quinta-feira, 14 de outubro de 2010

A questão da remuneração dos gestores de previdência privada

Valor Econômico

14/10/2010

:: Fernando Camargo

É fato que os fundos de previdência disponíveis hoje carecem de estratégia de longo prazo. São mais do mesmo, sempre focados no curto prazo e comprando títulos do governo ou do próprio banco que o administra.

Vendem-se fundos de previdência com ênfase nos benefícios fiscal e sucessório, da economia tributária e praticidade da transição do ativo em casos de falecimento. Apesar de correto, está longe de ser suficiente. É preciso se ater aos detalhes que podem prejudicar o fim principal de uma aplicação de previdência: a acumulação ótima no longo prazo.

Um desalinhador de interesses muito importante nesse tipo de fundo é a impossibilidade de cobrança de taxa de desempenho. Se o motivo da previdência é a construção da poupança de longo prazo, e se a estratégia precede um gestor preparado, uma filosofia de investimentos sólida e aderente a um mandato predeterminado, por que não dar o correto incentivo econômico para que o retorno de longo prazo seja o melhor possível ?

Essa seria a forma mais barata de se remunerar um bom gestor. Os fundos cobrariam uma taxa fixa baixa. Se tiverem bom desempenho, o ganho adicional seria dividido com o gestor em uma proporção que favoreceria o investidor. Se o desempenho for ruim, o custo do fundo será baixo, não afetando mais ainda seu retorno.

A não cobrança, entretanto, traz um enorme desalinhamento de interesse, fazendo com que os gestores evitem tomar risco nas carteiras, o que é um contrassenso para esse tipo de investimento. Até certo ponto, isso explica porque a grande maioria possui ainda hoje uma quantidade desproporcional de renda fixa. Não existe qualquer incentivo econômico para um gestor assumir mais risco, visto que, se acertar, não ganhará mais - e, se perder, ganhará certamente menos.

Claro que quando não existe taxa de desempenho, os custos de administração, gestão e da própria seguradora que administra o plano têm de ser embutidos totalmente na taxa de administração. Assim, esse tipo de produto possui taxas de administração mais altas que fundos de renda fixa puros. Na prática, vemos que fundos de renda fixa de qualidade possuem taxa próxima a 0,5% ao ano, enquanto fundos de previdência, próxima de 3% ao ano.

A diferença deve existir, pois existe um plano atrelado ao fundo de previdência, mas não dessa magnitude. Esse é um dos motivos principais que fazem esse tipo de produto ainda ter retorno relativamente ruim ante outros investimentos, inclusive.

Se o CDI é de 10,75% ao ano, com um fundo sem exposição nenhuma de renda variável e com taxa de administração de 3% ao ano, seu retorno será de no máximo 7,75% ao ano, ou cerca de 70% do CDI. Qualquer deslize da gestão só fará a rentabilidade cair mais. A capitalização composta de retornos em investimentos é algo fantástico e multiplicador de riqueza. Isso não é novidade. Uma perda de 3% em um fundo, logo na largada, causa uma perda em 10 anos de 67% de retorno.

Se deduzirmos também as taxas de carregamento, é melhor nem fazer a conta. A justificativa dada pelos gestores para essa cobrança é o longo prazo que o cliente manterá os recursos aplicados. Isso, mais uma vez, é um total contrassenso, pois justamente manter os recursos no longo prazo é o que deveria eliminar taxas e custos.

A taxa de carregamento poderia ser usada para desestimular saques no curto prazo. Mas, para que isso faça sentido, quanto maior o prazo de permanência no fundo, menor a penalidade que seria cobrada. Além disso, um saque no curto prazo pode prejudicar os outros cotistas, pois o gestor terá de vender ativos talvez em uma hora não adequada. Por isso, os recursos oriundos dessa taxa deveriam ser reincorporados ao fundo em benefício dos outros cotistas.

A taxa de carregamento, então, deveria ter um viés educativo para quem permanece no fundo, reduzindo ou até anulando o incentivo econômico para que um investidor resolvesse sacar seus recursos da previdência para adquirir um bem no curto prazo.

Os produtos de previdência são o futuro do mercado brasileiro. Uma classe média crescente, uma economia forte e uma estrutura estatal de benefícios insuficiente e sem gestão profissional. O ambiente está apto para que a iniciativa privada ganhe espaço. Mas só os melhores produtos, com os melhores gestores serão beneficiados. A legislação precisa melhorar e o investidor, mais do que nunca, precisa se informar.

