quinta-feira, 18 de junho de 2009

Come-cotas fica com um mês da rentabilidade do DI

Fundos: Efeito da queda dos juros faz imposto cobrado em maio superar o retorno de algumas carteiras também de renda fixa e curto prazo.

Valor Econômico

Por Angelo Pavini, de São Paulo
18/06/2009

 


 
 

Os investidores de fundos DI, renda fixa, curto prazo e alguns multimercados estão levando um susto ao receber os extratos de suas aplicações relativas ao mês passado. Muitos verão que o saldo investido nesses fundos diminuiu, apesar da rentabilidade das carteiras de maio. O motivo é a cobrança antecipada de imposto de renda, o come-cotas, que incide sobre essas carteiras em maio e em novembro, e que superou o ganho mensal de alguns fundos. Ou seja, o governo levou um mês ou mais do retorno bruto do investidor. No total, R$ 2,7 bilhões foram recolhidos para os cofres do governo.

O efeito do come-cotas foi ampliado pelo efeito da queda dos juros. Os fundos vinham de uma rentabilidade elevada em dezembro, que foi caindo ao longo deste ano. Assim, a base de cálculo do imposto ficou maior, enquanto o rendimento de maio refletiu a queda dos juros e não foi capaz de compensar a tributação.

 

 

Com base nos números da Associação Nacional dos Bancos de Investimento (Anbid), pode-se estimar o impacto do come-cotas. Nos fundos DI, que tiveram retorno médio de 5,78% de dezembro a maio, uma carteira de longo prazo, que paga 15% de come-cotas, teria imposto equivalente a 0,87%, superior ao ganho médio de 0,79% da categoria no mês passado. Já em fundos que não são de longo prazo, que pagam 20% de come-cotas, o imposto equivaleria a 1,16%.

 

 

Nos fundos de renda fixa, com retorno de 6,22% em seis meses, o imposto de 15% equivaleria a 0,93%, um pouco abaixo dos 0,97% de retorno médio de maio. E os fundos curto prazo, que pagam 20% de come-cotas, teriam 1,14% de imposto, para 0,76% de rentabilidade no mês.

A cobrança antecipada do imposto via come-cotas é uma das desvantagens fiscais que os fundos têm em relação à caderneta de poupança - que se tornam mais claras à medida que o juro básico recua. E pode ser um incentivo a mais para os investidores trocarem os fundos pela caderneta, como tanto teme o governo, que não quer perder o principal financiador de sua dívida. Hoje, com os juros de 9,25% ao ano, apenas carteiras com taxa de administração de 1,25% - uma parcela ínfima dos fundos de varejo - conseguem competir com a caderneta, que é totalmente isenta de impostos.

Apesar disso, ainda não se detectou um movimento drástico de transferência de investimentos para a poupança, dizem executivos de bancos. Neste mês, as cadernetas registraram captação de R$ 3 bilhões na primeira semana, um número ligeiramente superior ao do mesmo período de meses anteriores - em maio foram R$ 2,7 bilhões. Normalmente, os depósitos em caderneta crescem no início do mês por conta do recebimento de salários e aposentadorias.

Muitas empresas depositam os salários dos empregados diretamente em contas de poupança, estratégia usada pelos bancos para escapar do compulsório sobre depósito à vista. Assim, há um grande aumento de captação no dia 5, mas que depois desaparece à medida que os funcionários gastam o salário ao longo do mês. Ao mesmo tempo, os fundos sofrem resgates, pois as empresas sacam para pagar os salários.

De qualquer maneira, o governo deverá monitorar de perto esses números de poupança e fundos nas próximas semanas. Segundo fontes do Ministério da Fazenda, se houver uma migração mais forte de recursos, poderão ser tomadas as medidas prometidas em maio para mudar a tributação dos fundos, reduzindo o imposto para 15% independentemente do prazo. Hoje, apenas aplicações com mais de dois anos pagam 15%.

Já a tributação das contas de poupança com saldo acima de R$ 50 mil, e que terá de passar pelo Congresso, poderá ficar para depois, na esperança que a Selic volte a subir e não seja preciso tomar uma medida tão impopular.

