mais do mesmo, sempre focados no curto prazo e comprando títulos do governo ou do próprio banco que o administra.

Vendem-se fundos de previdência com ênfase nos benefícios fiscal e sucessório, da economia tributária e praticidade da transição do ativo em casos de falecimento. Apesar de correto, está longe de ser suficiente. É preciso se ater aos detalhes que podem prejudicar o fim principal de uma aplicação de previdência: a acumulação ótima no longo prazo.

Um desalinhador de interesses muito importante nesse tipo de fundo é a impossibilidade de cobrança de taxa de desempenho. Se o motivo da previdência é a construção da poupança de longo prazo, e se a estratégia precede um gestor preparado, uma filosofia de investimentos sólida e aderente a um mandato predeterminado, por que não dar o correto incentivo econômico para que o retorno de longo prazo seja o melhor possível ?

Essa seria a forma mais barata de se remunerar um bom gestor. Os fundos cobrariam uma taxa fixa baixa. Se tiverem bom desempenho, o ganho adicional seria dividido com o gestor em uma proporção que favoreceria o investidor. Se o desempenho for ruim, o custo do fundo será baixo, não afetando mais ainda seu retorno.

A não cobrança, entretanto, traz um enorme desalinhamento de interesse, fazendo com que os gestores evitem tomar risco nas carteiras, o que é um contrassenso para esse tipo de investimento. Até certo ponto, isso explica porque a grande maioria possui ainda hoje uma quantidade desproporcional de renda fixa. Não existe qualquer incentivo econômico para um gestor assumir mais risco, visto que, se acertar, não ganhará mais - e, se perder, ganhará certamente menos.

Claro que quando não existe taxa de desempenho, os custos de administração, gestão e da própria seguradora que administra o plano têm de ser embutidos totalmente na taxa de administração. Assim, esse tipo de produto possui taxas de administração mais altas que fundos de renda fixa puros. Na prática, vemos que fundos de renda fixa de qualidade possuem taxa próxima a 0,5% ao ano, enquanto fundos de previdência, próxima de 3% ao ano.

A diferença deve existir, pois existe um plano atrelado ao fundo de previdência, mas não dessa magnitude. Esse é um dos motivos principais que fazem esse tipo de produto ainda ter retorno relativamente ruim ante outros investimentos, inclusive.

Se o CDI é de 10,75% ao ano, com um fundo sem exposição nenhuma de renda variável e com taxa de administração de 3% ao ano, seu retorno será de no máximo 7,75% ao ano, ou cerca de 70% do CDI. Qualquer deslize da gestão só fará a rentabilidade cair mais. A capitalização composta de retornos em investimentos é algo fantástico e multiplicador de riqueza. Isso não é novidade. Uma perda de 3% em um fundo, logo na largada, causa uma perda em 10 anos de 67% de retorno.

Se deduzirmos também as taxas de carregamento, é melhor nem fazer a conta. A justificativa dada pelos gestores para essa cobrança é o longo prazo que o cliente manterá os recursos aplicados. Isso, mais uma vez, é um total contrassenso, pois justamente manter os recursos no longo prazo é o que deveria eliminar taxas e custos.

A taxa de carregamento poderia ser usada para desestimular saques no curto prazo. Mas, para que isso faça sentido, quanto maior o prazo de permanência no fundo, menor a penalidade que seria cobrada. Além disso, um saque no curto prazo pode prejudicar os outros cotistas, pois o gestor terá de vender ativos talvez em uma hora não adequada. Por isso, os recursos oriundos dessa taxa deveriam ser reincorporados ao fundo em benefício dos outros cotistas.

A taxa de carregamento, então, deveria ter um viés educativo para quem permanece no fundo, reduzindo ou até anulando o incentivo econômico para que um investidor resolvesse sacar seus recursos da previdência para adquirir um bem no curto prazo.

Os produtos de previdência são o futuro do mercado brasileiro. Uma classe média crescente, uma economia forte e uma estrutura estatal de benefícios insuficiente e sem gestão profissional. O ambiente está apto para que a iniciativa privada ganhe espaço. Mas só os melhores produtos, com os melhores gestores serão beneficiados. A legislação precisa melhorar e o investidor, mais do que nunca, precisa se informar.

