quarta-feira, 3 de setembro de 2008

Na base da pechincha

Jornal da Tarde
03/09/2008


Preço do imóvel chega a cair até 8,5%

RODRIGO GALLO,
rodrigo.gallo@grupoestado.com.br

Pechinchar na hora de comprar a casa própria usada pode render um desconto de até 8,5% no preço final do imóvel, principalmente na chamada Zona C de São Paulo, como classificam os corretores, que compreende bairros como Tatuapé, Santo Amaro e Ipiranga, por exemplo. Portanto, a velha regra do comércio, de ‘chorar’ por preços melhores na hora de adquirir CDs, livros ou roupas, também vale para o setor imobiliário.

Conseguir esses descontos no preço final do imóvel residencial, no entanto, já foi mais fácil. Segundo cálculos do Conselho Regional dos Corretores de Imóveis de São Paulo (Creci-SP), quem ‘chorava’ na hora de assinar o contrato de compra conseguia um desconto de até 12,97% no valor final da casa ou do apartamento em julho do ano passado.

Para chegar a esses números, técnicos do Creci levantaram os dados de 452 imobiliárias da Cidade para verificar, entre outras coisas, o comportamento do mercado imobiliário. Com isso, considerou-se o valor cobrado pela unidade e, posteriormente, o preço pelo qual o negócio foi acertado, fazendo uma comparação simples.

Segundo o presidente da entidade, José Augusto Viana Neto, a função do corretor de imóveis é justamente intermediar esse tipo de negociação para que ambas as partes, vendedor e comprador, cheguem a um preço satisfatório. “Muitas vezes um consumidor quer um apartamento de R$ 200 mil, mas, inicialmente, diz que tem apenas R$ 100 mil, para ter uma boa margem de negociação”, explicou. “Quem não tem pressa para fechar o negócio certamente consegue as melhores barganhas.”

Para tentar pechinchar na hora da compra do imóvel o ideal não é apenas tentar reduzir o preço com o corretor. O melhor é analisar o valor de oferta e apresentar uma contraproposta. Para aumentar as chances dessa barganha ser aceita, pode-se pesquisar valores de casas semelhantes na mesma região e submetê-los ao dono do imóvel, na tentativa de baixar o preço.

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Aluguel de ações é boa opção

Jornal da Tarde
01/09/2008


Como um imóvel, locador pode assegurar renda fixa enquanto os papéis vão acumulando perdas

FABIO LEITE, f.leite@grupoestado.com.br

Em tempos de queda na Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) - 12,84% no acumulado do ano até a última sexta -, uma boa opção para o pequeno investidor evitar maiores perdas pode ser o aluguel de ações. Da mesma forma que um imóvel, papéis como os da Vale e da Petrobrás podem ser locados a um outro investidor. Em troca, o ‘doador’ - como é conhecido quem aluga suas ações - recebe uma taxa de juros previamente definida que pode variar de 0,2% a 30% ao ano, dependendo da procura pelos papéis.

Indicada para o investidor que pensa a longo prazo, ou seja, que não pretende se desfazer dos papéis em um período inferior a cinco anos, a operação de empréstimo de ações está ‘superaquecida’ no Brasil, para ficar com o jargão do mercado imobiliário. Só nos últimos sete anos, o número de operações subiu 22.373%, saltando de 2.530 em 2000 para 568.592 no ano passado, segundo estatística da Companhia Brasileira de Liquidação e Custódia (CBLC), responsável pelo controle das operações. De janeiro a julho, 380.696 contratos foram fechados.

“É uma modalidade recente no País, mas que tem crescido bastante junto com o mercado financeiro brasileiro”, afirma o assessor comercial da corretora Planner, Paulo Roberto da Silva. Em volume de negócios, o aluguel de ações movimentou nos sete primeiros meses do ano R$ 222,29 bilhões, quantia 7.645% maior que os R$ 2,87 bilhões em ações da Bovespa alugadas em todo o ano 2000.