Neste mês, até dia 12, os fundos DI acumulam resgates de R$ 1,932 bilhão, para um patrimônio de R$ 186 bilhões. Os renda fixa que podem aplicar em prefixados mantêm captação de R$ 290 milhões. Destaque para os multimercados, que captaram R$ 862 milhões no mês, e para os fundos Petrobras, que captaram R$ 11 milhões, enquanto os fundos de ações perderam R$ 566 milhões.

Taxa elevada reduz ganho do plano de previdência

Jornal da Tarde
18/06/2009

Com a queda dos juros, os custos cobrados pelos gestores para administrar os fundos têm impacto maior na rentabilidade. Mudar de banco é alternativa

Marcos Burghi,
marcos.burghi@grupoestado.com.br

Com o juro básico da economia, a Selic, a 9,25% ao ano, as taxas cobradas pelos planos de previdência podem prejudicar o rendimento do investimento. Alguns planos cobram até 4% ao ano de taxa de administração ou gestão, para cuidar do capital, sem contar a taxa de carregamento, cobrada a cada depósito, e que varia de acordo com o volume aplicado.

Liao Yu Chieh, professor de finanças do Instituto de Ensino e Pesquisa (Insper) exemplifica que com uma Selic de 9,25% ao ano, um cliente de um fundo de renda fixa que cobre 4% de taxa de administração pode ter um rendimento inferior a 5%. Isso sem contar a taxa de carregamento, cobrada a cada aporte.

Chieh não acredita, porém, que isso seja motivo para deixar aplicação, uma vez que a incidência do Imposto de Renda pode fazer com que o aplicador perca parte do valor no momento do saque. Ele explica que o sistema de previdência privada conta com duas categorias de tributação. Na regressiva, as alíquotas variam de 35% a 10%, de acordo com o tempo de contribuição e incidem sobre o rendimento. Na progressiva a tributação é feita de acordo com alíquotas que variam de 7,5% a 27,5% e incidem sobre a parcela retirada. A modalidade é definida pelo comprador no momento da contratação do plano, lembra o professor.

Na opinião de Chieh, o melhor é pesquisar fundos com taxas de administração mais baixas e realizar a portabilidade, mudança entre planos que ocorre sem custo para o contribuinte. A mudança, porém, só pode ocorrer entre planos que tenham o mesmo regime: de Plano Gerador de Benefício Livre (PGBL) para outro PGBL ou de Vida Gerador de Benefício Livre (VGBL) para outro do mesmo regime.

Ele acredita que aqueles que buscam um investimento para a aposentadoria mas têm receio de ir para os planos de previdência privada podem optar pela poupança. “Até o fim do ano, pelo menos, é uma excelente alternativa”, diz, referindo-se ao fato de que a aplicação poderá ser tributada a partir de 2010 nos saldos excedentes a R$ 50 mil. O projeto, de autoria do governo, ainda terá de ser analisado pelo Congresso.

Chieh também sugere que o investidor se organize e forme sua própria carteira de investimentos, e indica as ações como alternativa. Ele alerta que é preciso estar preparado para os solavancos do mercado, mas afirma que como se trata de aplicação de longo prazo, com o tempo os efeitos são atenuados.

Ele afirma que uma das vantagens dos fundos de previdência é a possibilidade de deduzir até 12% da renda anual aplicada no plano da base de cálculo da declaração anual do IR, o que pode aumentar a restituição ou diminuir o valor a ser pago. O incentivo vale apenas para quem aplica no regime PGBL.

Mauro Calil, professor e educador financeiro, do Centro de Estudos e Formação de Patrimônio Calil & Calil, recomenda que quem ainda não definiu qual investimento fará para garantir o futuro, defina sua própria carteira.

Segundo ele, num período de 30 anos, por exemplo, ações são excelente alternativa. “Mas é preciso ter disciplina, sem a qual o projeto não vai para a frente”, diz.

Para quem já têm um plano de previdência, Calil afirma que, com uma taxa Selic a 9,25%, taxas de administração de 1,5% ao ano ou mais já tornam o plano desvantajoso em termos de rendimento.

Renato Russo, diretor da Federação Nacional de Previdência Privada e Vida (Fenaprevi), estima que a média de mercado das taxas de administração é de 1,7% ao ano. Além disso, diz Russo, plano de previdência é um investimento de longo prazo.