Fernando Camargo é sócio da Orbe Investimentos

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

O esquecido na prestação

O Estado de Minas


 

06/10/2010


Apenas 10% do dinheiro do Fundo é usado para abater parcelas da casa própria, mas é uma boa saída para quem está endividado ou mudou para um emprego com salário menor
Vera Batista
   

Brasília Trabalhadores com carteira assinada e endividados com casa própria mal sabem que há a possibilidade de usar o depósito mensal de sua conta vinculada do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) para abater as prestações. Pouco menos de 10% do saldo de R$ 184 bilhões acumulados no fundo até julho deste ano, ou cerca de R$ 169,9 milhões, tiveram essa destinação. Para fazer uso do benefício, basta o cliente procurar o banco que o financiou ou uma agência da Caixa Econômica Federal munido do contrato e documentos que comprovem o vínculo empregatício.

Pouco acostumados ao crédito fácil dos últimos meses, muitos brasileiros envolveram-se em dívidas acima de sua capacidade de pagamento, especialmente a dos contratos imobiliários. Comprei minha casa com muito esforço. Aí, fiquei desempregada. Quando consegui outro trabalho, o salário era menor. Não paguei as mensalidades por um tempão. O banco tomou o imóvel. Agora, não tenho onde morar, lamenta, envergonhada, a dona de casa Fátima da Silva (nome fictício). Se a personagem ouvida pelo Estado de Minas houvesse procurado ajuda especializada, sua decepção poderia ter sido evitada, garante o advogado Lucio Delfino, da Associação Brasileira dos Mutuários da Habitação (ABMH).

SEM SUFOCO Quem tem financiamento de imóvel pelo Sistema Financeiro da Habitação (SFH) no valor de até R$ 500 mil pode usar os recursos da conta vinculada do FGTS para sair do sufoco. Se o empregador recolhe, por exemplo, R$ 1 mil mensais para a conta vinculada, o trabalhador poderá usar, no máximo, 80% do valor total da parcela, ou R$ 800. Se a prestação do imóvel for, por exemplo, de R$ 1.200, ele só terá que arcar com a diferença, R$ 400, do próprio bolso. Para quem está endividado, a ajuda é considerável. Mesmo quem ficou desempregado e voltou a trabalhar tem autorização para usar o dinheiro.

A Caixa informa que, na data da solicitação do FGTS, o financiamento só pode apresentar até 3 prestações em atraso. Delfino, porém, ensina que, se o tempo for superior, o consumidor não está desprotegido. O primeiro passo é procurar o banco e renegociar exigindo a retirada de cobranças indevidas e juros abusivos , de forma que a dívida seja incluída no saldo devedor. Se o imóvel vale R$ 100 mil, e ele já pagou R$ 40 mil, o saldo devedor será de R$ 60 mil. Supondo que deixou de pagar várias parcelas e o total atrasado é de R$ 4 mil, deve pedir para incorporar o valor aos R$ 60 mil e alongar o prazo, explica. Ao renegociar, o mutuário passará a ter, na verdade, um novo financiamento.

Assim, com a atualização, será permitido também o pagamento mensal com a ajuda dos recursos da conta vinculada. É uma saída para amenizar a inadimplência. E vale a pena. O dinheiro do FGTS rende juros de 3% ao ano, mais a Taxa Referencial (TR), de 2,5% anuais. O financiamento cobra das mesmas pessoas entre 6% a 12% ao ano, mais a TR, compara o advogado. Pelas regras, o trabalhador tem que comprovar tempo de serviço de no mínimo três anos sob o regime do FGTS, consecutivos ou não. O banco tem que aceitar. Se o cidadão se sentir coagido, procure seus direitos na Justiça, aconselha.

DOCUMENTOS Caso o banco financiador não fizer a operação diretamente com a Caixa, o mutuário precisa procurar uma agência do banco federal para usar o FGTS e reduzir a dívida. Deve levar a Carteira de Trabalho, solicitar o saldo da conta vinculada, apresentar a última prestação paga e o CPF. Se for um trabalhador que faz recolhimento avulso ao fundo, deve apresentar declaração do órgão gestor da mão de obra ou do sindicato. O trabalhador pode usar ainda os recursos do FGTS para comprar imóvel novo ou usado, para construção, liquidação ou amortização de dívida do contrato de financiamento habitacional.