Igual a renda fixa

Na operação, o dono das ações autoriza a transferência temporária de seus papéis para um terceiro e recebe em troca um porcentual fixo de juros, espécie de aluguel. Para fazer isso, é preciso apenas escolher os papéis que pretende locar, procurar a corretora que administra as ações e comunicá-la o tempo de locação - a média é de 30 dias - e a rentabilidade que deseja obter, que será definida pela lei da oferta e da procura.

Em seguida, a corretora coloca as ações no banco de títulos da CBLC, espécie de imobiliária virtual, e aguarda o interesse do locatário. Chamado de ‘tomador’, o locatário pode ser tanto um fundo de investimento, como um banco comercial ou um investidor estrangeiro.

Interesse aumenta

Segundo a CBLC, a participação de investidores pessoa física entre os locadores tem aumentado significativamente nos últimos anos. Dados do mês de junho mostram que eles já são 23,57% do total, atrás apenas dos fundos mútuos (25,75%) e dos estrangeiros (38,41%). Esses dois últimos, aliás, também são os maiores locatários de ações, com 40,22% e 36,59% de participação, respectivamente.

“São dois lados totalmente opostos. Um é aquele investidor mais conservador, com visão de médio e longo prazo, que não pretende se desfazer dos papéis tão cedo, mas que não quer deixá-los parado desvalorizando. O outro é o investidor mais dinâmico, que trabalha com especulação. Ele aluga as ações para vendê-las mais caras e depois recomprá-las mais baratas”, explica o gerente comercial da Ágora Corretora de Valores, Hélio Pio Júnior.

O especialista destaca que, para o locador, a operação não apresenta risco algum, já que o pagamento dos juros e a devolução das ações são garantidos pela CBLC. “O único ponto negativo é que enquanto as ações estão alugadas, o doador não pode se desfazer delas”, diz.

Contudo, o locador que empresta seus títulos não deixa de receber, no período, eventuais proventos como dividendos e lucros, além da taxa de empréstimo. Já o locatário fica livre para vender as ações locadas quando quiser, mas também é obrigado a devolver a mesma quantidade ao término do contrato e com preços corrigidos.

Reembolso vira trocado

Jornal da Tarde
01/09/2008


Valor restituído ao consumidor, em quase 90% dos casos, não chega a R$ 20

CAROLINA DALL’OLIO,
carolina.dallolio@grupoestado.com.br

Depois de seis meses informando seu CPF a cada compra que realiza, a administradora de empresas Lúcia Barreto, 30 anos, foi finalmente checar o valor da restituição a que tem direito pelo programa Nota Fiscal Paulista. Mas ficou decepcionada com o que encontrou. “Tinha só R$ 0,37 de crédito! E o número de notas cadastradas no site era muito inferior ao que eu juntei de verdade”, diz a administradora, referindo-se aos R$ 750 que constam no sistema da Secretaria da Fazenda, valor equivalente ao que ela costuma gastar em uma única semana com almoços, gasolina e compras de supermercado.

Lúcia é uma das 3.9926.764 pessoas - 87,8% do total de consumidores que já solicitaram Nota Fiscal Paulista - que receberam créditos inferiores a R$ 20. “Não entendo como pode ser tão pouco”, reclama.

Parte da explicação para a desproporcionalidade entre o valor gasto e o restituído pelo programa está na falta de colaboração dos empresários. Segundo a Secretaria da Fazenda, 80% das reclamações feitas ao órgão são referentes a notas que não foram sequer cadastradas no sistema. “Para evitar que isso aconteça, ampliamos a fiscalização e já aplicamos mais de R$ 30 milhões em multas a comerciantes que burlam o programa”, diz Newton Oller, diretor-adjunto de fiscalização da Secretaria da Fazenda.

Mas, mesmo quando os lojistas cadastram todas as notas, nem todo tributo pago pela loja é restituído ao consumidor. De acordo com as regras da Nota Fiscal Paulista, somente 30% do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) que for “efetivamente recolhido pelo estabelecimento ao Estado” vai retornar a quem informou o CPF na hora da compra.

