O Globo
07/11/2010
Produtos no Brasil custam até seis vezes mais que no exterior, devido principalmente a altas margens de lucro e carga tributária
Vivian Oswald e Martha Beck
BRASÍLIA
Aonda de crescimento econômico e o câmbio valorizado despertaram o brasileiro para as compras, mas também revelaram um problema antigo do qual poucos haviam se dado conta: o Brasil é um país cada vez mais caro. Produtos simples podem custar nas lojas brasileiras mais de seis vezes o que saem seus similares no exterior, caso de uma bomba para retirar leite materno.
Especialistas ouvidos pelo GLOBO afirmam que uma conjunção perversa de fatores contribui para essa distorção, da carga tributária elevada às margens de lucro exorbitantes, mas também têm forte caráter cultural.
Para baixar custos, a saída de muitos tem sido ir comprar lá fora.
Pesam também o mercado consumidor ainda em desenvolvimento, a abertura recente da economia, a falta de referência de preços e a crença de que importados são produtos de luxo e de melhor qualidade e, por isso, naturalmente mais caros. Tradicionais vilões que também deixam sua marcas são o oligopólio de importadores, a excessiva burocracia e a falta de uma infraestrutura que permita custos de transporte mais baratos num país de dimensões continentais.
A entrada de mais 30 milhões de pessoas na classe média também fez com que as empresas revissem estratégias de marketing e investissem em campanhas que levassem a população a querer comprar o que consumidores de outros países adquirem.
Segundo fontes ligadas ao setor de publicidade, as áreas de marketing costumam avaliar quanto o público-alvo aceitará pagar por um produto na hora de fixar a margem de lucro do fabricante. Quanto mais cobiçado ele for, mais se cobrará.
A brasiliense Cristina Madeira é apenas uma das dezenas de mães recentes que optaram por montar os enxovais de seus filhos fora do Brasil: — Comprei no exterior, porque a qualidade dos produtos é melhor e os preços, muito menores. Comprei carrinho, roupas, cadeirinha para o carro e bebê conforto. Tudo o que trouxe para o Rafael, que vai fazer um ano agora, vai dar nele até os dois anos.
Cristina gastou R$ 5 mil com as compras. No Brasil, só o carrinho de bebê sairia a R$ 2.500.
— Agora, Miami está no meu roteiro — completa.
— Há alguma coisa muito errada quando vale a pena a pessoa tomar um voo de nove horas para fazer compras no país mais rico do mundo para economizar. Para ter uma moeda forte, o país precisa passar por profundas reformas e investir em infraestrutura — avalia o presidente da Associação Brasileira da Indústria Têxtil (Abit), Fernando Pimentel, cujo setor sofreu com a competição dos importados, mas vem se ajustando.
As operadoras de turismo já identificaram o novo nicho e planejam criar roteiros de compras dedicados às jovens mães em seus pacotes aos Estados Unidos. O consumo já está em alguns roteiros. A CVC, por exemplo, lançou há um ano o pacote “Compras em Buenos Aires” e acaba de incluir na rota de Las Vegas um périplo por outlets com os quais fez acordos para garantir bons descontos aos clientes.
— As pessoas querem viajar. Mas têm manifestado o desejo de comprar também — diz Vitor Bauab, da área de estratégia e novos negócios da CVC.
Os brasileiros estão sujeitos à cota de US$ 500 para passar com suas compras na aduana. Mas muitos consideram que vale a pena pagar o imposto de 50% sobre o que extrapolar.
— Trouxe um laptop último modelo há um ano, paguei o imposto, e ele ainda me saiu R$ 1.500 mais barato — conta o consumidor Henrique Lopes.
Viagens e internet dão noção de preços
Estrangeiros que desembarcam aqui com dinheiro para gastar também se surpreendem com os preços. Não à toa o país acaba de ser eleito o quarto mais caro do mundo, segundo o índice que compara preços de um sanduíche Big Mac em várias economias.
Após quase quatro anos de espera, o PlayStation 3 chegou ao Brasil por R$ 2 mil. Nos EUA, o mesmo equipamento sai a US$ 300, ou cerca de R$ 510. Neste caso, certamente os tributos não chegam a quatro vezes o valor do produto.
É de cerca de 70%.
Pesquisa do Movimento Brasil Eficiente indica que, enquanto um Toyota Corolla XEI 2.0 custa R$ 75 mil no Brasil, sai a R$ 58.740 na África do Sul, R$ 33.782 no Japão e R$ 32.797 nos EUA. O grupo garante que a chave do problema está na alta carga tributária. Mas ela sozinha não explica diferenças.
Estudo do Morgan Stanley feito no ano passado na Inglaterra mostra que algumas montadoras instaladas no Brasil são responsáveis por boa parte do lucro de suas matrizes e que grande parte disso vem dos carros com aparência de off-road. Os técnicos do banco calcularam que o custo de produção desses carros é 5% a 7% acima do custo de produção dos modelos dos quais derivam. Mas são vendidos por 10% a 15% a mais no país.
O oligopólio (poucas empresas dominando um mercado) é outro fator que joga contra o consumidor. Este seria o caso dos vinhos. Editor da revista eletrônica EnoEventos, Oscar Daudt diz que as margens de lucro são altas e as diferenças podem chegar a 150% em relação aos mesmos vinhos importados nos EUA.
De 2003 a 2009, o mercado consumidor ganhou um exército de 35 milhões de pessoas que ascenderam às classes A, B e C. As viagens ao exterior (dois milhões a mais foram para fora do país no período) e o acesso crescente à internet foram importantes para dar referências sobre preços, segundo o chefe do Centro de Políticas Sociais da Fundação Getulio Vargas (FGV), Marcelo Neri.
A liberdade para pagar as compras também aumentou nos últimos anos.
O número de cartões de crédito, que em 2000 era de 28,5 milhões, passou a 153,4 milhões em 2010.
Margem até 100% no Brasil, 10% nos EUA
Para agradar os consumidores as empresas vão ter de diminuir as suas margens de lucro. Especialistas afirmam que está começando a mudar a cultura no Brasil de que as empresas podem ter margem de 100%, enquanto em países como os Estados Unidos, por exemplo, isso é impossível. Estimase que as empresas americanas apliquem margens de 5% a 10%.
Apesar de tudo, as importações têm favorecido o consumidor. Mesmo com toda a gritaria do setor têxtil, por exemplo, a abertura da economia permitiu que o item vestuário nos últimos 15 anos subisse menos da metade da inflação média, segundo a FGV.
— A cara do mercado vai mudar com a abertura da economia e o aumento consistente da classe média.
Haverá alternativas para consumo, novos preços e qualidade no futuro, mas de maneira heterogênea. Falta muito para nos aproximarmos de outros países.
Estamos no meio do caminho — diz Salomão Quadros, coordenador de Análises Econômicas da FGV.
domingo, 7 de novembro de 2010
quarta-feira, 3 de novembro de 2010
BC denuncia agiotagem on-line
Correio Braziliense
03/11/2010
A pedido do Banco Central, Ministério Público abre processo contra o site Fairplace, suspeito de crime por oferecer empréstimos sem autorização
Fernando Braga
O Banco Central decidiu agir para conter, ainda no início, o que chama de agiotagem on-line, que pode deixar um rastro de prejuízos país afora. A instituição denunciou ao Ministério Público a Fairplace, que se apresenta com uma rede social na qual quem tem dinheiro pode emprestar para quem precisa a juros menores do que os cobrados no cheque especial ou no cartão de crédito (entre 9% e 10% ao mês). Na avaliação do BC, a Fairplace está transgredindo a lei ao exercer o papel de instituição financeira sem ter autorização para isso. Os responsáveis serão investigados pelo MP e poderão ser enquadrados na Lei nº 7.492, a do Colarinho Branco, por crime contra o sistema financeiro nacional.
Quem vê a propaganda da Fairplace na internet acredita se tratar de um negócio da China. De um lado, o site oferece a quem empresta o dinheiro a possibilidade de receber um rendimento (3,2% ao mês, em média) muito superior ao pago por aplicações tradicionais como a caderneta de poupança e os fundos de renda fixa entre 0,5% e 0,8% mensais. De outro, garante aos tomadores do empréstimo a possibilidade de saírem do sufoco por meio de débitos mais baratos. Para o BC, trata-se de um processo semelhante a uma pirâmide. Bastará alguns dos devedores não honrarem seus compromissos para que uma onda de calote seja detonada. Os próprios responsáveis pela Fairplace garantem que não se responsabilizam por qualquer problema. São meros repassadores de recursos.