Ele não concorda com as comparações feitas com a caderneta de poupança e outros investimentos de prazos mais imediatos. “O investidor que contrata um plano de previdência compra garantias que não podem ser quebradas”, diz Russo.


SAIBA MAIS

Plano Gerador de Benefício Livre (PGBL) - Tipo de plano que permite a dedução do valor aplicado até o limite de 12% da renda bruta anual; é indicado para investidores que fazem a
declaração anual de ajuste do Imposto de Renda (IR) no modelo
completo

Vida Gerador de Benefício Livre (VGBL) - Tipo de plano que não permite a dedução na declaração do IR. É indicado aos
contribuintes que apresentam a declaração de ajuste anual no
modelo simplificado

Taxa de administração - Valor cobrado a título de gestão do plano para cobrir custos administrativos do serviço, entre outros; há planos que cobram até 4% ano, mas a média estimada pelo mercado é de 1,7% ao ano

Taxa de Carregamento - Valor cobrado a cada aporte mensal
realizado pelo investidor; costuma variar de acordo com o montante e o tempo do fundo

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Nova tranche da Bradespar terá aplicação de R$ 1 mil

Debêntures: Oferta será em duas séries, com vencimentos em 1 e 2 anos e remuneração limite de 112% e 115% do CDI; apresentação a investidores vai até 4ª feira.

Valor Econômico

Por Adriana Cotias, de São Paulo
15/06/2009
 

   

Com o sucesso da sua oferta de debêntures simples (não conversíveis em ações) no início do ano, a Bradespar não demorou a voltar ao mercado. Nesta semana, a companhia de investimentos do grupo Bradesco faz uma rodada de apresentações com investidores para uma nova tranche de papéis, em duas séries, numa captação que pode alcançar os R$ 800 milhões. Apesar de não haver um esforço de venda específico para o varejo, o valor unitário, de R$ 1 mil, torna a emissão acessível a esse público. O Bradesco Banco de Investimento (BBI, como líder) e o Espírito Santo Investment coordenam a operação.

As apresentações aos potenciais investidores começam hoje e terminam na quarta-feira e a fixação do preço dos papéis está prevista para 1º de julho - a liquidação será só em 13 de julho. O retorno final dependerá do processo de "bookbuilding", leilão que cruza as taxas propostas em diferentes condições de demanda. A primeira série, com vencimento em 361 dias, tem remuneração limite equivalente a 112% do Certificado de Depósito Interfinanceiro (CDI), enquanto a segunda, com prazo de 721 dias, de 115% do indexador.

 

 

Na colocação de debêntures concluída em janeiro, de R$ 610 milhões, a Bradespar garantiu retorno de 125% do CDI aos investidores. Em pleno estresse internacional, com dúvidas sobre a solvência do setor financeiro no mundo desenvolvido, as condições de mercado eram outras e o crédito externo estava totalmente fechado. Mesmo fazendo as apresentações aos potenciais compradores no período de festas, entre o Natal e o Ano Novo, a demanda superou a oferta em dez vezes e faltou papel.

Com ativos de R$ 10,7 bilhões, entre os analistas do mercado de capitais é recorrente a avaliação de que comprar ações da Bradespar na Bovespa é adquirir Vale com desconto. Isso porque 98% do investimento da empresa está numa participação indireta da mineradora e outros 2% na CPFL Energia. A vantagem é que debêntures são papéis de renda fixa e, se levadas até o vencimento, não estão sujeitas às variações na bolsa, mas o comprador tem de estar confortável com o risco de crédito corporativo. Em contrapartida, no Brasil, como não há um mercado secundário ativo para títulos de dívida privada, se o investidor precisar do dinheiro antes do resgate pode não encontrar condições promissoras.

Os recursos captados com a operação corrente serão utilizados para quitar notas promissórias emitidas em janeiro e para recompor o caixa da companhia.

Como detém 9,3% do capital votante da Valepar (a controladora da Vale) e compõe o bloco de controle, a Bradespar participa ativamente das decisões da companhia. Na CPFL Energia, detém 5,3% do capital total. Em maio, a empresa vendeu 16,6 milhões de ações da CPFL, auferindo com a operação R$ 531 milhões, usados para amortizar quase a totalidade das debêntures emitidas em janeiro. Na prática, com a oferta atual, a Bradespar está alongando o perfil do seu endividamento e com um custo mais favorável.