Acontece que o regime de substituição tributária, implementado pelo governo no fim do ano passado, mudou a forma de cobrança do ICMS. Antes, o imposto incidia sobre o varejista. Pela nova regra, ele passa a ser recolhido direto da fonte, ou seja, na própria fábrica.

Portanto, como a Nota Fiscal Paulista não computa o ICMS recolhido à indústria - entra na conta apenas o tributo pago pelo varejista diretamente ao Estado, - o valor da restituição acaba sendo nulo em muitos casos. “A Nota Fiscal Paulista pedida em um posto de gasolina, por exemplo, não gera nenhum crédito, assim como boa parte das compras de supermercado e farmácia”, diz o contabilista Rogério Kita, diretor no escritório NK Contabilidade. “Por isso, mesmo depois de informar seu CPF, o consumidor não deve esperar nem R$ 1 de restituição por essas compras.”

Quanto mais, menos

Mas ainda há situações em que o ICMS incide sobre o varejo. É o caso do setor de vestuário, em que a alíquota é de 18%. Nesses estabelecimentos, se o consumidor gastar R$100 em compras, R$18 serão repassados ao governo como pagamento do ICMS. Desse total, portanto, 30% (ou R$ 5,4) deveriam retornar ao consumidor, certo? Não exatamente.

É que os 30% do ICMS total que a loja recolher terão de ser divididos, proporcionalmente, entre todos os consumidores que informaram o CPF na nota. “Se a loja vender R$ 1 milhão no mês e não sonegar nada, ela vai recolher R$ 300 mil em ICMS, e o governo vai dividir o valor entre os clientes que pediram Nota Fiscal Paulista naquele estabelecimento”, exemplifica Nadja Carvalho Barreto, advogada da consultoria tributária Cenofisco. “Portanto, quanto mais pessoas tiverem requisitado a nota naquela loja, menos cada uma delas vai receber.”

E não pára por aí. Se o consumidor conseguir passar por todos esses meandros e, finalmente, conquistar o direito à restituição, ainda restará uma barreira a superar: o valor do crédito não poderá ser superior a 7,5% do valor total da nota fiscal. Ou seja, quem fizer uma compra de R$ 100, na melhor das hipóteses, poderá reaver R$7,50.

“Depois de ver o valor dos créditos, cheguei à conclusão de que a Nota Fiscal Paulista não compensa financeiramente”, diz a consumidora Lúcia. “Mas vou continuar pedindo porque agora eu já me acostumei.”

O PASSO-A-PASSO DO PROGRAMA

O programa Nota Fiscal Paulista restitui ao consumidor o valor equivalente a 30% do ICMS pago pelo lojista ao Estado

Para participar, é preciso cadastrar o CPF no site www.nfp.fazenda.sp.gov.br/

Depois disso, a cada compra que fizer, o consumidor deve informar seu CPF (ou o CNPJ de alguma entidade filantrópica) ao comerciante e solicitar a Nota Fiscal Paulista

O lojista tem um mês para cadastrar a nota no sistema da Secretaria da Fazenda

O governo, por sua vez, pode demorar de 60 dias a 90 dias para calcular os créditos de cada nota

O consumidor pode acompanhar a movimentação pelo site do programa. Basta informar seus dados que a lista de notas já processadas e os créditos devido aparecem na tela

Caso perceba que alguma nota não está cadastrada no sistema, é possível reclamar pelo site
Porém, para identificar o estabelecimento que não fez o cadastro, é preciso ter guardado a nota e informar o valor exato da compra e os dados da loja

Os créditos gerados pelo programa podem ser usados para abater do valor do IPVA do carro, creditado em cartão de crédito, transferido para outra pessoa ou debitado em conta corrente

Porém, o consumidor só pode ter acesso ao dinheiro depois que o valor dos créditos forem
superiores a R$ 25

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

Alta maior da Selic infla a rentabilidade de prefixados

Adriana Cotias
Valor Econômico
27/8/2008

Enquanto as Notas do Tesouro Nacional série B (NTN-B, atreladas ao IPCA) apresentaram perdas consideráveis com o aumento da Selic em dose maior do que o mercado esperava em julho, os prefixados tiveram ganhos para lá de convidativos. A Nota do Tesouro Nacional série F (NTN-F, papel pré que paga juros semestralmente) com vencimento em 2017 rendeu 6,04%. Mesmo a Letra do Tesouro Nacional (LTN) com resgate mais curto, em janeiro de 2010, teve um retorno nada desprezível para um único mês: de 1,52%.