Fernando Camargo é sócio da Orbe Investimentos

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

O esquecido na prestação

O Estado de Minas


 

06/10/2010


Apenas 10% do dinheiro do Fundo é usado para abater parcelas da casa própria, mas é uma boa saída para quem está endividado ou mudou para um emprego com salário menor
Vera Batista
   

Brasília Trabalhadores com carteira assinada e endividados com casa própria mal sabem que há a possibilidade de usar o depósito mensal de sua conta vinculada do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) para abater as prestações. Pouco menos de 10% do saldo de R$ 184 bilhões acumulados no fundo até julho deste ano, ou cerca de R$ 169,9 milhões, tiveram essa destinação. Para fazer uso do benefício, basta o cliente procurar o banco que o financiou ou uma agência da Caixa Econômica Federal munido do contrato e documentos que comprovem o vínculo empregatício.

Pouco acostumados ao crédito fácil dos últimos meses, muitos brasileiros envolveram-se em dívidas acima de sua capacidade de pagamento, especialmente a dos contratos imobiliários. Comprei minha casa com muito esforço. Aí, fiquei desempregada. Quando consegui outro trabalho, o salário era menor. Não paguei as mensalidades por um tempão. O banco tomou o imóvel. Agora, não tenho onde morar, lamenta, envergonhada, a dona de casa Fátima da Silva (nome fictício). Se a personagem ouvida pelo Estado de Minas houvesse procurado ajuda especializada, sua decepção poderia ter sido evitada, garante o advogado Lucio Delfino, da Associação Brasileira dos Mutuários da Habitação (ABMH).

SEM SUFOCO Quem tem financiamento de imóvel pelo Sistema Financeiro da Habitação (SFH) no valor de até R$ 500 mil pode usar os recursos da conta vinculada do FGTS para sair do sufoco. Se o empregador recolhe, por exemplo, R$ 1 mil mensais para a conta vinculada, o trabalhador poderá usar, no máximo, 80% do valor total da parcela, ou R$ 800. Se a prestação do imóvel for, por exemplo, de R$ 1.200, ele só terá que arcar com a diferença, R$ 400, do próprio bolso. Para quem está endividado, a ajuda é considerável. Mesmo quem ficou desempregado e voltou a trabalhar tem autorização para usar o dinheiro.

A Caixa informa que, na data da solicitação do FGTS, o financiamento só pode apresentar até 3 prestações em atraso. Delfino, porém, ensina que, se o tempo for superior, o consumidor não está desprotegido. O primeiro passo é procurar o banco e renegociar exigindo a retirada de cobranças indevidas e juros abusivos , de forma que a dívida seja incluída no saldo devedor. Se o imóvel vale R$ 100 mil, e ele já pagou R$ 40 mil, o saldo devedor será de R$ 60 mil. Supondo que deixou de pagar várias parcelas e o total atrasado é de R$ 4 mil, deve pedir para incorporar o valor aos R$ 60 mil e alongar o prazo, explica. Ao renegociar, o mutuário passará a ter, na verdade, um novo financiamento.

Assim, com a atualização, será permitido também o pagamento mensal com a ajuda dos recursos da conta vinculada. É uma saída para amenizar a inadimplência. E vale a pena. O dinheiro do FGTS rende juros de 3% ao ano, mais a Taxa Referencial (TR), de 2,5% anuais. O financiamento cobra das mesmas pessoas entre 6% a 12% ao ano, mais a TR, compara o advogado. Pelas regras, o trabalhador tem que comprovar tempo de serviço de no mínimo três anos sob o regime do FGTS, consecutivos ou não. O banco tem que aceitar. Se o cidadão se sentir coagido, procure seus direitos na Justiça, aconselha.

DOCUMENTOS Caso o banco financiador não fizer a operação diretamente com a Caixa, o mutuário precisa procurar uma agência do banco federal para usar o FGTS e reduzir a dívida. Deve levar a Carteira de Trabalho, solicitar o saldo da conta vinculada, apresentar a última prestação paga e o CPF. Se for um trabalhador que faz recolhimento avulso ao fundo, deve apresentar declaração do órgão gestor da mão de obra ou do sindicato. O trabalhador pode usar ainda os recursos do FGTS para comprar imóvel novo ou usado, para construção, liquidação ou amortização de dívida do contrato de financiamento habitacional.

As dívidas poderão levar à perdas do imóvel. Engana-se, ainda, quem pensa que uma única moradia está isenta desse risco. A legislação sofreu muitas mudanças ao longo do tempo para defender o proprietário do mau pagador. Os que não pagam serão despejados e terão o imóvel leiloado.