As dívidas poderão levar à perdas do imóvel. Engana-se, ainda, quem pensa que uma única moradia está isenta desse risco. A legislação sofreu muitas mudanças ao longo do tempo para defender o proprietário do mau pagador. Os que não pagam serão despejados e terão o imóvel leiloado.


As dívidas poderão levar à perdas do imóvel. Engana-se, ainda, quem pensa que a uma única moradia está isenta desse risco. A legislação sofreu muitas mudanças ao longo do tempo para defender o proprietário do mau pagador. Os que não pagam serão despejados e terão o imóvel leiloado. A Lei nº 8j.009/90 fala em proteger a entidade familiar e resguardar o direito à moradia, mas isso funciona em poucos casos. Se um mutuário entra para um financiamento e comete inadimplências no pagamento, a partir de 90 dias, isso acarretará o início de um processo de perda de imóvel. Nesse caso, a lei abre uma exceção. Mesmo que a família possua só um imóvel, ele poderá ser leiloado, diz Delfino.

 

EXEMPLO PRÁTICO
>> Imagine que você paga uma prestação mensal de R$ 1,2 mil por um imóvel comprado pelo Sistema Financeiro da Habitação (SFH)

>> Você poderá usar até 80% do valor que recolhe ao FGTS todo mês: se sua empresa recolhe, por exemplo, R$ 1 mil, poderá usar até R$ 800. Esse valor será abatido da prestação

>> Ou seja, seu gasto mensal cairá sensivelmente: de R$ 1,2 mil para R$ 800. Os outros R$ 400 deverão ser pagos por você, é claro

>> A redução é bem razoável, mas lembre-se: seu FGTS crescerá bem menos

>> Outra limitação: o imóvel financiado deverá ser de no máximo R$ 500 mil

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Brasileiro tem menos tempo, mas compra o dobro do que planeja


 


 

Valor Econômico


 

27/09/2010


 

Daniele Madureira | De São Paulo

Responda rápido: você costuma fazer lista de compras para ir ao supermercado? E o valor final coincide com aquele que você imaginou antes de pegar o carrinho? No Brasil, o consumidor deixa o supermercado com uma compra 125% maior, em número de produtos, do que havia planejado, segundo estudo inédito do Popai, associação que reúne varejistas, fabricantes e agências de publicidade. Se entrou na loja pensando em levar, por exemplo, arroz, feijão e carne, deixa o ponto de venda com mais do que o dobro de produtos na sacola, o que evidencia a compra por impulso. A falta de planejamento é comum entre consumidores, mesmo considerando que a maioria (62%) só visita os corredores onde estão os itens procurados.

Há 12 anos, a compra era 266% superior àquela que tinha sido planejada. "Embora o percentual hoje seja menor, o consumidor vai mais frequentemente aos pontos de venda, sendo que no passado a maioria fazia uma grande compra por mês", diz Chan Wook Min, presidente do Popai Brasil.

Nos últimos 12 anos, diz Min, o consumidor brasileiro se tornou também mais seletivo porque tem menos tempo para ficar no ponto de venda - menos de meia hora. Em 1998, ficava uma hora e nove minutos na loja. "Mas como as compras são mais frequentes, no fim das contas, ele gasta mais do que no passado", afirma.

 
 

Atualmente, 60% das compras são de reposição (quando faltam alguns itens na despensa) e 24% são de emergência, para atender uma necessidade específica. Apenas 2% são de abastecimento, ou seja, referentes à "compra do mês".

A pesquisa do Popai, considerada a maior entidade mundial especializada em pesquisa no ponto de venda, informa que o brasileiro é o povo que mais decide por impulso no mundo: 81% das marcas são escolhidas diante das gôndolas. Na Inglaterra esse número está em 75% e, na Itália, em 42%.

Não é apenas a indústria que precisa investir em marketing nas lojas. O varejo também, já que a fidelidade ao ponto de venda despencou: em 1998, 58% diziam que faziam as compras sempre na mesma loja, fatia que caiu para 15% neste ano. A menor fidelidade foi acompanhada da maior presença dos homens nos pontos de venda.

Nos últimos 12 anos, a participação deles dobrou, de 16% para 32% no total de compradores. Min observa que, diante das gôndolas, os homens são mais indisciplinados do que elas e suas compras são guiadas pela "autoindulgência".