As negociações entre emprestadores e tomadores de crédito são fechadas por meio de leilões, um sistema chamado de P2P (ponto a ponto). Vence aquele que aceitar a taxa de juros mais baixa para emprestar os recursos que pode chegar ao valor de R$ 5 mil por operação. Criada há seis meses, a Fairplace já conta com 14 mil pessoas credenciadas e realizou 410 operações, movimentando R$ 1,6 milhão. Com todos esses números, a rede social não se intimidou em propagandear seu sucesso, mesmo ciente de estar operando à margem da lei. No último 23 de outubro, porém, o Correio alertou para os riscos das facilidades oferecidas pela Fairplace. De início, o BC se recusou a se posicionar sobre as irregularidades. Mas acabou reconhecendo que havia denunciado a empresa ao MP em agosto. O processo já foi aberto.
Intermediário
O sistema criado pela Fairplace passa aos interessados um ar de sofisticação. Para tentar um empréstimo, o interessado deve preencher um cadastro, onde é avaliado o seu nível de risco pela conceituada Serasa Experian. Com os dados em mãos, emprestadores realizam um leilão, no qual oferecem o dinheiro com diferentes taxas de juros. Ganha quem propõe a mais baixa. Desse modo, o site recebe 2% de cada parcela recebida pelo emprestador. Já quem assumiu a dívida paga uma comissão que pode variar de 5% a 8% do valor.
O sócio-fundador da Fairplace, Eldes Mattiuzzo, apresenta o site sem constrangimento. Trata-se de uma sociedade prestadora de serviços de intermediação e captação de empréstimos entre particulares por meio virtual, diz. E acrescenta: A Fairplace não faz qualquer tipo de concessão direta de empréstimos ou financiamentos. Apenas usamos nossa plataforma na internet para reunir as pessoas interessadas nos negócios.
Na visão de especialistas, o BC está corretíssimo em agir, para evitar que o modelo usado pela Fairplace se espalhe como uma praga. Para ser intermediário do mercado financeiro é preciso ter o registro de instituição financeira ou de fundo de investimento. Se há um novo meio que ofereça investimentos ao público, ele deve estar cadastrado junto aos órgãos competentes, afirma José Luiz Rodrigues, presidente da Consultoria JL Rodrigues, voltada para o sistema financeiro.
A mesma avaliação é feita pelo professor Carlos Eduardo de Freitas, ex-diretor do BC. Captar recursos junto ao público é privativo de instituições financeiras autorizadas a funcionar pelo Banco Central ou de fundos de investimentos licenciados pela CVM (Comissão de Valores Mobiliários), observa. Para ele, uma entidade que capta recursos de terceiros à margem da legislação gera risco para a poupança popular. (Colaborou Vânia Cristino)
Como funciona
Cadastro
Quem deseja obter o empréstimo faz o cadastro no site e preenche uma ficha com dados pessoais e o valor de que necessita.
Classificação
O site classifica o usuário de acordo com o seu perfil e o risco que ele apresenta em não pagar o empréstimo. Mas o site não se responsabiliza por possíveis calotes.
Leilão
Pessoas que desejam emprestar o dinheiro participam de um leilão, cujo vencedor é o que oferece menores taxas de juros.
Retorno
Se tudo der certo, o emprestador recebe de volta o dinheiro em parcelas com os juros mensais
pré-estabelecidos.
Lucro
Em troca, o site recebe 2% do valor de cada parcela recebida pelo emprestador. Já quem captou o dinheiro paga uma comissão que pode variar de 5% a 8% do montante total.
Dicas para não se dar mal
Veja se o serviço é autorizado
Qualquer um que ofereça investimentos coletivos (como fundos, clubes de investimento e contratos do tipo boi gordo) ou se apresente como intermediário de uma instituição financeira precisa de autorização da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), como pessoa física, ou do Banco Central (BC), como pessoa jurídica.
Procure por registros
A CVM mantém o registro de quem atuou de forma irregular no passado. Com CPF ou CNPJ de quem oferece o serviço financeiro, o cidadão pode fazer consultas no site da CVM (www.cvm.gov.br). Basta ir em Atos Declaratórios Suspensão de Atividade Irregular.
Desconfie de depoimentos
Uma tática comum dos criminosos é usar depoimentos de quem parece ter aproveitado a oportunidade e ficado satisfeito. Mas lembre-se: depoimentos de desconhecidos não têm valor para decisões financeiras.
Confira quem são os representantes
Muitos golpistas usam o nome de uma instituição credenciada, mas apresentam dados diferentes para contato. Por isso, é importante checar se o suposto prestador de serviços realmente representa uma determinada empresa do setor.
Tenha calma
Geralmente os fraudadores pressionam as vítimas e tentar impedir que elas avaliem com calma as propostas. O discurso costuma envolver uma chance imperdível e a necessidade de pressa para que ela possa ser realizada.
Tome cuidado em eventos
A CVM recomenda que as pessoas tenham um cuidado especial com abordagens e propostas feitas em eventos, como cursos, feiras de negócios ou mesmo websites.
Lei prevê até prisão
Se a Lei nº 7.492, do Colarinho Branco, for seguida à risca pelo Ministério Público, os responsáveis pela Fairplace poderão estar sujeitos à prisão. A norma considera instituição financeira pessoa jurídica de direito público ou privado, que tenha como atividade a captação, intermediação, administração ou aplicação de recursos financeiros de terceiros. Justamente o que o site afirma que não é. Em casos como esse, o BC tem de agir rápido para evitar que o menor número de pessoas sejam afetadas, afirma um ex-diretor de Organização e Normas do Banco Central.
A legislação brasileira, por meio do Sistema Financeiro Nacional, atribui ao BC as tarefas de conceder autorização, regular e fiscalizar as atividades das instituições financeiras que funcionam no país. A CVM, por sua vez, é responsável por regular o segmento de capitais, protegendo os investidores. Por meio da política conhecida como disclosure, os administradores de fundos são obrigados a divulgarem diariamente informações como patrimônio líquido, investimentos, resgates e número de investidores de cada carteira, explica o superintendente de Relações com Investidores Institucionais da CVM, Francisco José Bastos Santos. Além disso, sempre que um fundo operar de forma irregular, o órgão alertará o mercado por meio de boletins.
Na visão de Carlos Thadeu de Freitas Gomes, ex-diretor do BC, apesar de o Banco Central e de a CVM se esforçarem para ser cada vez mais eficientes no que diz respeito a regulação, sempre estão atrás das soluções que surgem no mercado. Com o tempo, as autoridades do sistema financeiro estão se tornando mais eficientes, mas, mesmo assim, é difícil, porque elas sempre ficarão para trás, pois o mercado é muito ágil e criativo, diz. (FB)
03/11/2010
A pedido do Banco Central, Ministério Público abre processo contra o site Fairplace, suspeito de crime por oferecer empréstimos sem autorização
Fernando Braga
O Banco Central decidiu agir para conter, ainda no início, o que chama de agiotagem on-line, que pode deixar um rastro de prejuízos país afora. A instituição denunciou ao Ministério Público a Fairplace, que se apresenta com uma rede social na qual quem tem dinheiro pode emprestar para quem precisa a juros menores do que os cobrados no cheque especial ou no cartão de crédito (entre 9% e 10% ao mês). Na avaliação do BC, a Fairplace está transgredindo a lei ao exercer o papel de instituição financeira sem ter autorização para isso. Os responsáveis serão investigados pelo MP e poderão ser enquadrados na Lei nº 7.492, a do Colarinho Branco, por crime contra o sistema financeiro nacional.
Quem vê a propaganda da Fairplace na internet acredita se tratar de um negócio da China. De um lado, o site oferece a quem empresta o dinheiro a possibilidade de receber um rendimento (3,2% ao mês, em média) muito superior ao pago por aplicações tradicionais como a caderneta de poupança e os fundos de renda fixa entre 0,5% e 0,8% mensais. De outro, garante aos tomadores do empréstimo a possibilidade de saírem do sufoco por meio de débitos mais baratos. Para o BC, trata-se de um processo semelhante a uma pirâmide. Bastará alguns dos devedores não honrarem seus compromissos para que uma onda de calote seja detonada. Os próprios responsáveis pela Fairplace garantem que não se responsabilizam por qualquer problema. São meros repassadores de recursos.