As oportunidades para o investidor que não precisa de liquidez em renda fixa não param por aqui. Só neste ano, a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) autorizou ofertas de R$ 5,1 bilhões em debêntures e há mais R$ 2,8 bilhões no forno. O setor elétrico puxa a fila, com nomes como CPFL Energia, Elektro, Light, Coelce, CPFL Paulista e Rio Grande Energia . Há ainda emissões programadas da Lupatech e do Pão de Açúcar. Até agora, a maior colocação foi a da Telemar Norte Leste (Oi), de R$ 3 bilhões, que contou com um pool de distribuição e esforços dirigidos ao público de varejo.

sábado, 13 de junho de 2009

Para fazer a escolha certa

Jornal da Tarde
13/06/2009
Carolina Dall’olio

Com a queda taxa básica de juros (Selic) de 10,25% para 9,25% ao ano na última quarta-feira e o crescimento da oferta de crédito, o consumidor deve passar a ser bombardeado por anúncios de empréstimos mais baratos e acessíveis. Por isso, mais do que nunca, é hora de tomar cuidado.

A recomendação dos especialistas permanece a mesma: sempre que possível, deve-se privilegiar a compra à vista e deixar o empréstimo somente para casos em que não haja alternativa. Mas se optar pelo crédito, a dica é avaliar não apenas os juros, que variam muito de banco para banco. É importante considerar o uso que se fará desse dinheiro.

O crédito consignado - aquele em que o valor das prestações é descontado diretamente na folha de pagamento do trabalhador ou no benefício do aposentado - continua sendo a modalidade mais barata do mercado. Mas, segundo especialistas, nem sempre vale a pena. Na compra a prazo de um produto (um eletrodoméstico, por exemplo), muitas vezes é melhor aceitar o parcelamento oferecido pela loja em vez de buscar um empréstimo para comprar à vista. Não porque essa seja a alternativa mais barata (veja quadro). “Mas há casos em que o varejista não oferece a opção de descontar o juro já embutido no preço do produto”, alerta Rafael Pasquareli, professor da Fundação Instituto de Administração (FIA).

A maioria das redes de varejo anuncia um “parcelamento sem juros”. A prática é enganosa. O próprio Ministério Público, que move ação contra as varejistas, afirma que na verdade essas operações embutem os juros e anunciam o preço cheio ao consumidor, dando a falsa ideia de que o valor à vista e a prazo é igual.

Por isso, quando o consumidor pede abatimento no preço à vista, boa parte das lojas nega. “Se o consumidor não obtiver o desconto dos juros no pagamento à vista, convém ele parcelar a compra na própria loja, para não ter nenhum gasto adicional com os juros de um empréstimo”, aconselha Pasquareli. “Embora ele esteja sendo enganado pela loja, que não quer informar os juros embutidos, não há uma saída melhor.”

Entretanto, quando o lojista informa os juros embutidos, aí sim o consumidor pode confrontar o custo do financiamento e o do empréstimo no banco, e escolher a opção mais barata.

Já para quem precisa do dinheiro momentaneamente, e não para financiar a compra de um bem, comparar os juros fica mais fácil. O cheque especial - embora seja a linha de crédito oferecida automaticamente pelos bancos - não é a opção mais em conta. Mas é a mais prática.

“Se o consumidor precisa de dinheiro a curto prazo e está disposto a pesquisar, certamente ele vai encontrar opções de crédito mais baratas que o cheque especial”, afirma Fábio Gallo, professor de finanças da Fundação Getulio Vargas (FGV-SP). Porém, lembra o professor, boa parte dos bancos não vai aceitar que o pagamento do empréstimo seja dividido em menos de três parcelas - prazo muito maior que o pedido pelo cliente.

“A solução será parcelar no prazo mínimo estipulado pelo banco e quitar o financiamento antes do previsto, pedindo para abater os juros restantes”, indica Gallo. Mas a operação requer paciência.