O sexo masculino é o mais inclinado a fazer compras para aproveitar uma promoção. Entre os que compram sempre no mesmo lugar, os que têm mais de 50 anos e os que pertencem às classes C e D são maioria. Quando se trata de compras de emergência, 30% recorrem aos mercadinhos de bairro e 20% às padarias.

O último estudo feito pelo Popai Brasil foi em 2004. No levantamento mais recente, realizado em parceria com o Ibope Inteligência, 1.860 consumidores foram acompanhados em sete capitais do Nordeste, Sudeste e Sul do país, além de duas grandes cidades paulistas (Campinas e Ribeirão Preto).

Para melhor avaliar o comportamento de compra, o Popai Brasil selecionou 62 lojas e as dividiu em três grupos: pequeno varejo (até 19 caixas), médio varejo (de 20 a 49) e grande varejo (a partir de 50 caixas). Os consumidores foram abordados em dois momentos: antes de realizar a compra e depois, na saída da loja.

"Enquanto 59% diziam comprar para aproveitar uma promoção, só 5% realmente faziam isso, o que demonstra que a intenção é maior que a realidade", afirma. E nem mesmo os consumidores percebem que deixaram a compra do mês de lado. Dos entrevistados, 61% afirmaram realizar compras de abastecimento. Prática que, na verdade, só é adotada por 7%.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Juro real alto ainda garante rentabilidade interessante

Valor Econômico

20/09/2010

De São Paulo


 

Mesmo afastada a perspectiva de alta da Selic, pelo menos neste ano, os juros continuam proporcionando uma rentabilidade muito atraente aos investidores, apontam os especialistas ouvidos pelo Valor.

Com a Selic em 10,75%, o investidor consegue ainda um ganho real (já descontada a inflação) em aplicações conservadoras de cerca de 5% ao ano, ressalta Luiz Gustavo Medina, da M2 Investimentos. "É uma rentabilidade excelente com risco muito baixo, que não se encontra em lugar nenhum lugar do mundo", diz Medina. "Nos países desenvolvidos, os juros nominais estão próximos de zero e, em muitos casos, o juro real é negativo", acrescenta.

Ele lembra que esses ganhos variam de acordo com as condições obtidas pelos investidores, seja em fundos DI, seja em CDBs dos grandes bancos, e do prazo da aplicação, que vai determinar a alíquota do Imposto de Renda sobre os ganhos da aplicação. É preciso verificar a taxa de administração dos fundos DI, por exemplo, que pode derrubar os ganhos para 4% ou 3% real ao ano. "E, mesmo assim, é um ganho bom considerando o risco baixo da aplicação", afirma.

Os juros nominais de 10,75% ao ano pagos pelo Tesouro Nacional são um rendimento "fantástico", sobretudo quando se leva em conta que o Brasil há tempos se tornou um país responsável do ponto de vista fiscal, ressalta Rogério Bastos, da FinPlan. "O investidor pode até encontrar juros mais elevados em alguns países, mas nenhum deles terá as condições fiscais e econômicas do Brasil", afirma.

Para Bastos, é hora do investidor começar a se acostumar também com a ideia de que ganhos espetaculares na bolsa não serão recorrentes daqui para frente. "Não dá para esperar ganho de 80% como no ano passado", alerta Bastos, lembrando que parte expressiva do desempenho do Ibovespa em 2009 foi apenas reflexo de uma recuperação natural após o mergulho de 2008, em razão da crise financeira internacional. "A bolsa vai entrar em um quadro de normalidade, com ganhos médios de 20% até 30% ao ano". (AP)

Adeus ao 1% ao mês

Valor Econômico


 

20/09/2010


 

Por Luciana Monteiro e Antonio Perez | De São Paulo

Anos e anos convivendo com uma taxa de juros em níveis altíssimos deixaram o investidor brasileiro acostumado a ter retornos de pelo menos 1% ao mês em aplicações de baixíssimo risco, como fundos DI e CDBs de grandes bancos. Mas a realidade agora é outra e o aplicador terá de se adaptar a ela.

 
 

Mesmo com o forte crescimento da economia brasileira este ano, o Banco Central (BC) já decretou o fim do ciclo de alta da Selic, que permanecerá em 10,75% ao ano. E mais: o BC deixou claro que a taxa de juros capaz de manter a inflação sob controle no longo prazo é hoje menor do que antigamente. É bem provável, portanto, que o investidor não veja mais a Selic em níveis capazes de garantir o ganho mensal de 1% no bom e velho refúgio da renda fixa.