Isso ocorreu porque quando o Comitê de Política Monetária (Copom) elevou o juro básico em 0,75 ponto percentual - acima do 0,50 ponto dos encontros anteriores -, para 13% ao ano, as projeções de juros mais longas caíram e, com isso, os preços dos papéis subiram no mercado secundário. "Com a alta maior agora, ficou a percepção de que lá na frente será necessário menos juros para conter a inflação", diz Paulo Certain, gestor de Renda Fixa da Unibanco Asset Management (UAM). Quem comprou pré longo antes do ajuste acabou embolsando o retorno melhor.

Para Certain, os prefixados com prazos mais longos têm gordura para queimar e, portanto, ainda têm retornos atrativos. "Se o investidor comprar esses papéis para os próximos seis meses ou um ano, a rentabilidade efetiva ficará em função somente da política monetária." Assim, se o aplicador levar a aplicação até o vencimento, não há chance de perda de capital. Mas se a Selic subir além do inicialmente previsto, ele terá uma perda em relação ao custo de oportunidade, ou seja, o que ele ganharia se tivesse aplicado pela nova taxa mais alta.

Apesar de os retornos dos prefixados encherem os olhos, as taxas implícitas nos contratos de Depósitos Interfinanceiros (DI) negociados na Bolsa de Mercadorias & Futuros (BM&F) - mais elevadas do que a Selic projetada para a virada de 2009 para 2010, em 14% (Focus) - sinalizam que correr risco puro de taxa de juros é só para os corações mais fortes, adverte o diretor de Tesouraria do Banif Banco de Investimentos, Rodrigo Boulos. "O investidor precisa ter outros recursos para liquidez, porque se precisar do dinheiro no meio do caminho, pode não ter uma saída feliz por causa da marcação a mercado (o ajuste do valor dos títulos aos juros)", diz. "Na NTN-B, a queda no cupom (a taxa pré além da inflação) pode ser compensada com a inflação mais alta, há uma certa proteção, enquanto no prefixado a perda fica mais evidente."

A recente queda das commodities e a atuação austera do BC cumpriram o papel de conter as pressões sobre os preços, o que significa que o pico de alta talvez tenha ficado para trás, afirma o diretor da corretora Interfloat Roberto Lombardi. "Se o investidor acredita que o repique inflacionário passou, é recomendável caminhar para os prefixados." Ele não sugere papéis muito longos, mais suscetíveis às variações no secundário, e prefere as Letras do Tesouro Nacional (LTN), prefixadas, com resgate em até dois anos. O título com vencimento em janeiro de 2010 garantia ontem um retorno de 14,81%.

Com o aumento da instabilidade no mercado acionário, os títulos públicos passaram a ser uma opção para o investidor típico da bolsa diz Jansen da Costa, da Ativa Corretora, que percebeu neste ano o aumento da procura por quem nunca tinha investido no Tesouro Direto. "É uma forma de o aplicador fugir das altas taxas de administração cobradas pelos bancos nos fundos de investimentos"

Ele lembra, porém, que um dos aspectos inconvenientes do Tesouro Direto é que o investidor sempre estará negociando com o próprio governo, dada a ausência de um mercado secundário, especialmente para a pessoa física. Quando precisa de liquidez, o aplicador depende das recompras semanais do Tesouro, realizadas às quartas-feiras. E quando há eventos como o Copom, as negociações são interrompidas. "O mercado de renda fixa acabou se limitando a um perfil de investidor mais profissional", diz.