“É preciso estar atento para que o banco não cobre mais do que deveria. Além disso, nem sempre a diferença nos juros compensa o trabalho. Quem prefere conveniência, deve repensar essa opção”, diz o especialista.

sexta-feira, 12 de junho de 2009

Funcionário tem metas a cumprir

Jornal da Tarde
12/06/2009



A pesar de às vezes se passar por conselheiro financeiro dos clientes, os gerentes de atendimento e de agências bancárias são vendedores, alerta o coordenador do MBA em banking da Fundação Instituto de Administração (Fia), Roy Martelanc.

“Gerente de banco não é consultor de finanças pessoais. Ele tem metas a cumprir e, quanto maior seu rendimento, maior sua comissão”, afirma, dizendo que isso pode influenciar nas alternativas que eles oferecem aos clientes. “Geralmente as metas têm uma cota maior de produtos mais rentáveis para o banco”.

A decisão de empurrar um produto que não se ajuste ao perfil do cliente, diz ele, não tem como ser coibida, e depende da ética de cada gerente. Segundo as respostas dadas por gerentes certificados pela Associação Nacional de Bancos de Investimento (Anbid) à pesquisa do Ibope encomendada pela instituição, a pressão pelo cumprimento de metas não tem forte influência sobre as opções que oferecem ao cliente. Em uma das perguntas, em uma escala em que 1 quer dizer “nunca” e 5 quer dizer “sempre”, os gerentes atribuíram valor 2,91 para a pressão.

O preço do serviço

No segmento de renda mais baixa, a pressa do gerente pode também fazer com que o cliente saia do banco com suas economias aplicadas em um investimento inadequado para seu perfil.

“É questão de custo: o gerente não vai ficar meia hora aconselhando alguém que queira investir R$ 250. Esse investimento não vai pagar a mão de obra dele”. Por isso, diz, o aconselhamento para essa faixa pode ser feito no próprio caixa, onde os funcionários podem ter qualificação menor do que o gerente.

Solicitar a ajuda do gerente pode, no entanto, ser apenas o empurrãozinho que faltava. “Às vezes a pessoa faz uma pesquisa e decide diversificar um pouco, mas está insegura”, diz Martelanc. “Ao falar com o gerente, se certifica de que era aquilo mesmo e faz a aplicação. É o aspecto emocional.”

A opção de investir sem ter que trocar ao menos uma palavra com o gerente é possível, há algum tempo, por meio de sites de diversos bancos. A opção, segundo o professor da Fia, é aconselhável para quem tem noção, pelo menos média, das características dos investimentos.

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Fundos na era do juro menor

Na semana em que se espera a redução da Selic para a casa dos 9%, Bradesco diminui o valor mínimo de aplicação em carteiras de renda fixa e DI com taxas mais baixas.

Valor Econômico

Por Angelo Pavini, de São Paulo
08/06/2009




Às vésperas de um momento histórico, em que o Brasil terá, depois de décadas, uma taxa de juro primário abaixo de dois dígitos, os bancos de varejo começam a se movimentar para ajustar seus fundos de investimento à nova realidade. Diante da expectativa de que o Copom reduza a taxa Selic dos atuais 10,25% para 9,75% ou até 9,25% ao ano, o Bradesco resolveu se antecipar e deve anunciar hoje a redução do valor mínimo de aplicação de seus fundos oferecidos nas agências. São 23 fundos que ficarão mais acessíveis aos investidores com menor volume de recursos, afirma Marcos Villanova, diretor de Produtos de Investimento da instituição.

A medida é necessária pois, com a queda dos juros, aumenta o impacto da taxa de administração cobrada pelos bancos no retorno do investidor. Um fundo DI que cobra 4% ao ano de taxa ficará com quase metade do rendimento obtido no mercado se o juro cair para 9,25% ao ano - vale lembrar que a taxa é cobrada sobre todo o valor aplicado, não apenas sobre o rendimento. Depois há ainda o imposto de renda sobre o rendimento, e que varia de 22,5% para aplicações até seis meses até 15% nos prazos acima de dois anos.

Somando taxa de administração e imposto, esse fundo com 4% de taxa de administração renderia líquido para o investidor entre 3,8% se ele sacar antes de seis meses a 4,2% se o prazo da aplicação for maior que dois anos. Ou seja, mal cobrirá a inflação, levando-se em conta a estimativa de IPCA em torno de 4%. Se for comparada com a poupança, que rende pelo menos 6,17% ao ano, a diferença é ainda é maior.