O problema, dizem analistas, é que a rentabilidade mensal de 1% ao mês tornou-se uma verdadeira barreira psicológica, da qual os investidores parecem relutar em abrir mão. Isso mesmo diante de uma realidade de juros mais baixos.

As pessoas estão percebendo que o rendimento que antes eles tinham numa aplicação conservadora e que servia para pagar as contas não é mais o mesmo, diz Flavio Arruda, chefe da área de desenvolvimento de produtos da HSBC Global Asset Management. "Com isso, os investidores estão buscando mais informações sobre outros mercados", conta ele. "O momento é de aculturação de outros tipos de investimento, como multimercados, ações, carteiras de capital protegido e mesmo fundos imobiliários."

Os investidores brasileiros até pouco tempo atrás viviam o sonho de obter altos retornos sem precisar avaliar os riscos das aplicações, afirma Luiz Gustavo Medina, sócio da empresa de aconselhamento financeiro M2 Investimentos. "Esse ganho de 1% líquido sem risco nunca mais vai voltar e as pessoas deveriam ficar felizes com isso, pois é um sinal de que o país está caminhando para a normalidade", diz Medina, que vê a economia brasileira madura para conviver com juros menos elevados.

Para que o investidor voltasse a obter 1% com uma aplicação atrelada ao DI, explica Medina, a Selic teria que ultrapassar 15% ao ano, algo fora do radar até dos analistas que creem em alta dos juros em 2011. Mesmo com uma Selic de 15%, taxa de administração de 1% ao ano e Imposto de Renda de 20%, o investidor levaria para casa cerca de 11% líquido em um ano, ou seja, menos do que o 1% mensal.

Sem os ganhos polpudos na renda fixa, diz Medina, os investidores vão ter de diversificar suas aplicações, tanto em outras modalidades de renda fixa como fundos imobiliários e debêntures, quanto na bolsa. "Isso é um caminho sem volta, e é fundamental que o investidor se disponha a conhecer outras opções", afirma.

A questão se torna mais dramática porque neste ano a bolsa, a opção mais tradicional de diversificação, tem decepcionado. Ou seja, nem mesmo com mais risco o investidor está conseguindo ganhos mensais ao redor de 1%. Antes, via diversificação, o investidor conseguia em média chegar ao ganho de 1% ao mês, diz Aquiles Mosca, estrategista de investimentos pessoais da Santander Asset Management. "Agora a situação mudou e mesmo a diversificação não trouxe esse retorno", afirma ele, lembrando que grande parte dos multimercados estão sofrendo para superar o CDI e as carteiras de ações têm perdas no ano.

Na ânsia de voltar a obter rentabilidade de pelo menos 1% ao ano, muita gente acaba também caindo em armadilhas financeiras. Somente neste ano, foram descobertos diversos esquemas que se mostraram golpes contra aplicadores. Um gestor de recursos, por exemplo, contou ao Valor a história de um investidor que queria sacar seus recursos de alguns fundos e transferi-los para uma "aplicação alternativa", que prometia retorno de 5% ao mês. Poucos dias depois, descobriu-se que a tal empresa não tinha autorização nem da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) nem do BC para oferecer aplicações financeiras.

Nesse movimento de procurar algo com retorno maior, muita gente procura soluções mágicas, diz Mosca, do Santander. "Mas o investidor precisa estar ciente de que risco e retorno andam de mãos dadas", ressalta.

Muitas vezes, a busca do 1% por mês não é apenas o reflexo da procura por ganho fácil e crescimento do patrimônio, ressalta Rogério Bastos, sócio da FinPlan. "Como os juros foram altos por muito tempo, várias pessoas passaram a contar com a renda do investimento para pagar as contas", diz Bastos. "Quando a rentabilidade caiu, começaram a ir atrás desses investimentos alternativos, o que é muito perigoso", acrescenta, lembrando o caso da Firv Consultoria, de Belo Horizonte (MG), que provocou perdas estimadas em mais de R$ 50 milhões a cerca de 2 mil investidores.

Para conseguir a rentabilidade a que estava acostumado na época dos juros elevadíssimos, o investidor terá de alongar o horizonte de aplicação e fazer gestão do orçamento doméstico, aponta Bastos. "Em vez de buscar ganho mensal de 1%, o investidor pode trabalhar com retorno de 12% ao ano, alto razoável com uma diversificação", diz. "Ele terá de aprender a conviver com a oscilação do valor de suas aplicações no curto prazo e se concentrar no resultado final."