As dívidas poderão levar à perdas do imóvel. Engana-se, ainda, quem pensa que a uma única moradia está isenta desse risco. A legislação sofreu muitas mudanças ao longo do tempo para defender o proprietário do mau pagador. Os que não pagam serão despejados e terão o imóvel leiloado. A Lei nº 8j.009/90 fala em proteger a entidade familiar e resguardar o direito à moradia, mas isso funciona em poucos casos. Se um mutuário entra para um financiamento e comete inadimplências no pagamento, a partir de 90 dias, isso acarretará o início de um processo de perda de imóvel. Nesse caso, a lei abre uma exceção. Mesmo que a família possua só um imóvel, ele poderá ser leiloado, diz Delfino.

 

EXEMPLO PRÁTICO
>> Imagine que você paga uma prestação mensal de R$ 1,2 mil por um imóvel comprado pelo Sistema Financeiro da Habitação (SFH)

>> Você poderá usar até 80% do valor que recolhe ao FGTS todo mês: se sua empresa recolhe, por exemplo, R$ 1 mil, poderá usar até R$ 800. Esse valor será abatido da prestação

>> Ou seja, seu gasto mensal cairá sensivelmente: de R$ 1,2 mil para R$ 800. Os outros R$ 400 deverão ser pagos por você, é claro

>> A redução é bem razoável, mas lembre-se: seu FGTS crescerá bem menos

>> Outra limitação: o imóvel financiado deverá ser de no máximo R$ 500 mil

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Brasileiro tem menos tempo, mas compra o dobro do que planeja


 


 

Valor Econômico


 

27/09/2010


 

Daniele Madureira | De São Paulo

Responda rápido: você costuma fazer lista de compras para ir ao supermercado? E o valor final coincide com aquele que você imaginou antes de pegar o carrinho? No Brasil, o consumidor deixa o supermercado com uma compra 125% maior, em número de produtos, do que havia planejado, segundo estudo inédito do Popai, associação que reúne varejistas, fabricantes e agências de publicidade. Se entrou na loja pensando em levar, por exemplo, arroz, feijão e carne, deixa o ponto de venda com mais do que o dobro de produtos na sacola, o que evidencia a compra por impulso. A falta de planejamento é comum entre consumidores, mesmo considerando que a maioria (62%) só visita os corredores onde estão os itens procurados.

Há 12 anos, a compra era 266% superior àquela que tinha sido planejada. "Embora o percentual hoje seja menor, o consumidor vai mais frequentemente aos pontos de venda, sendo que no passado a maioria fazia uma grande compra por mês", diz Chan Wook Min, presidente do Popai Brasil.

Nos últimos 12 anos, diz Min, o consumidor brasileiro se tornou também mais seletivo porque tem menos tempo para ficar no ponto de venda - menos de meia hora. Em 1998, ficava uma hora e nove minutos na loja. "Mas como as compras são mais frequentes, no fim das contas, ele gasta mais do que no passado", afirma.

 
 

Atualmente, 60% das compras são de reposição (quando faltam alguns itens na despensa) e 24% são de emergência, para atender uma necessidade específica. Apenas 2% são de abastecimento, ou seja, referentes à "compra do mês".

A pesquisa do Popai, considerada a maior entidade mundial especializada em pesquisa no ponto de venda, informa que o brasileiro é o povo que mais decide por impulso no mundo: 81% das marcas são escolhidas diante das gôndolas. Na Inglaterra esse número está em 75% e, na Itália, em 42%.

Não é apenas a indústria que precisa investir em marketing nas lojas. O varejo também, já que a fidelidade ao ponto de venda despencou: em 1998, 58% diziam que faziam as compras sempre na mesma loja, fatia que caiu para 15% neste ano. A menor fidelidade foi acompanhada da maior presença dos homens nos pontos de venda.

Nos últimos 12 anos, a participação deles dobrou, de 16% para 32% no total de compradores. Min observa que, diante das gôndolas, os homens são mais indisciplinados do que elas e suas compras são guiadas pela "autoindulgência".

O sexo masculino é o mais inclinado a fazer compras para aproveitar uma promoção. Entre os que compram sempre no mesmo lugar, os que têm mais de 50 anos e os que pertencem às classes C e D são maioria. Quando se trata de compras de emergência, 30% recorrem aos mercadinhos de bairro e 20% às padarias.

O último estudo feito pelo Popai Brasil foi em 2004. No levantamento mais recente, realizado em parceria com o Ibope Inteligência, 1.860 consumidores foram acompanhados em sete capitais do Nordeste, Sudeste e Sul do país, além de duas grandes cidades paulistas (Campinas e Ribeirão Preto).