Considerando ainda o juro de 9,25% ao ano, um fundos DI ou renda fixa conservador renderá menos que a poupança caso o banco cobre mais de 2% ao ano, no caso da alíquota mínima de imposto, de 15%, ou 1% ao ano se a alíquota for de 22,5%.

A ideia de baixar a aplicação mínima é uma alternativa a criar carteiras com taxas de administração mais baixa e deve ser seguida por outras instituições, como disse ao Valor o vice-presidente de Wealth Management do Itaú Unibanco, Alfredo Setubal, ex-presidente da Associação Nacional dos Bancos de Investimento (Anbid). Hoje, clientes do chamado varejo seletivo já pagam menos nos fundos.

Mas a expectativa era que os bancos fizessem a mudança sem grande estardalhaço, uma vez que ela significa ganhos menores para as instituições. O Bradesco, porém, resolveu transformar o limão em limonada e aparecer como primeiro a tomar a decisão. Ninguém fala, porém, em baixar as taxas de administração dos fundos atuais, que tenderiam a minguar sem aplicações novas, que iriam então para carteiras mais baratas.

Na nova tabela, a aplicação mínima dos fundos DI Brilhante e Renda Fixa Mercúrio, ambos com taxa de administração de 2,5% ao ano, cairá de R$ 10 mil para R$ 5 mil. Os fundos DI Topázio e Renda Fixa Saturno, que cobram taxa de 1,5%, passam de R$ 40 mil para R$ 30 mil. Já o DI Platinum e o Renda Fixa Marte, com taxa de 1% ao ano, caem de R$ 200 mil para R$ 80 mil. O fundo de curto prazo, que cobra 3% de taxa de administração, teve a aplicação mínima reduzida de R$ 5 mil para R$ 500,00.

A medida do Bradesco atinge também fundos de ações, que começarão a entrar no radar dos investidores a partir da queda dos juros, afirma Villanova. O Bradesco baixou a aplicação de quatro fundos de ações - Ibovespa Indexado, Ativo, Multi Setorial e Infra-estrutura -, de R$ 1 mil para R$ 500,00.

No varejo de alta renda, o Prime, os fundos DI e Renda Fixa de R$ 20 mil, que cobram 2% de taxa ao ano, passarão a aceitar aplicações de R$ 5 mil. Os de R$ 100 mil, com taxa de 1% ao ano, caem para R$ 40 mil e os de R$ 200 mil, que cobram 0,70% ao ano, para R$ 80 mil. Dois multimercados também reduzirão o valor mínimo, de R$ 25 mil para R$ 10 mil.

Os fundos mais acessíveis do varejo, DI Safira e o Renda Fixa Vênus, ambos com taxa de administração de 3,5% ao ano e que já rendem menos que a poupança, seguirão sem alterações, mantendo aplicação mínima de R$ 100. "Vamos tentar oferecer a melhor rentabilidade possível, alongando os prazos dos papéis, por exemplo", diz Villanova.

Ele não espera, porém, uma saída em massa de recursos desses fundos com destino aos mais baratos, mas que as novas aplicações sejam orientadas para as carteiras com taxa de administração menor. "O investidor que está nesses fundos mais antigos já tem direito a alíquotas menores de imposto, com mais de dois anos, e trocar de aplicação agora significaria recomeçar a contagem ou pagar mais imposto se precisar sacar", avalia.

Mesmo a vantagem da caderneta de poupança é relativizada por Villanova. "Quem aplica em fundos não quer ficar preso a uma data do mês para sacar, como na poupança", diz ele, lembrando que o investidor pode até ter cadernetas para os filhos, "mas usa mais o fundo para ele mesmo".

Para Villanova, o investidor quer liquidez diária e, para valores menores, a diferença de ganho entre poupança e fundo será pequena. "Quem aplica em um fundo de 3,5%, 4% de taxa de administração resgata logo, quer liquidez, não está preocupado em ganhar menos R$ 2, R$ 3 por mês numa aplicação de R$ 1 mil."