As negociações entre emprestadores e tomadores de crédito são fechadas por meio de leilões, um sistema chamado de P2P (ponto a ponto). Vence aquele que aceitar a taxa de juros mais baixa para emprestar os recursos que pode chegar ao valor de R$ 5 mil por operação. Criada há seis meses, a Fairplace já conta com 14 mil pessoas credenciadas e realizou 410 operações, movimentando R$ 1,6 milhão. Com todos esses números, a rede social não se intimidou em propagandear seu sucesso, mesmo ciente de estar operando à margem da lei. No último 23 de outubro, porém, o Correio alertou para os riscos das facilidades oferecidas pela Fairplace. De início, o BC se recusou a se posicionar sobre as irregularidades. Mas acabou reconhecendo que havia denunciado a empresa ao MP em agosto. O processo já foi aberto.
Intermediário
O sistema criado pela Fairplace passa aos interessados um ar de sofisticação. Para tentar um empréstimo, o interessado deve preencher um cadastro, onde é avaliado o seu nível de risco pela conceituada Serasa Experian. Com os dados em mãos, emprestadores realizam um leilão, no qual oferecem o dinheiro com diferentes taxas de juros. Ganha quem propõe a mais baixa. Desse modo, o site recebe 2% de cada parcela recebida pelo emprestador. Já quem assumiu a dívida paga uma comissão que pode variar de 5% a 8% do valor.
O sócio-fundador da Fairplace, Eldes Mattiuzzo, apresenta o site sem constrangimento. Trata-se de uma sociedade prestadora de serviços de intermediação e captação de empréstimos entre particulares por meio virtual, diz. E acrescenta: A Fairplace não faz qualquer tipo de concessão direta de empréstimos ou financiamentos. Apenas usamos nossa plataforma na internet para reunir as pessoas interessadas nos negócios.
Na visão de especialistas, o BC está corretíssimo em agir, para evitar que o modelo usado pela Fairplace se espalhe como uma praga. Para ser intermediário do mercado financeiro é preciso ter o registro de instituição financeira ou de fundo de investimento. Se há um novo meio que ofereça investimentos ao público, ele deve estar cadastrado junto aos órgãos competentes, afirma José Luiz Rodrigues, presidente da Consultoria JL Rodrigues, voltada para o sistema financeiro.
A mesma avaliação é feita pelo professor Carlos Eduardo de Freitas, ex-diretor do BC. Captar recursos junto ao público é privativo de instituições financeiras autorizadas a funcionar pelo Banco Central ou de fundos de investimentos licenciados pela CVM (Comissão de Valores Mobiliários), observa. Para ele, uma entidade que capta recursos de terceiros à margem da legislação gera risco para a poupança popular. (Colaborou Vânia Cristino)
Como funciona
Cadastro
Quem deseja obter o empréstimo faz o cadastro no site e preenche uma ficha com dados pessoais e o valor de que necessita.
Classificação
O site classifica o usuário de acordo com o seu perfil e o risco que ele apresenta em não pagar o empréstimo. Mas o site não se responsabiliza por possíveis calotes.
Leilão
Pessoas que desejam emprestar o dinheiro participam de um leilão, cujo vencedor é o que oferece menores taxas de juros.
Retorno
Se tudo der certo, o emprestador recebe de volta o dinheiro em parcelas com os juros mensais
pré-estabelecidos.
Lucro
Em troca, o site recebe 2% do valor de cada parcela recebida pelo emprestador. Já quem captou o dinheiro paga uma comissão que pode variar de 5% a 8% do montante total.
Dicas para não se dar mal
Veja se o serviço é autorizado
Qualquer um que ofereça investimentos coletivos (como fundos, clubes de investimento e contratos do tipo boi gordo) ou se apresente como intermediário de uma instituição financeira precisa de autorização da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), como pessoa física, ou do Banco Central (BC), como pessoa jurídica.
Procure por registros
A CVM mantém o registro de quem atuou de forma irregular no passado. Com CPF ou CNPJ de quem oferece o serviço financeiro, o cidadão pode fazer consultas no site da CVM (www.cvm.gov.br). Basta ir em Atos Declaratórios Suspensão de Atividade Irregular.
Desconfie de depoimentos
Uma tática comum dos criminosos é usar depoimentos de quem parece ter aproveitado a oportunidade e ficado satisfeito. Mas lembre-se: depoimentos de desconhecidos não têm valor para decisões financeiras.
Confira quem são os representantes
Muitos golpistas usam o nome de uma instituição credenciada, mas apresentam dados diferentes para contato. Por isso, é importante checar se o suposto prestador de serviços realmente representa uma determinada empresa do setor.
Tenha calma
Geralmente os fraudadores pressionam as vítimas e tentar impedir que elas avaliem com calma as propostas. O discurso costuma envolver uma chance imperdível e a necessidade de pressa para que ela possa ser realizada.
Tome cuidado em eventos
A CVM recomenda que as pessoas tenham um cuidado especial com abordagens e propostas feitas em eventos, como cursos, feiras de negócios ou mesmo websites.
Lei prevê até prisão
Se a Lei nº 7.492, do Colarinho Branco, for seguida à risca pelo Ministério Público, os responsáveis pela Fairplace poderão estar sujeitos à prisão. A norma considera instituição financeira pessoa jurídica de direito público ou privado, que tenha como atividade a captação, intermediação, administração ou aplicação de recursos financeiros de terceiros. Justamente o que o site afirma que não é. Em casos como esse, o BC tem de agir rápido para evitar que o menor número de pessoas sejam afetadas, afirma um ex-diretor de Organização e Normas do Banco Central.
A legislação brasileira, por meio do Sistema Financeiro Nacional, atribui ao BC as tarefas de conceder autorização, regular e fiscalizar as atividades das instituições financeiras que funcionam no país. A CVM, por sua vez, é responsável por regular o segmento de capitais, protegendo os investidores. Por meio da política conhecida como disclosure, os administradores de fundos são obrigados a divulgarem diariamente informações como patrimônio líquido, investimentos, resgates e número de investidores de cada carteira, explica o superintendente de Relações com Investidores Institucionais da CVM, Francisco José Bastos Santos. Além disso, sempre que um fundo operar de forma irregular, o órgão alertará o mercado por meio de boletins.
Na visão de Carlos Thadeu de Freitas Gomes, ex-diretor do BC, apesar de o Banco Central e de a CVM se esforçarem para ser cada vez mais eficientes no que diz respeito a regulação, sempre estão atrás das soluções que surgem no mercado. Com o tempo, as autoridades do sistema financeiro estão se tornando mais eficientes, mas, mesmo assim, é difícil, porque elas sempre ficarão para trás, pois o mercado é muito ágil e criativo, diz. (FB)
segunda-feira, 1 de novembro de 2010
Investidor busca lucro com ação em baixa
Folha de São Paulo
01/11/2010
Volume de aluguel de papéis por pessoas físicas bateu recorde em setembro, movimentando R$ 2,1 bilhões
Operação permite obter ganhos com queda de ativos; aumento dos negócios indica maior especulação na Bolsa
MARIANA SCHREIBER
DE SÃO PAULO
O investidor pessoa física está mais ousado. Em setembro, pelo segundo mês seguido, o volume de ações que esses aplicadores alugaram de outros investidores (bancos, fundos etc.) bateu recorde. Foram R$ 2,1 bilhões, de acordo com a BM&FBovespa.
Isso significa que mais investidores estão especulando em cima da oscilação dos papéis, buscando lucro em momentos de queda.
"A Bolsa vinha de anos seguidos de alta. Era só comprar a ação e esperar subir. Com esse solavanco [a crise de 2008], o mercado ficou mais difícil", diz Paulo Levy, diretor da corretora Icap.
A operação mais simples consiste em alugar ativos de outro investidor e vendê-los para comprá-los depois e devolvê-los. Quem faz isso acredita que a ação vai cair e por isso vai conseguir recomprá-la por um preço menor depois, embolsando a diferença (veja exemplo no quadro).
"É um jeito de ganhar sem ter o papel na carteira. Mas, se a ação disparar, vai ter de comprar para devolver", resume Marcelo Coutinho, sócio-presidente da Youtrade.
O aluguel de uma ação dura, no mínimo, um dia. Os contratos, geralmente de 30 dias, podem ser renovados.