Para melhor avaliar o comportamento de compra, o Popai Brasil selecionou 62 lojas e as dividiu em três grupos: pequeno varejo (até 19 caixas), médio varejo (de 20 a 49) e grande varejo (a partir de 50 caixas). Os consumidores foram abordados em dois momentos: antes de realizar a compra e depois, na saída da loja.

"Enquanto 59% diziam comprar para aproveitar uma promoção, só 5% realmente faziam isso, o que demonstra que a intenção é maior que a realidade", afirma. E nem mesmo os consumidores percebem que deixaram a compra do mês de lado. Dos entrevistados, 61% afirmaram realizar compras de abastecimento. Prática que, na verdade, só é adotada por 7%.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Juro real alto ainda garante rentabilidade interessante

Valor Econômico

20/09/2010

De São Paulo


 

Mesmo afastada a perspectiva de alta da Selic, pelo menos neste ano, os juros continuam proporcionando uma rentabilidade muito atraente aos investidores, apontam os especialistas ouvidos pelo Valor.

Com a Selic em 10,75%, o investidor consegue ainda um ganho real (já descontada a inflação) em aplicações conservadoras de cerca de 5% ao ano, ressalta Luiz Gustavo Medina, da M2 Investimentos. "É uma rentabilidade excelente com risco muito baixo, que não se encontra em lugar nenhum lugar do mundo", diz Medina. "Nos países desenvolvidos, os juros nominais estão próximos de zero e, em muitos casos, o juro real é negativo", acrescenta.

Ele lembra que esses ganhos variam de acordo com as condições obtidas pelos investidores, seja em fundos DI, seja em CDBs dos grandes bancos, e do prazo da aplicação, que vai determinar a alíquota do Imposto de Renda sobre os ganhos da aplicação. É preciso verificar a taxa de administração dos fundos DI, por exemplo, que pode derrubar os ganhos para 4% ou 3% real ao ano. "E, mesmo assim, é um ganho bom considerando o risco baixo da aplicação", afirma.

Os juros nominais de 10,75% ao ano pagos pelo Tesouro Nacional são um rendimento "fantástico", sobretudo quando se leva em conta que o Brasil há tempos se tornou um país responsável do ponto de vista fiscal, ressalta Rogério Bastos, da FinPlan. "O investidor pode até encontrar juros mais elevados em alguns países, mas nenhum deles terá as condições fiscais e econômicas do Brasil", afirma.

Para Bastos, é hora do investidor começar a se acostumar também com a ideia de que ganhos espetaculares na bolsa não serão recorrentes daqui para frente. "Não dá para esperar ganho de 80% como no ano passado", alerta Bastos, lembrando que parte expressiva do desempenho do Ibovespa em 2009 foi apenas reflexo de uma recuperação natural após o mergulho de 2008, em razão da crise financeira internacional. "A bolsa vai entrar em um quadro de normalidade, com ganhos médios de 20% até 30% ao ano". (AP)

Adeus ao 1% ao mês

Valor Econômico


 

20/09/2010


 

Por Luciana Monteiro e Antonio Perez | De São Paulo

Anos e anos convivendo com uma taxa de juros em níveis altíssimos deixaram o investidor brasileiro acostumado a ter retornos de pelo menos 1% ao mês em aplicações de baixíssimo risco, como fundos DI e CDBs de grandes bancos. Mas a realidade agora é outra e o aplicador terá de se adaptar a ela.

 
 

Mesmo com o forte crescimento da economia brasileira este ano, o Banco Central (BC) já decretou o fim do ciclo de alta da Selic, que permanecerá em 10,75% ao ano. E mais: o BC deixou claro que a taxa de juros capaz de manter a inflação sob controle no longo prazo é hoje menor do que antigamente. É bem provável, portanto, que o investidor não veja mais a Selic em níveis capazes de garantir o ganho mensal de 1% no bom e velho refúgio da renda fixa.

O problema, dizem analistas, é que a rentabilidade mensal de 1% ao mês tornou-se uma verdadeira barreira psicológica, da qual os investidores parecem relutar em abrir mão. Isso mesmo diante de uma realidade de juros mais baixos.

As pessoas estão percebendo que o rendimento que antes eles tinham numa aplicação conservadora e que servia para pagar as contas não é mais o mesmo, diz Flavio Arruda, chefe da área de desenvolvimento de produtos da HSBC Global Asset Management. "Com isso, os investidores estão buscando mais informações sobre outros mercados", conta ele. "O momento é de aculturação de outros tipos de investimento, como multimercados, ações, carteiras de capital protegido e mesmo fundos imobiliários."