sexta-feira, 15 de agosto de 2008

Juros e comemoração dos brasileiros

Artigo - Alexandre Marinis
Valor Econômico
15/8/2008


Você financiaria uma geladeira a uma taxa de juros de 57%? E que tal passar 12 meses pagando por uma única torradeira? Está no cheque especial? Prepare-se para pagar juros a uma taxa anual de 159%. Os brasileiros se envolvem nessas transações insensatas a cada dia. Mesmo os mais educados e melhor versados na arte de ganhar e gastar dinheiro podem ser seduzidos a comprar uma TV de tela plana de 50 polegadas numa promoção de vendas que promete o mesmo preço de US$ 3 mil, independente de você pagar pelo aparelho à vista ou em 12 prestações mensais. Não importa que os custos dos juros estejam embutidos no negócio.

O Brasil possui uma taxa de juros anual real (ajustada à inflação) de quase 7%, uma das mais altas do mundo. Se pensarmos nisso, perceberemos que uma TV paga à vista hoje não pode custar o mesmo que outra financiada em 12 meses. Quanto ao adiamento da satisfação, os brasileiros não querem nem saber disso. Eles preferem comprar hoje e pagar amanhã. Além disso, enquanto a prestação couber no contracheque mensal, para que se preocupar com cobrança de juros, certo?

A ignorância financeira é um dos motivos para o combate à inflação ser tão complexo e custoso. Se os consumidores se comportam como se as taxas de juros não fossem importantes, a demanda agregada se torna menos sensível à política monetária ou leva mais tempo para reagir às alterações na política. O índice anual de preços no varejo no Brasil dobrou, de 3% em março de 2007, para 6,1% em junho. Isso levou o Banco Central a elevar a taxa de juros referencial Selic em 175 pontos-base desde setembro, para 13%. O país já possui a quarta taxa básica nominal de juros mais alta do mundo entre as 52 taxas de bancos centrais monitoradas pela Bloomberg, atrás apenas da Venezuela (23%), Turquia (16,75%) e Islândia (15,5%). São esperados aumentos de taxa adicionais. No fim de julho, autoridades do BC disseram que atuarão "vigorosamente" para controlar a inflação.

Fazer a inflação retornar à sua meta anual de 4,5% pode se revelar uma tarefa desencorajadora, especialmente se os consumidores desprezam os custos dos juros e se as autoridades do governo fora do Banco Central continuam pressionando por mais crédito a custo menor. Em junho, o total de créditos em aberto atingiu um recorde de R$ 1,1 trilhão (US$ 680 bilhões), ou 37% do PIB do Brasil. Esse número pode parecer baixo, especialmente num momento em que o crédito supera os 60% do PIB nos EUA, México e Chile. Apesar disso, esses países desenvolveram sistemas de financiamento para a compra da casa própria, ao passo que o financiamento residencial no Brasil praticamente nem decolou.

O uso de financiamento imobiliário para a compra da casa própria só está começando, mas já há sinais de apetite insaciável por crédito

A quantidade de crédito no Brasil continuou se expandindo a taxas anuais de mais de 30%, mesmo depois de o Banco Central ter começado a aumentar as taxas de juros. A expansão não cessou mesmo depois de o governo ter instituído algumas medidas que não foram especificamente dirigidas para frear o crédito, mas que mesmo assim podem ajudar. Em janeiro, na tentativa de reaver receita perdida depois de o Congresso ter abandonado a cobrança de um imposto de 0,38% que incidia sobre saques bancários, o governo dobrou o tributo chamado IOF sobre empréstimos bancários, de 1,5% para 3,38%. Naquele mesmo mês o governo brasileiro também impôs uma exigência de reserva mais elevada sobre operações de leasing, numa medida que deverá enxugar até R$ 40 bilhões de liquidez do mercado, mas que não conseguiu conter a expansão do crédito.