Quem aluga paga ao dono do papel uma taxa, que varia de acordo com o ativo e a demanda, e é proporcional ao tempo de demora para a devolução. Quando mais gente acredita na queda do papel, a procura pelo aluguel aumenta e o custo, também.
Nas duas últimas semanas, quem alugou a ação ordinária da Petrobras pagou em média 0,54% ao ano.
Entre os dias 15 de setembro 5 de outubro, a taxa média era de 8,46% ao ano.
O aluguel da ação de uma pequena empresa como a Refinaria de Manguinhos saía, em média, por 19,68% ao ano nos últimos 15 dias.
RENDA EXTRA
Alugar ações para outros investidores é uma fonte de renda extra para quem costuma comprar papéis e mantê-los parados.
A maior parte dos investidores pessoas físicas, no entanto, atua na ponta mais conservadora, alugando suas ações para outros operadores. Em setembro, pessoas físicas alugaram R$ 10,9 bilhões para outros investidores. O volume foi recorde em agosto: R$ 13,7 bilhões.
Apesar de o retorno, em geral, ser baixo, o economista Francisco Rocha liga toda semana para sua corretora para alugar seus ativos.
"É um rentabilidade muito reduzida, mas já é alguma coisa. Alugo todas as ações: da Vale, da Petrobras, da Random e da Fosfertil."
"O único risco que o investidor tem é o de perder uma boa oportunidade de venda", observa o educador financeiro Mauro Calil.
Quem aluga o papel de alguém automaticamente deposita garantias (ações, títulos ou dinheiro) na BMF&Bovespa que cobrem mais de 100% do valor alugado.
Isso dá segurança ao "doador" do papel de que o "tomador" terá recursos para recomprar os ativos e devolvê-los. Essa garantia é ajustada diariamente, de acordo com a oscilação do papel.
"INTRA DAY"
Se o investidor quiser ganhar com a queda do papel no "intra day" (num só pregão), ele não precisa alugar as ações.
Pode fazer uma venda a descoberto, ou seja, vender ações que não tem para comprar no mesmo dia. Isso é possível porque, quando um papel é vendido, ele só é efetivamente entregue depois do fechamento do pregão.
O ex-empresário Silvio Vaiano se desfez dos negócios há um ano e meio e desde então faz vendas a descoberto diariamente. "Já tive alguns prejuízos. Meus ganhos por operação ficam entre 0,4% e 0,8%. Ao atingir esse patamar, fecho a operação."
01/11/2010
Volume de aluguel de papéis por pessoas físicas bateu recorde em setembro, movimentando R$ 2,1 bilhões
Operação permite obter ganhos com queda de ativos; aumento dos negócios indica maior especulação na Bolsa
MARIANA SCHREIBER
DE SÃO PAULO
O investidor pessoa física está mais ousado. Em setembro, pelo segundo mês seguido, o volume de ações que esses aplicadores alugaram de outros investidores (bancos, fundos etc.) bateu recorde. Foram R$ 2,1 bilhões, de acordo com a BM&FBovespa.
Isso significa que mais investidores estão especulando em cima da oscilação dos papéis, buscando lucro em momentos de queda.
"A Bolsa vinha de anos seguidos de alta. Era só comprar a ação e esperar subir. Com esse solavanco [a crise de 2008], o mercado ficou mais difícil", diz Paulo Levy, diretor da corretora Icap.
A operação mais simples consiste em alugar ativos de outro investidor e vendê-los para comprá-los depois e devolvê-los. Quem faz isso acredita que a ação vai cair e por isso vai conseguir recomprá-la por um preço menor depois, embolsando a diferença (veja exemplo no quadro).
"É um jeito de ganhar sem ter o papel na carteira. Mas, se a ação disparar, vai ter de comprar para devolver", resume Marcelo Coutinho, sócio-presidente da Youtrade.
O aluguel de uma ação dura, no mínimo, um dia. Os contratos, geralmente de 30 dias, podem ser renovados.
Quem aluga paga ao dono do papel uma taxa, que varia de acordo com o ativo e a demanda, e é proporcional ao tempo de demora para a devolução. Quando mais gente acredita na queda do papel, a procura pelo aluguel aumenta e o custo, também.
Nas duas últimas semanas, quem alugou a ação ordinária da Petrobras pagou em média 0,54% ao ano.
Entre os dias 15 de setembro 5 de outubro, a taxa média era de 8,46% ao ano.
O aluguel da ação de uma pequena empresa como a Refinaria de Manguinhos saía, em média, por 19,68% ao ano nos últimos 15 dias.
RENDA EXTRA
Alugar ações para outros investidores é uma fonte de renda extra para quem costuma comprar papéis e mantê-los parados.
A maior parte dos investidores pessoas físicas, no entanto, atua na ponta mais conservadora, alugando suas ações para outros operadores. Em setembro, pessoas físicas alugaram R$ 10,9 bilhões para outros investidores. O volume foi recorde em agosto: R$ 13,7 bilhões.
Apesar de o retorno, em geral, ser baixo, o economista Francisco Rocha liga toda semana para sua corretora para alugar seus ativos.
"É um rentabilidade muito reduzida, mas já é alguma coisa. Alugo todas as ações: da Vale, da Petrobras, da Random e da Fosfertil."
"O único risco que o investidor tem é o de perder uma boa oportunidade de venda", observa o educador financeiro Mauro Calil.
Quem aluga o papel de alguém automaticamente deposita garantias (ações, títulos ou dinheiro) na BMF&Bovespa que cobrem mais de 100% do valor alugado.
Isso dá segurança ao "doador" do papel de que o "tomador" terá recursos para recomprar os ativos e devolvê-los. Essa garantia é ajustada diariamente, de acordo com a oscilação do papel.
"INTRA DAY"
Se o investidor quiser ganhar com a queda do papel no "intra day" (num só pregão), ele não precisa alugar as ações.
Pode fazer uma venda a descoberto, ou seja, vender ações que não tem para comprar no mesmo dia. Isso é possível porque, quando um papel é vendido, ele só é efetivamente entregue depois do fechamento do pregão.
O ex-empresário Silvio Vaiano se desfez dos negócios há um ano e meio e desde então faz vendas a descoberto diariamente. "Já tive alguns prejuízos. Meus ganhos por operação ficam entre 0,4% e 0,8%. Ao atingir esse patamar, fecho a operação."
quinta-feira, 28 de outubro de 2010
Investimentos às cegas
Valor Econômico
28/10/2010
Por Luciana Monteiro | de São Paulo
Interessado no mercado acionário, o funcionário público Édson Sabino, de 48 anos, abriu uma conta no ano passado na corretora do Real - mais tarde Santander -, para investir em ações pela primeira vez. Como não é muito dado a computadores, ele ligou diretamente para a mesa de operações da instituição e mandou comprar papéis da Vale.
O papel se valorizou e Sabino, animado, vendeu as ações e ficou esperando por uma outra oportunidade. Depois de quatro meses, viu que os BDRs (recibos de ações de empresas com sede no exterior) da Parmalat/Laep estavam entre os papéis mais negociados da bolsa. Aqui começa o drama do funcionário público.
Interessado, Sabino ligou para a mesa da corretora e pediu para comprar 108 mil BDRs da Laep, na época cotada a R$ 1,12, o que totalizou R$ 121 mil. Mas o papel começou a cair sistematicamente. O investidor, então, ligou para a corretora em busca de um relatório, de preferência técnico, sobre a empresa e foi informado que o Santander não faz a cobertura desse papel. Depois de perder dinheiro dia após dia, Sabino resolveu vender os papéis a R$ 0,71 e amargou um prejuízo de R$ 44 mil.
"Sei que aplicar em bolsa é arriscado, mas acredito que a corretora deveria ter me alertado sobre o risco específico desse papel", reclama. "É como comprar um carro usado e ninguém te avisar que o motor está prestes a fundir", diz o funcionário público. "Ações são investimentos de alto risco, mas em nenhum momento alguém me disse que se tratava de um papel de baixa liquidez." Ele afirma que achou que se tratava de um papel que tinha alta liquidez e alega que não teve o auxílio e assistência da corretora do banco.