Os investidores brasileiros até pouco tempo atrás viviam o sonho de obter altos retornos sem precisar avaliar os riscos das aplicações, afirma Luiz Gustavo Medina, sócio da empresa de aconselhamento financeiro M2 Investimentos. "Esse ganho de 1% líquido sem risco nunca mais vai voltar e as pessoas deveriam ficar felizes com isso, pois é um sinal de que o país está caminhando para a normalidade", diz Medina, que vê a economia brasileira madura para conviver com juros menos elevados.

Para que o investidor voltasse a obter 1% com uma aplicação atrelada ao DI, explica Medina, a Selic teria que ultrapassar 15% ao ano, algo fora do radar até dos analistas que creem em alta dos juros em 2011. Mesmo com uma Selic de 15%, taxa de administração de 1% ao ano e Imposto de Renda de 20%, o investidor levaria para casa cerca de 11% líquido em um ano, ou seja, menos do que o 1% mensal.

Sem os ganhos polpudos na renda fixa, diz Medina, os investidores vão ter de diversificar suas aplicações, tanto em outras modalidades de renda fixa como fundos imobiliários e debêntures, quanto na bolsa. "Isso é um caminho sem volta, e é fundamental que o investidor se disponha a conhecer outras opções", afirma.

A questão se torna mais dramática porque neste ano a bolsa, a opção mais tradicional de diversificação, tem decepcionado. Ou seja, nem mesmo com mais risco o investidor está conseguindo ganhos mensais ao redor de 1%. Antes, via diversificação, o investidor conseguia em média chegar ao ganho de 1% ao mês, diz Aquiles Mosca, estrategista de investimentos pessoais da Santander Asset Management. "Agora a situação mudou e mesmo a diversificação não trouxe esse retorno", afirma ele, lembrando que grande parte dos multimercados estão sofrendo para superar o CDI e as carteiras de ações têm perdas no ano.

Na ânsia de voltar a obter rentabilidade de pelo menos 1% ao ano, muita gente acaba também caindo em armadilhas financeiras. Somente neste ano, foram descobertos diversos esquemas que se mostraram golpes contra aplicadores. Um gestor de recursos, por exemplo, contou ao Valor a história de um investidor que queria sacar seus recursos de alguns fundos e transferi-los para uma "aplicação alternativa", que prometia retorno de 5% ao mês. Poucos dias depois, descobriu-se que a tal empresa não tinha autorização nem da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) nem do BC para oferecer aplicações financeiras.

Nesse movimento de procurar algo com retorno maior, muita gente procura soluções mágicas, diz Mosca, do Santander. "Mas o investidor precisa estar ciente de que risco e retorno andam de mãos dadas", ressalta.

Muitas vezes, a busca do 1% por mês não é apenas o reflexo da procura por ganho fácil e crescimento do patrimônio, ressalta Rogério Bastos, sócio da FinPlan. "Como os juros foram altos por muito tempo, várias pessoas passaram a contar com a renda do investimento para pagar as contas", diz Bastos. "Quando a rentabilidade caiu, começaram a ir atrás desses investimentos alternativos, o que é muito perigoso", acrescenta, lembrando o caso da Firv Consultoria, de Belo Horizonte (MG), que provocou perdas estimadas em mais de R$ 50 milhões a cerca de 2 mil investidores.

Para conseguir a rentabilidade a que estava acostumado na época dos juros elevadíssimos, o investidor terá de alongar o horizonte de aplicação e fazer gestão do orçamento doméstico, aponta Bastos. "Em vez de buscar ganho mensal de 1%, o investidor pode trabalhar com retorno de 12% ao ano, alto razoável com uma diversificação", diz. "Ele terá de aprender a conviver com a oscilação do valor de suas aplicações no curto prazo e se concentrar no resultado final."

Para Mosca, do Santander, a boa notícia é que, ao que tudo indica, essa cultura de não se preocupar com oscilações de curto prazo parece realmente estar começando. Os números mostram que, apesar do resultado de queda de 2,19% da bolsa no ano até sexta-feira, os investidores pessoas físicas não deixaram o mercado acionário neste ano. Mesmo os fundos de ações não registram saques. "Isso pode ser o primeiro sinal de maturidade do investidor brasileiro."

E, nesse contexto, buscar orientação financeira é essencial, já que os objetivos de cada um são diferentes, ressalta Arruda, da HSBC Global Asset. "Não existe receita de bolo e é preciso procurar informação", diz.

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