A economia brasileira está se expandindo a uma taxa anual de quase 6% e os consumidores continuam comprando a um ritmo ainda mais acelerado. As vendas anuais no varejo cresceram em mais de 19% desde janeiro e não dão sinais de moderação. As vendas de automóveis novos atingiram um recorde no primeiro semestre de 2008 e ficaram quase 30% acima do resultado no mesmo período do ano anterior. O uso de financiamento imobiliário para a compra da casa própria só está começando, mas os sinais do apetite insaciável dos brasileiros por crédito já estão claros. Empréstimos a pessoas que compram moradias ainda correspondem a apenas R$ 3,1 bilhões, mas a taxa de crescimento é espantosa: 89% nos 12 meses passados, de acordo com o BC.

Se, por um lado, a inflação acelera e os consumidores não demonstram nenhum comedimento, o governo, por sua vez, está preocupado com a possibilidade de que qualquer providência que venha a tomar para conter o crédito, além dos aumentos nos juros, produzirá uma desaceleração econômica antes das eleições municipais de outubro. O controle das pressões inflacionárias, portanto, recaiu quase inteiramente sobre o Banco Central. Além disso, deixar a moeda se apreciar contra o dólar não é mais uma opção tão boa como foi no passado. As contas externas do Brasil estão se deteriorando. O superávit anual na balança comercial despencou, indo de US$ 48 bilhões no ano anterior, para US$ 31 bilhões em junho, e a conta-corrente ficou deficitária pela primeira vez desde 2003.

Provavelmente os brasileiros aprenderão a sua lição da forma mais difícil. Eles continuarão comprando e tomando crédito adicional até que a inflação tenha erodido os seus rendimentos a ponto de terem de escolher entre comprar pão ou pagar a próxima parcela da torradeira. O derradeiro recurso antes do calote nas prestações da loja será tomar crédito caro de curto prazo. A extensão de crédito a pessoas que entraram no cheque especial - os que pagam aquela taxa anual de 159% - aumentou 8,1% em junho na comparação com o ano anterior. Dinheiro emprestado a portadores de cartão de crédito aumentou ainda mais: 18%.

Mas o crédito de curto prazo não está surtindo efeito. De todas as pessoas que tomaram emprestado para comprar produtos, 14% já não conseguem quitar os seus empréstimos, numa elevação de 12% ante março, de acordo com o Banco Central. Acho melhor parar de pensar naquela TV de tela plana.

Alexandre Marinis é colunista da "Bloomberg News".

domingo, 3 de agosto de 2008

Nem sempre o barato sai caro

Jornal da Tarde
03/08/2008


Teste entre produtos de diversas marcas mostra que os de menor preço têm mesmo desempenho

Eleni Trindade, eleni.trindade@grupoestado.com.br


Preço mais alto não é sinônimo de qualidade máxima, pelo menos na hora de escolher uma câmera fotográfica digital. Essa foi a constatação da Associação Brasileira de Defesa do Consumidor (Pro Teste), que realizou teste em 19 máquinas fotográficas digitais compactas de oito marcas. Os resultados mostram que é o preço que deve definir o item a ser comprado, já que os produtos analisados, com valores de R$ 799 a R$ 2,6 mil, têm qualidade de imagem e funções semelhantes.

Os especialistas recomendam: economize comprando a máquina certa para suas necessidades. Foram testadas câmeras da Panasonic, Sony, Casio, Fuji, Nikon, Olympus, Kodak e Samsung.

“Nem sempre o produto mais caro é o melhor. Um exemplo desse teste é o quesito foco. Praticamente todas as máquinas tiveram desempenhos aceitáveis”, afirma Alessandra Macedo, coordenadora da Área Técnica de Produtos da Pro Teste. Outro quesito avaliado pela entidade é o número de megapixels (MPx) do equipamento (unidade que mede a qualidade da resolução da imagem capturada).

Todas as câmeras foram bem sucedidas nesse item. Segundo Alessandra, elas têm quantidade de megapixels acima do necessário para o usuário comum. “Uma câmera com três megapixels já é suficiente para impressão de boa qualidade.”

A Pro Teste avaliou, ainda, nitidez, cores, distorção e captação de imagens. Para isso, as fotos foram analisadas no computador e após impressão em papel especial. “Constatamos que a reprodução de cores das máquinas, em geral, é pouco fiel à realidade no modo automático, ou seja, no modo em que o consumidor não precisa se preocupar em fazer configurações específicas para cada situação”, explica Alessandra.