Para Mosca, do Santander, a boa notícia é que, ao que tudo indica, essa cultura de não se preocupar com oscilações de curto prazo parece realmente estar começando. Os números mostram que, apesar do resultado de queda de 2,19% da bolsa no ano até sexta-feira, os investidores pessoas físicas não deixaram o mercado acionário neste ano. Mesmo os fundos de ações não registram saques. "Isso pode ser o primeiro sinal de maturidade do investidor brasileiro."

E, nesse contexto, buscar orientação financeira é essencial, já que os objetivos de cada um são diferentes, ressalta Arruda, da HSBC Global Asset. "Não existe receita de bolo e é preciso procurar informação", diz.

Com juro estável, papéis prefixados ganham atratividade

Folha de São Paulo

20/09/2010

Fundos de renda fixa, CDBs e outros papéis prefixados tendem a conservar os juros elevados por mais tempo

Nos últimos 30 dias, a captação dos fundos de renda fixa aumentou R$ 1,58 bi; a de fundos DI caiu R$ 709,5 mi

MARIANA SCHREIBER
TONI SCIARRETTA
DE SÃO PAULO

Com a perspectiva de juros estáveis novamente na economia, fundos DI e títulos da dívida pública pós-fixados atrelados à taxa Selic começam a perder sua atratividade, segundo analistas.
Quando isso ocorre, voltam a ficar interessantes os fundos de renda fixa, CDBs e demais papéis prefixados, que tendem a conservar juros elevados por mais tempo.
A atratividade das aplicações prefixadas aumenta se surgir a possibilidade de redução nos juros.
Nos últimos 30 dias, a captação dos fundos de renda fixa (que compram papéis prefixados) aumentou R$ 1,58 bilhão, enquanto os fundos DI (compram pós-fixados) perderam R$ 709,5 milhões.
Os fundos DI tiveram retorno bruto de 9,36% em um ano, enquanto os de renda fixa já subiram 10,5%.

CUSTOS
A rentabilidade das aplicações que acompanham os juros melhorou com o aumento da taxa Selic de 8,75% ao ano, em abril, para os 10,75% atuais. No entanto, as taxas de administração dos fundos continuam corroendo parte significativa dos ganhos.
Cálculos do matemático José Dutra indicam que fundos com taxas a partir de 3% oferecem ganhos inferiores aos da poupança.
Já os fundos com taxas de 2% só garantem rentabilidade maior do que a da poupança se o dinheiro ficar investido por mais de um ano.
Se o investidor resgatar antes, paga 22,5% (antes de seis meses) ou 20% (seis meses a um ano). Entre um e dois anos, o IR é de 17,5%; após dois anos, cai para 15%.
Para o diretor de Tesouraria do Banco Prosper, Jorge Knauer, é difícil pequenos investidores encontrarem fundos com taxa abaixo de 2,5% nos bancos de varejo.
Knauer recomenda diversificar as aplicações comprando diretamente títulos públicos no site do Tesouro (www.tesourodireto.gov.br).
O investimento pode ser feito a partir de R$ 100, mas é preciso ter conta em uma corretora ou banco. A maioria cobra 0,5% de taxa.
"A LTN (título prefixado) com vencimento em janeiro de 2012 oferece rentabilidade de 11,46%. Mesmo que o Banco Central eleve os juros, há uma diferença relevante em relação à Selic atual", afirma.
O economista Gilberto Braga, professor do Ibmec-RJ, aposta na manutenção da Selic até o primeiro trimestre de 2011. Por isso, considera que os títulos prefixados devem render mais.
Ele ressalta que o Tesouro é mais recomendado para quem pode deixar o dinheiro por mais tempo.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Brasileiro quer poupar, mas esbarra na renda escassa

Valor Econômico

15/09/2010

As famílias brasileiras mostram interesse crescente em poupar parte de sua renda para a aposentadoria, mas são poucos os que já têm um plano de previdência privada. É o que mostra estudo da consultoria Kantar Worldpanel a pedido da Federação Nacional de Previdência Privada e Vida (Fenaprevi).

De acordo com o estudo, que abrangeu 8,2 mil domicílios, o número de famílias que planeja poupar para a previdência saltou de 29% em 2008 para 44% no ano passado. No entanto, apenas 4% das famílias consultadas têm um plano de aposentadoria complementar, como PGBL e VGBL.