O caso do funcionário público não é isolado. É comum investidores iniciantes serem seduzidos por fóruns de discussões que manipulam informações a favor de empresas de baixíssima liquidez e que oscilam fortemente ao sabor dos boatos. Outros, se deixam levar por dicas de conhecidos, que entendem tanto quanto eles de mercado. E, com a bolsa em alta nos últimos anos, criou-se o mito de que o ganho em ações é fácil, rápido e certo, fazendo o iniciante desprezar o estudo e o conhecimento dos papéis.
A situação é mais delicada no momento em que bolsa e corretoras se unem para aumentar o número de investidores. Hoje, são cerca de 630 mil pessoas físicas com contas na bolsa. E o projeto da BM&FBovespa é atingir 5 milhões de investidores em cinco anos. Mas como evitar que uma massa de investidores inexperientes comprometa suas economias?
O caso suscita uma pergunta: a corretora deve alertar o investidor quando ele decide comprar um papel sem liquidez? Eduardo Jurcevic, superintendente-executivo da Santander Corretora, explica que o operador da mesa não pode orientar a compra ou a venda de um papel, mas pode falar com base em um relatório elaborado pela área de pesquisa. "Mas, no caso de um papel que não coberto pela corretora, não é possível fazer qualquer comentário, já que não há no que se basear, não há uma análise", afirma.
O executivo ressalta que a corretora faz a cobertura de 104 empresas, que representam 96% do volume da bolsa. E recomenda: "Quem está começa a investir em bolsa agora deve procurar ações que sejam analisadas pelas corretoras e tenham liquidez alta", diz. Para Jurcevic, é preciso olhar o número de negócios com o papel por mais de um dia, para não ser levado a acreditar que uma ação tem liquidez quando, na verdade, está sendo puxada por especulação.
Mas fica a pergunta: por que essas recomendações não podem ser dadas ao investidor na hora em que ele compra ações ilíquidas na corretora? Até para isentar as instituições - que investem pesado em cursos e palestras de divulgação do mercado - de qualquer problema.
Depois das reclamações, Sabino foi procurado pelo gerente de uma sala de ações do Santander, explicando que ele poderia ter se informado sobre os papéis que comprou com um dos especialistas do serviço. "O problema é que ninguém me disse que havia esse serviço à disposição", diz o funcionário público.
Isso levanta outra discussão, que é a necessidade de integração entre corretora e os gerentes dos bancos, ainda focados em produtos oferecidos pela instituição, como fundos e CDBs. O investidor, no entanto, também precisa fazer a sua parte: no site da corretora do Santander, por exemplo, há uma lista com as cerca de cem salas de ações disponíveis pelo Brasil.
28/10/2010
Por Luciana Monteiro | de São Paulo
Interessado no mercado acionário, o funcionário público Édson Sabino, de 48 anos, abriu uma conta no ano passado na corretora do Real - mais tarde Santander -, para investir em ações pela primeira vez. Como não é muito dado a computadores, ele ligou diretamente para a mesa de operações da instituição e mandou comprar papéis da Vale.
O papel se valorizou e Sabino, animado, vendeu as ações e ficou esperando por uma outra oportunidade. Depois de quatro meses, viu que os BDRs (recibos de ações de empresas com sede no exterior) da Parmalat/Laep estavam entre os papéis mais negociados da bolsa. Aqui começa o drama do funcionário público.
Interessado, Sabino ligou para a mesa da corretora e pediu para comprar 108 mil BDRs da Laep, na época cotada a R$ 1,12, o que totalizou R$ 121 mil. Mas o papel começou a cair sistematicamente. O investidor, então, ligou para a corretora em busca de um relatório, de preferência técnico, sobre a empresa e foi informado que o Santander não faz a cobertura desse papel. Depois de perder dinheiro dia após dia, Sabino resolveu vender os papéis a R$ 0,71 e amargou um prejuízo de R$ 44 mil.
"Sei que aplicar em bolsa é arriscado, mas acredito que a corretora deveria ter me alertado sobre o risco específico desse papel", reclama. "É como comprar um carro usado e ninguém te avisar que o motor está prestes a fundir", diz o funcionário público. "Ações são investimentos de alto risco, mas em nenhum momento alguém me disse que se tratava de um papel de baixa liquidez." Ele afirma que achou que se tratava de um papel que tinha alta liquidez e alega que não teve o auxílio e assistência da corretora do banco.
O caso do funcionário público não é isolado. É comum investidores iniciantes serem seduzidos por fóruns de discussões que manipulam informações a favor de empresas de baixíssima liquidez e que oscilam fortemente ao sabor dos boatos. Outros, se deixam levar por dicas de conhecidos, que entendem tanto quanto eles de mercado. E, com a bolsa em alta nos últimos anos, criou-se o mito de que o ganho em ações é fácil, rápido e certo, fazendo o iniciante desprezar o estudo e o conhecimento dos papéis.
A situação é mais delicada no momento em que bolsa e corretoras se unem para aumentar o número de investidores. Hoje, são cerca de 630 mil pessoas físicas com contas na bolsa. E o projeto da BM&FBovespa é atingir 5 milhões de investidores em cinco anos. Mas como evitar que uma massa de investidores inexperientes comprometa suas economias?
O caso suscita uma pergunta: a corretora deve alertar o investidor quando ele decide comprar um papel sem liquidez? Eduardo Jurcevic, superintendente-executivo da Santander Corretora, explica que o operador da mesa não pode orientar a compra ou a venda de um papel, mas pode falar com base em um relatório elaborado pela área de pesquisa. "Mas, no caso de um papel que não coberto pela corretora, não é possível fazer qualquer comentário, já que não há no que se basear, não há uma análise", afirma.
O executivo ressalta que a corretora faz a cobertura de 104 empresas, que representam 96% do volume da bolsa. E recomenda: "Quem está começa a investir em bolsa agora deve procurar ações que sejam analisadas pelas corretoras e tenham liquidez alta", diz. Para Jurcevic, é preciso olhar o número de negócios com o papel por mais de um dia, para não ser levado a acreditar que uma ação tem liquidez quando, na verdade, está sendo puxada por especulação.
Mas fica a pergunta: por que essas recomendações não podem ser dadas ao investidor na hora em que ele compra ações ilíquidas na corretora? Até para isentar as instituições - que investem pesado em cursos e palestras de divulgação do mercado - de qualquer problema.
Depois das reclamações, Sabino foi procurado pelo gerente de uma sala de ações do Santander, explicando que ele poderia ter se informado sobre os papéis que comprou com um dos especialistas do serviço. "O problema é que ninguém me disse que havia esse serviço à disposição", diz o funcionário público.
Isso levanta outra discussão, que é a necessidade de integração entre corretora e os gerentes dos bancos, ainda focados em produtos oferecidos pela instituição, como fundos e CDBs. O investidor, no entanto, também precisa fazer a sua parte: no site da corretora do Santander, por exemplo, há uma lista com as cerca de cem salas de ações disponíveis pelo Brasil.
segunda-feira, 25 de outubro de 2010
Corretoras ajudam o investidor a calcular IR
Folha de São Paulo
25/10/2010
Serviço é oferecido para atrair clientes
MARIANA SCHREIBER
DE SÃO PAULO
Imposto de Renda: pode ser chato, complicado, mas não há como fugir dele.
Para tornar essa obrigação menos desagradável e atrair clientes, corretoras oferecem cada vez mais serviços que facilitam o acerto de contas dos investidores com o leão.
Até o fim deste mês, a corretora Spinelli passa a calcular mensalmente, sem nenhum custo, quanto os seus 18 mil clientes devem à Receita Federal ou se estão isentos.
O serviço cobrirá todas as operações de renda variável (mercado à vista, opções, termo e derivativos).
Por enquanto, o programa está em fase de testes, atendendo 200 investidores com grande volume de negócios.
Rodrigo Puga, responsável pela área de "home broker" da corretora, afirma que o único trabalho do investidor será pagar o imposto.
"Assim que virar o mês, vamos gerar relatórios com todas as operações realizadas e os lucros e os prejuízos registrados. Se houver imposto a pagar, disponibilizaremos o Darf [Documento de Arrecadação de Receitas Federais] preenchido. O cliente só vai precisar pagar."
Segundo Puga, a corretora se responsabilizará por qualquer erro no cálculo do IR, feito em parceria com a empresa de consultoria tributária Arbor.
Os clientes que operam também em outras corretoras terão de calcular por conta própria se os negócios fora da Spinelli elevam o valor do imposto a pagar ou se permitem abatimentos.