As marcas Panasonic, Casio e Fuji dizem não ter o que contestar no teste. Sony, Samsung e Kodak preferiram não se manifestar.

A Olympus destaca que, em nenhum momento, foi procurada pela Pro Teste para prestar informações. Suas câmeras analisadas são de 2007, e que, hoje, já há modelos mais atualizados.

A Nikon informou que as câmeras L12, L15 e S50 não são mais fabricadas e que “novas versões foram lançadas para corrigir algumas deficiências apontadas”.

Pesquisa

Mas como escolher a melhor câmera sem gastar muito? “É preciso evitar a compra por impulso”, alerta Fátima Lemos, assistente de Direção do Procon de São Paulo. “As propagandas são muito convincentes e, se o consumidor não tomar cuidado, pode se decepcionar.”

Foi o que aconteceu com Leila Fonseca. “Vi o comercial, liguei e comprei porque me chamaram a atenção as funções informadas na TV. Falavam que ela tirava fotos de boa qualidade, além de ter função MP3 e gravar vídeos. Só que, se eu tirasse dez fotos, não tinha mais memória para usar as outras funções.” Como a compra foi feita por telefone, ela conseguiu desistir no prazo de sete dias como determina o artigo 49 do Código de Defesa do Consumidor. “Agora, estou pesquisando para comprar outro modelo.”

Para evitar situações assim, é essencial se informar. “É preciso procurar o modelo que melhor atende suas expectativas e ter paciência para pesquisar, pois praticamente todos os meses as empresas fazem lançamentos. Uma vez escolhido o equipamento, procure entender suas funções e características e pesquisar preços em várias lojas”, aconselha Fátima Lemos.

A web designer Shirley Santos é um bom exemplo de consumidor que exige qualidade no equipamento. “Verifico qual máquina tem a melhor captação de luz e boa resolução das imagens. Pesquiso na internet as funções das máquinas, as configurações, a capacidade de armazenamento e o preço.”


FIQUE ATENTO

Leia atentamente o manual de instruções para configurar o
equipamento de acordo com o ambiente ou objeto fotografado

Para ocupar menos espaço na memória, configure a máquina para tirar fotos com resolução menor

Verifique durante a compra a capacidade de armazenamento do cartão de memória para não ter de comprar um acessório à parte

Em caso de defeito em equipamento novo, reclame ao fabricante. Se, após 30 dias, o problema não for resolvido, o consumidor tem o direito à troca do item ou devolução do dinheiro

Se o consumidor for obrigado a retornar à assistência técnica
várias vezes sem solução (dentro do prazo de 30 dias), tem direito à troca ou devolução sem ter de acumular mais 30 dias a cada ida à assistência

FONTES: Ourivaldo Barbosa do Valle, diretor da Confederação
Brasileira de Fotografia, e Fátima Lemos, do Procon-SP

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

Prepare-se para agosto

Valor Econômico
Por Angelo Pavini e Luciana Monteiro, de São Paulo
01/08/2008


Agosto costuma ter uma fama negativa, de mês agourento. Mas, depois de dois meses seguidos de queda da bolsa, com o Ibovespa recuando 18,03%, 8,48% só em julho, o investidor está mais do que escaldado para enfrentar o "mês do cachorro louco". Será preciso ficar de olho no comportamento da inflação, no Brasil e no exterior, na safra de balanços do segundo trimestre, nos preços das commodities, especialmente do petróleo, e na situação do sistema financeiro americano. Da combinação dessas variáveis deverá sair boa parte dos ganhos e das perdas de agosto.


Em julho, o Ibovespa não resistiu à realização de preços das commodities e às perdas dos balanços do setor financeiro lá fora. No ano, o índice perde 6,86%. E, para este mês, as perspectivas não são lá muito animadoras. No curto prazo, a bolsa brasileira pode ter uma certa recuperação, mas a mensagem é que ainda se espera um período de volatilidade nos mercados, diz Eduardo Roche, gerente de Análise da Modal Asset Management. "Não dá para dizer que, depois dessa forte realização recente e dessa alta do fim do mês, o mercado vai retomar a tendência de alta", diz.