O crescimento acelerado do números de famílias que desejam poupar para aposentadoria surpreendeu a Fenaprevi, diz Renato Russo, vice-presidente da entidade. "Isso mostra que há um terreno fértil para expansão da previdência privada no país", diz ele, ressaltando que os ativos dos planos privados subiram de R$ 68 bilhões para R$ 201 bilhões. "Houve um crescimento grande, mas a penetração ainda é baixa", acrescenta.

Para Russo, as dúvidas em torno das possíveis alterações nas regras da previdência pública e a própria mudança demográfica do país - que mostra um envelhecimento progressivo da população - explicam o aumento do interesse em poupar para a aposentadoria. "Já foi superada aquela fase em que as pessoas investiam apenas para comprar um bem, como um carro ou uma casa", diz Russo. "Muita gente está percebendo a dificuldade dos idosos em manter um bom padrão de vida apenas com a aposentadoria pública."

A pesquisa mostra ainda que 10% das famílias das classes A e B (com renda mensal acima de 10 salários mínimos) investem em previdência privada. Entre os domicílios da classe C (renda mensal entre 4 e 10 salários mínimos), apenas 4% têm um plano de previdência. Esse percentual cai para 1% entre as famílias das classes D e E, cuja renda mensal varia entre 1 e 4 salários mínimos.

Além da escassez de renda, que atinge as classes C, D e E, Russo ressalta que o percentual de famílias da classe A que tem planos de previdência privada no Brasil ainda está muito aquém do que se observa nos países desenvolvidos. "Há espaço para crescer em todas as faixas de renda, sobretudo em A, B e C", diz ele, lembrando que, no caso das classes D e E, a aquisição de um seguro de vida costuma vir antes da contratação de um plano de previdência.

Entre as regiões do país, a pesquisa mostra que 8% das famílias dos estados do Sul contribuem para um fundo privado de previdência. Elas destinam R$ 1.353 por ano aos planos, volume 16% superior à média nacional (R$ 1.167). Na segunda posição, aparece o interior do Estado de São Paulo, em que 6% das famílias têm plano de previdência complementar. Em seguida, surgem o interior do Estado do Rio de Janeiro e os estados do Espírito Santos e Minas Gerais (5% dos domicílios têm planos).

Para surpresa da Fenaprevi, diz Russo, a Grande São Paulo e o Grande Rio de Janeiro aparecem apenas na quarta posição. Somente 4% das famílias dessas localidades aplicam em fundos de previdência aberta. "É interessante notar que a renda média é mais elevada em São Paulo e Rio, mas quem mais poupa são as famílias do Sul", afirma Russo. "Não é possível saber ao certo, mas talvez a educação financeira e a cultura de poupança sejam mais disseminadas no Sul do país."

No Centro-Oeste, 3% dos domicílios investem em planos de aposentadoria, à frente apenas do Norte e Nordeste, onde esse percentual cai para 2%. Nessas duas regiões, as contribuições médias das famílias para a previdência privada são de R$ 969 por ano, 17% menores que a média nacional (R$ 1.167).

Em relação à faixa etária, as pessoas entre 40 e 49 anos são as que mais aplicam em previdência, destinando em média R$ 1.270 por ano aos fundos privados. Na outra ponta, os indivíduos que têm entre 30 e 39 anos contribuem com R$ 1.074, a menor média entre as faixas etárias. As pessoas com até 29 anos estão um pouco à frente, com investimento anual de R$ R$ 1.080.

Segundo o estudo, esses números refletem a própria composição do orçamento doméstico por faixa etária. Nos domicílios em que os chefes de família têm entre 30 e 39 anos, os gastos mensais, na média, superam as receitas em 6%. Já nas famílias lideradas por pessoas entre 40 e 49 anos, o quadro é inverso: as receitas superam os gastos mensais em cerca de 2%, ou seja, há sobra para poupar.

Os jovens têm uma propensão maior ao gasto, diz Russo, e muitas vezes não se sentem confortáveis em trocar o consumo imediato por investimentos para assegurar o bem-estar futuro. "É uma questão de educação financeira", afirma o executivo. "Os jovens precisam entender que, como têm mais tempo até a aposentadoria, podem atingir um patrimônio elevado poupando pequenos valores por mês."

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