Puga acredita que a comodidade oferecida pela Spi- nelli fará seus clientes concentrarem suas operações na corretora:
"Muita gente não recolhe IR hoje pelo trabalho. Não sabe as regras, o que pode abater ou não. As pessoas não vivem de Bolsa. Trabalham e muitas vezes não têm tempo de cuidar disso".
Os lucros obtidos com renda variável são tributados mensalmente em 15%. Em caso de "daytrade" (operações de compra e venda realizadas no mesmo dia), a alíquota é de 20%. Quem vende menos de R$ 20 mil por mês está isento.
Perdas em meses anteriores podem ser abatidas dos ganhos subsequentes, reduzindo o imposto a pagar.
REGULARIZAÇÃO
A Tema Sistemas, que desde 2007 comercializa uma ferramenta de cálculo do imposto sobre ganhos no mercado à vista, passou a oferecer neste ano um serviço de regularização para investidores em dívida com a Receita.
Erickson Fonseca, diretor da Tema, lembra que o investidor que deixa de pagar imposto em um mês já está irregular. A multa normalmente varia de 75% a 150% sobre o imposto devido, mas pode chegar a 225%, caso a Receita Federal considere que houve má-fé.
"Se o investidor toma a iniciativa de se regularizar antes de a Receita identificar o erro, a multa não passará de 20%", afirma Fonseca.
Até o fim do ano, o sistema servirá também para operações com derivativos.
Dez mil investidores usam o programa da Tema mycapital, que pode ser contratado diretamente na empresa. Sete corretoras já oferecem o serviço e outras cinco estão negociando com a empresa.
25/10/2010
Serviço é oferecido para atrair clientes
MARIANA SCHREIBER
DE SÃO PAULO
Imposto de Renda: pode ser chato, complicado, mas não há como fugir dele.
Para tornar essa obrigação menos desagradável e atrair clientes, corretoras oferecem cada vez mais serviços que facilitam o acerto de contas dos investidores com o leão.
Até o fim deste mês, a corretora Spinelli passa a calcular mensalmente, sem nenhum custo, quanto os seus 18 mil clientes devem à Receita Federal ou se estão isentos.
O serviço cobrirá todas as operações de renda variável (mercado à vista, opções, termo e derivativos).
Por enquanto, o programa está em fase de testes, atendendo 200 investidores com grande volume de negócios.
Rodrigo Puga, responsável pela área de "home broker" da corretora, afirma que o único trabalho do investidor será pagar o imposto.
"Assim que virar o mês, vamos gerar relatórios com todas as operações realizadas e os lucros e os prejuízos registrados. Se houver imposto a pagar, disponibilizaremos o Darf [Documento de Arrecadação de Receitas Federais] preenchido. O cliente só vai precisar pagar."
Segundo Puga, a corretora se responsabilizará por qualquer erro no cálculo do IR, feito em parceria com a empresa de consultoria tributária Arbor.
Os clientes que operam também em outras corretoras terão de calcular por conta própria se os negócios fora da Spinelli elevam o valor do imposto a pagar ou se permitem abatimentos.
Puga acredita que a comodidade oferecida pela Spi- nelli fará seus clientes concentrarem suas operações na corretora:
"Muita gente não recolhe IR hoje pelo trabalho. Não sabe as regras, o que pode abater ou não. As pessoas não vivem de Bolsa. Trabalham e muitas vezes não têm tempo de cuidar disso".
Os lucros obtidos com renda variável são tributados mensalmente em 15%. Em caso de "daytrade" (operações de compra e venda realizadas no mesmo dia), a alíquota é de 20%. Quem vende menos de R$ 20 mil por mês está isento.
Perdas em meses anteriores podem ser abatidas dos ganhos subsequentes, reduzindo o imposto a pagar.
REGULARIZAÇÃO
A Tema Sistemas, que desde 2007 comercializa uma ferramenta de cálculo do imposto sobre ganhos no mercado à vista, passou a oferecer neste ano um serviço de regularização para investidores em dívida com a Receita.
Erickson Fonseca, diretor da Tema, lembra que o investidor que deixa de pagar imposto em um mês já está irregular. A multa normalmente varia de 75% a 150% sobre o imposto devido, mas pode chegar a 225%, caso a Receita Federal considere que houve má-fé.
"Se o investidor toma a iniciativa de se regularizar antes de a Receita identificar o erro, a multa não passará de 20%", afirma Fonseca.
Até o fim do ano, o sistema servirá também para operações com derivativos.
Dez mil investidores usam o programa da Tema mycapital, que pode ser contratado diretamente na empresa. Sete corretoras já oferecem o serviço e outras cinco estão negociando com a empresa.
Importante é o que lhe interessa
Folha de São Paulo
25/10/2010
Gustavo Cerbasi
Identifique o que menos contribui para você ser feliz; esse é o gasto a cortar para priorizar seu objetivo
DIGAMOS QUE você queira diminuir seus gastos mensais, seja para estancar um desequilíbrio financeiro, seja simplesmente para aumentar a poupança em busca de um desejado objetivo de consumo.
Uma estratégia comum e bastante equivocada é a de começar a apontar os supérfluos e limar diversos focos de consumo corriqueiro.
Essa estratégia deve ser reconsiderada, pois raramente se percebe que os gastos descompromissados de pequeno valor, que alguns insistem em chamar de supérfluos, correspondem à fonte mais frequente de felicidade em nossas vidas.
Os pequenos gastos nem sempre são tão pequenos quanto se imagina quando os somamos ao final de um mês.
Mesmo o mais rudimentar dos controles financeiros nos ajuda a comprovar isso.
Além disso, se chamamos de supérfluo aquele consumo que não nos traz utilidade, é difícil exemplificar um gasto supérfluo.
Não importa se a pessoa comprou 20 pares de sapato ou uma enorme coleção de canecas; se os bens comprados não eram necessários, talvez o ato de consumo tenha sido a necessidade de alguém frustrado com outros aspectos da vida.
Indubitavelmente, a melhor tradução de felicidade está nas grandes conquistas, como o primeiro emprego, ter um filho ou quitar a casa própria. Mas, será que podemos desprezar a felicidade que nos traz um cafezinho, uma revista ou uma "quick massage"? E a felicidade de dispor de parte de nossa renda para ajudar a uma causa humanitária?
Infelizmente, estamos habituados a dar mais importância a aspectos burocráticos de nossas vidas, como o padrão da moradia, do carro e da moda que temos no guarda-roupas, e a deixar em segundo plano aspectos de consumo que realmente individualizam nossa personalidade.
Abomino a ideia de, diante da necessidade de economizar, partirmos para a corrosão da felicidade familiar, sugerindo o banimento de hábitos individuais para viabilizar uma conquista de médio ou longo prazo.
Parece-me mais sensato economizar em poucas e grandes escolhas, trocando o automóvel da família por um mais barato, por exemplo, com o intuito de preservar a multiplicidade de fontes diárias de felicidade.
Pessoas mais felizes vivem melhor, dormem melhor, são mais criativas e produtivas. Isso tem a ver com consumo. Você conhece algum artista ou escritor famoso que não cultive excentricidades?
Por outro lado, você conhece algum relacionamento que resista à falta de hábitos que quebrem a rotina?
Obviamente, em algumas situações precisamos fazer sacrifícios e efetuar cortes radicais de gastos.
Não é má estratégia, desde que seja adotada de forma intensa, por prazo definido e não muito longo, e com o objetivo de alcançar uma grande recompensa. Fiz cortes radicais de gastos para viabilizar uma celebração de casamento especial.
Conheço jovens que poupam radicalmente para viabilizar um intercâmbio cultural. Isso não é problema, pois se trata de uma espécie de gincana -sacrificar-se para ser recompensado.
Porém, quando o sacrifício estende-se por anos, deixa de ser gincana e passa a ser sofrimento.
Inquestionavelmente, o hábito de poupar nos ajuda a multiplicar conquistas na vida. Porém, antes de começar os cortes de gastos, proponha-se a elaborar um ranking de prioridades entre seus hábitos de consumo mensais. É um bom exercício de autoconhecimento.
A ordem desse ranking deve obedecer ao sentimento de realização pessoal que cada hábito lhe traz. Quanto maior o prazer obtido, mais alta a posição no ranking.
Para alguns, estará no topo o cafezinho diário ou a verba do happy hour com os amigos. Para outros, a contribuição à igreja ou a associações assistencialistas. Há quem prefira garantir a verba para comprar roupas e estar na moda. Pouco importa.