Algum refresco para o mercado pode vir com as divulgações dos balanços do segundo trimestre neste início de mês. O Bradesco, no dia 4, e o Itaú, no dia 5, dão a largada nos números do setor de bancos, que devem vir bem melhores do que os vistos no exterior, especialmente nos EUA. O resultado da Vale, esperado na quarta, também promete boas novas, uma vez que trará o reajuste do minério de ferro de 71%, recuperando as quedas com o níquel no primeiro trimestre. Já Petrobras sai no dia 11 e pode ajudar a recuperar o papel.


Petrobras e Vale são fundamentais para a definição da tendência do Ibovespa. No caso da mineradora, a expectativa é com o preço das commodities e com uma eventual aquisição, cujo impacto no curto prazo vai depender do preço pago, das condições de financiamento e da importância estratégica que a compra terá para a Vale. Na Petrobras, além do preço do petróleo, há o impacto das discussões sobre a forma como o governo vai regular a exploração do pré-sal, se com aumento nos royalties ou com a criação de uma nova estatal.


Os balanços no exterior também podem ajudar a reduzir o receio em torno de uma recessão mundial, como ocorreu na semana passada, com os resultados das siderúrgicas internacionais mostrando números fortes de demanda. "Mas o investidor têm de ter cautela, pé no chão, pois o mercado ainda está muito sensível, as variáveis externas como inflação e crescimento continuam sem solução clara", explica Roche, da Modal. O fato de Petrobras e Vale serem muito líquidas, com 30% do Ibovespa, é um fator importante, pois se houver um retorno do investidor estrangeiro para a Bovespa, elas devem ser as primeiras beneficiadas.


No mês passado, as carteiras de Petrobras e Vale sofreram bastante, perdendo 26,07% e 24,13%, respectivamente, até o dia 28. No ano, os fundos compostos por ações da estatal perdem 19,86% e os da mineradora, 27,21%. Os números ainda não levam em conta a alta de 4,42% da ação da Petrobras e de 7,62% da Vale entre os dias 29 e 31.


A combinação de alta da inflação e elevação da taxa de juros deixa o ambiente inóspito para os investimentos em bolsa. "As perspectivas para os mercados emergentes são mais positivas no longo prazo, já que essas economias estão com seus sistemas financeiros mais saudáveis, pois não têm problemas de crédito", diz Francisco Meirelles de Andrade, sócio da Nest Investimentos. Para ele, nos próximos seis meses ou um ano, as bolsas mundiais devem continuar sofrendo. "A crise nos EUA não atingiu seu pico e, enquanto isso não acontece, o momento não é de compras", diz. "É prematuro achar que agora é um momento que traz oportunidade de compras."


Após a forte realização da bolsa no mês passado, os investidores devem ficar atentos às oportunidades, mas não esperar uma recuperação vigorosa, diz Nicholas Barbarisi, sócio da Hera Investment. "Há oportunidade, mas é preciso fracionar as compras, com foco maior nas 'blue chips' de commodities e bancos", afirma. "O mercado ainda pode apresentar novas perdas, mas, em caso de melhora do cenário, os papéis mais líquidos tendem a se recuperar mais rápido." Já as ações de menor liquidez, as "small caps", tendem a continuar esquecidas e as perspectivas de médio prazo não são animadoras, diz.


Agosto promete ser mais calmo, pelo menos em comparação a junho e julho, quando houve uma saída de R$ 15 bilhões em investimentos estrangeiros da bolsa, afirma Joaquim Kokudai, gestor de fundos multimercados e de renda fixa da Rio Bravo Investimentos. "Apesar de ser o mês do cachorro louco, a tendência é dar uma acomodada, tem muita ação barata e os bancos americanos já mostraram suas perdas no mês passado."
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