Villanova reconhece também que, com a taxa de juros menor, a concorrência entre as instituições vai crescer. "Não dá para comparar fundos de ações porque a qualidade da gestão tem um peso grande no desempenho, mais até que a taxa de administração", diz o executivo. "Mas num fundo DI, que tem 90% de títulos do Tesouro, ou até num renda fixa, já dá" afirma. Por isso a decisão de realinhar toda a grade de fundos do banco, ajustando-a a nova realidade do mercado. "A Selic vai cair e queremos que mais investidores tenham condições de entrar em fundos mais competitivos" , diz.

Outro ponto é que, com juro menor, o investidor vai querer diversificar. Não que de repente todos passarão a querer desesperadamente correr mais risco, "mas, com o retorno da renda fixa caindo bastante, será preciso diversificar para ganhar um pouco mais", observa Villanova. Para auxiliar nesse processo, o banco montou uma área de consultoria para os clientes e uma equipe que corre o Brasil orientando investidores. "Mostramos, por exemplo, que o multimercado é a ponte para quem não está acostumado com risco para entrar em ações no futuro", afirma.

O potencial de diversificação do mercado brasileiro é grande, lembra Villanova. Olhando o mundo, dos US$ 26 trilhões aplicados em fundos, metade está em ações, enquanto aqui esse percentual mal chega a 12%. Essa tendência torna importante a questão da preocupação do banco em conhecer o tipo de investimento que melhor se adapta ao cliente, a chamada "suitability". Os bancos terão de montar sistemas que permitam esse acompanhamento até janeiro do ano que vem. "Já fizemos isso para o private, agora estamos nos preparando para a rede."

De qualquer maneira, analistas recomendam que o investidor não mude suas estratégias neste momento. O ideal é primeiro avaliar a redução dos juros e a reação dos bancos e do governo, para depois pensar em sacar dinheiro dos fundos DI ou renda fixa.

Nova renda fixa dribla Selic menor

Autor(es): Mariana Segala
O Estado de S. Paulo - 08/06/2009


A queda da taxa de juros básica, a Selic, começa a obrigar os bancos a buscar alternativas para assegurar rentabilidade atraente aos fundos de renda fixa. Não que os juros estejam baixos se comparados ao padrão internacional. "Mas o investidor daqui não está acostumado com o atual patamar", diz a superintendente de Investimentos da Votorantim Asset Management, Sandra Petrovsky. A saída para melhorar a rentabilidade pode estar em uma sigla ainda pouco conhecida dos investidores: DPGE.

Anunciados em março pelo Banco Central para estimular operações de crédito, os Depósitos a Prazo com Garantia Especial são títulos emitidos por bancos, semelhantes aos Certificados de Depósito Bancário (CDB), com a diferença de que não podem ser resgatados ou negociados antes do vencimento. O trunfo desses títulos é o fato de contarem com garantia de R$ 20 milhões do Fundo Garantidor de Crédito (FGC). Os CDBs ou a caderneta de poupança, por exemplo, têm garantia limitada a R$ 60 mil por CPF na hipótese de a instituição financeira ficar insolvente.

HSBC, Votorantim e Banco do Brasil estão entre os bancos que lançaram novos fundos compostos exclusivamente por DPGEs. Esses fundos se destinam aos investidores com maior disponibilidade de recursos e horizonte de tempo mais extenso, na medida em que os títulos não podem ser negociados antes do vencimento. A paciência pode render bons frutos, já que se espera que os juros - ainda altos - oferecidos pelas instituições possibilitem ganhos de até 110% do CDI.

As emissões até o início de junho indicam que o objetivo do Banco Central, ao dar garantia aos DPGEs, funcionou: a ideia era facilitar a captação de recursos pelos bancos, especialmente os de pequeno e médio porte, para que voltassem a aprovar empréstimos para empresas, o que havia sido interrompido pelo agravamento da crise mundial a partir de setembro do ano passado.

"Acreditamos que os DPGEs são, no momento, uma excelente combinação de risco e retorno", avalia o diretor de renda fixa da HSBC Global Asset Management, Renato Ramos. "E o risco de crédito do papel é baixo, muito próximo do risco soberano", afirma.


ENTENDA

Risco de Crédito - Eventualidade de uma emissão não ser honrada, seja por razão moral ou financeira, no prazo previsto para o resgate do título.

Risco Soberano - Também conhecido como risco país, indica a confiança na capacidade de determinado governo nacional em honrar seus compromissos financeiros.
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