O interessante é que, conscientizando-se de forma racional sobre a importância de cada gasto para você, será mais fácil identificar o que menos contribui para sua felicidade. Esse será o gasto a ser cortado para priorizar seus objetivos.
GUSTAVO CERBASI é autor de "Casais Inteligentes Enriquecem Juntos" (ed. Gente) e "Como Organizar Sua Vida Financeira" (Campus).
25/10/2010
Gustavo Cerbasi
Identifique o que menos contribui para você ser feliz; esse é o gasto a cortar para priorizar seu objetivo
DIGAMOS QUE você queira diminuir seus gastos mensais, seja para estancar um desequilíbrio financeiro, seja simplesmente para aumentar a poupança em busca de um desejado objetivo de consumo.
Uma estratégia comum e bastante equivocada é a de começar a apontar os supérfluos e limar diversos focos de consumo corriqueiro.
Essa estratégia deve ser reconsiderada, pois raramente se percebe que os gastos descompromissados de pequeno valor, que alguns insistem em chamar de supérfluos, correspondem à fonte mais frequente de felicidade em nossas vidas.
Os pequenos gastos nem sempre são tão pequenos quanto se imagina quando os somamos ao final de um mês.
Mesmo o mais rudimentar dos controles financeiros nos ajuda a comprovar isso.
Além disso, se chamamos de supérfluo aquele consumo que não nos traz utilidade, é difícil exemplificar um gasto supérfluo.
Não importa se a pessoa comprou 20 pares de sapato ou uma enorme coleção de canecas; se os bens comprados não eram necessários, talvez o ato de consumo tenha sido a necessidade de alguém frustrado com outros aspectos da vida.
Indubitavelmente, a melhor tradução de felicidade está nas grandes conquistas, como o primeiro emprego, ter um filho ou quitar a casa própria. Mas, será que podemos desprezar a felicidade que nos traz um cafezinho, uma revista ou uma "quick massage"? E a felicidade de dispor de parte de nossa renda para ajudar a uma causa humanitária?
Infelizmente, estamos habituados a dar mais importância a aspectos burocráticos de nossas vidas, como o padrão da moradia, do carro e da moda que temos no guarda-roupas, e a deixar em segundo plano aspectos de consumo que realmente individualizam nossa personalidade.
Abomino a ideia de, diante da necessidade de economizar, partirmos para a corrosão da felicidade familiar, sugerindo o banimento de hábitos individuais para viabilizar uma conquista de médio ou longo prazo.
Parece-me mais sensato economizar em poucas e grandes escolhas, trocando o automóvel da família por um mais barato, por exemplo, com o intuito de preservar a multiplicidade de fontes diárias de felicidade.
Pessoas mais felizes vivem melhor, dormem melhor, são mais criativas e produtivas. Isso tem a ver com consumo. Você conhece algum artista ou escritor famoso que não cultive excentricidades?
Por outro lado, você conhece algum relacionamento que resista à falta de hábitos que quebrem a rotina?
Obviamente, em algumas situações precisamos fazer sacrifícios e efetuar cortes radicais de gastos.
Não é má estratégia, desde que seja adotada de forma intensa, por prazo definido e não muito longo, e com o objetivo de alcançar uma grande recompensa. Fiz cortes radicais de gastos para viabilizar uma celebração de casamento especial.
Conheço jovens que poupam radicalmente para viabilizar um intercâmbio cultural. Isso não é problema, pois se trata de uma espécie de gincana -sacrificar-se para ser recompensado.
Porém, quando o sacrifício estende-se por anos, deixa de ser gincana e passa a ser sofrimento.
Inquestionavelmente, o hábito de poupar nos ajuda a multiplicar conquistas na vida. Porém, antes de começar os cortes de gastos, proponha-se a elaborar um ranking de prioridades entre seus hábitos de consumo mensais. É um bom exercício de autoconhecimento.
A ordem desse ranking deve obedecer ao sentimento de realização pessoal que cada hábito lhe traz. Quanto maior o prazer obtido, mais alta a posição no ranking.
Para alguns, estará no topo o cafezinho diário ou a verba do happy hour com os amigos. Para outros, a contribuição à igreja ou a associações assistencialistas. Há quem prefira garantir a verba para comprar roupas e estar na moda. Pouco importa.
O interessante é que, conscientizando-se de forma racional sobre a importância de cada gasto para você, será mais fácil identificar o que menos contribui para sua felicidade. Esse será o gasto a ser cortado para priorizar seus objetivos.
GUSTAVO CERBASI é autor de "Casais Inteligentes Enriquecem Juntos" (ed. Gente) e "Como Organizar Sua Vida Financeira" (Campus).
sexta-feira, 22 de outubro de 2010
Juros futuros e títulos do Tesouro sentem efeitos do IOF
Valor Econômico
22/10/2010
Enfim, o mercado financeiro levou a sério a determinação do governo de conter o processo de valorização do real frente ao dólar. Depois das mudanças na taxação do capital externo, investidores reagiram à demonstração do Banco Central de que vai fechar as brechas e impedir que os estrangeiros escapem do imposto. Em reação, os juros futuros de longo prazo dispararam na BM&F, o Tesouro diminuiu a oferta de títulos prefixados no leilão e não vendeu os papéis mais longos (NTN-F) com vencimento em 2021, os preferidos pelos estrangeiros. No mercado secundário, os prêmios das NTN-F cresceram.
O mercado entende que, se o ímpeto do estrangeiro diminuir, os juros terão motivos adicionais para subir, entre eles a perspectiva de encarecimento da rolagem da dívida pública e, no limite, dificuldade de financiamento do déficit em conta corrente, que vem se agravando.
Enfim, IOF maior afeta o mercado e juro sobe
Lucinda Pinto e Angela Bittencourt | De São Paulo
Enfim, o mercado levou a sério a determinação do governo brasileiro de conter o processo de valorização do real frente ao dólar. Depois das mudanças na taxação do capital externo, investidores reagiram à demonstração do Banco Central de que vai fechar as brechas e impedir que os estrangeiros escapem do imposto. Em reação, os juros futuros de longo prazo dispararam na BM&F, o Tesouro diminuiu o tamanho dos lotes de títulos prefixados no leilão e não vendeu os mais longos (NTN-F 2021), justamente os preferidos pelos estrangeiros. Reação que demonstra que, enfim, o investidor entendeu que a enxurrada de dólares para comprar ativos prefixados no Brasil vai perder força.
Ontem, o Tesouro fez um leilão de títulos públicos considerado bastante "modesto", compatível com um ambiente de menor apetite do investidor. É bom lembrar que o Tesouro consulta as mesas de operação para avaliar a demanda e, então, definir os lotes. Ontem, foram ofertadas 150 mil unidades para cada um dos três vencimentos - 2015, 2017 e 2021 - das NTN-F, papéis prefixados com pagamento de cupom semestral. Para se ter uma ideia, na semana anterior, os volumes haviam sido de 500 mil, 1 milhão e 150 mil, respectivamente. No caso das LTNs, o volume total de ontem somou 3,5 milhões, contra 5,5 milhões na semana anterior.
O Tesouro pagou mais caro por todos os papéis e, no caso dos títulos 2021 - a menina dos olhos dos estrangeiros - recusou todas as propostas de preço que, segundo o secretário Arno Augustin, não eram "razoáveis". Provavelmente, segundo fontes do mercado, houve muita dispersão entre as taxas pedidas pelos investidores. No mercado secundário, as NTN-F 2021 eram negociadas a uma taxa 0,35 ponto percentual acima do DI de prazo equivalente (chamado prêmio do papel). Na semana anterior, o prêmio era de 0,24 ponto.
Esse prêmio mais elevado foi estabelecido sobre taxas que também já estavam em alta. A primeira reação às medidas do governo foi percebida justamente no mercado de juros futuros, na BM&F, que ajuda a balizar os demais negócios com ativos prefixados.
Todos os contratos registraram alta, mas os mais longos subiram com mais força - o que, no jargão do mercado, é chamado de "inclinação positiva da curva de juros". Isso ocorre porque, no momento, o estrangeiro, o grande aplicador em juros de longo prazo, vai pedir taxa maior para comprar esses contratos, para compensar a perda que terá com o IOF mais alto.
Profissionais de mercado calculam que para levar a mesma rentabilidade que antes no contrato com vencimento em janeiro de 2017, é preciso obter uma taxa 0,40 ponto porcentual maior do que antes do IOF maior. Para um vencimento em 2013, o prêmio seria de 0,5 ponto.
O investidor local, por outro lado, enxerga que as medidas restritivas ao capital externo terão efeito e identifica o risco de que outras ações podem ser adotadas e frear o investimento estrangeiro. E vê, portanto, um cenário de juros mais altos lá na frente.
O mercado entende que, se os estrangeiros deixarem de entrar no mercado brasileiro, os juros por aqui terão motivos adicionais para subir. Entre eles, a perspectiva de encarecimento da rolagem da dívida pública pelo Tesouro e, no limite, dificuldade de financiamento do déficit em conta corrente, que vem se agravando. A aposta de que as taxas continuarão em queda, por causa do ingresso de capital de fora, mudou. Isso justifica uma correção para cima das taxas, tanto dos DIs quanto dos títulos públicos. Um DI com vencimento em 2017 - vedete dos estrangeiros na BM&F - teria de subir 0,35 ponto percentual para compensar a perda com o IOF.
O que não se vê no mercado, entretanto, é uma fuga de capital. Afinal, quem conseguiu escapar do IOF mais salgado vai pensar muitas vezes antes de deixar o mercado. Além disso, esse investidor perdeu rentabilidade em relação à última semana - mas ainda está ganhando muito mais do que na maior parte do mundo.
Nesse ambiente, cresce a aposta de que o Tesouro pode ampliar a oferta de bônus em reais no exterior - que saem mais barato para o governo e suprem parte do apetite do investidor sem pressionar o câmbio. Entre especialistas do mercado, é consenso que essa deve ser a tendência. "Tudo indica que o espaço para grandes lotes de papéis prefixados aqui diminuiu realmente e emitir no exterior pode ser uma boa opção de financiamento mais barata para o Tesouro", afirma um profissional.
Há outros ingredientes pressionando os juros neste momento. Ontem, saiu a taxa de desemprego, que despencou para 6,2% em setembro, a menor em oito anos. O mercado de trabalho aquecido alimenta a aposta de que a taxa Selic vai voltar a subir em 2011. Além disso, o fato de o Tesouro ter feito esta semana uma oferta de R$ 1 bilhão em bônus no exterior pode, de alguma maneira, reduzir o apetite por parte dos estrangeiros por papéis no Brasil.
22/10/2010
Enfim, o mercado financeiro levou a sério a determinação do governo de conter o processo de valorização do real frente ao dólar. Depois das mudanças na taxação do capital externo, investidores reagiram à demonstração do Banco Central de que vai fechar as brechas e impedir que os estrangeiros escapem do imposto. Em reação, os juros futuros de longo prazo dispararam na BM&F, o Tesouro diminuiu a oferta de títulos prefixados no leilão e não vendeu os papéis mais longos (NTN-F) com vencimento em 2021, os preferidos pelos estrangeiros. No mercado secundário, os prêmios das NTN-F cresceram.
O mercado entende que, se o ímpeto do estrangeiro diminuir, os juros terão motivos adicionais para subir, entre eles a perspectiva de encarecimento da rolagem da dívida pública e, no limite, dificuldade de financiamento do déficit em conta corrente, que vem se agravando.
Enfim, IOF maior afeta o mercado e juro sobe
Lucinda Pinto e Angela Bittencourt | De São Paulo
Enfim, o mercado levou a sério a determinação do governo brasileiro de conter o processo de valorização do real frente ao dólar. Depois das mudanças na taxação do capital externo, investidores reagiram à demonstração do Banco Central de que vai fechar as brechas e impedir que os estrangeiros escapem do imposto. Em reação, os juros futuros de longo prazo dispararam na BM&F, o Tesouro diminuiu o tamanho dos lotes de títulos prefixados no leilão e não vendeu os mais longos (NTN-F 2021), justamente os preferidos pelos estrangeiros. Reação que demonstra que, enfim, o investidor entendeu que a enxurrada de dólares para comprar ativos prefixados no Brasil vai perder força.
Ontem, o Tesouro fez um leilão de títulos públicos considerado bastante "modesto", compatível com um ambiente de menor apetite do investidor. É bom lembrar que o Tesouro consulta as mesas de operação para avaliar a demanda e, então, definir os lotes. Ontem, foram ofertadas 150 mil unidades para cada um dos três vencimentos - 2015, 2017 e 2021 - das NTN-F, papéis prefixados com pagamento de cupom semestral. Para se ter uma ideia, na semana anterior, os volumes haviam sido de 500 mil, 1 milhão e 150 mil, respectivamente. No caso das LTNs, o volume total de ontem somou 3,5 milhões, contra 5,5 milhões na semana anterior.
O Tesouro pagou mais caro por todos os papéis e, no caso dos títulos 2021 - a menina dos olhos dos estrangeiros - recusou todas as propostas de preço que, segundo o secretário Arno Augustin, não eram "razoáveis". Provavelmente, segundo fontes do mercado, houve muita dispersão entre as taxas pedidas pelos investidores. No mercado secundário, as NTN-F 2021 eram negociadas a uma taxa 0,35 ponto percentual acima do DI de prazo equivalente (chamado prêmio do papel). Na semana anterior, o prêmio era de 0,24 ponto.
Esse prêmio mais elevado foi estabelecido sobre taxas que também já estavam em alta. A primeira reação às medidas do governo foi percebida justamente no mercado de juros futuros, na BM&F, que ajuda a balizar os demais negócios com ativos prefixados.
Todos os contratos registraram alta, mas os mais longos subiram com mais força - o que, no jargão do mercado, é chamado de "inclinação positiva da curva de juros". Isso ocorre porque, no momento, o estrangeiro, o grande aplicador em juros de longo prazo, vai pedir taxa maior para comprar esses contratos, para compensar a perda que terá com o IOF mais alto.
Profissionais de mercado calculam que para levar a mesma rentabilidade que antes no contrato com vencimento em janeiro de 2017, é preciso obter uma taxa 0,40 ponto porcentual maior do que antes do IOF maior. Para um vencimento em 2013, o prêmio seria de 0,5 ponto.
O investidor local, por outro lado, enxerga que as medidas restritivas ao capital externo terão efeito e identifica o risco de que outras ações podem ser adotadas e frear o investimento estrangeiro. E vê, portanto, um cenário de juros mais altos lá na frente.
O mercado entende que, se os estrangeiros deixarem de entrar no mercado brasileiro, os juros por aqui terão motivos adicionais para subir. Entre eles, a perspectiva de encarecimento da rolagem da dívida pública pelo Tesouro e, no limite, dificuldade de financiamento do déficit em conta corrente, que vem se agravando. A aposta de que as taxas continuarão em queda, por causa do ingresso de capital de fora, mudou. Isso justifica uma correção para cima das taxas, tanto dos DIs quanto dos títulos públicos. Um DI com vencimento em 2017 - vedete dos estrangeiros na BM&F - teria de subir 0,35 ponto percentual para compensar a perda com o IOF.
O que não se vê no mercado, entretanto, é uma fuga de capital. Afinal, quem conseguiu escapar do IOF mais salgado vai pensar muitas vezes antes de deixar o mercado. Além disso, esse investidor perdeu rentabilidade em relação à última semana - mas ainda está ganhando muito mais do que na maior parte do mundo.
Nesse ambiente, cresce a aposta de que o Tesouro pode ampliar a oferta de bônus em reais no exterior - que saem mais barato para o governo e suprem parte do apetite do investidor sem pressionar o câmbio. Entre especialistas do mercado, é consenso que essa deve ser a tendência. "Tudo indica que o espaço para grandes lotes de papéis prefixados aqui diminuiu realmente e emitir no exterior pode ser uma boa opção de financiamento mais barata para o Tesouro", afirma um profissional.
Há outros ingredientes pressionando os juros neste momento. Ontem, saiu a taxa de desemprego, que despencou para 6,2% em setembro, a menor em oito anos. O mercado de trabalho aquecido alimenta a aposta de que a taxa Selic vai voltar a subir em 2011. Além disso, o fato de o Tesouro ter feito esta semana uma oferta de R$ 1 bilhão em bônus no exterior pode, de alguma maneira, reduzir o apetite por parte dos estrangeiros por papéis no Brasil.
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